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A Professzor

Jimmy Hogan, o inglês que ensinou futebol aos Magiares Mágicos

No final do mítico triunfo da Hungria no estádio do Wembley, no que foi a primeira derrota oficial dos ingleses contra rivais continentais nas Ilhas Britânicas, o presidente da federação húngara, Sándor Barcs, declarou aos atônitos jornalistas ingleses que não entendia como eles não se aproveitavam do conhecimento de Jimmy Hogan. Afinal, declarou: “foi ele quem nos ensinou tudo”. Muitos desses jornalistas nem sabiam quem era Hogan. Praticamente desconhecido no seu próprio país, James Hogan era um mito no futebol continental, sobretudo nos países que tinham nascido do antigo império austro-húngaro.

Em 1918, James Hogan regressou à sua Inglaterra natal. Tinha sido um prisioneiro durante a Primeira Guerra Mundial, afortunado, mas prisioneiro de todo modo, e tinha decidido, depois de cinco anos vivendo entre Viena e Budapeste, que era hora de voltar. Apresentou-se na Inglaterra com o intuito de dar forma a uma idéia que tinha trabalhado nos anos anteriores, um modelo de jogo associativo, inspirado nos movimentos coletivos da escola escocesa, para combater o mais físico e vertical jogo das equipes inglesas.

Apresentou-se na sede da Football Association, em Londres, para pedir as duzentas libras que eram entregues aos treinadores ou jogadores que tinham sido feitos prisioneiros durante a guerra. Com despeito, o secretário que o recebeu entregou-lhe um par de meias militares, chamando-o indiretamente de traidor por não se ter alistado no exército para combater nas trincheiras. Insultado, Hogan virou as costas e, com esse gesto, o futebol inglês nunca foi o que poderia realmente ter sido.

Sem conseguir ser contratado por nenhum clube inglês — apesar do seu passado de êxito na Áustria e Hungria nos anos anteriores —, decidiu voltar ao continente onde o seu nome era mais do que respeitado, era reverenciado. Em 1918, assumiu o comando dos Young Boys suíço, mas foi em 1925 o seu regresso a Budapeste, para retomar o comando do MTK Budapeste, que mudou a história do futebol. Hogan tinha treinado o clube durante os anos da guerra. Feito prisioneiro em Viena, no início do conflito, onde se tornou amigo de Hugo Meisl, o célebre dirigente e treinador austríaco que idealizou as grandes competições dos anos 1920 e dirigiu o Wunderteam austríaco dos anos 1930, Hogan conseguiu, com a ajuda de um homem de negócios húngaro, ser transferido para Budapeste. Aí tomou as rédeas do MTK Budapeste, um dos históricos clubes da capital húngara.

Nessa época, havia três pólos fundamentais no mundo do futebol: o platense, nas margens entre Buenos Aires e Montevidéu; o britânico, disputado entre ingleses e escoceses, e o danubiano, num eixo que unia Viena, Praga e Budapeste. Cada um desses pólos tinha um estilo de jogo e uma mentalidade própria. O estilo de jogo “potrero” sul-americano era muito diferente do jogo físico e vertical dos britânicos e, por sua vez, o estilo de posse de bola e de passe curto dos continentais danubianos assumiu-se como o terceiro vértice do triângulo. Como todos os jogadores do MTK estavam na Primeira Guerra Mundial, o técnico foi forçado a trabalhar com adolescentes de 14 ou 15 anos e com eles venceu todos os torneios disputados nesses anos. Quando regressou, sete anos depois, esses mesmos adolescentes se fizeram adultos e, com Hogan de novo no comando, o MTK afirmou-se como uma das grandes equipes da sua geração.

Não só ganhou títulos, como também forjou uma identidade. Vários dos seus jogadores converteram-se em treinadores de elite e espalharam a mensagem de Hogan pelos quatro cantos do planeta, incluindo o Brasil, numa espécie de antecessor daquele Barcelona de Cruyff do início dos anos 1990. Hogan ajudou os húngaros a entender o futebol como algo mais que um exercício físico, enfocando no jogo colaborativo e associativo de toque de bola, de jogo apoiado e passe curto. Os seus jogadores não eram só tecnicamente superiores, como entendiam o jogo como poucos. Graças aos seus ensinamentos — Hogan começava a treinar os mais novos das camadas jovens às oito da manhã e só abandonava o campo de treinos na entrada da noite —, os atletas húngaros se converteram em elite mundial e ninguém ficou surpreendido quando o país alcançou a final do Mundial de 1938, ao mesmo tempo em que vários dos seus emblemas se transformavam em parte da realeza continental, ao disputar e vencer várias edições da mítica Taça Mitropa, a antecessora da Champions League na Europa dos anos 1930.

Hogan, no entanto, era um homem austero e que tinha pouco apetite pela fama, ao contrário dos seus amigos Herbert Chapman, Vittorio Pozzo e Hugo Meisl, com quem partilhou idéias, jantares e memórias. No final dos anos 1930, cansado de estar longe de casa, voltou à Inglaterra, já de forma definitiva. A sua semente, no entanto, tinha sido plantada. Os seus antigos alunos tornaram-se professores e um deles, Gusztáv Sebes, foi o encarregado de forjar a seleção húngara no pós-Segunda Guerra Mundial, já debaixo da alçada de um novo regime: o comunista.

Sebes encontrou uma nova geração de futebolistas que vinham preparados desde a infância nos conceitos de jogo ensinados por Hogan. Os Puskás, Hidegkuti, Kocsis — para não falar de Kubala, já exilado — não tinham conhecido outra realidade de jogo que não aquela que Hogan tanto insistia que se devia implementar no futebol húngaro e, quando Sebes encontrou uma fórmula para os juntar numa equipe temível, o resto aconteceu com naturalidade. Não só a Hungria se tornou a maior potência mundial, como nessa mítica tarde de 25 de Novembro de 1953, humilhou em casa a mesma Inglaterra que décadas antes tinha desprestigiado a figura de Hogan.

O homem, ironicamente, estava nas bancadas do estádio de Wembley, acompanhado por jovens da formação do Aston Villa, onde trabalhava então. Ao ritmo da fria brisa atlântica que serpenteava sobre as bancadas do estádio imperial, Jimmy Hogan pôde finalmente apreciar a amplitude da sua obra-prima. Como um pintor de visita a um museu que expõe a sua obra, a cada movimento, cada troca de bola, cada lance coletivo, Hogan viu na Hungria aquilo que sempre tinha ambicionado para a sua nação natal. O inglês que ensinou os húngaros a jogar futebol pôde ver como os húngaros vinham a Londres ensinar os ingleses. Não há notícias do homem que lhe ofereceu o par de meias na sede da Federação. Não se sabe se está ainda hoje perdido no vácuo gerado por Ferenc Puskás ao driblar com o corpo o mítico capitão inglês Billy Wright. Graças a ele, os jornalistas ingleses não sabiam sequer quem Jimmy Hogan era. Graças e ele, os jogadores húngaros sabiam perfeitamente quem Jimmy Hogan era. O homem a quem deviam absolutamente tudo.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.

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