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A capital sem futebol

A descentralização do futebol alemão explicada

É raro encontrar capitais sem times de futebol à sua altura. É precisamente nos grandes centros políticos que se encontram parte importante dos clubes mais fortes de cada país. A Alemanha é uma exceção. Não só Berlim nunca teve um grande time à altura da metrópole, como, nos anos da República Federal da Alemanha, o futebol passou completamente à margem do dia a dia da então capital daquele país: Bonn.

Com o rio Reno passeando tranquilamente a seu lado, Bonn cresceu como uma cidade vetusta e de prestígio, mas, como tantas outras do lado ocidental alemão, presa no anonimato. O final da Segunda Guerra Mundial mudou radicalmente o cotidiano dos seus cidadãos. O país, invadido ao mesmo tempo por quatro exércitos, foi dividido em três partes iguais. Um jogo de tronos se estabeleceu na geografia alemã. Os soviéticos ocuparam de imediato um imenso bocado de terra ao leste e dali tiraram da manga um novo país: a República Democrática. Para responder a essa jogada — que tinha tudo de política e nada de nacionalista —, os alemães persuadiram os Aliados a responderem na mesma moeda. Em 1949, nascia, oficialmente, a República Federal da Alemanha, o país que resgatava das cinzas a velha Alemanha que Hitler tinha precipitado para a guerra mundial.

Na prática, a nova constituição do país reconhecia Berlim como capital, mas havia um importante contratempo: a cidade era um enclave — também ela dividida em duas zonas de influência — dentro da República Democrática e sem contato, salvo pelo ar, com o Ocidente. Como isso tornava, na prática, impossível que o governo se deslocasse para o coração do território inimigo, era necessário criar uma capital alternativa. A sorte calhou a Bonn. Nos trinta anos seguintes, seria aí que o futuro do país e, em grande parte, da Europa seria decidido. Já o futebol alemão, a caminho da hegemonia continental, seguiria por outro curso.

A princípio, ninguém estranhou a ausência de um grande clube na cidade. Eram os dias do futebol amador num país que tardava em reconhecer o poder do profissionalismo. O “Milagre de Berna”, a conquista do Mundial de 1954 na vizinha Suíça, tratou apenas de disfarçar a situação. O futebol alemão continuava atrasado em relação aos seus vizinhos. Os clubes eram geridos de forma amadora, os melhores jogadores abandonavam o país em troca de salários gordos na Itália e a falta de competitividade dos clubes nas recém-criadas competições europeias deixava claro que havia muito trabalho a fazer. Só em 1963 todos se puseram finalmente de acordo para criar uma liga profissional nacional, a Bundesliga. Em Bonn, tomavam-se as decisões políticas, mas não as esportivas. A cidade contava com dois clubes amadores, o Tura Bonn e o Bonner FV, nenhum deles com expressão regional.

Dois anos depois da formação da Bundesliga, várias personalidades da cidade acharam necessário criar um time que estivesse à altura dela a nível nacional. Os dois emblemas se fundiram em um só, o Bonner SC. O seu destino seria o de brigar de igual para igual com os grandes do futebol alemão, um pouco como, mais tarde ainda, surgiria o Paris Saint-Germain na França, um clube criado a partir de uma hábil manobra de marketing para devolver a Paris o protagonismo perdido para os clubes regionais no conturbado futebol francês. A jogada tinha tudo para dar certo.

Em Bonn, havia dinheiro e, com o dinheiro, chegavam os patrocinadores. A existência de um teto salarial prometia o equilíbrio, e o Bonner, que ainda atuava nas ligas regionais, parecia ter tempo para se aproximar da elite. A realidade acabou por ser radicalmente distinta. Pouco tempo depois de se formar, o clube começou a sentir as primeiras dificuldades.

A maioria dos habitantes de Bonn, pouco habituados a ter um clube de elite, já tinham proclamado o amor eterno a clubes vizinhos, essencialmente o FC Köln, um dos grandes times daquela época. O Bonner nunca conseguiu sair da sua sombra. No início dos anos 1970, o escândalo de corrupção da Bundesliga levou à total liberalização do campeonato. Todos aqueles que ambicionavam competir na elite já se encontravam nela, essencialmente Bayern de Munique, Borussia Mönchengladbach, Dortmund, Köln, Hamburgo, Schalke e o Stuttgart. Os poucos emblemas que conseguiriam encontrar posteriormente um lugar ao sol — como o Leverkusen ou Wolfsburg — foram sempre à custa do importante apoio das empresas Bayer e Volkswagen, respectivamente.

Durante quase vinte anos, o Bonner SV tentou, sem sucesso, entrar nos campeonatos nacionais, mas nunca passou de disputar os torneios da Westfalen Ocidental. A cidade, repleta de burocratas, não parecia afinal ter tempo para se dedicar ao lazer, e era o basquete — mais do que o futebol — o que parecia entusiasmar mais os políticos e funcionários públicos que mudavam radicalmente o ritmo de vida de Bonn, uma capital sem alma, mas com dinheiro.

O futebol continuou a florescer na região, mas a ritmos distintos, e o Bonner SV, como um qualquer Dom Quixote, continuou igualmente a combater moinhos de vento. Nos anos 1980, a cidade era a única capital, dentre os países da Europa, a não contar com um clube nos campeonatos profissionais, um fenômeno único que espelhava bem o seu carácter particular.

Com a queda do Muro de Berlim, a cidade perdeu o seu sentido de vida. A capital voltou a Berlim e Bonn ficou presa numa profunda crise econômica e de identidade, e o Bonner SV, por sua vez, caiu ainda mais no esquecimento, acabando por desaparecer em 2010 em decorrência da acumulação de dívidas. Não foi o único clube da região a sofrer, já que os seus vizinhos do FC Köln e do Fortuna Düsseldorf não voltaram nunca mais a se sentirem clubes de elite no país. Apesar da mudança da capital oficial para Berlim, as oscilantes campanhas do Hertha — maior clube da cidade — ou do Union Berlin continuam a fazer do futebol alemão um caso sui generis

Se a Inglaterra tem em Londres várias equipes de elite, se os times de Roma, Madri, Lisboa, Atenas, Istambul, Estocolmo, Varsóvia, Viena, Bruxelas e Moscou são perfeitos representantes da importância de ser da capital no futebol dos seus países, na Alemanha tudo gira em sentido inverso. E nenhuma cidade entende melhor essa singularidade do que Bonn, a capital sem futebol.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.