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A lenda do Jogo da Morte

Um outro olhar sobre o time que supostamente derrotou o nazismo

Em 1981, o filme Fuga para a Vitória fez sucesso mundial ao colocar no mesmo time de Pelé, Bobby Moore, Osvaldo Ardiles e Mike Summerbee atores como Michael Caine e Sylvester Stallone. A história tinha como roteiro um grupo de jogadores famosos, de várias nacionalidades, que estavam presos pela Alemanha nazista e desafiaram o comando germânico ao lutarem pela vitória em uma partida — que serviria para alimentar a falácia da superioridade ariana — contra os teutônicos.

A superprodução norte-americana teve como uma de suas inspirações um evento conhecido como “O Jogo da Morte”, acontecido em 1942. Em meio à ocupação nazista na Ucrânia, durante a Segunda Guerra Mundial, um time formado por jogadores das equipes de Kiev não só se recusou a seguir as ordens de facilitar o confronto diante do conjunto formado por homens da aeronáutica alemã, como goleou impiedosamente seu adversário. Como forma de punição para tamanha audácia, os ucranianos foram fuzilados nos arredores da cidade, ainda com o uniforme em corpo.

De fato, uma história emocionante, mas que foi alimentada e distorcida pela política soviética, tornando-se uma lenda, conforme a máxima de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, de que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Ainda assim, embora o Kremlin tivesse distorcido em seu favor o acontecido, a história verdadeira não fica devendo em termos de emoção e contornos épicos.

Ataque inesperado em um dia de festa

Kiev vivia uma nova realidade em 1934, quando tomou o posto de Kharkiv como capital ucraniana. Ao mesmo tempo, o Dynamo enfim começava a mostrar que era a grande força do futebol local. Em 1936, brigou pelo título do primeiro campeonato soviético e seria sempre apontado como um dos favoritos. Entre os destaques daquele time, estavam os atacantes Nikolai Makhinya e Konstantin Shchegotsky, o defensor Alexei Klimenko e a grande liderança daquela equipe, o goleiro Nikolai “Kolya” Trusevich.

Em 1941, a Segunda Guerra Mundial já havia começado, entretanto, a vida seguia normal dentro da URSS. Apesar dos diversos avisos de espiões soviéticos, Josef Stalin teimosamente confiava que Hitler não rasgaria o tratado de não-agressão assinado anos antes. No mesmo dia 22 de junho em que o então Estádio Esportivo da República — atual Olímpico de Kiev — foi reinaugurado, a Operação Barbarossa iniciou o avassalador ataque nazista, quando a Ucrânia foi tomada com a Blitzkrieg, e, a partir de 19 de setembro, os kievanos já estavam sob o domínio da suástica.

O FC Start sai do forno

Em Kiev, quem não fosse executado era realocado para o campo de trabalho forçado de Darnitsa — em condições tão desumanas que a prática do canibalismo chegou a ser relatada. Após dominar completamente a capital ucraniana, os nazistas buscaram restabelecer a infra-estrutura local para abastecer quem estava na ocupação e, com isso, a fabricação de pães tornou-se prioridade.

Um dos responsáveis por comandar uma das principais khlebozavody — que, diferente de ser uma padaria convencional, era uma fábrica de pães — foi o tcheco Josef Kordik. Homem sério e taciturno, só o futebol era capaz de tirar um sorriso do seu rosto, mais especificamente o seu Dynamo de Kiev. Por isso, quando encontrou um maltrapilho Trusevich na cidade, não teve dúvidas em chamá-lo para a “Padaria” nº 3 — até porque o goleiro tinha vasta experiência neste tipo de negócio.

Trusevich havia sido um dos muitos ucranianos que viveram o terror de Darnitsa, mas teve uma surpresa quando chegou ao estabelecimento que passaria a ser, também, a sua casa: a Padaria nº 3 contava com outros diversos esportistas. Ainda que a razão de Kordik fosse mais a vaidade de ter vários de seus ídolos sob o seu comando e convívio diário, o recrutamento acabou por salvar algumas vidas no meio de um verdadeiro inferno.

Vendo naquilo uma oportunidade de salvar seus amigos, Trusevich conseguiu recrutar quase todos os jogadores que permaneceram em Kiev. Nomes daquele excelente Dynamo, como Goncharenko, mas também do Lokomotiv, pois afinal de contas, no meio da guerra não havia espaço para rivalidades clubísticas. Com o tempo, os nazistas passaram a incentivar uma assiduidade maior de eventos esportivos e o futebol voltou a aparecer dentro da capital. Um dos times que nasceram nesse período foi exatamente o da “Padaria” nº 3, que incluía os melhores futebolistas ucranianos possíveis e foi batizado com um nome que simbolizava a esperança de dias melhores e sem a presença alemã: FC Start.

Sorriso, esperança e confiança

“Não temos armas (…), mas podemos batalhar pela nossa própria vitória no gramado (…) Desta vez, os membros do Dynamo e do Zheldor — nome oficial do Lokomotiv à época — vão jogar com a mesma cor. A cor da nossa bandeira. Os fascistas verão que essa cor não pode ser derrotada”, afirmou Trusevich aos seus companheiros.

E assim o FC Start foi ganhando e encantando. Representou o último fio de esperança para um povo que já havia aceitado a derrota, mas que via na força daquele conjunto um motivo para acreditar. As vitórias do FC Start começavam a espelhar a recuperação soviética no front de batalha contra os nazistas e então a ocupação alemã passou a ver o time da “Padaria” nº 3 com maior desconfiança. Era preciso derrubar aquele símbolo que se tornou um talismã ucraniano. Mais importante ainda: fazer isso dentro de campo, em vez de fuzilar os jogadores, pois os germânicos não estariam dispostos a criar mártires.

Para tanto, os nazistas chamaram uma equipe formada, em maioria, por soldados da bateria anti-aérea e alguns membros da Luftwaffe, aeronáutica alemã. Este time era o Flakelf, que no primeiro encontro com o FC Start foi goleado por inapeláveis 5 a 1. Dias depois, a ocupação divulgou a realização de uma partida de revanche a ser realizada no mesmo estádio do Zenit.

O tal Jogo da Morte

Os detalhes desta segunda partida são escassos, inclusive a real escalação do Start. Mas em geral, o time era formado pela seguinte escalação: Trusevich; Sviridovsky e Klimenko; Tyutchev, Putistin, Melnik e Sukharev disputavam três vagas à frente da zaga; Goncharenko, Makhinya, Balakin e Korotkykh; Kuzmenko.

A partida foi apitada por um oficial da Schutzstaffel, conhecida como SS. Na apresentação formal dentro de campo, os ucranianos se recusaram a fazer a saudação nazista — acompanhado do grito de Heil Hitler. O jogo começou duro e com muita violência por parte dos alemães. Ainda nos primeiros minutos, após saída corajosa nos pés do atacante para fazer uma defesa, Trusevich recebeu um pontapé em sua cabeça e passou alguns minutos desacordado. Mas o saldo do primeiro tempo foi espetacular: vitória por 3 a 1, graças aos gols de Kuzmenko e dois de Goncharenko.

No intervalo, segundo a lenda, a alegria dentro do vestiário foi esfriada por um aviso simples: um oficial da SS adentrou em meio ao grupo, fez elogios educados ao bom futebol jogado e indicou que o Start não poderia ganhar aquele encontro. O ato final da partida foi o jovem e habilidoso zagueiro Klimenko passando por toda a defesa do Flakelf, driblando o goleiro e, em vez de chutar para o gol, golpeando a bola novamente para o meio-campo. Após tamanho “insulto”, a partida terminou com vitória por 5 a 3 do FC Start antes de completar 90 minutos.

As conseqüências

Se os cerca de dois mil ucranianos estavam em êxtase nas arquibancadas, os jogadores que vestiam a camisa do Start não demonstravam a mesma alegria, como conta a lenda. Algo estranho, considerando a forma como aqueles companheiros desceram para o vestiário no intervalo. Dias depois, o time da Padaria nº 3 ainda golearia o Rukh — time ucraniano mais voltado para o colaboracionismo nazista — por 8 a 0.

Dias depois, oficiais da Gestapo se infiltraram na padaria de Kordik e levaram os jogadores para interrogatório. Separado do grupo por ser membro ativo da NKVD — precursora do que seria a KGB —, Korotkykh foi torturado e morto. Já os demais seguiram para o terrível campo de Siretz.

À medida em que a Alemanha sofria outras derrotas no conflito bélico, a fábrica de extermínios nos campos de concentração aumentou o seu ritmo. Em Siretz, cada dia sobrevivido era uma vitória e Trusevich se encarregava de ser o capitão espiritual de seus companheiros, lhes passando força e encorajamento. Gritando “o esporte vermelho nunca morrerá”, o goleiro foi executado em uma cerimônia aleatória, que também levou as vidas de Kuzmenko e Klimenko, no dia 24 de fevereiro de 1943.

A história e a lenda

De maneira espetacular, Goncharenko e Sviridovsky conseguiram fugir de Siretz. Os soviéticos retomaram o controle de Kiev no dia 6 de novembro daquele mesmo ano, e, enquanto levantavam documentos para saber o que havia acontecido na cidade durante o período de ocupação, a lenda do FC Start passou a ser difundida, com as histórias heróicas servindo para encorajar os soldados.

Nos anos seguintes, os relatos de quem viu de fato o FC Start foram rejeitados. A história verdadeira era boa, mas a política soviética ainda achava necessário supervalorizá-la. Mais de cinqüenta anos depois, Goncharenko, o derradeiro sobrevivente, deu uma longa entrevista na qual enfim pôde contar uma versão mais próxima da realidade.

Em homenagem aos heróis que se foram — Korotkykh, Kuzmenko, Klimenko e Trusevich —, uma estátua com quatro atletas foi erguida na entrada do Estádio Dynamo, onde a mais célebre equipe de Kiev mandou muitos de seus jogos. Ainda que o mito que cerca o “Jogo da Morte” não seja tão hollywoodiano quanto a lenda, muitas vezes, o simbolismo de um jogo é mais importante do que os fatos.

Jornalista formado na FACHA, acredita que o futebol, além de ser o melhor dos esportes, é palco para grandes lições sociológicas, históricas... e de vida. Árduo defensor de que 3 a 0 jamais será goleada, foi um goleiro promissor e hoje brinca de ser zagueiro esforçado.

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