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A diáspora

Judeus, húngaros e o futebol total

Em 1919, Csibi surgiu. Um livro infantil considerado um clássico. A história de um garoto pobre forçado a deixar sua escola e seus amigos e mudar para um bairro chique onde sua mãe trabalharia como empregada doméstica. Na nova escola, Csibi é saudado com certo ódio e desdém por alunos e professores. Ele faria seu caminho, então, pelo futebol.

No primeiro dia de aula, a professora lê os nomes.

— Que nome é esse? Horowitz? — diz a professora.
— Horvatz, termina com VATZ. Istvan Horvatz — o garoto tenta corrigir a professora.

Essas nuances são bem conhecidas por húngaros judeus. No início do século XX, houve um grande movimento na Hungria de mudança de sobrenomes judaicos para nomes que soassem mais húngaros, como um ato de patriotismo.

— Horbat, por que você ainda vêm a esse colégio? — pergunta a professora, com nítida crueldade.

No último capítulo do livro, Csibi é um jogador famoso, e integra a Seleção Húngara de futebol em jogos por cidades como Londres, Viena e Praga. Ele se casou com a irmã de um garoto rico da sua turma de colégio que abusava dele. Eles tiveram um filho: Csibi II, loiro de olhos azuis, que foi facilmente aceito pela sociedade húngara.

Os judeus na diáspora eram os azarões da História, pra terem êxito nessa condição tinham que ser excelentes. No livro Davi e Golias, de Malcolm Gladwell, o autor conta a história de Davi de uma perspectiva diferente. De acordo com Gladwell, a inferioridade de Davi era exatamente a sua maior vantagem. A passagem bíblica sobre o pastor israelita versus o grande guerreiro palestino é sobre fé e desafiar as probabilidades, mas para Gladwell não é bem assim.

“Golias usava uma armadura e tinha uma grande lança, ele era um homem forte e Davi não teria chance em uma luta cara a cara, espada contra espada”, escreve Gladwell. “Davi, no entanto, se recusou a usar uma armadura para a luta, pois era muito pesada, além disso, ele também largou sua espada, e viu Golias como um homem de pensamento defasado de quem estava apanhando. Davi se recusou a lutar dentro das regras. Ele usou sua velocidade, leveza e criatividade para nocautear Golias e cortar a sua cabeça”, explica o autor. Davi foi coroado Rei de Israel e o resto é História. Mas o ponto de Gladwell é que Davi representava um pensamento mais flexível, progressista e nítido, e portanto derrotou um guerreiro maior.

A história de David inspirou os underdogs ao longo dos tempos e, sem margem a dúvidas, os judeus eram justamente esses underdogs, e é aí que entra a influência judaica no mundo do futebol.

O livro Csibi foi escrito por Béla Szenes, um jornalista e dramaturgo judeu que acreditava fortemente na assimilação, isto é, a integração da comunidade judaica na sociedade húngara. O nome não é acidental, pois em 1919, József “Csibi” Braun era um herói nacional húngaro.

Em 1953, depois que a Hungria derrotou a Inglaterra por 6 a 3 em Londres e por 7 a 1 em Budapeste, um guia de futebol chamado “Aprenda a Jogar o Sistema Húngaro” surgiu na Inglaterra. O livro foi escrito por Márton Bukovi, o técnico do MTK naquela época. A introdução foi escrita por Jimmy Hogan.

Hogan era um técnico inglês que foi levado a Viena por Hugo Meisl — um técnico e empreendedor judeu, considerado o pai do futebol na Áustria. Em sua terra natal, Hogan é considerado um caso de desperdício — um gênio nos aspectos técnicos e táticos do jogo, rejeitado pela estrutura do futebol inglês, mas que tornou-se o mais influente personagem do esporte na Áustria, Alemanha e Hungria.

No dia em que a Primeira Guerra Mundial estourou, Hogan estava em Viena e foi preso junto com todos os ingleses na cidade. Depois de dois anos na prisão, Meisl tratou de “contrabandear” Hogan além das fronteiras e levá-lo para seus colegas do MTK, o popular time dos judeus de Budapeste. Os resultados do trabalho de Hogan foram um recorde de nove títulos consecutivos.

Na introdução do livro, Hogan relata como nos seus primeiros dias em Budapeste ele foi a um parque local e viu dois garotos jogando. O técnico os convidou para o clube e eles se tornaram os dois melhores jogadores que ele já viu: György Orth e József “Csibi” Braun. Sobre Braun, ele descreve com afeição que nunca encontrou um garoto com tanta paixão em aprender e progredir no jogo.

As descrições de Csibi são de perfeição técnica em cada aspecto. Ele era um ponta-direita rapidíssimo, famoso tanto por controle de bola quanto no mano-a-mano. Csibi marcou 78 gols em 161 jogos, mas na maioria das vezes ele servia seus companheiros.

O futebol chegou à Europa no século XIX e, por muitos anos, era totalmente influenciado pelo estilo de jogar dos inventores ingleses, baseado em velocidade e força. Chutar pra frente e correr pela “lama” até o arco rival. Este estilo dava aos britânicos uma grande vantagem em relação aos europeus continentais, considerados por anos e anos inferiores aos insulares. Os underdogs aqui tinham que encontrar soluções para lidar com a força e a velocidade dos britânicos. Não havia necessidade de quebra de paradigma, a habilidade dos judeus em criar um novo futebol, desenhado para competir contra os Golias das Ilhas Britânicas.

Os judeus foram importantíssimos no desenvolvimento da Escola do Danúbio, um jogo baseado nas trocas curtas, movimentos coletivos e, especialmente, no raciocínio e pensar o jogo, tudo isso constituía uma inteligente alternativa à força e velocidade dos ingleses. Técnicos como Béla Guttmann, Hugo Meisel, Izidor Kürschner e Erbstein Ernő mudaram a cara do futebol europeu continental e mundial.

Guttmann era um grande técnico, o arquétipo de um treinador estrela, que conduziu o Benfica à glória européia; Meisl, o técnico do lendário Wunderteam austríaco, é considerado um dos mais inteligentes treinadores de sempre. Sua mentalidade aguda e linha de pensamento extraordinária ajudaram a desenvolver o futebol na Hungria, Alemanha, Inglaterra e Itália; Kürschner levou a mensagem tática ao Brasil e — indiretamente — ele e Guttmann mostraram como os brasileiros deviam usar seus talentos naturais para conquistar títulos mundiais.

Não se deve subestimar o valor desses técnicos que emergiram da cultura de pesquisa judaica. Meisl foi uma das maiores influências no futebol no início do século XX. Nascido em uma família abastada judia, viria a ser banqueiro como seu pai. Meisl desenvolveu uma paixão pelo Beautiful Game e se notabilizou no campo de jogo. Construiu uma boa relação com técnicos veteranos, como Vittorio Pozzo e Herbert Chapman, com quem se correspondia sobre táticas e métodos de treinamentos que mudaram o jogo.

Meisel influenciou o estilo do futuro, que seria dedicado a um jogo curto, marca registrada do time húngaro de 1954, dos holandeses nos anos 70 e, mais adiante ainda, dos espanhóis com o Tiki-Taka.

Na Itália, um jogador húngaro mediano proveniente do Maccabi Brno — um clube judaico da cidade tcheca — disputou duas temporadas. Uma delas pelo Alessandria e a seguinte pela Internazionale. O lateral Árpád Weisz foi companheiro de Csibi Braun e Béla Guttmann nas Olimpíadas de 1924, em Paris. Mas foi fora de campo, ainda na Itália, que ele marcou um antes e um depois do calcio. Weisz assumiu o comando técnico da Internazionale em 1926, e um ano mais tarde, ele lançaria um jogador de 17 anos que se tornaria uma lenda: Giuseppe Meazza.

Meazza é considerado o melhor jogador italiano de todos os tempos. Weisz o forçava a driblar somente com a perna esquerda, pois segundo o técnico húngaro, um grande jogador devia usar os dois pés. De acordo com as definições do futebol dele, tratava-se de um Davi com a bola nos pés: rápido nos movimentos, acostumado a jogadas acrobáticas, fintas e chute preciso. Jogou e venceu as Copas do Mundo de 1934 — como centro-avante — e 1938 — como meia, por conta das qualidades goleadoras de Silvio Piola. Ou seja, polivalente, que se adaptou às condições. O curioso de tudo isso foi que, antes de ingressar na Inter, o Milan o recusou por ser muito magro. Fatalmente, os Rossoneri buscavam um Golias.

Árpád Weisz se consagrou campeão italiano na temporada 1929/30, e conseguiu um recorde que dificilmente será batido: aos 34 anos, foi o técnico mais jovem a ser campeão da Serie A Ele ainda conquistaria mais dois Scudetti consecutivos como técnico do Bologna, nas temporadas 1935/36 e 1936/37.
Em 1938, após a promulgação das Leis Raciais na Itália, Weisz foi forçado a deixar o país e ir para a Holanda, onde assumiu o comando do Dordrecht. Dois anos depois, após a ocupação do país pela Alemanha Nazista, Árpád Weisz foi levado para Westerbork, onde sua família foi dividida, e posteriormente levado a Auschwitz, onde morreu, em 1942

Em Turim, Ernest Erbstein treinou um time lendário: il Grande Torino, que dominou o futebol italiano até o trágico fim, na Tragédia de Superga, em 1949, que levou à morte de toda aquela squadra. Erbstein era o técnico antes da Segunda Guerra Mundial, mas foi deportado da Itália. Ele desenvolveu o esquema 4-2-4, que praticamente uma década após sua trágica morte, foi usado pelo Brasil na sua primeira conquista de Copa do Mundo. Suas idéias — incluindo que o futebol era algo pra ser analisado e pensado — chegaram ao Brasil atráves de Izidor Kürschner, Béla Guttmann e Gyula Mándi — judeus que introduziram elementos táticos ao jogo brasileiro.

Csibi foi o jogador do ano na Hungria em um ano muito traumático. Na sua primeira temporada como jogador, ele marcou 23 gols em 20 jogos. Em 6 de abril de 1919, Budapeste vivia o Terror Vermelho — 120 dias de comando bolchevique em que oponentes do regime desapareceram de suas casas e foram mortos sem dó nem piedade. Seu pai, que havia caído na Primeira Guerra Mundial, tricotou um cachecol vermelho para que ele pudesse se juntar ao exército revolucionário.

A Hungria estava cercada de tropas anti-comunistas estrangeiras que isolavam o país, mas a Seleção Austríaca visitou Budapeste quebrando o cerco. O historiador húngaro — e judeu — Andrew Handler cita que dois jogadores semitas — Antal Vágó e Gyula Feldmann — se recusaram a defender a Hungria Vermelha, no entanto, foi quando Csibi fez sua estréia na seleção.

Em uma atmosfera política muito carregada, 40 mil espectadores foram ao estádio, um recorde para um jogo de futebol no período. Csibi Braun converteu o gol da vitória: 2 a 1 para a Hungria. Os jornais contavam que, no dia seguinte, houve uma grande mobilização patriótica junto ao exército vermelho. De qualquer forma, o técnico Fehéry Ákos era o típico “professor do mal” nas histórias de criança.

O inglês Jonathan Wilson, que estudou o assunto e escreveu um livro sobre a evolução da tática no futebol e sobre o futebol do Leste Europeu [A Pirâmide Invertida e Behind the Iron Curtain], diz que uma das razões para o colapso do futebol húngaro e austríaco foi a propagação do anti-semitismo no leste europeu entre 1930 e 1940. “Guttmann, Kürschner, Meisl e Erbstein eram judeus e todos fizeram alguma coisa crucial para o desenvolvimento do futebol mundial”, diz Wilson. ”Eles foram os primeiros a promover a intelectualização do jogo no final dos anos 1920”, completa. Foram os primeiros a sentar em cafés, no ápice das culturas dos cafés da Europa Central [Mitteleuropa] e, pela primeira vez na história do jogo britânico, começaram a atribuir importância intelectual, profundidade filosófica e profundidade cultural. A intelectualização do jogo, de acordo com Jonathan Wilson, era algo puramente judaico. “Eles foram os primeiros a perceber que havia algo a ser interpretado no futebol“, escreve o autor inglês.

Guttmann era, como já citado, a primeira estrela entre os técnicos. Um treinador que enxergava a si mesmo como centro das atenções. A conquista da Copa dos Campeões justificou sua auto-imagem. O garoto de Budapeste, que ganhou títulos por toda Europa e América do Sul, é responsável por alguns dos conceitos que transcendem o tempo no futebol, entre eles a Lei dos Três Anos que diz, segundo Guttmann, que se um time é comandado por um mesmo técnico por três anos, é hora de mudar.

Juntamente com os também judeus: Jaap van Praag, que fundou o Grande Ajax; Kurt Landauer, que manteve o Bayern à força; e Guttmann, Kürschner, Meisl e Erbstein, que contam a história de excelência e a influência no futebol que se conheceu nos anos que seguiram.

A abordagem judaica ao futebol era baseada na idéia de que o cérebro era mais importante do que pulmões, pernas ou músculos. Os treinadores judeus foram responsáveis por grandes times ofensivos na História: Wunderteam, Il Grande Torino, o Time de Ouro da Hungria de 1954, Brasil de 1958 e Benfica de 1961. Outro time judaico, caracterizado na essência como underdog, de acordo com Gladwell, era a Holanda de 1974, que soube usar seus atributos naturais com excelência. O próprio Rinus Michels admitiu que executar o Carrossel Holandês só foi possível por contar com jogadores com QI acima da média. Por coincidência, o maior expoente do time era Johan Cruijff, que se casou uma judia e começou sua carreira no Ajax, clube que possui uma peculiar relação com a comunidade judaica de Amsterdam. Essa filosofia foi levada ao Barcelona pelo próprio Rinus Michels nos anos 1970, e depois evoluída por ele mesmo, Cruijff, no final da década de 1980, quando assumiu o clube catalão. Surgia nessa época um jogador das camadas jovens dos Blaugranas: Josep Guardiola i Sala. Ele se tornou o cérebro do time que conquistou a Copa dos Campeões em 1992, e depois seria vice em 1994. Jogou tempo suficiente com Cruijff no comando para absorver os conhecimentos do tutor. Mais uma vez, no Barcelona, todos as idéias ofensivistas desenvolvidas acabaram com um único herdeiro.

Quando Guardiola assumiu o Barcelona como técnico em 2008, no lugar de Frank Rijkaard, o futebol mundial teve a melhor versão dessas idéias em um time: dois títulos de Champions League em quatro anos e duas semifinais. Pep levou suas idéias para Bayern, onde não teve êxito em âmbito europeu. Parou nas semifinais nas três oportunidades que teve. Mas, mesmo assim, marcou um estilo que foi adquirido com dinheiro árabe do Manchester City. Após uma fraca primeira temporada no clube inglês, o técnico catalão bateu o recorde de vitórias consecutivas na Premier League na temporada 2017/18.

Por trás de cada tabela entre Iniesta e Messi, existe um elemento de sobrevivência das idéias que defendiam a inteligência como sobreposição à força. E isso é algo muito típico do judaísmo.

A pessoa por trás do MTK Budapest era Brüll Alfréd, um dos judeus mais ricos da capital húngara que — generosamente — financiava o clube. Brüll era gay e tinha alguns romances com jogadores. Existe uma história de um caso de Brüll com um não-judeu jogador do time, que fugiu para a América do Sul e não o salvou, deixando que ele fosse levado pra Auschwitz, onde morreria em 1944, assim como Árpád Weisz.

A investida judaica no MTK era a materialização do desejo da assimilação. Um sonho que enxergava a excelência no esporte como pavimentação da comunidade judaica na sociedade húngara. O resultado foi dramático. O sucesso de judeus nos esportes foi ressonante e não havia acontecido em nenhum outro lugar. O nadador Alfréd Hajós conquistou a primeira medalha de ouro para o país nas Olimpíadas de 1896, e foi seguido por dezenas de atletas judeus nascidos até os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial. Eles levaram pra casa nada menos que 48 medalhas de ouro.

Como ferramenta social, o desejo da assimilação pelo esporte colapsaria. Béla Szenes, autor do — otimista — livro infantil, morreu em 1927. Sua filha, Hannah Szenes, seria executada pelo governo traiçoeiro de seu país.

Nos anos após se aposentar do futebol, Csibi Braun morou em uma casa na praça Almasi, onde vários de seus parentes viveram. Junto deles, vivia um de seus tios, Ernst Weinberger, que emigrou para Israel e jogou pela primeira seleção do país. Ele treinava com Braun, quando se tornou técnico de categorias infantis, nos anos 1930.

Csibi Braun jogou 27 vezes pela Seleção Húngara, muito em se tratando dos anos 1920, e marcou 11 gols. Ele se aposentou aos 25 anos.

De acordo com uma pesquisa conduzida pelo jornalista israelense Ronen Dorfan, ele descobriu que Braun não morreu em um ataque soviético. Depois de dois anos de trabalho forçado, uma espécie de escravidão junto ao exército húngaro, seu corpo colapsou por fome e exaustão.

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