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Alex

Não foi na primeira vez. Foi na segunda ida a Istambul que se deu a visita ao Şükrü Saraçoğlu, o estádio do Fenerbahçe. Primeiro, a balsa em Kabataş, do lado europeu. A viagem de uns vinte e poucos minutos cruzando o Estreito de Bósforo. Quase sempre cheia, a balsa serve o famoso Çay — um chá, nada além disso, mas numa canequinha peculiar — acompanhado com cubinhos de açúcar, serve como passatempo até Kadıköy. Dali, Kaan conduziu o caminho por dentro de um bairro comercial, de roupas, eletrônicos, até frutas e legumes. Muita gente. Até que, em uma rua já bem mais calma, Kaan mostra uma igreja cristã, segundo ele, católica. Ele diz que lá se respeita a religião alheia, que nenhum jogador tem problemas com isso. Talvez sim, talvez não. O fato é que, cinco vezes ao dia, todos ouvem a oração em árabe em qualquer ponto da cidade.

A caminhada continua, até que se chega a um parque bem bonito. Muitas árvores e flores em pleno inverno. Nem parecia ter nevado tanto nos dias anteriores. A população felina em Istambul é imensa, certamente alguém inventou essa solução em algum momento em que ratos deviam empestear a antiga cidade, mas os gatos viraram as “pragas” e, como são fofinhos, tudo bem, enfeitam a cidade. Kaan se aproximou de um deles, que estava em um banco no Yoğurtçu Parkı, e ao mover a pata enquanto Kaan tirava uma foto com seu celular, o resultado ficou parecendo que o felino fazia uma selfie. A foto rendeu muitos likes no Instagram de Kaan.

Ao final do Yoğurtçu Parkı, um trevo. À direita dava pra ver, do outro lado, o estádio do Fernebahçe, mas exatamente neste trevo uma estátua chamou a atenção. Kaan não falou nada. Torcedor fervoroso do Beşiktaş, fez questão de não mostrar o “ponto turístico”, talvez até por inveja. Mas, pra quem é fanático por futebol, ficava impossível ocultar, seria como ignorar o Cristo Redentor no Rio de Janeiro, a Torre Eiffel em Paris ou o Coliseu em Roma.

Estava lá, Alex de Souza em bronze, como é conhecido o cara. A primeira coisa que vem à cabeça de quem olha, e dada a magnitude do clube, o tamanho da torcida, e toda a história, que talvez seja pouco conhecida: por que fariam uma estátua do Alex? Por mais fanáticos que os turcos sejam, algo diferente ou a mais o cara deve ter feito para conseguir semelhante homenagem.

Vários jogadores conhecidos no Brasil passaram por Fenerbahçe e Galatasaray, mas nenhum tem o respeito dos torcedores do Beşiktaş como Alex. Isso quer dizer muito. Não explica a estátua, mas explica a dimensão da pessoa, do ser humano que transcende o jogador que chegou ao Fener, após altos e baixos e muitas dúvidas. Apelidado de vagalume, por muitas vezes estar apagado em campo e de repente acender uma luz — mágica —, era capaz de decidir jogos, inventar jogadas mirabolantes com dribles, passes ou gols geniais. Mas, quando essa luz não acendia, o apelido vagalume era um pejorativo dos mais cruéis possível. O jogador ficou estigmatizado e certamente a opinião pública influenciou na não convocação para Copas, mesmo quando Alex se encontrava em idades consideradas ideais para um desafio desse porte.

Além do estigma, falta de sorte. Uma transferência frustrada para o futebol que concentrava os melhores jogadores à época também foi determinante na carreira de Alex. Mas jogando certo em campos tortos, o ex-camisa 10 conseguiu retomar seu melhor nível no Cruzeiro em 2003 e, depois, assinar com o Fenerbahçe. A personalidade de Alex chama bastante a atenção. Além de ser respeitado por torcedores rivais, sejam eles de Galatasaray, Beşiktaş, Corinthians, São Paulo, Atlético Mineiro ou Atlético Paranaense, ele tem fala pacata, é consciente da capacidade que tinha enquanto jogador, mas não supervaloriza seus feitos, não sobe em pedestais, nem sente necessidade de elogio ou puxa-saquismos. O contato se deu por Whatsapp, e não foi preciso explicar muito. Ele deu o ”ok” imediatamente, de maneira tão simples como já aparentava ser.

Alex recebeu a Corner no escritório de sua empresa, que cuida de alguns negócios que ele toca, no bairro Batel, em Curitiba. Várias fotos e quadros de sua passagem pelo clube do lado asiático de Istambul decoram a sala comercial. Ele disse não ter mesa, que poderia ser em qualquer uma das três ali. Enquanto preparávamos as lentes, a gravação do áudio e posições, começou o papo meio informal, que virou entrevista naturalmente.

Eu fui em um Galatasaray-Fenerbahçe e você tinha acabado de voltar ao Brasil. Era torcida única e o clima foi péssimo.

Estão acontecendo várias confusões políticas e sociais. As notícias que vêm de lá é que as coisas mudaram bastante. Por exemplo, eu nunca joguei para um público menor do que 30 mil pessoas, a média do Fenerbahçe de 2017 parece que foi menos de 17 mil.

Também fui em um Beşiktaş-Galatasaray, em Atatürk ainda, antes deles inaugurarem o Vodafone Arena, muito vazio, porque estava rolando o sistema Passolïg e o público boicotou.

Público grande no Olímpico tem que ser um baita de um jogo, porque o estádio é muito grande. Eu joguei ali para 25 mil pessoas e parecia que tinha 500, de tão grande que é o campo.

Você é um cara inteligente, que veio de uma origem humilde e não seguiu o padrão de alienação cultural e social dos jogadores. Na Corner #3, falamos com o Bruno Formiga, do Esporte Interativo, que é de família de classe média, que tentou jogar bola e desistiu. Eu também tentei, mas eu quis parar mesmo. Acredita que ainda há um preconceito com aqueles jogadores de condições financeiras melhores, os playboys?

Acho que um pouco menos. Por exemplo, quando eu tinha 12, 13 anos, pra você ter uma chuteira era muito difícil, em 2017 o cara já consegue uma chuteira, tem muito mais opções. Na nossa época, a gente sonhava com a Topper do Sócrates e a Le Coq do Zico, hoje em dia o moleque sonha com a Adidas do Messi e a Nike do Cristiano, só que as empresas são malandras, fazem vários tipos de chuteira e a chuteira que o Messi e o Ronaldo usam não estão no shopping, porque se estivessem custariam três, quatro mil reais.

Já emendando um pouco na questão da tua origem. Você vai se relacionar muito novo com a filha de um ex-presidente. Quantos anos você tinha?

Eu já era profissional quando a conheci, eu tinha 17 para 18 anos. A história é a seguinte, ele foi dirigente em 1994, um diretor de futebol, só que eu jogava no juvenil. Então eu o conhecia, sabia quem ele era, eu conhecia o filho mais velho, que hoje é meu cunhado, que sempre o acompanhava, mas a filha, que hoje é minha esposa, eu fui conhecer em 1995, quando eu subi. O presidente era o Evangelino, era outra diretoria e o clube vivia uma dificuldade financeira grande. Aí surgiu um negócio que eles chamam aqui de triunvirato, eram três empresários. Um era o meu sogro, Edson Mauad, o outro era o Joel Malucelli e o terceiro era o Sérgio Prosdócimo. Em 1995, eles tinham que juntar R$ 400 mil para dar uma amenizada no clube. Nós tínhamos jogadores com sete meses de salário atrasado. Parece pouco dinheiro, mas à época era muito. Aí eles assumiram em uma segunda feira à noite e nos deram cheques, cada um com seu valor, para quitar os débitos. O Evangelino, um presidente histórico do clube, tentou meio que dar um golpe de estado. Quando nós tínhamos o cheque em mãos, o Evangelino voltou depois de ter renunciado. A gente tinha jogo na quarta-feira, em Paranaguá, nossa sorte era essa que o jogo era lá, uma hora de ônibus. Quando veio a notícia que o Evangelino estava tentando voltar porque os jogadores já estavam com os cheques, os três, através do Edson, ligaram para os líderes do time e avisaram: “infelizmente nós vamos ter que sustar os cheques porque o Evangelino deu pra trás e nós não podemos pagar por uma situação na qual nós não vamos participar”. Nisso os líderes do time disseram para não nos concentrarmos e irmos para casa. Então treinamos na terça, teoricamente concentraríamos e iríamos para Paranaguá. Não fomos. Na quarta de manhã aquela loucura, começam a ligar pra todo mundo. “Tem que vir, tem que viajar”. Era uma época que não tinha celular, não tinha telefone na minha casa, então tinha que ligar para o vizinho, para o cara do bar, para passar o recado. Voltamos para o Couto às 10 horas da manhã, nos apresentamos e fomos para Paranaguá. A partir daí, eu começo a conviver com o Edson diariamente, ele como meu diretor de futebol, e então eu vou conhecer o restante da família ao longo daquele ano. Começo a namorar minha esposa dois anos depois disso.

Obviamente, a família do Edson tinha muito mais condições do que a sua. Qual foi a importância disso para o seu crescimento cultural e intelectual?

O meu crescimento cultural inicia antes, quando eu chego no Coritiba, em 1987, eu tinha nove para dez anos e não existia torneio pra eu jogar. Em 2017 tem até mais opção, mas os torneios na época começavam aos 12 anos. Uma categoria que em alguns lugares chamam de mirim e aqui em Curitiba chamam de cobrinhas. Um jornalista antigo fazia o “torneio de cobrinhas”. O treinador do Coritiba, o Professor Liro, também era funcionário do Banco do Brasil. Ele já tinha relação com vários jogadores mais velhos do que eu que ele tinha acompanhado no Coritiba e acompanhava na AABB [Associação Atlética Banco do Brasil]. Inclusive o Pachequinho, que foi treinador do Coritiba, era um deles. Eu passo na peneira que tinha 300 moleques — porque naquela época você pegava o ônibus, batia na porta do clube e treinava —, eu treinei e ele gostou. “Você joga direitinho, senta aqui e depois a gente conversa”. Fiquei lá sentado esperando a conversa. No fim do treino, ele disse que ia me colocar no carro e me levar pra AABB. Eu disse que não poderia, porque só tinha dinheiro para ir dali para casa. Meus pais iam ficar preocupados porque, teoricamente, às 18:30 eu estaria em casa e já eram 18 horas. “Não, não, fique tranquilo. Eles vão se preocupar um pouquinho, mas depois do treino da AABB eu te levo embora”. Fomos para lá, começamos a treinar. Ele que me apelidou de Pachequinho, ele me apresenta para o futsal dizendo “esse é o último dos Pachecos”. A família Pacheco eram seis irmãos, cinco meninos e a Michele. Eu seria o último dessa família de atletas. O mais velho jogou, o segundo também jogou um pouquinho, mas o restante todos jogaram, jogaram em Pinheiros, Coritiba. O Pacheco jogou muita bola e virou treinador. Eu fui jogando e eu joguei com todos eles, depois, ao longo do período na AABB. Eu só não joguei futsal com o Pachequinho, mas eu joguei com ele no próprio Coritiba. Então essa diferença começou aí porque eu morava na periferia, aquele mundo periférico que a gente conhece, a molecada jogando bola na rua descalço na rua, no terrão batido, aquela mistura entre o que é legal e o que é ilegal entre as pessoas no jogo do bicho, que pra uns é bandidagem e pra outros é só uma transgressão de regras. Ao mesmo tempo, na AABB eu vivia com filhos de político, de médico, de advogado e com professores. Ali eu fui aprendendo, até por interesse próprio, — eu digo que sou autodidata por isso —porque em vários momentos eu errei e eu era chamado atenção dessa forma: “futebol não é a tua solução de vida, pode ser um caminho para que você encontre outras coisas, mas a tua solução de vida é o aprendizado, é teu entendimento de como a vida acontece, é ter um crescimento cultural”. Quando eu chego com 17 anos e começo a jogar no profissional, conheço a minha esposa, Daiane. Aí é óbvio, começo a conviver mesmo em dois mundos diferentes. Vivia na periferia com a minha família e vivia na classe A enquanto namorado dela. Depois a coisa seguiu, porque o futebol te abre essas portas, você faz as suas opções, mas o meu início começa com a AABB, se eu não tivesse tido a AABB talvez o meu segmento fosse um pouquinho diferente.

O Vinícius Júnior recebeu uma proposta do Real Madrid aos 16 anos e há aquela discussão, se tem ou não tem que ir, tem que vender ou não, não é bom pra ele. Ele foi a maior venda do futebol brasileiro até 2017, porque o Neymar saiu consagrado, campeão da Libertadores e o que ficou para o Santos é quase nada. Já o Flamengo recebeu o dinheiro praticamente integral. Claro que é complicado você falar como era com 16 anos, o que você pensaria, porque era um outro mundo, não tinha essa chegada de um clube gigante como o Coritiba. Você entende a decisão dele por essa questão da carreira de jogador ser curta, não ser um caminho muito certo? Como você a encara?

Eu acho isso muito individual, particularmente não julgo o Vinícius, nem ninguém. As pessoas dizem “fulano é louco, foi para a China”. Cara, a decisão é dele, sentou ali com a esposa, com os pais ou com quem quer que seja ao redor dele e decidiu. Eu posso falar hoje, por exemplo, porque minha carreira já acabou e eu tive e tenho total consciência de que eu poderia ter jogado uma Copa do Mundo, mas eu olho para trás e não me faz falta nenhuma. Isso é a pura realidade, não diminui a minha história. Saio na rua e sou reconhecido pelo que eu fiz, nos clubes que joguei e na própria seleção, quando eu tive a chance. É óbvio que você tem esse sonho. Vai acontecer? Não sei. O menino foi para o Real Madrid, ele vai ser gigante lá? Vamos torcer que seja, mas talvez não aconteça, não dá pra saber. A decisão é muito individual, mas a gente enquanto ser humano tem esse poder de ficar discutindo uma situação, porque você não está inserido no contexto. Você não conhece os valores, você não conhece o desejo, você não conhece o sentimento daquele menino, nós não sabemos como o Flamengo o tratou nesse período todo. Então pra mim a decisão é muito individual, daquele indivíduo que está ali, vai sentar com seus pares, com quem ele acredita e ali ele toma a decisão. Eu, quando saí do Coritiba, era o maior salário do clube e fui para ganhar metade no Palmeiras. Ganhava 25 mil e fui para o Palmeiras ganhar 13 mil. Na época, eu tinha na minha frente, com meu sogro, que era o diretor de futebol, — essas coisas também são loucas — propostas do Corinthians e do Palmeiras e eu tinha que fazer uma opção. Por grandeza, dá no mesmo escolher Corinthians ou Palmeiras. É óbvio que o momento do Palmeiras naquela época era melhor, quem lembra do Corinthians antes de 1998 vai lembrar de um time muito mais confuso do que é hoje. A minha proposta era do Excel pelo Corinthians, e da Parmalat pelo Palmeiras, mas eu não fiz a opção pela Parmalat em detrimento da Excel, eu fiz a opção pela parte técnica. Quando eu olhava o Corinthians, e eu sou de uma família corintiana, era um Corinthians brigador, lutador. Existia essa idéia do corintiano sofredor e maloqueiro, eu cresci ouvindo isso. A forma como eu jogava se encaixava muito mais no que o palestrino gostava, eu tinha isso comigo. A outra coisa que pesou é que os meias do Palmeiras eram Rincón, Rivaldo e Djalma. Os três estavam indo embora. O Palmeiras, quando veio me comprar, disse que a idéia era fazer um time novo para que nesse período a gente seja campeão da Libertadores, o que não conseguiram no período do Luxemburgo, 1993/94, quando o Palmeiras encontrou aquele São Paulo absurdo. Em 1996, o time se desfez quando perde a final para o Cruzeiro. Ali se destrói esse sonho de Libertadores, tem que recomeçar o negócio, então o Brunoro me vende a idéia que eles estavam trazendo um treinador que conhece a Libertadores, o Felipão, que estava vindo do Japão e “nós estamos contratando jogadores já reconhecidos e jovens jogadores”. Eu entrava na sacola dos jovens jogadores. “Mas o que a gente tem pra te pagar é isso aqui”. Eu olhei o contrato e fiquei imaginando o que acontecia. Já jogava na seleção de juniores, que seria basicamente o time das Olimpíadas de Sidney, em três anos. Então eu pensei que o caminho era jogar no Palmeiras, o resto era comigo e com meu trabalho. A minha opção foi feita em cima disso.

A gente estava falando do Vinícius Júnior, uma coisa que eu condeno muito e você disse que tinha teu sogro, que te assessorava muito nisso, mas é uma coisa que é muito endemoniada, que é a questão do empresário iludindo um atleta. Um caso é o do David Neres, que foi pro Ajax, ele sabe pra onde ele está indo, ele não vai ser iludido que está indo pro Real Madrid e chegar lá é outra coisa…

O que ele vai se assustar um pouco é que o nome do Madrid é muito diferente do Flamengo. Isso é um fato. Não porque o Flamengo é maior que o Madrid, mas pela condição do que o Real Madrid disputa.

E tem um pouco a ver com a questão que a gente falou no começo da chuteira, hoje é um mundo que você tem noção da dimensão do Real Madrid, não tem aquela coisa de estou indo para a Europa, você sabe para onde está indo.

Você pode não saber para onde está indo quando é um time menor, mas quando é o Real Madrid, que está na televisão toda hora, aliás, se você quiser, hoje você sabe muito mais de futebol através do Playstation do que propriamente pela televisão.

Você falou da sua passagem pelo Palmeiras e falou de Olimpíada.Tem um episódio muito estranho na tua carreira, que é aquela ida para o Parma que não se concretiza e você vem emprestado ao Flamengo. Eu soube de uma história de um preparador físico da época, que me contou um episódio seu, já no Cruzeiro, quando vai jogar aquela final da Copa do Brasil, em 2003. No saguão do hotel, o Walter Joaquim, diretor, vem até você e diz “ô, rapaz, está chateado comigo?” e você esbraveja porque parece que ele foi um cara que te traiu muito no Flamengo.

Não me traiu, só acho que ele não trabalhou direito. Ele vendeu para a torcida uma idéia errada do que tinha acontecido. A história era muito simples: o Flamengo fez uma promessa e não cumpriu. É óbvio que eu tenho a minha parte de culpa nisso, não me dediquei como deveria, mas depois ele vendeu que eu não queria ter ficado no Flamengo. Aí já era 2003, porque eu estava no Cruzeiro. Mas não tenho nada contra ele, pelo contrário, porque ele me ensinou indiretamente o valor do trabalho e, infelizmente, no Flamengo ninguém trabalhou. Desde o presidente até lá embaixo, ninguém queria nada, inclusive nós jogadores. Então, pra mim, são três meses que me entristecem, porque a marca Flamengo é gigante, o Flamengo é absurdamente gigante e eu senti isso de dentro. Eu cheguei em setembro e fiquei até novembro.

Eu lembro dos dois melhores jogos seus: um contra o River na Argentina e o Corinthians.

Esse já é o final, River é o antepenúltimo jogo, o Corinthians o penúltimo. Eu já estou adaptado ao esquema, como ele funcionava. Eu acho assim que, sem medo de errar, se eu fico para 2001 com aquele time que foi tri-carioca, eu ajudaria, como ajudei em outras equipes que passei. Só que eu entendi que não estava nem legal para o clube e nem pra mim.

Era uma época de investimentos escusos, do investimento da ISL. Eu quero voltar para a questão do Parma, porque você ainda estava vinculado ao Parma naquela época, certo?

Sim, eu fico vinculado ao Parma até setembro de 2002

Aí você vai então do Cruzeiro para o Fenerbahçe?

Isso, em 2004, mas aí eu já era jogador livre do Parma. A minha história com o Parma é assim: eu sou contratado em 2000, na época ainda existia a história dos 15% de direito do atleta.

Você falou uma vez, no Bola da Vez, com uma naturalidade muito grande sobre essa operação financeira.

Essa parte é bem simples e muito complicada, na verdade [risos]. Eu fui contratado pelo valor de US$15 milhões — uma suspeita que eu tenho é se o Palmeiras recebeu esse dinheiro, eu sou sincero, não sei se recebeu. Desse valor, eu tinha direito a US$ 2,25 milhões. Quando eu vou assinar o contrato, eu tinha um contrato de 7 anos, de 2000 a 2007, o Parma me faz a seguinte proposta: “Alex, você tem um contrato longo e as nossas possibilidades são te pagar os 15% em três vezes”. Concordei, eu não sou um cara muito apegado a dinheiro, mas é óbvio que o que é meu, é meu, mas não precisava que me dessem o valor na hora. Eu acerto com eles: R$ 750 mil na assinatura do contrato, R$ 750 mil em abril de 2001, alguns meses depois, e a outra parte em outubro de 2001. Ao aceitar, eles falam que tem um problema. “Nós não queremos pagar nem no Brasil e nem na Itália, nós queremos pagar no Uruguai, em uma offshore”. Eu falei que não tinha problema nenhum, liguei para o meu advogado, um tributarista que cuida das minhas coisas, ele me disse: “Alex, nós abrimos uma offshore no Uruguai, você recebe lá, traz para o Brasil esse dinheiro, paga os impostos brasileiros que tem que pagar e teu dinheiro está quente, não tem porquê esfriar um dinheiro que é quente”. Eu peguei o dinheiro no Uruguai, trouxe para o Brasil, paguei os impostos brasileiros e segui minha vida. Quando eu chego no Parma, eu acho estranho, não tem ninguém para me receber, não tem nenhum fotógrafo, ninguém da imprensa. Penso que alguma coisa está errada, eu joguei Brasil e Argentina 20 dias antes, pelas eliminatórias da Copa. Não foi um Brasil e Argentina qualquer. E joguei bem, fiz gol e participei. Eu era um jogador importante do Palmeiras, que tinha acabado de ser vice-campeão da América, nós brigamos pelo bicampeonato da América com o Boca Juniors e perdemos. “Não tem ninguém aqui, é muito estranho”. Aí tinha um funcionário do Parma, que nos pegou em Milão e nos levou a Parma, quando começa uma discussão. Nessa época, nós nos preparamos — quando digo nós, é a minha esposa e eu — , estudamos italiano, aquela coisa toda para não chegar no escuro. Já existia essa negociação com o Parma por uns oito meses e não era um Parma qualquer, era um Parma campeão da UEFA, era um time que brigava entre os quatro primeiros nos anos anteriores. Fomos nos reunir com o presidente do Parma, o Stefano Tanzi, e dois dirigentes. “Você tem que jogar no Verona, porque aqui não cabe você, já temos muitos estrangeiros”. Eu respondi que jogaria onde eu achava que tivesse que jogar. Disse não ao Verona, eles me ofereceram o Napoli, porque “napolitano gosta de sul-americano” e eu disse não, o Napoli estava na série B naquela época. O Abel estava no Olympique de Marseille, então perguntei se poderia ir para lá e não deixaram. Então eu falo com alguns brasileiros que estão no La Coruña, como o Mauro, o Nonato e o Djalma. O Rivaldo estava saindo pro Barcelona e eu ainda brinquei com os caras “posso fazer um caminho natural, o Rivaldo saiu do Palmeiras e eu cheguei, aí ele saindo do La Coruña, de repente eu chego”. Eles rejeitaram. Nisso, o Eurico Miranda estava na Europa atrás de um meia pra jogar no Vasco. O cara que cuidava das minhas coisas era carioca, entrou em contato com o Eurico, ele se interessou na história e o cara do Parma vetou, porque o Vasco devia alguma coisa relacionada ao Júnior Baiano. Tinham uma dívida entre eles e o cara não quis nem receber o Eurico, então a história do Vasco ficou para trás. Como as histórias vão acontecendo, surgiu o Flamengo e eu acabo acertando por empréstimo até julho de 2001. Estava o maior vespeiro no Flamengo, chega em dezembro o Palmeiras me liga e fala “Alex, tem a Libertadores, quer jogar?”. “Pô, mas tem um problema eu tenho vínculo com o Flamengo e vínculo com o Parma”. Mustafá falou “você se acerta com o Flamengo e eu me acerto com o Parma”. Liguei paro o Edmundo e falei “olha, não foi legal para ninguém, nem para vocês, nem para mim” e ele na hora disse que não tinha problema, “mas pra você sair, tem que abrir mão de R$ 100 mil”. “Pode fazer a rescisão aí que a gente acerta”. Rescindi com o Flamengo e voltei para o Palmeiras, emprestado até o mesmo período que era com o Flamengo, julho de 2001. Em abril de 2001, começa minha briga com o Parma, que eu vou cobrar a dívida da segunda parcela dos 15%. “Não, a gente não deve nada para você”. “Como não deve nada?”. “Se quiser alguma coisa, que vá brigar pelos seus direitos na Justiça”. Estranho, né? Eu tenho contrato de mais cinco anos e meio, eles me devem e não querem me pagar, e depois falam que não devem nada. Eu discuti com a minha mulher, discuti com os advogados, com o contrato na mão deles. “Alex, é uma multinacional, é uma empresa forte no Brasil, a Parmalat, é um clube forte na Itália, você pode de repente acabar com a sua carreira, vamos fazer um acordo”. Não quis acordo. “Vamos pro pau”. Quando eu fui para a Justiça, chega julho de 2001 e vence o meu contrato de empréstimo com o Palmeiras. Era para eu me apresentar na Itália, eu não me apresento e acerto com o Cruzeiro, de agosto de 2001 a julho de 2002, sob uma liminar da Justiça do trabalho. E jogo o Brasileirão de 2001 nessa: quando eu vou entrar em campo, a minha liminar é cassada, e volta e tem que pegar outra liminar. Nesse período foi assim, eu vindo para Curitiba discutir no fórum, indo para Brasília discutir no fórum lá, discutindo na Suíça, na FIFA. Chega em dezembro, eu sou suspenso pela FIFA, por contrato duplo com o Cruzeiro e com o Parma. Eu procuro um advogado no Rio de Janeiro, chamado Marcos Motta. “Alex, na verdade eles não estão te suspendendo, eles estão provocando um encontro entre você e o Parma para resolver essa situação”. Eu sento e explico para o Cruzeiro a situação. “Você pode ficar aqui, você tem contrato até julho e a hora que puder jogar você joga, você segue com a gente”. Só que, para a minha surpresa, eles marcam a audiência com o Parma em Zurich, na FIFA, dia 22 de janeiro de 2002. No dia 4 de janeiro, quando eu vou me apresentar, eu sou mandado embora pelo telefone. Eu estava no aeroporto e o Maluf me liga. “Não se apresenta porque o Marco Aurélio não te quer mais”. “Como assim não me quer mais se há dez dias ele me confirmou que eu participaria? Eu fiquei de férias, não fui atrás de nada, porque eu estava tranquilo que ia ter seis meses para jogar”. Não faço a pré-temporada de 2002 e vou para a FIFA, discutir com o Parma a situação. Até aquele momento, em todas as audiências com o Parma na Justiça comum brasileira, o Parma não reconhecia a dívida. Eles diziam que tinham um documento, no qual eu abria mão dos 15%, que na verdade eu queria a minha liberdade, não queria dinheiro, e eles tinham um documento. Ou seja, o Parma falsificou um documento meu. Veja como a situação foi tão ridícula: o Parma, através da Parmalat brasileira, forjou um documento assinado em Jundiaí, em uma data que eu estava em Montevidéu, com a seleção brasileira jogando as eliminatórias. Teve uma hora, em uma audiência, que o negócio começou a ficar pesado, discussão feia mesmo, até que o juííz deu cinco minutos para o cigarro, café, para um momento de relax. Os caras saíram e ficamos na sala eu, um escrivão e um advogado do Parma. O advogado vira e fala assim “você sabe quem eu sou?”. “Eu quero que você e qualquer um vão para a puta que pariu. Quero que você, em um bom português, se foda”. Ele virou pro escrivão e perguntou se ele estava ouvindo o que estava falando. O escrivão responde que sim. Aí eu viro para ele e falo “você sabe onde você está? O bairro que você está?”. A gente estava em Colombo, cidade em que eu nasci. “Você sabe o que as pessoas fazem aqui por R$ 50?” “Você está me jurando de morte?”. “Só estou perguntando se você sabe como a vida funciona fora desse seu mundinho ridículo que você vive, você está achando que você é alguém, só porque é advogado desse ou daquele”. O cara levantou e falou que eu era um moleque. “Senta, porque se não eu vou te arrebentar na porrada, vou perder minha educação e o respeito por um senhor como você e vou te matar aqui no soco, porque a minha paciência com você já está chegando no limite”. E o escrivão de braços cruzados, só olhando… [risos]. Aí chegamos na FIFA, em 22 de janeiro, o Arrigo Sacchi já estava no Parma. Ele não tinha participado de nada. “Alex, a gente reconhece a dívida, mas o Parma está quebrado”. Já era a Parmalat indo à bancarrota. “Então vamos fazer um acordo. Eu tenho um lugar para você jogar agora, que é na Udinese, ou você prefere jogar no Brasil?”. Peguei o telefone, liguei para o Brasil para falar com o Felipão, que era o treinador da seleção. “Prefiro que você jogue no Brasil, até mesmo porque a Udinese vive um momento complicado e vai ser mais difícil para eu te observar”. Nisso tinha um pessoal aqui no Brasil mexendo para eu jogar em algum lugar, eu pego o telefone e ligo para o Luxemburgo, que era o treinador do Palmeiras. “O que você pode fazer por mim?”. “Pode vir para o Palmeiras”. Cheguei no Palmeiras, fui conversar com o Mustafá, ele me ofereceu um salário baixinho, mas eu aceitei, porque preciso treinar e jogar. Já era janeiro de 2002. Fecho com o Palmeiras até o fim da Copa do Mundo, quando meu acordo dizia que eu tinha que me apresentar na Itália. Jogo o Rio-São Paulo e o Palmeiras caiu no fatídico regulamento dos cartões [risos]. Foi o ano do gol do Rogério Ceni, em que nós fizemos a semifinal com o São Paulo. Empatamos o jogo e nós empatamos em todos os critérios. O Galeano fez uma falta, tomou cartão e o Morumbi veio a baixo, parecia que eles tinham feito um gol. “Que loucura, a gente vai cair por causa de um cartão”. Era um negócio assustador [risos]. Aí estamos fora e a Seleção seria convocada na mesma semana. Saiu a lista e eu não estou. “Não tenho mais o que fazer, Vanderlei, eu não estou na Copa e vai ter esse tal de Super Campeonato Paulista só para encher o calendário. Eu vou ter que me apresentar na Itália e eu acho melhor a gente parar por aqui”. “Eu também acho, não tem muito mais o que você fazer aqui, você não vai ter nem motivação para treinar”. Procurei o Mustafá, contei a história, nós rescindimos o contrato, que tinha mais 40 dias, e vim embora de férias, que era o período da Copa, para eu me apresentar na Itália depois. Acaba a Copa, eu me apresento e começo a treinar com os caras.

Sete de março de 2002, você se lembra do que aconteceu nesse dia?

Dia 7 de março, para mim, em termos de futebol é um dia fatídico. A gente jogou no Mato Grosso com a Islândia. Eles eram um time semi-profissional, uns gordinhos e tal. O Felipão me chama um dia antes. Eu estava no quarto e ele me tira de lá, porque ele queria falar sozinho com o Kleberson. Depois ele chama no corredor Edilson, Vampeta e eu. “Vou conversar com esse pessoal que eu não os conheço, é importante que eu os veja, vocês eu já conheço há um certo tempo, já estamos nessa há um tempo maior. É só para vocês saberem”. E esse pessoal que ele dizia era Kleberson, Kaká, Gilberto Silva, Anderson Polga, era um pessoal que estava estreando na seleção brasileira. Aí todo mundo joga, todo mundo faz gol. Foi uma festa, 6 a 1, se eu não me engano. Kleberson fez gol, Kaká fez também. Estamos no aeroporto. Vem o Mauro Naves e dá uma entrada no Jornal da Globo. Eu lembro disso até hoje, estou sentado ao lado do Vampeta e o Mauro Naves diz, “Kleberson, Anderson Polga, Kaká e Gilberto Silva carimbam o passaporte para a Copa do Mundo”. O Vampeta virou para o Mauro e disse “Mauro, você tá louco?”. “Não estou louco, realmente eles carimbaram. Eles vão para a Copa do Mundo”. “Não é possível, Alex”, me falou o Vampeta. Eu disse, “Nós não podemos falar nada, nem que ele está certo e nem que ele está errado. Ele não vai chegar aí e ficar chutando alguma coisa, se ele está falando, alguma coisa tem”. Aí passa o tempo, vem o dia 20 de março, uma quarta-feira. Na semana seguinte tem convocação da Seleção para o jogo da Arábia Saudita e eu não sou convocado. O Felipão usa uma frase — eu não sei se é pesada ou infeliz. Os repórteres questionam a minha não convocação, pois o gol do Rogerio estava latente. E não era só o gol, eu estava jogando bem. “Se eu convoco, é meu queridinho, se eu não convoco, vocês questionam”. Achei estranho o tipo de resposta. É óbvio que ele é grosso e bruto, mas o tom da resposta eu achei meio estranho. A convocação sai, eu não estou, rescindo com o Palmeiras e acabo voltando para a Itália. Só que na Itália eu volto muito mal, porque eu fico mal de não ter ido para a Copa do Mundo.

O Felipão justifica que o Ricardo era um segundo homem. Ele foi até coerente nessa defesa, mas a incoerência é ele ter levado o Juninho Paulista, que ele escalou como um cara recuado, sendo que ele era um cara avançado.

Mas eu aprendi, ao longo dos anos, que futebol não tem coerência. Futebol tem preferência, você prefere alguém.

Levar o Kaká e não te levar pode fazer sentido, até porque ele é um cara mais agudo, mas o Juninho [Paulista] era um cara de posição bem ofensiva e ele recuou o cara.

Faz sentido quando você quer dar uma resposta e quer justificar, você arranja resposta. Isso é o de menos.

Se ele chegasse para você e falasse: “eu preciso que você jogue aqui de trás…”

Eu já tinha jogado com ele assim algumas vezes. Comigo ele podia fazer o que quisesse. Ele mexeu comigo no Palmeiras em várias posições durante três anos. Eu fiquei mal pela razão profissional da Copa e com uma situação pessoal. A minha esposa estava grávida e perdeu o bebê. A história é muito louca. Sai a lista da convocação, eu rescindo com o Palmeiras e volto para casa. Quando eu chego no meu apartamento, minha mulher, “pelo menos eu tenho uma notícia boa para te dar, eu estou grávida”. Foi aquela festa toda. Uns nove meses antes disso, ela tinha tido um aborto natural. Aí ela fica grávida. A gente ajeita as coisas, eu saio de São Paulo, volto para Curitiba e, quando eu estou chegando em Curitiba, a gente resolve esfriar a cabeça e sumir da cidade. Nós vamos para um resort lá na Bahia. Passamos uma semana e voltamos, porque ela tinha que fazer um exame, e aparece que o feto estava morto. Outro aborto espontâneo, só que daquela vez é mais difícil. No outro, ela teve um sangramento e eliminou a gravidez, nesse não. Dessa vez, tinha que fazer um procedimento de curetagem. Eu estou acompanhando ela na curetagem e vem a notícia de que o Emerson foi cortado. Eu já não tinha mais esperança nenhuma. Ela volta para casa e continua com dor, então nós voltamos para o hospital. A doutora diz que tinha ficado algum resquício e que teria que refazer o procedimento. Ela refaz e dorme. Aí vem a notícia de que o Ricardinho é convocado. Eu penso que é o do Cruzeiro, volante igual ao Emerson, e que foi o capitão do Felipe no Cruzeiro. Vou saber que é o Ricardinho do Corinthians uns dois, três dias depois. Então foi assim que eu recebia a notícia. Fiquei muito mal. Fui pra Itália gordo, acima do peso. Pipoca e sorvete era um negócio assustador. Cheguei no Parma no peso que eu estou hoje. Depois de parar de jogar bola, eu jogava com 76, 77 kg e cheguei lá com 85 kg. Eu começo a treinar e fazer a pré-temporada, mas já sabendo que a qualquer momento o Parma ia rescindir, porque eu estava conversando com o meu pessoal para rescindir. Até que um dia o Arrigo Sacchi oficializou. “Alex, não dá para te manter no time”. Porque eu tinha um salário de 2000, quando o Parma tinha Buffon, Thuram, aquele pessoal todo. Para um Parma novo, com a Parmalat na bancarrota, eu tinha um salário altíssimo para um time de salários menores naquele momento e eu nem ficava entre os 18 [relacionados]. Quer dizer, eu não treinava, o treinador não me deixava treinar e aí eu senti que os caras ficavam me sacaneando. Eu aqueci em um amistoso, contra o Celta de Vigo, do minuto 30 ao minuto 95, e quando dá 95 ele me chama, na hora que eu vou entrar o árbitro acaba. Pô, tá de sacanagem. O treinador era o Cesare Prandelli. Ele foi muito honesto comigo. “Alex, se dependesse de mim, você jogaria”. E então ele aponta para a sala dos jogadores. “Eles não permitem que você jogue”. Os caras falavam que eu não ia jogar no Parma. “Mas vão me pagar mensalmente. Eu vou ficar aqui cinco anos e meio enchendo o saco de vocês, mas eu não vou abrir mão de nada”. Chegou uma hora que eles propuseram a rescisão. Na Itália, na época, eles tinham um lei que era assim: se propõe a rescisão, você é obrigado a pagar 50% do valor. Por exemplo, se eu proponho que quero sair, eu pago para o clube, como o clube que me propôs, eles tinham que pagar 50% do que eles me deviam. Nós estamos falando de 2002, faltavam cinco anos de contrato. Ao chegar em um valor de 38, 40% eu falei “pega esse dinheiro e vamos recomeçar do zero no Brasil”.

Quando houve a possibilidade do São Caetano?

Foi justamente nessa época, setembro de 2002.

Agora, dando um passo atrás, como foi a ansiedade para jogar na Europa?

Eu sinceramente não tinha nenhuma. Eu entendia como um processo natural. Todos saíam da Bahia, de Curitiba, do Recife e iam para o Rio, para São Paulo e para Minas, para depois seguir um caminho para a Europa. Acreditava que a minha história no Palmeiras tinha sido muito legal. Participei do time que ganhou o maior título da história do clube. Todos estavam seguindo esse caminho, era a hora de eu seguir esse caminho também. Durante um ano e meio se falava em Paris Saint-Germain e eu gostava da idéia de jogar no Paris. Acabou não acontecendo. Quando vem o Parma, que já tinha uma relação através da Parmalat, eu falei “chegou a hora, vamos jogar lá, vou me testar lá na Itália. Vamos ver o que tem de diferente, vou viver algo diferente”.

Parecia um cenário perfeito, por isso que eu falo que deve ter gerado uma expectativa, porque você falou que estudou italiano e essa expectativa, mesmo que seja um processo natural, você fica pensando como é que vai ser lá, como eu vou jogar, porque a Série A era a Premier League da época. Eu digo isso no sentido do desafio, no sentido positivo.

Quando eu chego no Parma, o meia era o Morfeu, talento puro, e o cara jogou na Série A.

Eu quero contrastar: isso, essa sua expectativa versus essa depressão que você passou, de não ter ido para a Copa. Essa questão de justiça, do lado humano.

Eu, enquanto ia para a Justiça cheguei a imaginar que a minha carreira pararia por ali. Volto para o Brasil e ninguém quer me contratar, nem o Palmeiras, que era o meu último clube, ninguém. Surge o São Caetano dando um bom dinheiro. Era o clube do momento, que estava fazendo bons times. Eu sento com o seu Juan Figer, que era quem cuidava das minhas coisas. Ele liga pro Mário Sérgio e põe no viva-voz. “Estou aqui com o Alex. O Saul [dono das Casas Bahia] quer contratar ele, mas você, que é o treinador, você que escala, o que você acha?”. “Gosto do Alex, é bom jogador, mas não se encaixa no que eu quero, não. Eu estou jogando com duas linhas de quatro, dois centroavantes lá dentro e não vejo o Alex nesse time. Aqui funciona assim, assim e assim. Eu treino muito, concentro muito, a gente treina distante em uma cidade chamada Mauá”. Ele pintou um quadro assim, no qual ele falava “Alex não vem, não vem que é furada”. Essa história do Mário pesa, mas eu fui jantar com o Arce nesse dia e aí o Arce comentou algo. “Alex, você iniciou no Coritiba, veio para o Palmeiras, chegou na seleção brasileira e foi para a Europa, voltar para o São Caetano é um retrocesso? Teoricamente não, mas ficar no banco do São Caetano, jogar pouco e de repente acontecer de você ser mandado embora do São Caetano, como você foi do Cruzeiro, é um desastre. Você ser mandado embora do Cruzeiro é uma coisa, você ser mandado embora do São Caetano é outra. Porque o São Caetano está se notabilizando por ser um time de jogadores de menor porte e de recuperador de outros jogadores, se você vai para o São Caetano e se recupera, ótimo, mas se você vai para o São Caetano e fracassa, provavelmente a sua carreira para por aqui”. Nisso surge o Grêmio e surge o Cruzeiro.

Você fala no livro que as propostas de Grêmio e Cruzeiro eram idênticas, e isso me chama a atenção. Voltando até naquele aspecto que você falou até com naturalidade da offshore, eu gostei da forma como você aborda isso. As propostas são idênticas. Me incomoda muito esse discurso sempre pronto e você sente que ninguém quer falar da questão financeira. Eles colocam em último lugar, como se não pesasse. Falam que é pelo projeto ou isso ou aquilo.

Eu falo com naturalidade, porque, por exemplo, jogadores do meu nível — é óbvio que eu não estava jogando bem, faziam cinco meses que eu não jogava, meu último jogo tinha sido Palmeiras e São Paulo, o dos cartões e aí fiz dois, três jogos de pré-temporada no Parma— , mas os jogadores do meu nível ganhavam mais de R$ 200 mil reais, na época. Tanto o Grêmio, quanto o Cruzeiro, me ofereceram R$ 50 mil e mais nada. Não tinha bonificação. Era uma proposta muito simples: R$ 50 mil, se quiser, é isso. E eu estava muito puto com os Perrella. Não queria ver a cara dos Perrella, porque por mais que o Marco Aurélio tenha me mandado embora, que era o treinador, você tem que ter o aval de quem manda. Tem uma coisa que me chamou muita atenção. Uma vez entrevistaram o Alvimar Perrella e ele disse que eu fui embora por deficiência técnica. Brinquei com os meus amigos: “qualquer coisa menos deficiência técnica” [risos]. Posso estar com 90 kg que eu vou dominar e endereçar a bola, condição técnica eu sempre vou ter. Ele pode inventar um milhão de desculpas para ter me mandado embora, mas deficiência técnica não. Conversei com o Tite, que era o treinador do Grêmio, e conversei com o Vanderlei. “Vou pro Grêmio”. A minha mulher falava “vamos racionalizar a coisa, você quer ir para o Grêmio por quê?”. Eu só falava do conceito fora do campo, porque a família da minha esposa é de Porto Alegre. “Mas nós estamos falando de futebol, você tem que imaginar com quem você vai jogar melhor. Com o Tite ou com o Vanderlei?”. “O Tite eu não conheço, não tenho nem idéia de como joga o Tite”. Nisso vem o Seu Juan e me entrega a classificação, elenco, como que está, como não está, fala de um, fala de outro, perspectiva… O Vanderlei me liga e foi honesto. “Alex, ninguém te quer aqui, nem diretoria, nem torcida, nem jogador”. Tentando me convencer, ele me mandou uma pesquisa da torcida: 85% não queria que eu voltasse. “Mas a minha idéia não é 2002, é 2003. Em 2002, nós estamos tentando ajeitar o carro, está em movimento, talvez a gente possa classificar, talvez a gente possa cair” — era um Vanderlei muito consciente —, “mas eu imagino um time com um esqueleto e o último ossinho do esqueleto é você, de meia”. “Seu Juan, eu vou para o Cruzeiro porque eu confio no Vanderlei”. Assino contrato até dezembro de 2002, o Cruzeiro fica em nono, quase classifica entre os oito. Jogo razoavelmente bem, ajudo o time. Em dezembro eu tenho que decidir. “Eu sigo aqui”, disse para o Vanderlei. Sei que os caras não vão me oferecer nada demais, tento dar aquela chorada na hora do contrato, mas os Perrella não abrem mão. No Cruzeiro campeão de 2003, eu provavelmente tivesse o contrato de um menino que estava começando. Eu era o craque e a referência do time, mas financeiramente não tinha retorno nenhum. Até que, no meio de 2003, eles me chamaram para conversar. “Vamos refazer, aumenta a multa, se houver venda você tem um percentual”, naquela malandragem do futebol. “Não, eu sigo com esse contrato até dezembro e em dezembro a gente senta e vê o que faz”.

Aí você já tinha uma rescisão estipulada?

Não. Em 2003, quando acaba o brasileiro, eu estou livre. Os Perrella me chamam para renovar o contrato. Só que as coisas se invertem, quem está com a caneta na mão sou eu.

E a proposta do Fenerbahçe, chega quando?

A proposta chega em novembro de 2003, mas eu acabo não indo porque eles querem me contratar, contratar o Márcio Nobre e o Maldonado, o único que aceita ir é o Márcio Nobre. Não tinha a ver com futebol e sim com a minha família. “Eu até vou, mas minha mulher já perdeu dois filhos e está grávida. Nós fizemos um tratamento de um ano e meio para conseguir engravidar, então, antes do meu filho nascer, sem chances”. E aí começa um namoro com o Fenerbahçe. Eles vêm para o Brasil durante vinte dias para tentar me convencer a ir, que ia ser legal. Acabo renovando com o Cruzeiro até dezembro de 2004, mas com uma cláusula bem explícita: se aparecer algo europeu na janela de verão europeu, eu vou embora e vou embora livre. Essa foi a discussão maior com o Cruzeiro e eu acabei ganhando a queda de braço.

Tem uma questão que você comenta no livro, que o Cruzeiro estava com o salário atrasado e trazem o Rivaldo.

Na verdade não era salário atrasado, o Cruzeiro prometeu um prêmio de R$ 100 mil reais para quem fosse campeão. Nós fomos campeões diante do Paysandu. Depois ainda tem dois jogos, Fluminense no Mineirão e Bahia em Salvador. Eu, como capitão e um dos líderes do time, vou até o Alvimar. “Qual a idéia?”. “Pagar até o jogo do Fluminense”. Chegou o jogo e ele não pagou e eu falei. “E aí, presidente, como nós vamos fazer?”. “Eu prometo para vocês que pago essa semana”. Ele não pagou. Nós fomos embora. Chegou no primeiro dia de treino do ano, a primeira coisa que eu faço é ir nele. “Cara, nós vamos ter problema. A maioria do grupo está aqui e os jogadores querem receber”. “Pô, Alex, eu estou com dificuldade financeira. Quero pagar, mas eu quero pagar em seis vezes”. “Não vou servir de garoto de recados, você fala isso para o time”. Ele começou a falar e o Vanderlei tomou a fala. “Vocês conhecem os Perrella, sabem que eles são sérios e eles vão pagar. A única coisa que eu digo é o seguinte: quem tiver com alguma dificuldade e precisar de dinheiro, porque fez conta com esse dinheiro, pode levantar e falar”. Na época falou o Jardel, um volante que precisava do dinheiro para ajudar a família, e o Felipe Melo. Eles sentaram lá com a diretoria e tentaram se resolver. Nesse período. eles contrataram o Guilherme e o Rivaldo. Talvez, pra mim, o maior erro desse período foi ter mandado o Aristizábal embora, ou não renovado com ele. Ficou aquela alegação de que o Ari tinha um problema no joelho, outros alegavam que era o contrato do Ari. O negócio do contrato do Ari era uma coisa que a gente não aceitava, porque se você tinha para contratar o Guilherme, você tem para renovar com o Ari. O principal foi a parte técnica, porque a gente tinha um time redondo, que já jogava de uma forma, que se alterou para entrar o Guilherme e o Rivaldo. Quando eles entram no time, tem algumas alterações táticas nas quais a gente não conseguiu se encaixar bem.

Você falou do namoro com o Fenerbahçe, eles vieram algumas vezes, a cada vinte dias eles estavam aí, de novembro de 2003 a maio de 2004. O que você sabia deles?

Eu não sabia nada. Eu vou conversando, vou jogando. Ainda tinha aquele sonho de seleção brasileira, vou vendo as minhas idéias. Mas os meus sonhos com a seleção brasileira vão diminuindo a cada momento, porque em 2003 ninguém jogava o que eu jogava. Nem Kaká, nem Rivaldo, ninguém chegava perto do que eu tava jogando. Tinha o Ronaldo jogando muito, mas o Ronaldo não era meia, já era ponta-esquerda no Barcelona. Ele ganha a Bola de Ouro como ponta-esquerda, exatamente como o Neymar jogou no Barcelona. E eu não jogava na Seleção, o Parreira não me punha, e quando me punha eu já sabia que tinha tempo determinado. Eu jogava pressionado porque sabia que só tinha 45, 60 minutos para jogar e sabia que ia sair, então os meus sonhos de seleção iam diminuindo. Na Copa América [2004], ele levou a maior parte dos jogadores que sempre estavam no grupo, mas que não jogavam tanto. Titular mesmo da seleção tinha o Juan. O Adriano brigava por espaço, o ataque era Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Os meus sonhos com a Seleção iam diminuindo a cada vez por causa disso. “Eu não tenho muito mais o que fazer, eu estou jogando demais e não jogo na Seleção porque o cara tem outras opções”. Aí eu começo a saber das coisas do Fenerbahçe por causa do Márcio Nobre e do Fábio Luciano, que já estavam lá. Quando eu ia para a Seleção, o Fábio Luciano ia e a gente trocava idéia. Era engraçado porque o Fábio ia para a Seleção e levava com ele o treinador, Christoph Daum, e um diretor do Fenerbahçe, Hakan Bilal. Eles acompanhavam o Fábio na Seleção para tentar falar comigo. Tem uma história cômica de quando eu entro em um hotel na Hungria, o treinador me atende de pijama de madrugada, já depois do jogo, e começa a mostrar como eu jogaria no time dele. Tem uma outra história de quando minha mulher sai do pediatra em Belo Horizonte e eu vou buscar o carro, quando eu volto do estacionamento o diretor do Fenerbahçe está do lado dela, e eu fiquei pensando ”os caras realmente me querem”. O Seu Juan falava: “Alex, eu trabalho com isso há quarenta anos e eu nunca vi um clube tão interessado em alguém”. “Seu Juan, vamos começar a testar os caras, vamos pedir coisas loucas, tipo trinta bilhetes aéreos, quero morar em uma casa x”. Mas nada assustava os caras e a gente ia aumentando o valor financeiro. “Então eu quero mais tanto”. Em alguns dias, de repente chega o e-mail em que aceitavam. A gente colocava empecilho porque eu colocava na minha cabeça que eu ainda podia jogar na Espanha. Eu tinha 26 para 27 anos, jogo na seleção há um tempão, vejo que eu estou recuperado. Só que aí, nessa coisa de por dificuldade e os caras não verem dificuldade, chegou uma hora que eu falei que não tinha muito mais o que fazer. Acabei conhecendo o Fenerbahçe, já tinha sentado e conversado com o Taffarel, o Bruno Quadros, que jogava comigo no Cruzeiro e já tinha jogado na Turquia. Falava muito com o Fábio Luciano, com o Márcio Nobre. Tinha uns caras aqui em Curitiba, o Ricardinho e o Gralak, que conheciam alguns turcos porque o Gralak tinha jogado na Turquia, fui juntando informação.

Com essa loucura dos turcos, você começou a ver que estava se metendo em um lugar esquisito mesmo, que tinha uma peculiaridade. Quando você chega lá, qual a sua primeira impressão?

Na verdade, eu vou para fazer exame médico, passar três dias. Mas no bom português eu vou cagado, super preocupado.

E essa primeira impressão é a que eu mais queria tirar de você, o que você percebeu lá?

A minha história é assim. Eu vôo de São Paulo a Zurich, quando eu desço em Zurich, esse diretor que me cercava estava lá com o avião particular dele. Com a gente estava um zagueiro belga-turco, os pais dele eram belgas e ele era nascido na Turquia. No avião era uma salada de línguas, nego fala inglês aqui, alemão ali, o outro fala francês. Eu pensei “cacete, vai ser foda”. No ar eu descubro que tem dois aeroportos, o de Istambul, que é o Atatürk, e o outro do lado asiático, que era o Sabiha. O diretor diz “tem que descer no Atatürk, porque tem 20 mil pessoas esperando [no outro]”. O Seu Juan sugeriu descer no Sabiha e anuncia que a apresentação ia ser no estádio, pois era melhor que fosse todo mundo para o estádio. “Não, porque o estádio está em obra, vamos ter que descer no aeroporto e passar no meio do povo”. “Alex, o que você acha?”. “Se tem que encarar, vamos encarar logo”. Aí nisso eu estou com uma camiseta vermelha. A gola, na concepção dos caras, era amarela. “Alex, você está de vermelho e amarelo”. E ainda tem um escrito na camiseta dizendo Made in Brazil, na mesma cor da gola. “Isso é a cor do Galatasaray”. “Deixa eu ver a cor do Galatasaray… Isso não é a cor do Galatasaray”. “Lembra os caras”. “Não lembra não, está escrito aqui Made in Brazil”. “Você não pode descer assim”. “Deixa eu te falar agora: eu vou descer com essa camiseta. Eu não vou trocar a porra da camiseta porque você acha que é a cor do Galatasaray”. “Que cara teimoso que a gente contratou”. “Se você está me conhecendo agora, é até melhor para a gente não ter problema depois, eu não vou tirar a camiseta, eu vou descer com essa camiseta”. “Então vamos colocar um boné e um cachecol do Fenerbahçe”. Era engraçado porque ele punha o boné, ele punha o cachecol, tentando esconder a cor da camisa, num verão europeu, com calor do cacete. “Não vou descer com esse cachecol assim”. Descemos. Quando o avião encosta na pista, eu olho pela janela e o aeroporto está lá longe. Quando eu desço, e sou o primeiro a descer, fotógrafo pra caralho, televisão pra caralho, um monte de funcionário ali e os caras querendo me levantar. Aí eu virei pro Marcel “melhor que no Parma que não tinha ninguém, alguma coisa já está diferente”. Entramos no carro e fomos. Esse diretor passa com uma sacola. “Por favor, põe aqui celular, carteira, passaporte que nós vamos passar no meio de vinte mil pessoas e nem todos eles são gente boa”. “Meu relógio não vou por aí”, disse o Marcel. Fizeram um cordão policial e estou eu, Marcel e seu Juan Figer. Quando eu vejo, o seu Juan está parecendo um tatu bolinha, alguém passou o pé nele e ele saiu rolando. Eu vejo isso olhando para trás. “Caramba, derrubaram o seu Juan”. O Marcel, em pé, falou que não dava para voltar. E nisso nego pulando, cantando música em turco, gritando meu nome. De repente eu vejo o Marcel sumindo e vem um policial e me joga pra dentro da van. Sento e fico esperando. Entra o diretor. “Temos que esperar o seu Juan e o Marcel”. Entra o seu Juan perguntando do Marcel. A gente dá a volta no aeroporto, pra lá um quilômetro pra frente. Chega o Marcel muito puto. “Roubaram meu relógio”. “Não se preocupa, eu te dou outro relógio, mas eu te avisei que no meio de tantas pessoas assim é complicado”, disse o diretor. Saímos com a van, uns duzentos metros descemos, entramos no carro do diretor, que foi nos explicando aqui é isso, ali é aquilo. Ele foi dando uma aula, tipo guia turístico “essa mesquita aqui é do ano tal, aqui é o chifre de ouro”. Eu tinha uma segunda preocupação, que talvez fosse a maior de todas, porque a minha filha tinha acabado de nascer e eu tinha que ver como funcionava o sistema de saúde. Entro no hospital, pego o celular e ligo para a minha mulher. “Pode vir na boa, que isso aqui não tem nada a ver com a Itália”, porque na Itália o hospital era velho e você só via velho na rua, não tinha criança. “É verão aqui, a molecada está toda na rua chutando bola, correndo com os parceirinhos deles, o hospital aqui está cheio, tudo dividido, uma área de geriatria e a outra de pediatria, eu já passei no hospital e ele lembra muito o Einstein aí em São Paulo”. Então a nossa preocupação acabou, o negócio é jogar bola. Volto, jogo a Copa América, na volta para a Turquia eu estou procurando apartamento, por exemplo. Eu escolho um e no dia seguinte era a manchete no jornal: “Alex de Souza vai morar aqui”, com uma seta no apartamento onde eu ia morar. Na janela estão a minha mulher e o corretor de imóveis que o clube tinha colocado. Aí eu começo a entender a loucura que ia ser.

O Kazim falou que teve muito problema com a imprensa lá na Turquia, porque eles colocavam as coisas na imprensa e não assinavam.

O Kazim falava pra mim que tudo o que era de positivo era eu e tudo que tinha de negativo era ele [risos]. Mas é verdade, as notícias saem e ninguém assina nada. Eles tentaram isso comigo na primeira vez que eu fui para a noite. Eu fui para uma boate lá chamada Reina, que era o point da cidade, depois de um jogo. Eu saio de mão dada com a minha mulher e nisso sai uma outra mulher do meu lado, saindo da balada também. O que o cara faz na foto? Corta a minha mulher e põe essa outra mulher na foto: “Alex começa a aproveitar Istambul”. A gente sabia porque, como a gente morava em um prédio, os caras queriam nos dar notícia, então eles ficavam dando jornal, mostrando notícia de televisão. Uma mulher argentina nos ajudava e me mostrou. “Olha aqui o que já começaram a fazer com você”. “Pô, mas esse relógio é meu”, disse a minha mulher. Porque do jeito que foi feita a montagem, apareceu o braço dela e a outra mulher que estava saindo do meu lado.

Você falou que chegou em Istambul no verão, mas o inverno da cidade te surpreendeu muito?

Não, cara, o inverno a gente curitibano já está acostumado com frio. Mas me chamou atenção a neve. Frio eu passo mais aqui do que lá. Nós começamos a fazer as coisas que os caras faziam no inverno: sair com corrente no pneu do carro, quando está de folga visitar a montanha, levar a molecada para brincar na neve, a gente pegava azeitona e cenoura para fazer o rostinho. A gente começou a viver o cotidiano deles. Mas eu sou sincero, eu preferia o inverno ao verão. O verão é insuportável, é coisa de 42, 43 graus, algo assustador. Para você fazer a pré-temporada é horrível.

E a comida?

A gente fez loucuras e levou uma cozinheira brasileira. A culinária turca ou você ama ou você detesta. Para o meu paladar, eu não sinto saudade nenhuma. Comia, mas não era “eu vou para Istambul para comer tal coisa”. Mas a gente recebia visitas que tinham outra concepção, “você tem que me levar no lugar tal, porque lá eu comi tal coisa”. Tem muitas comidas parecidas com as nossas, a concepção que é feita de outra forma. Mas é muito parecida com a gente. Eles têm um sanduíche que eles adoram para comer depois de chegar da noite, o cocorete, que na verdade é parte do aparelho digestivo tudo junto ali e eles vão picotando com tomate e limão. Os caras comem isso de madrugada. Aqui seria algo parecido com a buchada, pega aquilo e põe em um pão e os caras adoram, mas eu não comia aquilo. Não tinha coragem.

Os meus amigos lá na Turquia são torcedores fanáticos do Beşiktaş. Uma vez eu comentei do Lugano e eles odeiam o uruguaio. Mas não te odeiam, inclusive me levaram na sua estátua. “Nós respeitamos ele pra caramba”.

Teve algumas coisas pequenas, que não são coisas pensadas, mas que criam um respeito com os outros. Por exemplo, nós ganhamos a possibilidade de título no estádio do Beşiktaş. Acabou o jogo, para ir comemorar os caras lá têm uma mania de pegar uma bandeira e colocar no meio do campo. Eu peguei uma bola de um gandula — que depois eu vim a saber que o gandula era a esperança do Beşiktaş, que seria um puta craque depois, na época diziam que o guri ia para o Madrid, para o Barcelona. Eu peguei a bola da mão dele, sentei em cima, perguntei a ele se podia e os caras foram comemorar fazendo festa. Depois me perguntaram o porquê. “Eu aprendi que você tem que respeitar a casa dos outros, aqui é a casa do Beşiktaş. Nós ganhamos o jogo, mas tem que respeitar”. O Tuncay Şanlı, por exemplo, era absurdo. Jogava pra cacete, mas a alegria dele era provocar. Tem um jogo que eu meto um gol no Galatasaray e os caras não mostram a minha comemoração. Era um gol de falta. Eu parto para comemorar e eles cortam para o Tuncay, que tá na torcida dos caras xingando, fazendo gesto. Essa nunca foi a minha.

Ainda falando de Turquia, qual era a sua relação com o Tayyip Erdoğan?

Ele era torcedor do Fenerbahçe, acompanhou vários jogos, sempre estava nos críticos e nos decisivos. Um dia eu fui convidado para ir ao palácio em Ancara, onde fica a casa dele, e ele me ofereceu um passaporte turco. A partir dali, eu criei uma relação próxima com ele. Agradeci, na época, o consulado brasileiro me chamou e disse que eu teria alguns problemas para resolver. Lembro que teve uma visita da Dilma ao país e ela colocou alguém do Itamaraty para discutir essa situação do meu passaporte e da minha família. Vez ou outra ele me ligava para falar de futebol, para falar das diferenças entre a cultura brasileira e a cultura turca. Quando eu fui mandado embora, no meu último dia ele mandou um carro lá em casa. Não tinha nem roupa, nem nada. Toca a campainha eu vejo um carro preto e um funcionário meu falou: “Alex, deve ser alguém do governo, porque a placa é do governo”. O cara fala que às quatro da tarde eu tinha que estar no palácio, porque o presidente estaria me esperando. “Não tenho nem roupa”, disse para a minha mulher, desesperado, “e agora?”. ”A nossa sorte é que os contêineres estão divididos por caixa, a gente sabe onde está o teu terno”. “Cara, pode passar aqui quatro horas pra me pegar que eu vou”. Tomei café com ele, ele me explicou a idéia que ele tinha para a Turquia. Eu ainda brinquei, porque tem uma hora que entra um cara com uma bandeja e tem um papel nela. São assustadores esses protocolos. O cara vem, oferece a ele. Ele está sentado e levanta, tira o papelzinho e lê. Pega a caneta no bolso, escreve e dá para o cara. “Estamos em uma briga grande com o Irã, será que é alguma coisa relacionada a isso?”, disse um amigo meu que é turco. “Cara, nem brinca com isso. Pra mim é um pedido de lanche que vai vir daqui a pouco [risos]”.

Você falou a questão dos planos que ele tinha para a Turquia.

Ele imagina a Turquia entrando na briga para sediar os Jogos Olímpicos, não sei de qual ano. A Turquia, esportivamente, é muito boa. Existe uma entrada financeira grande nos esportes. Se a gente for fazer um comparativo do esporte brasileiro com o esporte turco, o investimento privado lá é maior do que aqui. Ele tinha a idéia de fazer algo relacionado à Olimpíada mais pra frente. Disse que ia ficar me monitorando no Brasil e manter contato comigo para essa área esportiva e foi isso. Eu estive com ele umas quatro, cinco vezes.

A presença dele e as medidas políticas que ele toma são bem polêmicas.

Metade da população o ama, outra metade o odeia.

Você até comentou essa questão do Irã, tem toda a questão da Síria.

Geograficamente, a Turquia está posicionada em um lugar que não tem como não participar. Se você olhar a Turquia como mapa, você tem uma série de divisas como Geórgia, Rússia, aí vem descendo, Irã, Iraque. Mar Negro, Mediterrâneo. É uma passagem. A Turquia é uma aula de história a céu aberto.

Você tem uma opinião sobre o governo do Erdoğan?

Eu cheguei em uma Turquia zerada, com muitos espaços para crescer. Tinha vários lugares onde a pobreza imperava realmente. Quando eu saí, isso já não existia mais, mas eu não tinha profundidade no mundo político, não via televisão, por exemplo.

Você mesmo confessou isso como um dos seus erros, o desgaste com o técnico Aykut Kocaman, ao criticá-lo abertamente no Twitter.

Eu nunca critiquei abertamente no Twitter, o que aconteceu foi o seguinte. Tem um sambista aqui no Brasil chamado Reinaldo, que os caras chamam de príncipe do pagode. É amigo meu desde a época de Palmeiras. Uma das coisas que eu agradeço ao futebol é que aquelas pessoas que eu tenho idolatria, que eu gosto independente do segmento — e música é um deles —, o futebol me aproximou delas. A confusão já estava feita na Turquia. A imprensa batendo no treinador, falando que ele não me punha para jogar. Ele tinha inveja porque eu estava fazendo muitos gols e muito sucesso, estava alcançando o número de gols dele. Que eu o alcançaria e o passaria era o natural, sem fazer força, jogando normalmente, eu atingiria a meta. Num jogo Spartak de Moscou e Fenerbahçe, ele colocou o Cristian de meia. Eu estava muito puto porque o jogo foi na terça e no sábado começou a Liga Turca. Eu tive uma conversa com ele no sábado. “Esse time que vai jogar hoje é o time que vai jogar contra o Spartak na terça”, ele disse. Acabou o jogo, pegamos um vôo direto para a Rússia. Ficamos treinando lá domingo e segunda. Ele não fala comigo. Vamos para a palestra do jogo. Ele começa a mostrar um vídeo. “Escanteio quem bate é o Cristian”. Achei estranho, porque eu era o batedor de escanteio. O Cristian do meu lado me dá um cutucão na perna. “Alex, não sei de nada”. “A barreira vai começar com o Cristian”. Eu virei para o Cristian: “você vai jogar no meu lugar, você está fazendo tudo que seriam as minhas obrigações: o escanteio, a falta lateral, ser o homem base da barreira”. Ele dá o time e eu estou fora. Eu vou falar com ele e pergunto qual a lógica, porque dois dias antes ele tinha falado que eu ia jogar. “Tem que parar de pensar em você e pensar no coletivo”. “Não estava pensando em mim, eu só estava querendo entender a lógica, você no sábado me disse que quem jogasse na linha ia jogar hoje. Nós treinamos comigo batendo bola parada, comigo fazendo as minhas funções e hoje você escala o Cristian. Mas não tem problema, vamos para o jogo, vamos torcer para que funcione, eu particularmente acho que não funciona”. No vestiário, ele põe a escalação com nego trocado de posição. Eu vou com o meu celular e tiro uma foto. O diretor, que já estava puto comigo, diz que é uma falta de respeito, por que eu estaria batendo? “Um dia eu vou escrever meu livro e mostrar essa situação ridícula que o treinador escalou o time, porque nós vamos perder o jogo”. Com um minuto de jogo a gente mete 1 a 0. Isso que fiquei mais puto, o diretor achava que eu estava torcendo contra e comemora olhando para mim. O Spartak virou e ganhou por 2 a 1. Não entrei. Esse jogo foi transmitido para o Brasil e o Cristian, coitado, não jogou nada. Estou no Twitter na volta e o Reinaldo me pergunta: “pô, Alex você não deve tá jogando nada, porque para ser reserva do Christian você tem que ser muito ruim, o que tá acontecendo aí com você?”. “Não sei o que está acontecendo. O treinador me tirou hoje na hora da palestra, eu acho que ele tem ciúme de mim”, isso aberto no Twitter para todo mundo ver. Aí fodeu tudo, escancarou.

Você discutia com ele em turco?

Teve uma discussão, que para mim foi a mais pesada, quando ele me chamou para conversar e falou que a gente tinha um problema. Eu levei o tradutor. “Nós temos um problema e nós temos que resolver”. “Temos mesmo”. “Não tenho problema com você”. “Tem sim, eu acho que você quer me foder desde o primeiro dia que assumiu o clube”…

Você confiava no tradutor?

Confiava. “É verdade, você está certo”. Na hora que ele disse isso, tinha uma mesa de escola entre nós. Eu peguei a mesa, levantei e joguei no peito dele. Ele desviou e não pegou nele. Quando eu vejo, eu tomo um mata-leão do auxiliar dele, um grandão. Eu pensei, “agora os caras vão me matar”. Na verdade o cara me deu um mata-leão para eu me acalmar, senão eu ia apanhar ali dentro. Chamei ele de vagabundo, falei um monte de merda e ele falou um monte de coisa pra mim, que as minhas opiniões eram contrárias às dele, que eu tinha que entender que lá não era o Brasil e que era a Turquia. “Já entendo, eu estou há oito anos aqui. Só não entendo esse poder que vocês têm de queimar dinheiro, isso eu não entendo. Mas o dinheiro é de vocês, não é meu. Agora eu só não vou aceitar falta de respeito pra cima de mim. Eu sou o melhor da posição e nunca deixei vocês na mão. Eu nunca fui o problema, sempre fui a solução. Se você não me quer no time, eu rescindo o meu contrato e sigo a minha vida”. “Não pode ser assim, você é ídolo”. “Se eu sou ídolo, você tem que me respeitar como tal. Não está fazendo isso”. Não era nesse tom [de conversa], o bicho estava pegando mesmo. Passou um mês e ele me mandou embora.

Não sei se você pegou a época de bloqueio ao Twitter, ao Facebook e ao Youtube. Eu queria saber se você acha que eles lidam bem com essa questão da liberdade de expressão?

Não, a liberdade como nós temos aqui com certeza eles não têm.

E a liberdade religiosa? Eu tenho uns amigos lá que dizem que os brasileiros eram bem aceitos, mesmo sendo cristãos.

Os brasileiros sim, os turcos não. Eu vivi com um turco cristão porque ele tinha origem armênia e origem grega. Eles não viviam bem com essa situação. Por exemplo, não se anda pelado no vestiário, porque para o muçulmano é falta de respeito. No banho turco, a região do púbis é protegida, então quando nós queríamos irritar muito um turco, nós andavamos pelados no vestiário. O Deivid tinha uma mania, ele pelado pegava uma bola, colocava na região do púbis e subia em outra bola. “Você está louco?”. “Não, estou rezando”. Rezando pro Deus do sexo, só se for [risos] O goleiro Volkan um dia perguntou para mim, em uma viagem Portugal e Turquia:“Alex, se você tivesse uma irmã e eu quisesse sair com ela, o que você faria?”. “Quantos anos teria a minha irmã?”. “Já com 17,18 anos. Saímos nós três e no meio do negócio eu falo que quero ficar com ela, o que você faria?”. “Eu perguntaria a ela se ela ia se incomodar de ficar próxima a você, sozinha, que eu ia dar uma volta”. “O procedimento é esse?” “Comigo sim, com os outros eu não sei”. “Se você me fizesse essa pergunta, eu te mataria”. “Mas qual é a lógica? Porque eu preferia que a minha irmã saísse com alguém que eu conheço do que com alguém que eu nunca vi”. “Comigo isso não existe”. Tinha um outro jogador que, enquanto namorado, a mulher dele estava sempre com a gente. Nós íamos jogar boliche, a mulher ia, íamos no bar, a mulher ia. O cara casou, festa bonita e depois do casamento ele passou a só sair sozinho. Um dia minha mulher não aguentou e perguntou onde estava a mulher dele. “Minha mulher não pode vir”. “Como não pode vir, cara? Ela saiu dois anos com a gente”. “Não, mas agora ela é minha esposa, ela não pode vir”. Tem um outro cara — essa história é uma das piores que eu vi na minha vida —, a menina era repórter e ele era repórter também, amigos nossos. Moravam juntos há quatro, cinco anos. Os dois turcos, mas turcos modernos, que viajavam, moraram nos Estados Unidos. Um dia toca o telefone lá em casa e era a menina chorando, dizendo que ele terminou com ela, que não queria mais casar porque ela não era mais virgem. “Você está louca, o cara transa com você faz quatro anos, agora porque você não é mais virgem você não pode assinar um papel?”. Aí eu fui falar com ele. “Cara, na boa, eu não tenho nada a ver com o teu relacionamento, o problema é seu e dela, mas a idéia de que ela não é mais virgem não entra na minha cabeça”. “Alex, para se casar a menina tem que ser virgem”. “Então você não pode morar quatro anos com a mulher, não há tesão que resista quatro anos para não transar”. “Por isso que eu não vou casar com ela, porque ela teria que ter resistido”. E daí ele casou com uma virgem.

Você aprendeu alguma coisa com o Islã?

Sou católico, mas eu resolvi que eu tinha que esquecer a nossa cultura e participar da deles, então eu fui em várias mesquitas com eles, os feriados religiosos eu procurava entender. Na época do Ramadã, eu respeitava o jejum deles, porque você ficar sem comer da hora que o sol nasce até a hora do sol se pôr é complicado. A gente sempre tem uma coisa na mão para beliscar, um doce, um chiclete, uma bala. Eu não fazia isso, até porque na minha casa tinha funcionários turcos e o pessoal seguia. É um negócio assustador. Acho que eu tenho mais Alcorão na minha casa do que a própria Bíblia.

Eu sou ateu, mas eu tive uma experiência muito legal com as horas das orações, eu tive uma experiência espiritual.

A chamada é muito legal. Porque nós estamos aqui no escritório conversando e aí tem o tapetinho no canto. Os jogadores do meu time mesmo, eu joguei com o Moussa Sow, que não é turco, é senegalês, mas seguia a religião firme, tinha a roupa e o tapetinho dele. “O time tal? Deixa chegar o Ramadã que eles perdem a força”, falavam, porque tem alguns lá que são muito mais fervorosos, religiosos, aí fica difícil pra você treinar sem força. Mas seguir especificamente não, só respeitei o que eles pregam…

Em uma entrevista para a Trivela, no final de 2015, você disse que percebeu o seu declínio físico — natural, por conta da idade — jogando no Coritiba, num jogo mais pegado como a semifinal do paranaense. Viu que não estava mais em condição física, porque sempre levava vantagem. Meses antes você estava no Fener, jogando Liga Europa ou Champions. Você falou do jogo do Spartak, era pela Europa League? Você olha para trás e consegue ver um pouco de razão nele [Kocaman] em não te usar por uma questão física também?

Não, porque a entrevista da Trivela eu dou em 2014. Já era meu último ano, quando resolvo parar. Estamos falando de um Kocaman de 2012. Dois anos fazem muita diferença. E quando eu digo Kocaman, ele poderia fazer o que quisesse comigo, desde que fosse honesto comigo. A minha briga nunca foi se eu ia jogar quarenta jogos ou jogar vinte. A minha briga era para não ser tratado como um menino, coisa que eu não era. Se tratando com respeito, do cara entender que eu era o capitão do time, que eu não causava problema para ele, e que se quisesse me usar pouco, me usaria até hoje, se quisesse. Mas não era o caso. Ele realmente me queria fora do clube, porque ele achava que eu era o questionador dentro do trabalho dele. Eu realmente questionava, só que questionava em uma linha de respeito, eu nunca saí falando mal do treino dele. Mas várias vezes perguntei “para que isso serve?” Tinha um treino que, pra ele, era fantástico, ele chamava de cinco contra dois. Pra mim, era um bobinho de rua. E depois de dez minutos virava uma brincadeira. Tinha dias que a gente fazia aquilo por horas. E eu falava: “cara, pra que serve isso?”. Uma coisa que eu questionava muito, por exemplo, tinha um cara que jogava comigo chamado Mehmet Topuz, o cara chegou numa transação louca, o Beşiktaş queria, o Fenerbahçe queria, pagaram US$ 9 milhões no cara. Passaram três anos e o cara era a mesma coisa. Era igual. O cara treinava pouco, treinava relaxado, não participava. Um dia eu perguntei pro treinador quando ele ia evoluir. Ele deveria ter uns 27, 28 anos. “Como assim?”. ”Cara, ele não faz nada de diferente nos últimos três anos.” Jogador, pra mim, tem que ganhar o jogo de vez em quando. Goleiro teu tem que ganhar o jogo, um zagueiro que você contratou, que custou caro, um dia tem que dar um carrinho, tem que matar um cara no contra-ataque, tem que ir na frente fazer o gol… Mas pô, o cara não fazia nada, não dava um passe decisivo, não fazia um gol. Aí surgiu uma história comigo, saiu uma falta perto da área, esse cara virou pra mim e disse que ia bater. Eu falei que não ia mesmo. “Tá louco? Eu treino igual a um cachorro durante a semana, você vai bater?”. “Mas eu estou bem no jogo.” “Bem no jogo eu também tô, fiz quatro gols” [risos]. Aí eu fui e fiz o gol e não comemorei, saí xingando ele. Mas o meu xingamento era o seguinte: “cara, você é um filho da puta, você tem que treinar, tem que se preparar, onde é que já se viu, futebol não funciona assim.” E a câmera pega isso. Meu gestual realmente parece que estou mandando o cara a puta que pariu. E o treinador questiona meu gesto depois do jogo. “Pergunta pra ele o que eu falei. Não vai bater se eu estiver no campo [Topuz,] nem vai chegar perto [de cobrar faltas]”. Porque treinamento serve para melhorar o cara, treinamento não é para você ir lá, carimbar o horário e ir embora. Daí entrou na discussão cultural, né? “Teus auxiliares estão aí, manda eles treinarem alguma coisa. Sei lá, uma finalização, uma bola parada”. Isso não acontecia. A questão com o Kocaman não era eu jogar ou não, era que ele me queria fora pelos questionamentos que eu fazia.

Teu caso é até um pouco inverso da entrevista do Tinga. Ele teve um problema com o Klopp, que encerrou a carreira dele no Dortmund. Ele discordava das decisões do Klopp, mas ele aprendeu isso com o Klopp, sobre não misturar o pessoal com o profissional. O Klopp disse que a questão era profissional, não era inimigo do Tinga. Parece que o técnico do Fenerbahçe nunca soube separar as coisas, né?

O problema dele começou não por mim e sim pela mídia. Até o gol setenta, eu não sabia que eu tinha setenta gols. Não sabia o que esse número representava na história do clube. E aí, a imprensa começa “o maior artilheiro estrangeiro da história do clube”. Eu sou artilheiro pela segunda vez, e o cara vira e fala assim: “é a segunda vez que meu artilheiro é estrangeiro e não é turco”. Quando começa a surgir isso, no ano em que somos campeões da temporada 2010/11, o Aykut tinha sido artilheiro em 89, com 29 gols. Eu fui artilheiro com 28. Então a imprensa ficava naquela, se eu ia passar ou não. Começou a ficar um negócio ridículo, porque eu metia gol e o cara não comemorava. Teve uma história, não vou lembrar contra qual time, os caras começaram “gol 2995 da Liga”. Aí eu fiz o 96, 97, 98 e 99. No dia do gol três mil, chamaram o cara que fez o primeiro gol, da década de 50, o cara que fez o cem, o quinhentos, o mil… Os caras estavam todos no estádio. E aí precisava saber quem ia fazer o gol três mil. Ele vira na preleção e fala: “Olha, gente, não vamos nos preocupar com o gol três mil. É mais um número, é bom para a história, mas para nós o importante é o coletivo. Isso é pra você, viu, Alex?”. Pô, mas eu sou o maior passador do time, eu nunca tive um gol que eu tenha tido a chance de dar pro cara e chutei em gol. Os próprios jogadores perceberam isso, ficaram putos. No dia do jogo, com a gente enfileirado, ele vira para mim e diz “se tiver uma chance, você vai dar pra alguém, né?”. Chamei ele de lado e disse: “por que você não vai tomar no cu, seu filho da puta? Eu fiz isso a vida inteira”. Imagina só, a gente entrando pro jogo. Começa o jogo, bola comigo, eu toco pra trás pro Cristian, ele abre na direita, o lateral passa, a gente vai indo pra área, eu recuo, devolvo lá, só acompanhando a bola por trás, o cara cruza pro Cristian que entrou por trás, o Cristian domina, o cara aperta, o Cristian rola e eu PUF, gol três mil com vinte segundos de jogo. Aquela festa, papelzinho no estádio, confusão, eu comemorando igual a um louco, xingando o treinador, a câmera mostra e ele está assim [imita posição de estátua incrédula]. Fantástico, um negócio assustador. Patético. Ele torcendo contra um gol meu! Aí ele me tirou de bater pênalti, saiu um pênalti, dois a dois, pênalti importantíssimo no jogo e o cara que ele colocou pra cobrar vai lá e me dá a bola. “O batedor é você. Não, não, bate o pênalti”. Era um jogo contra o Rizespor. Veio o lateral-direito, o Şam, e disse: “pelo amor de Deus, a gente não pode perder esse pênalti, a gente precisa desse gol. E eu olhando pros caras: “pô, mas está tudo errado. Este é um jogo de futebol, o batedor não sou eu, ele não quer mais que eu bata…” Aí, eu pego a bola, ajeito e faço o gol, comemoro e tal. Tinha um cara, um português, nós fomos resolver uma questão de visto… Nosso próximo jogo era contra o time dele, Osmanlıspor e Fener, e ele me disse: “eu vou matar seu treinador no sábado. Quero ter uma bola perto da linha lateral que eu vou dar um carrinho nele, esse cara é muito filho da puta”. Imagina, os caras dos outros times ficavam falando isso! Era assustador. Então é muito mais do que essa coisa de ”te tiro, não te tiro”. O que eu mais queria era um treinador que me dissesse que não ia jogar quarta, porque ia treinar para jogar domingo. Você pega um jogador que é uma bandeira, como o Totti, e pergunta como ele está para aquela semana. “Estou legal”, então ia jogar. “Ah, o coletivo é importante”. É, mas o coletivo gira em torno do cara, o cara é o clube. O carro não anda sem o motor e o motor da Roma era o Totti. Por o cara para jogar pouco é diferente do que destratar o cara.

O Erdoğan te pediu para jogar no Kasımpaşa?

Não. Ele falou: “se você quiser seguir na Turquia, o Kasımpaşa está de portas abertas pra você”. Eu agradeci e fui embora. Ele é meio que torcedor símbolo [do time]. Até hoje eu não sei qual time ele torce realmente. Você vai em Rize, tem o Rizespor, que é a cidade dele. “Aqui é o time do primeiro-ministro”. Mas todos falam que torcem para o Fenerbahçe, ele mesmo já declarou isso. Aí você vai no Kasımpaşa e dizem também que é o time do primeiro-ministro. Então acho que ele tem relação com o primeiro, porque é a origem dele, [tem] a paixão pelo grande clube, que é o Fener e talvez o Kasımpaşa, que é um bairro de Istambul onde ele provavelmente cresceu, ele tem alguma participação. Eu acho que [a oferta] foi muito mais um protocolo. Não me passou pela cabeça em momento algum [aceitar].

Você jogou muito tempo também com o Emre Belözoğlu. Ele jogou no Galatasaray e até foi expulso naquele jogo que o Felipe Melo mostrou a língua pra ele…

Ele era expulso a cada três partidas [risos].

Por isso perguntei do Kasımpaşa, que é um clube rival de todos os clubes. É o clube mais odiado de Istambul, consegue ser mais odiado até mesmo do que o Galatasaray.

É um clube pequeno, mas que tira ponto. Quando rescindi, sabia que ia para outro lugar, mas não sabia que lugar seria. Eu defini vir para o Brasil, mas na Turquia não [ficaria].

Você pensou que no Brasil só jogaria se fosse pelo Coritiba?

Já estava bem definido, eu já queria fazer uma transição para o fim de carreira. Então, se eu fosse pra São Paulo, para o Palmeiras, por exemplo, ou para o Cruzeiro em Minas, eu teria que fazer tudo de novo. Nova casa, uma nova adaptação, novo médico para as crianças, escola. E depois eu teria de sair de lá e voltar para Curitiba, que é onde eu viveria, minha casa estava pronta aqui, comecei a fazer minha casa em 2005. Na verdade, era voltar, tentar ganhar algo pelo Coritiba, que é o clube que me faltava vencer alguma coisa e já ter essa transição para fazer as minhas coisas pós-futebol. Era meio utópico, mostrar para o torcedor e pro próprio Coritiba que eles tinham condições de fazer algo diferente, né? Mas, voltando aqui, eu percebi que era um pouquinho mais difícil do que imaginei.

Na entrevista com o Kazim deu pra perceber que a presença de um cara desse não precisa ser tão tarimbada assim, pode ser um cara mediano, consegue dar uma visibilidade para um clube. Em todas as fotos estavam os patrocinadores do Corinthians, porque a entrevista foi feita no CT. Qual a sua opinião? Porque você vem de um caminho do futebol que é o seguinte: o talento revelado no futebol de várzea, de base, e que o Brasil sempre se prevaleceu muito disso. “Talento aqui nasce como capim…”

Era [assim].

Então você já respondeu, “era”. Qual a importância desses caras, que fogem do universo sul-americano, dessa abertura, virem também ?

Esse intercâmbio é interessante, já tivemos japoneses, né? Kazu jogou bem aqui. Acho interessante também intercâmbio com treinadores, mesmo o universo dos treinadores sendo fechadinho. Mas acredito que, enquanto o calendário for este de hoje, não adianta a gente ter intercâmbio com treinadores. Os caras não vão conseguir entender isso. Explicar lá fora o que é um campeonato estadual é dificílimo para o cara entender.

Sobretudo porque não dá acesso a nada, não te classifica para coisa nenhuma.

Eu acho que o estadual teria de ser acesso para divisões menores. Os grandes clubes que disputam competições nacionais nem precisariam jogar. Mas ainda estamos naquela de ”ah, é a única coisa que meu time pode ganhar”, então vai ganhando força. Mas acho interessante e importante todo esse intercâmbio.

Porque tem o ponto de vista da marca, a questão de identificar quem é. O Flamengo ficou fora do cenário internacional por muito tempo…

A gente nunca se preocupou em levar a marca pra fora. Por exemplo, o campeonato chama Brasileirão. Não tem um nome específico. Até esse aumentativo fica difícil [para explicar] prum inglês, por exemplo. Lá tem a Premier League, Serie A, La Liga, Bundesliga. A gente não tem isso ainda. Não sei como vai ser daqui alguns anos. Nunca tivemos a preocupação de vender a marca e hoje a gente é ocupado pela marca deles aqui dentro. Se eu fosse dirigente do Coritiba, minha exigência seria de fazer camiseta da adidas para uma criança de dois anos de idade. Você vai comprar um presente para uma criança, você não acha, muito difícil. Mas você acha do Paris, do Chelsea, do City, do Milan, da Inter. Difícil de competir dessa forma. Nós perdemos esse tempo.

Você teve técnicos de diferentes nacionalidades no Fenerbahçe, até brasileiro.

Tive o Galo, o Aragonés, o Daum e o Aykut. Com cada um aprendi uma coisa, principalmente o poder cultural, porque cada um traz uma raiz. O Zico é carioca, brasileiríssimo legítimo. O Daum alemão-alemão, o Aykut bem turco nas idéias dele e o Aragonés é um espanhol típico no jeito de ver futebol. O Aragonés era fantástico, o velho tinha 72, 73 anos, uma energia fodida e um espírito de competição e de ver futebol… Apaixonado pelo nosso, tinha um rádio para ouvir Rádio Globo, todos os dias. Então era interessante nisso. O Daum tinha uma idéia alemã, mas era apaixonado pelos sul-americanos. É a idéia do pessoal que viu a América do Sul na década de 70, 80. Por exemplo, o Aragonés viva falando de Luiz Pereira, de Edivaldo, de Leivinha. Era apaixonado pelo Valdo, atacante do Fluminense da década de 70.

Na entrevista para a Trivela, você também mencionou a possibilidade de ser treinador, de fazer curso. Como está essa idéia de futuro?

Continua igual. Não mudei nada, só vi que tem vida fora do futebol e gosto muito de participar do dia a dia com a minha família. Se eu virar treinador, eu perco isso. Por enquanto não quero perder.

Você continua como comentarista…

Na verdade não é nem comentarista. Fazia uns jogos, até que a TV perdeu [os direitos] a Copa do Brasil. Vez ou outra, mas raríssimas as vezes. Minha participação cativa é só no Resenha, que é contar história e dar risada, não tem muito o que fazer. Os outros são comentaristas, comentam lá as ligas européias toda semana. E ex-jogador comentaristas só o Zé [Elias] e o Sorín [saiu em agosto de 2017], os outros participam de vez em quando. Fábio Luciano participa do Futebol no Mundo, Embaixadores da Champions e o Djalma no Resenha, no Bate-Bola de vez em quando.

Falando sobre imprensa, você foi no evento com o Bielsa, Capello e Tite aqui no Brasil?

Eu ia, mas acabei tendo um problema.

O Bielsa falou uma das coisas mais fantásticas que já vi uma pessoa falar sobre a abordagem da imprensa. Ele apontou para o Tite e disse que o fato de ter colocado o Neymar pra marcar o lateral-direito contrário seria interpretado de forma bem diferente, dependendo do resultado. Na vitória seria “como o Tite ensinou o Neymar a ser mais coletivo” e na derrota seria “retardado, colocar o Neymar para marcar? Tem que botar o Neymar para ser marcado”. Como você percebe isso dentro da imprensa?

Do mesmo jeito que o Bielsa. Qual é a responsabilidade da imprensa? Nenhuma. Por exemplo, o Flamengo que foi eliminado na Libertadores de 2017. Quem criou expectativa no Flamengo foi a imprensa. “Flamengo é forte, Flamengo tem dinheiro, Flamengo montou um baita time”. E aí, quando o Flamengo é eliminado, Flamengo deu um vexame. Mas eu nunca vi o Bandeira falar que o Flamengo seria campeão da América, o Zé Ricardo falando que tinha time para ser campeão da América. Trataram como vexame uma questão de grande azar. O caso do Palmeiras é outro. Essa é a diferença. Qualquer um que olhe para o Palmeiras sem paixão ou sem querer ser sacana, vai ver que o Palmeiras tem dinheiro e não tem time. A outra diferença é que o Corinthians não tem dinheiro, mas montou um time em 2017. Então, assim, a imprensa fica vendendo a idéia e quem quiser compra. Aqui no Coritiba aconteceu isso, um diretor do Coritiba, ao ser perguntado, falou que o objetivo do time é ir para a Libertadores. E no outro dia saiu algo como “você viu que o dirigente disse que o time irá se classificar para a Libertadores?”. E ele não falou nada disso. Ele não plantou que ia pra Libertadores. O Cuca chegou em 2016 e disse: “me cobrem, o time será campeão brasileiro”. Ele comprou a briga, essa a imprensa não vendeu. Em 2017, ele já se posicionou diferente. Mas ele é inteligente. No ano anterior, ele percebeu que ele tinha que comprar a briga para ele pra deixar que os jogadores trabalhassem. Esse ano não é o time dele, não foi ele que montou esse time. Quem montou foi o Alexandre Mattos e o Eduardo Baptista. Ele vai comprar algo que não é dele? Quando ele chegou, ano passado, tinha três semanas para trabalhar com os caras, para entender tudo que estava acontecendo. Aí sim ele comprou uma briga. “Opa, vamos deixar os caras baterem em mim, Cuca treinador, e deixar os moleques jogarem e ver o que acontece”. Agora não.

O Carille virou o melhor técnico do Brasil… Sempre tem aquilo da escolha do melhor do mundo do ano, só que da semana passada. “Melhor do ano de 2017 foi o Neymar”, mas ele “foi” em uma semana, a do jogo contra a Argentina e o PSG… E já colocam o cara com a Bola de Ouro.

Mas eu vivi e senti isso na pele enquanto eu jogava. Eu era importante pro Palmeiras, era decisivo, porque eu sempre fui decisivo, e um jogo que eu jogava mal eu “dormia, estava apagado”. Aí o José Simão fez uma relação do meu nome com o Lexotan e o Dalmo Pessoa comprou a briga e levou isso para a área esportiva. O Simão é um brincalhão, ele vive disso, de fazer piada. O Dalmo levou para o futebol e isso perdurou. Quando a irregularidade passou, o Dalmo ficou como o bobão da história. As coisas são muito rápidas, por isso que eu digo que [a imprensa] é irresponsável . Porque se o comentarista, o colunista, o cara que escreve, pedir desculpas, vai mudar nada. Já lançou a bomba, a confusão está feita. A imprensa é dona de um lugar que não é dela. “Se eu sou o treinador, eu tiro o Paulo e coloco o Pedro”. Mas peraí, você não é o treinador. Tem torcedor que está vendo o jogo no estádio, mas no rádio, na hora de ir embora, o cara faz ele mudar de opinião [risos]. Ele viu o jogo, ele sabe o que aconteceu, ele tem a análise dele, liga o rádio e começa a repensar suas idéias.

E agora tem o Cartola.

Eu vivi isso, em 2014, a gente viaja por aí e os caras falavam “pô, Alex, você fodeu meu Cartola”. E eu perguntava se ele achava que o time perder os três pontos era menor do que ele perder os pontos de Cartola. O torcedor compra essa briga [do jogo virtual].

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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