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A fênix cipriota

Emblemas de clubes muitas vezes representam o passado, remontam à fundação do clube e envelhecem. O do Anorthosis, não. Tem significado perene. A fênix é retrato quase literal do clube que viu Famagusta, seu berço, ser tomada pelos turcos.

Gregos micênicos, assírios, egípcios, persas, romanos, califados árabes, franceses, venezianos, otomanos e ingleses: todos já tomaram ou destruíram ou fortificaram ou administraram Famagusta. A República Turca do Chipre do Norte é a ocupante da cidade desde a declaração de independência em 1983.

A história do Anorthosis se confunde com as mudanças na geopolítica da ilha de Chipre. Uma agremiação tradicional no futebol, esportes de quadra, no atletismo e em esportes marítimos. E, mais do que isso, um clube que, desde sua fundação em 1911, teve importante papel abrigando intelectuais com discursos independentistas, músicos e escritores.

No futebol, o Anorthosis nasce sob a administração inglesa da Ilha e enfrenta seus primeiros percalços já na década de 30, quando se acirram os movimentos nacionalistas e o clube, por sócios e adeptos, tem participação ativa. O contragolpe inglês é fulminante. Em 1932, o Anorthosis é fechado pela administração britânica. Em 11 de fevereiro é comunicada a ordem; no mesmo dia é cumprida. Sob forte reação local e sem que os protestos tivessem fim, não houve efeito prático na ordem de fechamento — a não ser ebulir ainda mais a sociedade de Famagusta — e o clube é reaberto com suas atividades esportivas retomadas. Após sua reabertura, seu Presidente é preso por hastear a bandeira grega nas dependências do Anorthosis. Um recado claro de “Ingleses: não passarão”.

Membro fundador da CFA [Federação de Futebol do Chipre, em inglês] e sem nunca ter caído de divisão, o Anorthosis conhece suas primeiras glórias na virada da década de 40 para a de 50, conquistando a Copa do Chipre em 1949, em cima do APOEL da capital Nicosia, e o campeonato cipriota em 1950. Na mesma década, outro avanço do clube volta a incomodar os britânicos em seus últimos anos controlando o Chipre: a abertura de uma biblioteca com um grande catálogo para empréstimo, como se fosse pública. Com livros e música disponíveis, não tardaria para que o clube se tornasse o local preferido da juventude da cidade que compartilhava ideais de nação em comum. Como nem sempre a arbitragem no futebol é justa e alguns desses revolucionários tomaram cartão vermelho direto em uma noite de 1955. Presos quando aprofundavam seus anseios de libertação. Novamente a instituição não declinou de apoiar a luta e, pela segunda vez, tentam matar a fênix. O Anorthosis é fechado de novo em meados de junho de 1956 e assim permanece por oito meses. Outro hiato na história do clube que não aceitava morrer e não abandonava seus princípios.

O Tratado de Garantia de 1960, assinado por Inglaterra, Grécia e Turquia, reconhece a independência do Chipre. No mesmo ano, cidadãos de Famagusta se cotizam e constroem uma nova sede para o Anorthosis, que ficou cada vez mais ligado à sua cidade. Parecia que o futuro seria menos traumático.

A força do Anorthosis nos anos seguintes é notável. Ganhou o campeonato cipriota em 1960, 62 e 63; a Copa do Chipre em 1962, 64 e 71 e a Supercopa em 1962 e 64. Famagusta incomodava na política e no futebol.

No entanto, em 1974, com a invasão turca e a consequente divisão da Ilha em: República do Chipre e República Turca do Chipre do Norte — reconhecida somente pela Turquia —, Famagusta foi uma das cidades ocupadas. A invasão foi o corolário de onze anos de disputas étnicas, com baixas gregas e turcas que vinha desde 1963. Pouco menos de duzentos mil cipriotas gregos migraram para o lado Sul da Ilha, o que poderia ser o fim do Anorthosis, afinal, as disputas futebolísticas se dariam somente de Nicosia para baixo.

Mas não. A fênix de Famagusta migra para Larnaca, pousou e fica por lá. São tempos mais difíceis e o Anorthosis só consegue um título até meados da década de 90, quando volta a mostrar competitividade e a enfileirar conquistas já no seu novo estádio, o Antonis Papadopoulos, erguido em 1986 e com capacidade para 10.230 espectadores, pouco mais de dez por cento da população do local.

Coube ao Anorthosis o primeiro grande voo cipriota em ligas europeias, alcançando a fase de grupos da Champions League na temporada 2008/09. Com PIB per capta acima da média da comunidade europeia e uma economia alavancada pelo turismo e empresas offshore, os times do Chipre começaram a ter condições de contratar jogadores de campeonatos periféricos europeus e algumas estrelas já veteranas.

Figura de grande destaque na campanha do Anorthosis na UCL foi o brasileiro Sávio. Motivado por jogar mais uma Champions e residir em um País turístico e de cultura milenar, Sávio marcou um gol e contribuiu com quatro assistências na campanha mágica que por muito pouco não transbordou para a fase de mata-mata.

Seus Ultras, “Os Lutadores” em tradução livre, depois de verem a fênix desbravar a Europa sob a bandeira cipriota sonham em um dia voltar para Famagusta, contanto que a cidade esteja liberta do jugo turco e reinserida em um Chipre sem divisões. Famagusta não é nem sombra da cidade que viu o Anorthosis migrar.

Seria mais uma reconstrução. O emblema e a história mostram que não seria problema para o Anorthosis.

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