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A bruxa que virou troféu

Todo clube brasileiro que guarda uma Taça Teresa Herrera em sua sala de troféus lhe reserva um lugar especial. Um título internacional, é verdade, mas qual o tamanho real e verdadeira importância desse troféu? Antes disso, porém, a primeira pergunta é: quem foi Teresa Herrera?

O troféu é disputado na cidade galega de La Coruña desde 1946, quando a Europa começava a respirar novamente após o fim da Segunda Guerra Mundial. Por ser jogada desde então, a taça ganhou uma tradição peculiar. Além disso, o troféu em si levava quilos e mais quilos de prata e outros tantos em ouro, o que lhe atribui um valor inestimável, sobretudo num país como o Brasil, em que derreteram a Taça Jules Rimet.

O troféu era disputado em jogo único até 1964. A idéia inicial era arrecadar fundos para a população menos favorecida e daí vem a origem do nome da taça. Teresa Herrera nasceu em 1712, quando La Coruña era um povoado com cerca de 12 mil habitantes. A região estava em plena guerra de sucessão entre os Bourbons e Habsburgos.

Teresa perdeu seu pai com apenas quatro anos de idade. Precisou buscar ajuda fora de casa para seus nove irmãos, quase todos vitimados por doenças. Herdou, porém, a casa onde viviam seus pais e ali fez um lar para ajudar mulheres doentes. Sua dedicação e fé lhe renderam a reputação de “velha bruxa” e “a mulher dos demônios”, pois Teresa Herrera percorria de joelhos o trajeto de sua casa até a igreja de San Nicolás, onde rezava diariamente. Diziam que ela fazia isso para livrar-se dos demônios que tinha em seu corpo.

Aos 77 anos, em 1789, doou toda a sua herança para a congregação religiosa local, que era de adoradores da Virgem das Dores, com o propósito de realizarem o sonho de criar um hospital de caridade na cidade. Faleceu em 1791 e, finalmente, em 1794, o hospital foi inaugurado. Apenas em 1876, o ajuntamento local batizou com seu nome a Rua Campo Carballo. Em 1946, foi a vez do futebol homenageá-la. Nascia a Taça Teresa Herrera.

Na sua edição inaugural, duelaram Sevilla e Athletic Bilbao, com vitória dos andaluzes. Em 1947, o Athletic venceu o Vasco da Gama, primeiro brasileiro a disputar a taça. A Lazio foi a primeira equipe não espanhola a vencer o troféu, em 1950. O Deportivo La Coruña não podia disputar o troféu até 1955, como estava estipulado, e lhe cabia somente organizar o confronto. O Vasco, entretanto, foi o primeiro clube brasileiro a levantar a Taça Teresa Herrera, em 1957, vencendo o mesmo Athletic Bilbao por 4 a 2. O Bilbao era um time fortíssimo, conquistou La Liga no ano anterior, superando o Real Madrid de Di Stéfano e o Barcelona de Kubala.

No ano seguinte, em 1958, um duelo sul-americano, entre Nacional do Uruguai e Flamengo, terminou com vitória dos uruguaios por 2 a 1. E em 1959, talvez o maior confronto já disputado. O Santos de Pelé venceu o Botafogo de Garrincha por 4 a 1. Times suíços, franceses, alemães, portugueses e italianos já tinham disputado o torneio, que em 1964 passou a contar com quatro participantes em algumas edições.

Costumeiramente disputada na segunda quinzena de agosto, a Teresa Herrera era uma bela oportunidade para que os times europeus realizassem suas pré-temporadas no verão espanhol, contra times de alto nível. Mais e mais times participavam a cada edição, e enfrentamentos como Ferencváros e San Lorenzo, em 1970, ou Fluminense — a Máquina Tricolor — e Dukla Praga, em 1977, só eram possíveis nesse tipo de torneio. Desde 1955, o Troféu Ramón de Carranza, em Cádiz, também passou a integrar a agenda dos principais clubes sul-americanos e europeus nas suas excursões pelo Velho Continente. Em 1959, foi a primeira edição do Troféu Naranja, em Valência, e em 1969 começou a ser disputado o Palma de Mallorca nas Ilhas Baleares, pra citar alguns dos principais torneios de verão.

Alguns duelos marcaram época. No início da década de 90, São Paulo de Telê Santana e Barcelona de Johan Cruijff se encontraram outras duas vezes além da final da Intercontinental, em Tóquio, e foi exatamente na Taça Teresa Herrera de 1992 e de 1993. A primeira vencida pelo Tricolor Paulista e a segunda pelos Blaugranas. Era uma chance de medir força contra grandes equipes e, tal como nos confrontos da Intercontinental no Japão, os jogos eram sempre muito parelhos, com vitórias alternadas entre europeus e sul-americanos.

A edição de 1996 reservou uma daquelas histórias ímpares. O Botafogo, que foi campeão brasileiro em 1995, viajou para enfrentar o dono da casa, Deportivo, lembrando que se tratava do SuperDepor de Mauro Silva, Donato e Bebeto, entre outros, e venceram a semifinal e enfrentariam a Juventus, campeã européia da temporada anterior, que venceu o Ajax naquela edição da Teresa Herrera, curiosamente também seu rival da final da Champions.

Botafogo e Juventus viajaram à Espanha somente com seus uniformes principais. Dois times com camisa praticamente idênticas, diferenciando-se entre si somente pelas cores dos calções e meiões. Seria impossível realizar a partida nessas condições. O time da casa emprestou, então, sua camisa para o Alvinegro carioca, que venceu os campeões europeus nas penalidades vestindo a camisa do Deportivo La Coruña, calções pretos e as tradicionais meias cinzas. O jogo foi um 4 a 4, no qual os atacantes fizeram barba, cabelo e bigode. Túlio Maravilha e Amoruso marcaram um hat-trick cada um, França e Vieri fizeram os seus. Detalhe, os 90 minutos acabaram em 2 a 2. Na prorrogação mais quatro gols, dois pra cada lado. Épico.

A vitória sobre os campeões da Europa, davam essa glória imaginária. Se o futebol fosse regido como o Boxe, onde o vencedor fica com o cinturão, o botafoguense poderia se sentir campeão do mundo, pelo menos até voltar pra casa e retomar o campeonato local e a vida real.

Desde 1996, poucos times venceram a Teresa Herrera além do Deportivo La Coruña. Em 1997, o Flamengo disputou o Troféu Palma de Mallorca, e no primeiro jogo contra o Real Madrid, Sávio fez uma de suas melhores partidas com a camisa, que fez o conjunto espanhol contratá-lo no final daquele ano. Era uma forma do futebol brasileiro se vender e mostrar seus talentos.

Mas os calendários europeus e sul-americanos passaram a ser incompatíveis, sobretudo ao brasileiro, e em outro momento, torneios comerciais como Audi Cup na Alemanha, Emirates Cup na Inglaterra e o Troféu Tim na Itália surgiram, e outros, como o Troféu Joan Gamper, também ganharam destaque.

Porém, os cachês pagos por turnês em países asiáticos, inicial e posteriormente nos EUA, onde se realizou a International Champions Cup com os principais emblemas da Europa, acabaram esvaziando totalmente os torneios de verão espanhóis como a Teresa Herrera. Restou a memória e o imaginário, ou seja, a nostalgia e até mesmo saudosismo daqueles tempos em que se enfrentavam sul-americanos e europeus valendo um troféu que pesava muitos quilos de prata e ouro. Uma disputa beneficente, que quase ninguém sabia porquê levava aquele nome, mas que todos gostavam de mostrar em suas salas de troféus: a bela Taça Teresa Herrera.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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