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André Rizek

O jornalismo esportivo pelo jornalismo esportivo

Parece uma matéria acadêmica onde comunicólogos estudam comunicadores. “Análise e teorias da comunicação esportiva” seria o nome da matéria, certamente teria um professor que jamais pisou em um estúdio ou numa redação, mas que estuda o jornalismo desde que se trata de uma disciplina universitária. Faz parte. Metalinguagem numa TV esportiva, no entanto, é ainda mais insólito.

O Redação Sportv surgiu com a idéia de repassar o noticiário dos principais veículos impressos e pouco a pouco foi ganhando espaço nas manhãs de quem pode acordar um pouco mais tarde, tomar café da manhã na frente da TV, ou tem a sorte de poder assistir durante o trabalho.

Luís Roberto e Marcelo Barreto já conduziram o programa, até a chegada de André Rizek, que deu a sua cara ao “matinário”, tanto que parece ter sido criado por e para ele. Seu tom de voz é calmo, que emite opinião, mas faz um papel de Xavi Hernández, de receber e tocar, sem monopolizar jamais a bola, ou melhor, a palavra. Conseguiu um espaço de opiniões e análises de figuras como Tim Vickery, Xico Sá, Marcos Uchôa, Carlos Eduardo Mansur, Márvio dos Anjos e Ariel Palacios.

No entanto, Rizek começou no Jornalismo mais como um Gattuso, aquele que corre, combate, transpira, sua a camisa. Se destacou por uma reportagem sobre a Máfia do Apito, que ele conta na entrevista e explica porquê é tão difícil fazer esse tipo de Jjornalismo.

Era um dia qualquer, entrevista agendada para a parte da tarde, 14h, até que começa a circular pelo Whatsapp a notícia de que uma verdadeira cratera se abriu na rodovia BR-040, na altura de Petrópolis.

Como tudo que circula no Whatsapp, podia ser um verdadeiro boato. Mas não, as obras de um túnel que, em princípio, ficaria pronto para a Copa do Mundo de 2014, resultaram num acidente “geológico”. O túnel não ficou pronto sequer para as Olimpíadas de 2016. Isso afetaria diretamente na entrevista, pois era preciso sair justamente de Petrópolis até a Barra da Tijuca, onde ficava a sede da Sportv no Rio de Janeiro.

A rodovia foi interditada e isso acarretou num atraso de praticamente quarenta minutos. Tempo que faltou à entrevista. Rizek tinha um compromisso às 15h30, o papo começou por volta de 14h45. Enquanto o equipamento era montado, Rizek comenta que completava sete anos de programa. Foi a deixa.

Como você foi parar na TV?

Eu tava na Playboy, quando a editora Abril diz que eu ia pra Veja. E na Abril, quando você recebe um convite da Veja, é mais ou menos como o Jornal Nacional na Globo. Não dá pra recusar, dizer que não quer. Eu achava importante ir pra Veja. Saí da Playboy, da vida boa, da fanfarra, e fui. Mas em pouco tempo, vi que havia incompatibilidades ali. Não na Abril, que eu adoro, na Veja. E comecei a buscar alternativas. Sou muito amigo do PVC, ele estava na ESPN e falei com ele que queria voltar pro esporte. Eu fui da Placar pra Playboy, depois que fechou. Eu fiz dois Bate-Bolas da ESPN. Aí alguém na Veja viu e ficou desesperado: “se você tiver que entrevistar o presidente e ele souber que você fala de esporte…”. Eu disse: “gente, vai abrir portas”, mas a Veja tinha um problema, que esporte é um “sub-assunto” pra uma revista de informação geral. Ficaram com vergonha daquilo queimar meu filme, de repente aparecer comentando jogo e tal. Mas quando eu fiz a matéria [da Máfia do Apito] e pedi demissão da Veja, mas acabei não saindo da Abril, eles me seguraram e voltei pra Placar. O primeiro lugar que veio falar comigo foi a ESPN, não pra ser funcionário, mas pra fazer participações, e eu meio que me apalavrei com o Trajano e com o PVC, mais com o PVC, com quem eu já tinha trabalhado no Lance e ficou nisso. Eu teria um cachê pequeno, não teria um contrato. Mas o tempo foi passando, a ESPN não me ligou dizendo “vem nesta segunda ou nesta terça”. E o Redação começou a me ligar, pra ir falar da matéria. O programa, que era apresentado pelo Luis Roberto na época, depois de vários contatos, eu conversei com a minha chefia na Abril e eles acharam legal ir lá divulgar a matéria e fui como um profissional da Editora Abril no Redação. Fiz um programa depois daquele Corinthians e Palmeiras que o Tévez acabou com o Gamarra, em 2005. Eu fui, terminou o programa, a galera do Sportv me chamou pra conversar assim que acabou o programa e falei que estava mais ou menos apalavrado com a ESPN, mas que não tinha nenhum vínculo ainda. Aí acabei ficando na Sportv pra participar e tal. Eu nunca imaginei ser funcionário da Sportv, muito menos que ia sair da Abril, eu tinha até ganhado uma bolsa pra morar fora, estudar… Eles uma vez por ano davam essa bolsa pra alguém. E eu nem tinha usado essa bolsa ainda, por isso eu nem pensava em sair de lá. A idéia era fazer participações em programas mesmo. Tinha o Arena Sportv em São Paulo, e ia fazer alguns jogos. Até nem achava que era a minha praia comentar jogo. Falaram pra fazer um teste, ver como eu me sentia. Falei: “tá bom, teste não tem problema”. Aí, o teste foi num Santos e Cruzeiro no Palestra Itália, com narração do Jota Júnior. Eu fui, assim, tremendo! Cheguei na cabine e tremia. Pô, o Jota, qualquer pessoa da minha idade que cresceu vendo futebol ouvia ele. E ele é um cara que eu tenho uma dívida de gratidão, porque ele viu ali um moleque que nunca tinha feito aquilo, que estava ausente do futebol, totalmente um peixe estranho, e ele pegou na minha mão, me guiou a transmissão inteira, foi super legal. E fui ficando, eu fazia o Arena Sportv com o Cléber Machado.

Estamos falando de que ano exatamente?

2005, foi o ano que eu entrei na Sportv.

Ok, pois mais adiante você chegou a participar de um projeto da Abril que foi o Jornal Placar, em 2008, né?

Sim! Eu acumulei Abril e Sportv, pois era um colaborador no canal. Não me imaginava saindo da Abril mesmo. Nunca ia imaginar que o mercado de revista, do qual você faz parte, iria evaporar. Achava que revista era a coisa mais legal pra se fazer na face da terra. Eu era de imprensa escrita. Achei que eu ia ficar a vida inteira na Abril, ainda mais que a matéria tinha me dado uma condição legal lá, podia escrever pra várias revistas e tinha todos os finais de semana, os feriados… Eu não pensava em ir pra TV. Só que em 2009, fazia essas participações no Arena Sportv e comentava jogos, aí recebi uma proposta pra ser chefe de redação em São Paulo, da Sportv. E entrei assim, pra chefiar o canal em São Paulo.

Era um momento estranho, a Internet já estava a pleno vapor, portais como Globoesporte.com emplacando, então já havia a necessidade de velocidade de informação, talvez o jornal da Placar tenha vindo pra suprir essa incapacidade da revista de dar conta. Enfim, como você vê o papel do Jornalismo impresso tendo vivido esse processo?

Antes de ir pra Placar, eu era o editor especial de esportes do IG naquela época. Eu comecei no Jornal da Tarde, fui pro Lance e de lá pro IG. Meu cargo era um híbrido de editor e repórter. A Placar imprimia 180 mil exemplares por mês. Era um baita número, eram outros tempos. Eles achavam que conseguiriam fazer isso por semana. Aí lançaram a Placar semanal, mas era um projeto muito ruim, pois a revista fechava às quartas, chegava nas bancas às sextas, nunca ficou claro se faríamos matérias sobre o final de semana seguinte, anterior ou sobre o meio de semana. A gente fez boas matérias na Placar semanal. Tinha bons jornalistas, Arnaldo Ribeiro, PVC, Sergio Xavier Filho, André Fontenelle… O time era bom, mas o produto era meio esquizofrênico, e obviamente não chegou nem perto dos 180 mil por semana. Chegava a 70 ou 80 mil por semana, que eu achava um número bom, mas muito abaixo da expectativa. Primeiro, em 2002, fecharam a Placar. Num ano de Copa. E um dos motivos foi que seria muito caro cobrir aquela Copa, pois seria no Japão e na Coréia e o Brasil faria vergonha… Depois reabriu, a Placar teve idas e vindas várias. Eu parei de acompanhar um pouco essas idas e vindas porque acabei indo pra Playboy, e foi quando o PVC deixou a Abril e foi pra ESPN também. E a gente olhava pro PVC e pensava: “como que um cara gago, feio e cheio de tiques vai fazer sucesso na TV?” e justamente fez sucesso, pois ele é exatamente tudo que ele é fora do ar. Quando eu voltei pra Placar, a estrutura já era bem menor, e veio a idéia do Sergio Xavier, que era o diretor, de fazer um jornal gratuito em parceria com o Jornal Destak, e pela minha experiência de Lance, eu era da primeira turma que colocou o jornal na rua, eu trabalhei lá com o Lédio Carmona, Maurício Noriega, Marcelo Barreto, PVC… Eu virei o editor, e em duas semanas eu tinha que montar uma equipe e fazer acontecer. Eu entreguei o projeto, mas não ia tocá-lo, eu dali fui pra Sportv.

Era um momento bem esquizofrênico da comunicação. A Placar trazia antigamente os tabelões, aquilo já não cabia mais…

Pô, a gente tinha reunião lá na sede da editora Abril, com leitores clássicos, na época de Orkut, tinha uma comunidade no Orkut e os leitores não gostavam das mudanças que a gente fazia. “Como pode o tabelão ir embora?”. Chegamos a fazer uma comitiva de leitores do Orkut, e eu mediei isso. Pra eles irem na redação e explicarmos porque o tabelão estava saindo… Mas assim, aquilo era um nicho muito específico. Não faz sentido com a Internet você publicar um tabelão… Publica no fim do ano… Eu cheguei a fazer reuniões com o finado Roberto Civita, nas quais ele perguntou o que precisaria pra Placar se levantar, se tinha como uma revista de esportes sobreviver no Brasil, etc. Eu acho que o Jornal Placar foi uma boa idéia, das várias idéias que surgiram nesse tempo pra revitalizar a marca Placar, pra mim, o jornal é a melhor delas. Não sei explicar porque acabou não indo pra frente, mas acho que era uma idéia muito boa, de distribuir um jornal diário gratuitamente.

E como você enxerga o jornalismo impresso?

Eu vejo como o mercado de vinil. Uma coisa pra poucos, cara, pra quem realmente quer ter um produto específico. Quase que uma peça de colecionador. Eu não me preocupo com “a morte dos meios impressos”, não é a morte do jornalismo. É só uma mudança de linguagem. E nem acho que vai morrer o impresso, a Corner está aí pra provar isso, mas vai ser algo de nicho.

Falando agora do Redação Sportv, desde o início com o Luis Roberto, ele visava refletir sobre as capas dos principais veículos nacionais e internacionais, isso se manteve…

Se intensificou, na verdade.

Mas qual é o segredo pra se fazer um programa de nicho, que se comunica com jornalistas e com o público em geral?

Fizemos um programa hoje que foi o meu preferido de 2017, sobre o centenário da revolução russa. Trouxemos um historiador, que é o Luiz Antônio Simas, com o Tim Vickery, e foi mágico o programa. A gente discutiu um bloco inteiro sobre o esporte como símbolo do regime comunista e o que esse regime representou no século XX. Mas é um programa de esporte… Eu vou voltar pra quando eu fui convidado a fazer o Redação, embora o programa mostrasse as capas dos jornais, ele não tinha um olhar muito crítico sobre a imprensa. E o então diretor do Sportv, Raul Costa Júnior, me chamou em dezembro de 2009 pra conversar com ele sobre um novo projeto pro Redação Sportv. Era pra ser uma espécie de Ombudsman, uma mesa de discussão da imprensa, da própria Sportv e eu achava que essa idéia seria um fracasso. Primeiro que eu não sou apresentador. Nunca apresentei nem editei um programa na vida. Seria tudo novo. Eu já me imaginava tendo muita dificuldade, ainda mais pra substituir os caras que eu acho que são os melhores âncoras da imprensa esportiva, que são Luis Roberto e Marcelo Barreto. Gostava muito do Barreto no Redação. Tinha todos esses poréns. Minha primeira reação foi: “Raul, quem vai querer assistir discussão de imprensa na televisão?” Vão achar a gente presunçoso e pretensioso. Ele achava que o programa não tocava nesses pontos que deveria tocar. Eu achava que ia ser um fracasso. Bom, a minha parte de apresentador foi muito difícil no começo, pois era feito com tele-prompter, o Barreto lia aquilo ali. E eu, como nunca tinha apresentado e não tive tempo de treinamento, fiz dois pilotos em dezembro e em janeiro já comecei a fazer o programa. Me senti mal nos pilotos, eu não conseguia ler o TP. Logo no programa de estréia, eu não conseguia seguir aquilo ali olhando pra câmera. Aí, eu achei uma tragédia, e disse que não ia mais usar o TP. O que acabou virando uma marca, do programa não ter mais o tele-prompter, mas foi por acaso, por não conseguir ler com naturalidade. E fui arrumando o meu jeito, com uma dicção que não é tão boa, com uma comunicação que melhorou muito, mas que não era tão boa. Mas deu uma resposta de audiência muito boa desde o começo. Esse meu temor, de que ninguém ia querer ver, acabou tendo uma resposta muito boa. Mas a imprensa, na época, não respondeu muito bem. Muita gente, como o próprio Lance, achou que a gente criou esse programa pra criticar a imprensa que criticava a Globo e pra bater em veículos que não são do grupo Globo. No começo, houve muita resistência. Mas por que eu acho que deu certo? Eu volto a um programa que fizemos em 2012, durante a Eurocopa, ia ter Rússia e Polônia e queríamos contar a história dessa rivalidade, pois nos impressionou como os poloneses odiavam mais os russos do que os alemães. Como pode? Se na história oficial a União Soviética salva a Polônia dos nazistas. Lá em Varsóvia eu conheci mais da História, da tirania que foi o Stalinismo na Polônia, do regime soviético lá. A gente queria contar essa história. Teve confusão, quebra-pau lá em Varsóvia, e a gente conseguiu fazer o programa inteiro dentro do Gueto de Varsóvia, a prefeitura autorizou, e apresentamos o programa de lá. Praticamente não tocamos no assunto bola. Foi um programa sobre História. Terminou o programa, o Raul estava eufórico, o prefeito de Varsóvia super honrado e eu desesperado, achando que ia dar traço*. O Raul disse que foi histórico, mas eu disse que ia dar traço, pois é um programa de esportes, feito de Gueto de Varsóvia, que não fala de esportes. E foi disparada a maior audiência do Redação naquela Eurocopa. Ali, eu entendi que o maior problema de um editor — de um programa, de revista, de jornal ou de rádio — é subestimar o público. Quando se fala: “ah, isso aqui é inteligente demais pra audiência, ou não vão querer ouvir”. Quando você se coloca nessa posição pedante, de subestimar quem está do outro lado, de achar que não estão à altura de um eventual tema, é aí que você cai do cavalo. Faz muito tempo que não vejo pesquisas, mas o Redação era o programa com maior penetração na Classe C. E é justamente o programa que, talvez, aborde os temas que supostamente menos têm a ver com a Classe C. Aprendi que isso é um grande preconceito, uma grande bobagem.

As pesquisas sobre Classe C são sempre feitas por pessoas de Classe A, no mínimo B, determinando o que a Classe C quer.

Isso. Cheguei a assistir palestras de como se comunicar com a Classe C: “seja claro, seja objetivo, conte uma história que pode ser compreendida por todos”, essas são as regras do bom jornalismo, da boa comunicação pra qualquer classe. E se tem uma lição que o jornalismo ensina, é exatamente que o bom jornalismo é aquele que consegue falar sobre qualquer assunto pra qualquer pessoa. Você consegue apurar e transformar seu assunto de forma tão simples e didática que qualquer pessoa de qualquer classe e formação vai te compreender. Esse exemplo da Eurocopa me fez ver. Poxa, como eu estava errado em subestimar o público e lá atrás achar que o Redação não daria certo. Hoje, eu não tenho medo de fazer programas como esse, sobre a Revolução Russa. Um outro programa histórico foi sobre a Maria Ester Bueno, foi a vida dela, trazendo ela ao programa. Muita gente aqui achou o programa demais, mas que ia dar traço. Eu disse que não ia dar. Ia dar na média normal de terças, e foi isso! Acho que esse é o segredo, não subestimar o público.

A Sportv está na grade de todas as operadoras, no pacote básico de assinatura. Isso aumenta a capilaridade do canal, e logo aumenta ainda mais esse desafio. Dá pra perceber o cuidado com a fala, de falar pausadamente.

Quem mais fala comigo é garçom. Teve um evento em São Paulo com o pessoal da Globosat, pro mercado publicitário, e me escalaram pra ir. O objetivo era interagir com o pessoal da publicidade, e quem veio interagir comigo foram os garçons. E tenho o maior orgulho disso. Porteiros, essa galera que vê o Redação e adora essa pegada, que me dizem quando me encontram que curtem que o Redação trata de História e do esporte além do esporte.

A partir de 2010 que você começou a fazer o Redação?

É! Eu tenho um casa no Sul da Bahia, e eu achava que esse programa ia ser um fracasso tão grande que eu cheguei a pensar em largar tudo. Eu fui lá pra Bahia, e no dia da viagem, eu sentei na varanda e comecei a chorar, achando que não ia dar certo. Eu não queria morar no Rio, não queria ser apresentador, e achava que o projeto ia ser um fracasso. Eu realmente achava que não ia dar certo.

Como você enxerga o jornalismo esportivo brasileiro?

Eu acho bom! As pessoas falam que é jornalismo 7 a 1, que é ruim. Mas eu já trabalhei com política na Veja, com comportamento na Playboy, já fiz matérias pra vários cadernos de jornais, e acho que o jornalismo esportivo brasileiro é muito bom na comparação com outros países. Acho que ele é sério. Por exemplo, a gente tem comentaristas que não estão lá pra dar opinião, eles apuram, como o Lédio Carmona, Raphael Rezende, que chegou a fazer um curso de treinador, é admirável, não é muito a minha área, a tática. Então, as pessoas acham que pra dar uma opinião é só sentar e dizer o que acha da zaga do Manchester United. Muitas pessoas que querem trabalhar com jornalismo esportivo acham que essa profissão é só assistir aos jogos dos campeonatos europeus, saber as escalações dos times de lá, e dar a opinião sobre o que o técnico lá do time faz errado e o que deveria fazer. Não é isso. Isso qualquer pessoa pode fazer, não precisa ser jornalista. Qualquer um pode decorar a escalação dos times. Jornalismo é o que faz o PVC, Lédio Carmona, Mauro Beting, que pra darem uma opinião, eles ligam pro técnico, lê jornal, pesquisa, busca alguma fonte dentro do clube. Antes de emitir uma opinião que parece simples, se falou com um monte de gente. Fora a bagagem que esses caras têm. Eu acho que tem gente de muita qualidade, tem gente que apura, que investiga. Só sinto falta de mais reportagens. As pessoas que entram nessa área, justamente por acharem que o caminho é ser comentarista e dar opinião, e acharem que o trabalho é esse, e não é, essa é a parte fácil do trabalho. Sinto falta de mais gente querendo vir pro esporte pra fazer reportagem, pra contar grandes histórias, esse eu acho que é um problema, não do jornalismo esportivo, porque reportagem custa dinheiro. É caro, tem que mandar a pessoa pro lugar, investir tempo. A máfia do apito eu fiquei seis meses apurando. Qual veículo que pode deixar um profissional meio ano numa história que talvez nem seja publicada? Eu sinto falta de reportagens, não no esporte, mas na imprensa como um todo, pois com a crise dos grandes veículos de comunicação ficou mais difícil investir em reportagem.

O Redação Sportv também prestigia muito as narrações de gols, mostrando rádios de todos o Brasil, da Argentina, do Peru, de qualquer lugar. É um exercício de nostalgia. O programa tem um olhar sobre o jornalismo impresso e também sobre o Rádio. Como você vê o radialismo, e como é isso no Redação?

Primeiro, eu tenho uma relação de infância com o Rádio. Eu comecei a gostar de futebol indo pro estádio com meu pai, com seis ou sete anos, ouvindo Rádio. Ouvia a Rádio Jovem Pan, de São Paulo, e até hoje eu lembro de comentários com o Milton Neves, o Carsughi, o José Silvério, Flávio Prado, Vanderlei Nogueira, Orlando Nogueira, entre outros. Acompanhava o noticiário e os jogos via rádio. Quando eu trabalhava em jornal, eu comecei em 1994, no Jornal da Tarde, e peguei o começo da Internet quando fui pro Lance. A minha primeira reação foi “putz, coitado do Rádio. Morreu”. Eu sempre associei o Rádio a hard news, às notícias instantâneas, a dar o furo. Jornal tinha que esperar o dia seguinte. Isso muito antes de existir smartphone. Mas, pelo contrário, a internet revitalizou o rádio. Ainda que as empresas de rádio estejam com uma dificuldade muito grande, fechando, demitindo, mas a Internet revitalizou o rádio. Não tenho dúvida disso. Mas matou o meio impresso e não o rádio. Eu ouço rádio do mundo inteiro, assim como leio jornais do mundo, inteiro graças à internet. Eu tenho um rádio de 1948 restaurado em casa, e ouço ele. Não fui eu que criei esse quadro. O Redação AM estava deixado de lado, eu não sei exatamente quem criou, mas já existia. Não sei se vai voltar a ter a força que já teve. Mas o que a gente faz é refletir a imprensa. Qual é o grande portal que vamos mostrar sem ser o Globoesporte.com e o UOL? Só tem dois grandes. Temos que expandir os horizontes. Até acho que a Trivela faz um trabalho espetacular na internet, por exemplo. É um portal que leio todos os dias, mas ainda não tem a relevância de uma Folha ou Estadão pra eu colocar. E o rádio traz esse olhar local que o Redação busca, embora a internet permita ao rádio uma audiência global, ele ainda fala pras pessoas daquele lugar. Quando eu quero mostrar como um gaúcho narrou o gol do Grêmio, só rádio consegue isso. Além da edição do quadro ficar legal, você pega o exagero do rádio que não bate com as imagens da TV, e você consegue mostrar um olhar local. Também não achava que o Redação AM teria essa repercussão quando resgatamos o quadro.

Marcos Uchôa explicou na Corner #5 porquê ele não usa as redes sociais, e você tem muitos seguidores no Twitter. Como é lidar com esse momento de polarização que aumentou muito a partir de 2014? No futebol, na política… O Mauro Beting foi surrado por palmeirenses por ter sido isento no blog dele.

Olha que loucura. Eu só fiquei sabendo dessa história do Mauro Beting por ele ter respondido a uns seguidores dele. Se ele não tivesse respondido, eu talvez jamais tivesse ficado sabendo dessa polêmica. Acabei vendo várias respostas dele e vi que estava acontecendo alguma coisa. Quando eu abri a minha conta no Twitter, foi em 2010. Eu estava conversando com um amigo, e ele me garantiu que era uma boa ferramenta pra eu conhecer mulheres, quase que um Tinder. Eu estava solteiro à época, e abri a conta com esse objetivo. Não imaginava que viria a ser essa ferramenta que se tornou e que teria tantos seguidores. Esse caso do Mauro Beting é um grande exemplo de como damos voz a quem não merece quando respondemos a essas pessoas. Passei por isso num programa em que discutimos o que a torcida da Lazio fez com os adesivos da Anne Frank, ligando ela à Roma, e estava falando de algo que achei que era básico: nazismo, facismo, crime contra a humanidade. No Twitter do Redação, pessoas que não tem nenhuma expressão, eu comecei a dar voz a elas. “Ah, seus esquerdopatas!”, e eu tentei explicar que não se tratava de esquerda ou direita, que era crime contra a humanidade. Eu fui dando voz, a coisa foi crescendo e eu fui me descontrolando no ar. Fiquei meio emocionado, comecei a suar. E quando acabou o programa, eu falei: “mandei mal, não posso responder essas pessoas.” Desde então, eu tomo muito cuidado quando vou responder. Eu só respondo quando acho que não vou dar voz a esse tipo de gente. Mas optei também por me divertir. Não me levar a sério, senão eu não vivo. Acho que é uma baita ferramenta de se comunicar com o público, mas como eu sei que vem muito ódio nas respostas, eu entendo pessoas como o Lédio Carmona, que não têm estômago pra lidar com isso. Eu aprendi a me divertir. Acho que temos que responder menos. O meu amigo Antero Greco também respondeu a muitos… E se eu puder dar um conselho a ele, eu diria que ao responder, ele está dando visibilidade a este tipo de gente que não quer conversa, só quer intolerância. Se respondermos menos, talvez vamos melhorar o nível de discussão na internet.

Não é o mesmo caso de partidos como PSOL, que dão muita mídia ao Bolsonaro, por exemplo, e vice-versa?

Sim! Acabamos legitimando algumas pessoas que não teriam voz pela sua relevância política ou intelectual. E a gente acabou dando esse espaço. Eu mesmo, acabei virando meme do Bolsonaro, e acho que não deveríamos dar voz a algumas pessoas ao compartilhar essas coisas. Mas queria que ficasse registrado que, se eu ganhasse R$ 1 por cada retuite do “Coragem, Felipão!”, eu ficaria milionário.

Você já tomou algum puxão de orelha da Sportv por algum tuite?

Não. Acho que nunca tuitei nada absurdo. A Globo, pelo menos comigo, nunca pediu ou fez algum tipo de interferência. As recomendações que eu recebo no dia a dia são de bom senso, de que o momento está polarizado… A gente sabia que, ao colocar uma matéria no ar de Revolução Russa, ia ter muita gente que ia encarar isso como um ato comunista. Só que estamos falando de História, e não defendendo o Comunismo. É retratar um fato histórico. A Globo colocou uma matéria de um filme, Batalha dos Sexos, e ela sabia que, ao fazer isso, o Twitter do Esporte Espetacular ia ser invadido por um monte de gente que ia encarar aquilo como uma ideologia de gênero e tal. Nesse dia, eu mesmo fui procurar minha chefia, e falei que tinha mandado mal, que li tuites e perdi a calma. E meu chefe falou pra não responder mais. Eu que levei pra ele. Nunca houve uma cartilha “fale disso, não fale daquilo”. Comigo, falo da minha experiência, nunca aconteceu. Até porque, na rede social Twitter, embora eu seja funcionário da Globo e só tenha esse número de seguidores porque apareço na TV, nunca houve uma recomendação do que pode ou não pode.

As redes sociais também serviram pra difundir as estatísticas de jogos, geradas por diferentes empresas especializadas, mostrando distâncias percorridas, desarmes, interceptações, assistências etc. Você percebe um uso mal intencionado em alguns casos? Ou seja, usar um número para perseguir ou enaltecer um jogador por conveniência?

Nunca identifiquei isso. Mas isso é do jornalista mal profissional. De quem tem uma tese e procura dados pra corroborar com aquela tese. Da linha do “contra argumentos não há fatos”. O que fazemos aqui é ter uma idéia, e procurando as estatísticas daquele jogo, e os números não corroboram com aquela idéia, daí transformamos isso em assunto. “Olha que interessante! A gente viu um jogo assim e assado, achávamos isso e os números mostram aquilo”. O Redação discute muito sobre como as estatísticas nem sempre traduzem o que aconteceu dentro de campo.

Qual o maior desafio de trabalhar numa empresa como a Globo?

Trabalhei no Jornal da CUT, meu primeiro estágio. No Grupo Estado, no Lance, no IG, na Abril e na Globo. De todos esses lugares, onde eu fui tratado com mais respeito e tive mais liberdade pra fazer o meu trabalho foi no Grupo Globo. É claro, como qualquer empresa privada, ela tem seus interesses e em algum momento, em determinado grau, isso vai esbarrar no seu trabalho ou em alguma reportagem. Nunca trabalhei num lugar onde a relação era tão clara como aqui. A única vez que isso respingou mais forte foi — inclusive fiquei admirado — na semana em que a Piauí publicou aquela reportagem do Ricardo Teixeira, coincidentemente naquela semana eu tive um convidado da revista. Uma mera coincidência. E eu achei por bem, como a reportagem fazia várias alusões à Globo, comunicar à minha chefia. E a reação foi: “olha, nenhum problema em trazer gente da Piauí”, e perguntaram só se eu podia esperar uns dias pra entender qual era o tamanho dessa denúncia, e o chefe perguntou se queria que ele falasse com o repórter, pra adiar. Eu disse que não tinha problema, que eu mesmo falaria. Até porque não estávamos desconvidando. Era só pra entender melhor e a matéria nem era do cara, era da Daniela Pinheiro. E, na semana seguinte, o repórter veio. Falamos da matéria. A Globo torna a relação aqui muito limpa. Até por ser tão patrulhada e fiscalizada. Por algumas posturas no passado, hoje, eu falo isso por mim e não pela empresa, eu vejo uma preocupação grande da Globo quanto a isso. Soa meio patronal falar isso, mas é a verdade.

Neymar. Você acha que ele é criticado e elogiado com exagero?

Eu, inclusive, critiquei muito o Neymar no Twitter, naquele jogo Barcelona e PSG. Eu disse que ele estava estragando o jogo, se jogando sem parar, quando parecia que a vaga ia pro PSG. Mas eles amarelaram e o Barça virou. E o Neymar fez uma postagem no Instagram com o meu post dizendo “chola mais”. E eu sei que o Staff Neymar não é exatamente simpático a mim, porque eu critico quando acho que tem que ser criticado. Acho que ele é, infelizmente, muito mimado. E ele não está acostumado a receber crítica. Quando ele recebe uma crítica, ele reage muito mal. Nós, brasileiros, mimamos muito os nossos ídolos. O Senna era o mocinho e o Prost era o vilão.

E justamente quando você assiste o filme do Senna, ele não tinha nada de mocinho. Ele era um cara que peitava e ia pra cima.

E o Prost não era nada malvado. Era um cara muito legal que inclusive carregou o caixão do Senna. Mas no Brasil, ele se transformou no pior ser humano da Terra quando ele duelava com o Senna, que era quase um santo. E essa tendência de mimar e blindar demais os nosso ídolos é ruim. O Neymar acha que tudo que ele faz é maravilhoso e lindo. Quando eu critico o comportamento do Neymar, eu não estou nem aí se ele é brasileiro, sérvio, nasceu em Marte ou na Lua. Estou criticando o comportamento dele. Assim como quando eu estou elogiando o Messi, dane-se se ele é argentino, ucraniano ou, sei lá, mexicano. Tanto faz pra mim. O Neymar, justamente por essa história que a gente tem com os nossos ídolos, ele acham que a imprensa tem que trabalhar pra eles. Só que eu não trabalho pra eles. Eu trabalho pros meus telespectadores, pros meus leitores, pros meus ouvintes. A gente faz jornalismo, eu não sou do Team Brazil. Eu não sou da CBF ou do COB. Estou lá pra fazer o meu trabalho. A Seleção Brasileira, pra mim, é uma seleção importante, talvez a mais importante entre outras seleções, mas eu não estou lá pra torcer, estou lá pra fazer jornalismo. E isso que se confunde muito no Brasil. As pessoas acham que a gente tem que defender o futebol brasileiro. Não, eu sou pago pra fazer jornalismo, reportagem. Quem faz isso é agência de publicidade.

Isso tem muito a ver com a nossa cultura, que tem muita influência do Galvão Bueno, do outro nunca ganhar e do Brasil sempre perder. O teu “Coragem, Felipão!” até representa um pouco isso. De não perceber que, na ausência de Neymar e Thiago Silva contra a Alemanha, colocar Bernard e Dante e achar que eles não só dariam conta, como os alemães deveriam se preocupar com o Brasil…

Soa um pouco ridículo eu querer explicar aquele tuite, mas ele ganhou vida própria. Como qualquer obra que ganha vida própria, cada um tem a sua interpretação daquelas “mitológicas palavras”.

Era pra falar mais do 7 a 1 e não do tuite…

Não, mas eu acho legal falar! Tem que falar. Não era exatamente que o Brasil era o maior e “vamos pra cima” o que eu quis dizer. Até porque, se você pegar os programas do Sportv na época, eu sempre achei que a Alemanha era a favorita mesmo, e que a tendência era que a final fosse entre eles e a Argentina. Só achava que o Felipão ia retrancar o time sem o Neymar, ia jogar com todo mundo lá atrás, e que esse não deveria ser o caminho. Mas eu concordo com você, que há esse clima mesmo.

É, existe uma soberba na nossa cultura…

Uma soberba de quem venceu mais do que todos os outros no futebol, né? E de quem tem, geralmente — não sempre — os melhores jogadores. Mas sim, esse 7 a 1 foi uma lição de humildade pro futebol brasileiro. Eu noto uma diferença muito grande. Inclusive, a gente foi da extrema arrogância pra extrema vira-latice. A gente passou a acreditar que a nossa geração não era de nada, que a gente era um time medíocre, não é? Essa mesma geração que fez uma campanha históriCa nas eliminatórias e chegou como uma das favoritas à Copa do Mundo.

Existe uma dificuldade enorme do meio termo. Ser uma geração boa, e não espetacular ou péssima. “A geração é fraca” virou jargão. [Nesse momento passa o VT da matéria sobre a Revolução Russa em um dos monitores do estúdio.]

A gente é assim no futebol, né? No continente, é engraçado, que eles tiram muito sarro do Brasil por nos acharem megalomaníacos. Quando você vai a outro lugar por aqui [na América do Sul], você sempre ouve “mais grande do mundo” pra tudo. Mas acho que somos assim no futebol. Explicado pela história, que nenhum outro país teve tanto jogador como o Brasil, e isso é um fato.

O Dunga ter assumido a Seleção pós-7 a 1, ele reforça a teoria de geração fraca. Mas não houve ali — sem nenhum tipo de conspiracionismo — uma cortina de fumaça? Um cara pra servir de pára-raio e desviar as atenções midiáticas pra ele?

Eu encaro como uma incompetência total das pessoas que dirigiam e dirigem o futebol brasileiro. Primeiro, que o Dunga é sugerido — pelo que eu apurei — para o Ricardo Teixeira pela Maitê Proença, que era a namorada do Rodrigo Paiva, em um jantar na casa dele. Estavam ali debatendo técnicos, e ela sugere pro Teixeira, que estava meio sem saber o que fazer depois daquele clima de bagunça total da Copa de 2006, “precisamos ter um sargentão, moralizar a coisa, virou putaria”. E ela disse, “ah, por que você não chama o Dunga?”. E ele achou uma boa idéia. Aliás, vários treinadores nasceram assim, a mulher do Farah foi quem sugeriu Emerson Leão pro Marcelo Teixeira, em 2002, pro Santos. A história do título nasce assim. E, aí é um fato, pois o Marco Polo Del Nero falou em público que quando acaba a Copa [de 2014], ele vai conversar com quem? Com o Ricardo Teixeira. Não pode sair coisa boa de uma conversa entre eles. E o Teixeira fala pro Del Nero que ele se arrependeu de ter demitido o Dunga depois da derrota em 2010. Como que ele se arrepende, se já nem sequer deveria ter contratado? E o Marco Polo diz: “Taí, vou chamar o Dunga de volta, então!” Acho, no entanto, que a CBF melhorou muito, trouxe pessoas melhores pra condução do seu futebol, da gestão do futebol, mas acho que o maior problema do Dunga não é nem a incompetência dele como técnico, que é notória, mas sim o comportamento dele. Um incompetente poderia levar a Seleção a bons resultados, como ele mesmo acabou levando. Mas ele é um cara tão irascível, tão difícil de se conviver, que acho que ele pagou por isso. Ficou tão insustentável o ambiente na Seleção Brasileira que não dava mais pra mantê-lo lá.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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