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A crônica esportiva revista

O jornalismo impresso e o seu papel no futebol

Existem alguns pilares de jornalismo esportivo impresso no Brasil. Um era jornal, fundado em 1931, aquele cor-de-rosa. Sim, o Jornal dos Sports. Antes disso, existiram Sports Ilustrado, São Paulo Esportivo e outros periódicos. Em 1947, nasce em São Paulo, a Gazeta Esportiva, mas pra quem é do estado do Rio de Janeiro, é fácil ignorar a importância — e, até mesmo, a existência — da Gazeta e de Thomaz Mazzoni. Muitíssimo tempo depois, surge a Placar, publicada semanalmente a partir de março de 1970. Desde então, a revista se tornou a principal publicação do país até a década de 1990, mais precisamente em 1997, quando chegou ao mercado o jornal Lance.

Um ano antes, na Argentina, surgia o Olé, um jornal que ditou tendência com capas irreverentes e títulos criativos. Lá, também existia uma revista, a tradicional El Gráfico. Em janeiro de 2018, saiu a notícia de que a redação da revista fecharia. O curioso desta data é que, um ano mais tarde, a publicação completaria cem anos. Exatamente: um século.

A notícia gerou comoção na imprensa mundial. Diversos jornalistas e leitores se pronunciaram e manifestaram seus pêsames. Mas sentimentos não pagam equipes de reportagem, sequer estagiários. Condolências não são suficientes para pagar a impressão de milhares de exemplares que eternizam relatos e crônicas nas prateleiras.

Voltando ao Brasil, muita gente lamenta a revista Trivela não existir mais. A própria Placar, chegou a deixar o grupo Abril durante um pequeno período, entre 2015 e 2016, quando voltou para sua empresa mãe. Em 2018, a Placar anunciou que sua primeira revista do ano sairia somente em formato digital. Houve uma reformulação de formatos, de propostas, mas as revistas tradicionais que formaram culturalmente tanta gente parecem enfrentar uma fase avançada de idade em que, apesar de tanto conhecimento acumulado e compartilhado, o mercado — leia-se leitores — não se mostra mais aberto.

Não é pra menos. Os conteúdos chegam por feeds. Facebook, Twitter, Instagram etc são lugares freqüentados com a facilidade — não mais de um clique, mas — de um toque com o dedão. Laptop virou um trambolho, praticamente uma máquina de escrever. Dispositivos como o Kindle oferecem uma alternativa pra leitura de livros e os tablets pareciam que incorporariam as revistas.

Na contra-mão, surgiram revistas como a Piauí, cujo conteúdo dispensa qualquer elogio. Na Espanha, a Jot Down segue um caminho similar, de excelência na qualidade dos textos. À medida em que revistas como a Panenka conseguem se estabelecer e buscar seu lugar ao sol na Espanha, a Corner, no Brasil, busca um lugarzinho na sombra, pois no Brasil o sol tropical é muito, muito, quente.

Quando as pessoas choram a morte de uma revista como a El Gráfico, fica a pergunta: faz sentido ela existir? Um experimento social em Londres colocou um homem com um cartaz dizendo: “fodam-se os pobres”. Ele distribuía um panfleto com conteúdo favorável ao descaso contra os pobres. Diversas pessoas se manifestaram, reclamaram, se sentiram ofendidas, até um guarda se posicionou. Ninguém concordava com aquele cartaz pendurado no homem. Na seqüência, o experimento mostra o mesmo rapaz com a placa pendurada dizendo: “Ajudem os pobres“. Adivinhe, ninguém se engajou em ajudar. O experimento fazia parte de uma campanha da Pilion Trust Charity, que queria mostrar o quanto as pessoas realmente se importavam. É muito parecido com adesões a hashtags do tipo #ForçaChape pra mostrar compaixão, mas muito longe de depositar qualquer quantia pra ajudar as famílias dos jogadores.

Algumas pessoas talvez achem que leis de incentivo sejam um caminho de financiamento. Pode ser, mas uma empresa escolhe pra qual evento, publicação, ou qualquer projeto incentivado ela vai destinar seus impostos. Se você tem uma empresa e pode escolher patrocinar um show da Anitta ou uma publicação, qual você escolheria? Ainda mais depois de lançar Vai, Malandra!, um show da Anitta atrairia muito mais gente, e a marca dessa empresa ganharia muito mais exposição. Não é difícil entender essa lógica.

Entretanto, uma capa de jornal, ou até de uma revista, transmite e carrega um peso difícil de ser equiparado nos meios digitais. Quando o jornal Extra imprimiu em sua capa uma piada sobre o goleiro Muralha, passando a chamar o arqueiro do Flamengo, na época, somente de Alex, o assunto ganhou uma proporção inimaginável. Isso só aconteceu por se tratar de um jornal impresso.

Livros não deixaram de existir mesmo com dispositivos como o Kindle. Revistas passaram a ser coisa de nicho, mais caras, e não emplacaram em suas versões para tablets e os conteúdos perderam audiência, drasticamente, para sites. Jornais idem. Passou a não fazer nenhum sentido pagar por um conteúdo que você consegue ler livremente, mesmo que com limitações mensais por número de matérias. No final das contas, um leitor pode estar interessado tranqüilamente em ler até uma dezena de artigos e se satisfaz com isso ou, senão, esse limite ainda pode causar uma adequação no modo de consumir, fazendo que a audiência só clique nas notícias que realmente julgar relevante, quebrando a lógica que favorece à publicidade.

Jornais do mundo inteiro começaram a oferecer assinaturas do conteúdo digital. Os sites permitem maior velocidade de atualização, mobilidade, por serem lidos em qualquer dispositivo móvel que cabe no bolso e, por fim, um jornal consegue oferecer mais conteúdo num site do que num papel, onde o espaço é limitado por si e ainda precisa ser dividido com anúncios.

Plataformas de streaming de música ou vídeo conseguiram encontrar essa carência no mercado e ofereceram um serviço em que fica muito clara a vantagem de se pagar pra ter aquele aplicativo. O jornalismo, como um todo, ainda não. Emissoras esportivas estão conseguindo encontrar um meio de campo, com suas respectivas plataformas: Watch ESPN, Sportv Play, FOX Play e EI Plus. Por serem detentoras exclusivas de direitos de transmissão, conseguem vender seus produtos em paralelo ao que é transmitido na TV.

Um jornal, no sentido amplo da palavra, que deriva de diário, perdeu seu sentido principal, que era de trazer a notícia em primeira mão. Até os anos 1990, existia uma cena comum nas bancas de jornais próximas a pontos de ônibus ou em locais de grande movimentação, que ficavam cheias de pessoas olhando as manchetes de cada jornal.

No entanto, reportagens, histórias, análises e opiniões ainda podem ser consumidas diariamente, mesmo com a concorrência de dispositivo eletrônicos, e não mais notícias. A pausa pra ver o que tal jornalista ou especialista entendeu sobre tal jogo, ou acontecimentos, parece não ter perdido seu valor. E talvez seja aí onde mora o segredo. Criar maiores espaços de análises, histórias, entrevistas, foto-reportagens, e nos seus sites, conteúdos em vídeo como vem acontecendo cada vez mais com lives no Facebook ou Twitter, e — até stories — no Instagram. As novas tecnologias trazem novos formatos de comunicação.

Talvez encarecer o papel seja um caminho e segmentar os cadernos ou suplementos, outro. Poder adquirir “somente” o caderno de esportes da Folha de S.Paulo, por exemplo, pois nada fora dali interessa pra esse “novo” leitor, e assim se tornaria uma receita nova. Afinal, esse leitor ou leitora certamente já não comprava o jornal completo. Esta hipótese só funcionaria se os cadernos fossem mais extensos e trouxessem conteúdos exclusivos.

No entanto, como qualquer ato empreendedor, requer coragem, investimento e risco, portanto, prejuízo em potencial. É fácil de compreender desde o ponto de vista empresarial que não se arrisque, sobretudo em momentos de instabilidade. A média de idade dos assinantes de jornais é cada vez mais alta. Essa base de leitores vai envelhecendo e, mesmo com as assinaturas digitais crescendo, esse número pode atingir uma marca que represente a inviabilidade do negócio. Nesta altura, investir pode ser impossível, por não se dispôr de faturamento suficiente e não haver nenhuma margem pra risco.

Detentores de negócios globais e consolidados, como a Kodak, passaram por esse processo. A empresa do ramo fotográfico tinha suas receitas na produção de filmes e papel para fotos. Alguém, certamente, percebeu que o negócio poderia enfrentar dificuldades com a popularização de câmeras digitais. Ninguém deixaria, nem nunca vai deixar, de tirar fotos, pelo contrário, a prática só aumentou, mas câmeras profissionais ou amadoras passaram a ser totalmente digitais, e as analógicas viraram item de coleção ou um hobby, pelo prazer de revelar uma foto analogicamente. A maioria dos cadernos — de esportes, pelo menos — encolheram, mas as redações seguem com um contingente mínimo necessário pra alimentar os sites e mídias sociais dos jornais. Se por um lado o jornalista ou repórter pode ter perdido espaço, outros tipos de funções ou produção de conteúdo surgiram, um estudante de jornalismo ou recém formado se depara com vagas mais ecléticas que requerem profissionais mais versáteis, capazes de lidar com múltiplas tarefas, diferentes linguagens e diversas ferramentas, e não somente redatar de um texto

Após o anúncio do fim de El Gráfico, Ariel Palacios, correspondente da Globonews em Buenos Aires, falou sobre o legado da revista na bancada do programa Redação Sportv: “Foi uma escola pra toda a América Latina e, de certa forma, também para Espanha, Portugal e Itália. Foi uma revista de influência internacional já nos anos 1920. Outra tristeza disso é que, até 2002, era uma publicação semanal. A partir daí, da crise argentina entre 2001 e 2002, vira mensal. O que se pensaria era que entrou em decadência, que cairia a qualidade. Mas não. Morreu com alta qualidade. O problema eram as vendas, que caíram de forma drástica. Não estou nem me referindo aos momentos áureos dos anos 1960 e 1970, quando se imprimiam 800 mil exemplares por semana num país de 25 milhões de habitantes. Mario Vargas Llosa, escritor que ganhou Nobel de literatura, comentava sobre a influência que El Gráfico, escrita por jornalistas com estilos literários muito bons, teve na sua vida. Ele esperava que o carteiro entregasse a revista em Lima, no Peru, onde ele morava. Essa influência foi facilitada, obviamente, pelo idioma espanhol. Coisa que a Placar não teve, pois o resto da América é hispânica, e esse era um fator a favor de El Gráfico. É uma morte que chega pelo encolhimento drástico das vendas devido à concorrência das redes sociais, de sites, e de jornais tradicionais argentinos, que desenvolveram seus respectivos cadernos esportivos. Isso acabou sendo fatal pra revista, que foi definida por vários jornalistas como mãe do jornalismo esportivo latino-americano.”

No Brasil, sem dúvida, a Placar dividiu a paternidade do jornalismo esportivo com o Jornal dos Sports. Eram fontes inesgotáveis de conhecimento e de escrita. Além disso, os pôsteres colecionáveis dos times campeões, que marcaram época, já não enfeitam mais os quartos de amantes do futebol. Há uma mudança de hábitos de consumo, nitidamente.

Em termos de historiografia, embora os arquivos dos sites possam ser acessados livremente, bastando dar um “Google”, muito já se perdeu. É certo que muita coisa se recuperou também. Mas um estudo de discurso orientado pelos editoriais de jornais e revistas pode ficar sem material tátil para observação e análise. Há um certo risco nisso. Mesmo com prints, a materialidade dos discursos fica à deriva de interesses de época. Num mundo sem jornal ou revistas impressas, o que por um lado o meio-ambiente até agradeceria, caso um editorial, ou coluna, coloque em xeque a posição de um jornal num momento futuro, esse arquivo pode simplesmente ser deletado, como acontecem com tuítes ou postagens. Além disso, falhas técnicas ou de segurança em um servidor podem colocar em risco muita informação, tal como um incêndio em uma hemeroteca.

Talvez não venha a existir novamente um Nelson Rodrigues e todos os outros cronistas que surfaram nessa onda. Nelson era um homem de seu tempo, machista, que dispunha do papel como mídia e não saberia lidar com torcedores revoltados quando ele proferia frases que ficaram pra posteridade, como “falo de todos os times, até do Vasco”, ou que ”o torcedor alvinegro é o único que, quando compra o ingresso, compra o direito inalienável de sofrer”.

A antologia da crônica esportiva fica comprometida, mesmo com diversos textos sensacionais publicados em blogs. Mas o simbolismo de uma revista, jornal ou livro com aquela frase, texto ou reportagem carrega um peso. É como aquele disco ou CD clássico de uma banda pré-mp3. Correlacionando com a música, o jornalismo atravessou uma crise similar.

Com o fim das revistas e surgimento de blogs e mais blogs, a relação entre leitor e jornalismo ficou muito parecida com a de ouvintes e música. Bandas consideradas “One Hit Wonder” sempre existiram, mas passaram a existir mais casos de bandas conhecidas por uma só música do que por seus discos. Sem nenhum tipo de saudosismo, apenas de constatação de que a relação de consumo mudou. O Spotify surgiu reinventando o modo de consumir música depois de o Napster colocar toda a indústria fonográfica em crise existencial. Na verdade, há muitos benefícios ao utilizar esse tipo de serviço de música sob demanda comparado aos tempos em que era preciso comprar um CD, no final dos anos 1990, pra se conhecer uma banda. Nenhuma banda trazia no encarte de seus álbuns outros artistas relacionados, levando em consideração os gostos musicais individuais. Por outro lado, de volta à relação tátil e visual, as capas dos discos deixaram de ter o impacto e espaço que tiveram um dia.

A Netflix supriu uma demanda que quem mostrou que existia foi o próprio mercado consumidor. As pessoas já consumiam filmes na Internet através de torrents, em outras palavras: uma pirataria colaborativa. Falta ao jornalismo, de um modo geral, e ao esportivo, sobretudo o impresso, se reinventar.

Diversas frases, artigos e idéias só entraram na cultura popular do futebol graças ao impresso. Certa vez, Fernando Calazans disse: “Se Zico não ganhou uma Copa do Mundo, azar da Copa”.

O excelente documentário Everything is a Remix, ou como passaram a chamar essas produções feitas para Youtube, ou Vimeo: webséries, mostra que a arte deriva da imitação. O princípio básico de evolução genético é ilustrado assim: copiar, transformar e combinar. O diretor da série de quatro episódios, o americano Kirby Ferguson, descreve o processo de aprendizado por meio da cópia e a criatividade nada relacionada à mágica mas, sim, a organizar ferramentas e pensamentos a outros materiais pré-existentes.

Basicamente, Kirby diz que ninguém é capaz de introduzir nada novo até ser fluente naquela linguagem. Esse processo acontece freqüentemente em trabalhos derivados, muito comuns na música. Ele cita Bob Dylan, que no seu primeiro álbum gravou 11 covers. No cinema não seria diferente.

Kirby Ferguson mostra como Led Zeppelin e Quentin Tarantino fizeram suas trajetórias com materiais derivados — muitas vezes nem tanto assim — de produções anteriores. Tarantino praticamente remixou diferentes filmes para chegar a produções como Kill Bill. E o maior exemplo é de George Lucas, que copiou, transformou e combinou vários filmes anteriores até chegar a Star Wars. O ponto em questão é que criatividade requer influência. Kirby cita Isaac Newton: “Se eu vi além, foi porque eu estava aos ombros de gigantes”. Mas esta metáfora é bem anterior, como conta o diretor, pertence a Bernardo de Chartres, segundo João de Salisbury, que escreveu no ano de 1159: “Bernardo costumava nos comparar a anões sentados nos ombros de gigantes”. João ressalta que, se é possível ver mais longe que os predecessores, não é porque a visão está mais aguçada, mas porque os conhecimentos pré-existentes elevam a alturas gigantescas. Bernardo estava comparando seus contemporâneos medievais aos sábios da Grécia e Roma Antiga.

O diretor de Everything is a Remix compara o processo criativo com a genética, no qual a natureza já faz isso há milhões de anos, transformando e combinando aquilo que já existe, gerando espécies mais adaptadas que vão prosperar. Isso também é chamado de evolução. No âmbito humano, do conhecimento, as idéias, comportamentos e habilidades que mais se propagam caracterizam uma evolução social.

Na literatura ou no jornalismo não teria como não ser assim. Esse é exatamente o risco que a extinção do papel pode trazer: a ausência de influência. Aqui se trata de estilo de texto, da falta de prosa que a morte das edições impressas pode provocar no jornalismo esportivo. Uma involução iminente sem as revistas e jornais. Se o futebol perder o jornalismo impresso, azar do futebol.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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