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Sujando o jogo

De Havelange a Blatter, a fórmula política das escolhas lucrativas de países-sede da Copa do Mundo

Em 1982, a FIFA entendeu que entregar a Copa seguinte à Colômbia não era um negócio rentável. Durante dois anos, montou uma armadilha à organização local enquanto jogava com os direitos da competição num leilão imaginário para dar a sensação de escolha democrática. Nada mais longe da verdade. Na Espanha, o presidente da FIFA, João Havelange, já tinha decidido vender o Mundial à Televisa. Foi a primeira vez na história que uma transnacional marcou o rumo da história dos Mundiais.

Jack Warner, um dos maiores pesadelos de Sepp Blatter, sabe como tudo aconteceu. Foi o elemento nuclear no esquema montado por João Havelange para transladar a organização do torneio da Colômbia para o México. E, sobretudo, para dar uma sensação de transparência no processo. O então dirigente da CONCACAF liderou o comitê designado por Havelange, que viajou até Bogotá para discutir a organização com a federação colombiana. O país tinha assegurado a organização do certame nos anos 1970, seguindo a política de rotação continental.

Depois da sua reeleição, contudo, a diretoria de Havelange precisava desesperadamente de dinheiro fresco para as arcas da FIFA e parecia evidente que um Mundial na Colômbia não era o melhor caminho para consegui-lo. Aproveitando a escalada de violência que o país vivia, com os sucessivos levantes das FARC, a visita de Warner era já uma sentença cantada pelo brasileiro que presidia a entidade máxima do futebol mundial.

Durante uma semana, o comitê visitou as cidades que deveriam servir de palco para a competição, mas, no primeiro dia, os organizadores já tinham sido informados de que o relatório enviado a Zurique seria negativo e que o torneio seria retirado dos colombianos por razões de segurança. Num ato de amor próprio, a federação colombiana entregou à FIFA a organização do evento, evitando assim que o humilhante relatório visse a luz do dia. A quatro anos do início do Mundial, a FIFA começou o leilão pelo torneio entre as grandes potências econômicas americanas, isto é, as que fossem capazes de suportar os gastos em tempo recorde e oferecer o melhor negócio à FIFA.

Kissinger e a proposta americana

Na mesa estavam as propostas de Canadá, México, Estados Unidos e Brasil. Os canadenses retiraram rapidamente a candidatura quando as exigências financeiras da FIFA foram conhecidas pelo comitê organizador. O caso brasileiro foi ainda mais polêmico. Havelange tinha sido presidente da CBF durante longos anos, mas foi incapaz de eleger o seu sucessor quando acabou eleito presidente da FIFA em 1974. A proposta brasileira foi uma oportunidade de ajustar contas com o seu sucessor. Estava claro que o país, que vivia os últimos dias da ditadura militar, não tinha condições econômicas para receber uma Copa do Mundo e muito menos para dar a Havelange os números que ele procurava para cobrir as suas próprias contas. Nem o declarado apoio da Rede Globo à iniciativa provou ser suficiente. A FIFA exigiu que a CBF demitisse o seu presidente antes de começar a negociar. Quando Ricardo Teixeira, genro de Havelange, foi eleito no seu lugar, as entidades sentaram-se à mesa. A reunião durou pouco. No final, como tinha sido pactuado previamente, Teixeira retirou a candidatura e ficou com o posto que tanto queria e o duelo ficou reservado a México e Estados Unidos, dois mercados onde o futebol procurava o seu espaço.

A priori, dado que o México tinha recebido a prova em 1970, parecia claro que os Estados Unidos levavam vantagem. Pelo menos os americanos assim pensavam. A candidatura defendida pela NASL era apoiada pela TIME Warner. Havia dinheiro para os estádios, contratos televisivos apetecíveis e um desejo genuíno de utilizar o certame para divulgar o jogo no mercado norte-americano. Henry Kissinger liderava a candidatura, e as suas viagens pelo Mundo para convencer os membros FIFA da importância do projeto americano pareciam um claro indicativo de que a organização levava o torneio bastante a sério. Mas por mais que a FIFA fosse dando sinais de aprovação, os mesmos que dariam anos depois quando confirmou os Estados Unidos como organizador do Mundial de 1994, a verdade é que a decisão estava tomada e tinha menos a ver com o projeto da Copa do Mundo e as condições econômicas em si e mais com a influência de uma empresa em particular: a Televisa.

As amizades de Havelange

A empresa mexicana é o maior conglomerado midiático da América Latina. Só a Rede Globo no Brasil pode considerar-se uma rival da empresa dirigida por Emilio Azcárraga. A transnacional era o suporte financeiro do governo do Partido Revolucionário. Dominava completamente as instituições financeiras e culturais do país e tinha nos seus altos escalões elementos influentes do partido e do exército mexicano, de forma que a FIFA tinha garantida a segurança que Colômbia e Brasil não podiam dar, mas também a conivência de um governo que, ao contrário do norte-americano, poderia olhar para o outro lado quando as contas finais do torneio apresentassem um rombo para que João Havelange sanasse as suas dívidas acumuladas como presidente da FIFA.

A empresa já tinha demonstrado o seu profissionalismo na cobertura do Mundial de 1970 e a sua relação com Havelange começou a forjar-se nesse mesmo torneio, quando o então presidente da confederação brasileira ficou impressionado com a gestão de Azcárraga. A sua amizade selou-se na eleição presidencial de 1974, na qual o papel da CONCACAF foi fundamental, e em 1982, quando voltou ao Brasil depois da final do Mundial, Havelange o fez no jato privado do mexicano. Nessa viagem de oito horas, decidiu-se o destino do seguinte Mundial. Apesar da melhor proposta no papel dos americanos, o presidente da FIFA persuadiu o comité organizador do interesse em entregar a prova ao México. O país foi eleito com esmagadora maioria e nem um terrível terremoto, a um ano da fase final, foi suficiente para gerar dúvidas à FIFA. O negócio, que Jack Warner denunciou, implicava numa simples troca de favores. Os direitos da transmissão eram vendidos à Televisa pelo governo mexicano por 1 dólar, e o imenso lucro gerado pelas audiências televisivas e os direitos vendidos ao mercado europeu e asiático seria dividido entre a empresa e a FIFA. Era uma oportunidade de negócio única, e o sucesso mundial da Copa do Mundo — reconhecida por muitos como o último grande Mundial — multiplicou as cifras atingindo valores inesperados.

O negócio dos Mundiais e o Qatargate

Depois do Mundial de 1986, a gestão da FIFA se mercantilizou de forma definitiva. Se, em 1978, o Mundial foi organizado exclusivamente pela Junta Militar, em 1982, no Mundial de Espanha, já se tinha começado a notar o dedo de Havelange nos negócios paralelos que o governo espanhol e algumas das empresas patrocinadoras da competição foram forçados a assinar. Mas o torneio do México marcou um antes e um depois. Sepp Blatter, então secretário-geral da FIFA, aprendeu a lição quando negociou anos depois o Mundial entregue ao Japão e à Coreia do Sul, quando ambos os países pretendiam organizar o torneio solitariamente. O lucro dos cofres da FIFA passou a ser o principal catalisador para a escolha da sede do Mundial de Futebol, como foi sendo descoberto com o passar dos anos. Tudo começou nesse voo após a cena épica de Diego Maradona erguendo o troféu e pela primeira vez uma empresa conseguiu comprar algo tão mágico como um Mundial de Futebol.

Não era a primeira vez que a FIFA fora acusada de vender a organização de um Mundial. A investigação da France Football em torno da compra de votos da organização da candidatura do Qatar, organizador da Copa do Mundo de 2022, lembra o processo organizado por João Havelange em 1986. O silêncio da FIFA contrasta com um longo histórico de corrupção.

Dinheiro. Tudo se decide por dinheiro. Essa é a máxima da FIFA, que remonta ao dia que em João Havelange prometeu pagar a fidelidade de quem o apoiava na eleição contra o britânico Stanley Rous. O presidente da Confederação Brasileira de Futebol [à época CBD] venceu uma das eleições mais disputadas da história porque soube antecipar-se no tempo. Essencialmente, soube ler o crescimento do terceiro mundo e a sua influência no sistema de votação do máximo órgão do futebol. E entendeu que os votos de tantos países custavam à FIFA muito pouco.

Com dinheiro, Havelange comprou a influência necessária para ser presidente durante mais de duas longas décadas. Pelo dinheiro, transformou o Mundial num parque privado para as multinacionais que sempre o apoiaram, da alemã Adidas à norte-americana Coca-Cola.

O dinheiro que as empresas deram à FIFA, em troca da exclusividade de publicidade nos seus eventos, dividiu-se entre as federações a quem havia de agradecer o apoio e os cofres de uma FIFA que até então não dava sequer lucro anual. Para aumentar a margem de lucro, ampliou-se o Mundial primeiramente a 24 seleções, e depois a 32 países participantes. Criou-se o modelo de rotatividade continental para afastar o torneio da Europa — os países que menos estavam dispostos a entrar no jogo de Havelange e do seu sucessor, o suíço Sepp Blatter — e aproximá-lo das potências econômicas emergentes. Em 1994, os Estados Unidos. Em 2002, os ricos Estados orientais do Japão e da Coreia do Sul. Em 2010, o Estado africano mais emblemático, a África do Sul, e para os anos seguintes Brasil, Rússia e Qatar. Países com economias pujantes e governos facilmente influenciáveis pela organização que profissionalizou o futebol e, com ele, levou-o a uma era de mercenarismo absoluto.

Ninguém era capaz de acreditar, durante todo o processo de eleição das sedes dos seguintes Mundiais, que a candidatura do Catar fosse a mais adequada. Os rumores foram de tal ordem que a própria FIFA confessou, a posteriori, que talvez tivesse sido um erro atribuir dois Mundiais com tanta antecedência. O que se esqueceu de acrescentar foi o dinheiro que ambas as candidaturas ganhadoras adiantaram à FIFA e aos seus membros. Um cenário muito similar ao que sucedeu em 1986, quando João Havelange forçou que a Copa do Mundo buscasse uma sede mais lucrativa do que a Colômbia em tempos nos quais os barões do narcotráfico mandavam e desmandavam no país.

Graças à influência, amizade e milhões investidos pelo dono da Televisa na campanha de reeleição de Havelange e na sua fortuna pessoal, o Mundial de 1986 sobreviveu a um terremoto, no ano anterior à sua realização, e passou para a história como o primeiro caso claro de como a FIFA tratava com os países organizadores dos seus torneios. O caso do Catar é apenas um reflexo desse passado.

A conexão parisiense

O pequeno emirado do Golfo Pérsico será o menor país da história a receber uma Copa do Mundo. É o 164º país em território do Mundo, bem menor inclusive que a Suíça, a menor sede até então. Todas as suas cidades-sede, com estádios construídos do zero além da polêmica em torno do calor infernal do junho no Golfo — que levou alguns dirigentes a propor a realização do torneio no inverno — e a política ultraconservadora das autoridades árabes em relação ao consumo de cerveja, à presença de mulheres nos estádios e a comportamentos homossexuais em público fazem da Copa do Mundo do Catar um caso muito controverso na razão pela qual foi escolhido como país-sede.

No entanto, em comparação com as candidaturas de Coreia do Sul, Austrália, Estados Unidos e Japão, o Catar foi eleito com clara vantagem. Por quê?

O polêmico Jack Warner, presidente da confederação caribenha, afirmou publicamente que houve quatro membros do comitê que trocaram o seu voto por mais de 20 milhões de dólares e apontou o dedo a Nicolás Leoz, Julio Grondona, Rafael Salguero e Issa Hayatou. Outros dois membros, entre os quais se encontravam o espanhol Ángel Maria Villar, teriam recebido mais de 10 milhões de dólares por voto e alguns favores inesperados.

Um suborno patrocinado sobretudo por duas figuras nucleares no sucesso da candidatura catariana: Sepp Blatter e Michel Platini.

O presidente da FIFA foi o primeiro a defender a realização de um torneio na região. Já tinha sido testado, com o deslocamento temporário do Mundial de Clubes de Yokohama para o Golfo Pérsico e sempre se mostrou interessado num casamento entre a FIFA e os “petrodólares”, similar ao que outros dirigentes, como Bernie Eclestonne, o senhor todo poderoso do automobilismo, conseguiu anteriormente. Blatter criou o conceito da rotatividade precisamente para garantir que todos os continentes tivessem o seu prêmio por apoiá-lo publicamente. No caso asiático, recompensou primeiro as potências mais a oriente e depois virou-se para a zona do continente onde mais dinheiro circulava.

O presidente da FIFA, acusado várias vezes de corrupção por investigadores como Andrew Jennings, autor do livro “Jogo Sujo” [FOUL!, em inglês], não estava só. A peça central no quebra-cabeças era outra: o presidente da UEFA, Michel Platini.

O francês se preparava há vários anos para a sucessão de Blatter, de quem foi secretário pessoal do suíço, uma relação de proximidade que se seguiu à organização do Mundial de 1998, do qual Platini era o presidente do comitê organizador do torneio. Desde então, Blatter e Platini trabalhavam em equipe. Destronaram o sonho dos europeus com uma dupla vitória sobre o sueco Leonardt Johanssen e acabaram com o projeto G14. A UEFA, com Platini, alinhou-se como não o fizera nunca à FIFA, em todas as suas manobras políticas. Foi o francês quem estabeleceu a ponte entre a candidatura do Qatar e a FIFA como consequência de um negócio muito particular, patrocinado pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Platini e Sarkozy se reuniram várias vezes em Paris com membros da família Al-Thani, que governa a região há várias décadas. Em troca do apoio da UEFA, os cataris realizaram um investimento massivo na França por meio da aquisição do Canal+ e do Paris Saint-Germain. O país do Golfo Pérsico se tornaria um dos principais investidores em terras gaulesas, com o beneplácito institucional do governo francês, e desbloquearia, assim, o acesso para sediar o torneio de maior repercussão mundial, uma ação clara de “soft power”.

Platini confessou, depois da própria votação, que tinha sido um dos que votaram na candidatura do Catar. E deu uma razão insólita, quando questionado sobre as deficiências e problemas de um Mundial no Golfo Pérsico, em contraposição com candidaturas mais bem preparadas. “Já tinham se candidatado cinco vezes, era hora”, foram as suas declarações. Um pretexto público para uma decisão privada.

Com o investimento da família real Al-Thani garantido, Platini tratou de fazer campanha pela Copa no Catar. Foi um dos 14 votos (de 22) que apoiaram uma candidatura que nem sequer estava entre as favoritos, algo que despertou críticas de vários membros do comitê executivo da própria FIFA, entre os quais o alemão Theo Zwanziger, que solicitou uma nova votação, desconfiando seguramente que havia algo pouco normal com esse processo. A candidatura ibérica ao Mundial de 2018 também prometeu uma troca de votos com o Catar, oferecendo, em troca, realizar um amistoso em Doha com a seleção campeã do Mundo daquele momento. Ángel Maria Villar, braço direito de Blatter, pensava assim captar o apoio do Catar e dos seus seguidores para a sua candidatura sem saber que, às suas costas, Michel Platini já havia persuadido a família Al-Thani para votar na candidatura da Rússia, com quem Paris manteve sempre excelentes relações.

O dilema

Em 1986, nenhum veículo de comunicação tornou público o negócio entre Havelange e a Televisa, e o Mundial decorreu tranquilamente. Agora, o sucessor de Sepp Blatter, Gianni Infantino, tem um grande problema nas mãos.

Por um lado, o torneio está atribuído ao dinheiro catari nas contas bancárias dos membros da FIFA e todo o negócio com empresas de construção. Por outro, a indignação pública, que já se manifestou à época da eleição, voltará com força, aliada aos inevitáveis problemas que organizar um torneio na zona irá acarretar. Retirar o Mundial do Catar não significa só devolver todo o dinheiro pago. É também assumir a culpa, a fraude, que poderá significar a derrocada definitiva do prestígio da organização. Mas, de qualquer forma, a Copa do Mundo de 2022 pode mesmo se tornar o fim do conceito de excelência que sempre rodeou a organização de um Mundial.

O leilão do Mundial de 2022 ficará, para a posteridade, como mais um símbolo da corrupção que há décadas se instalou na sede da FIFA, em Genebra, para nunca mais sair.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.

1 Comment

  1. julianoortiz

    dezembro 21, 2021

    Ontem prestigiei o episódio #12, do especial de 1 ano do podcast Futebol de Bolso, do Brás Assunção, e duas coisas me fizeram voltar e ouvir novamente os trechos em questão. O mais emblemático, sem dúvida, foi a emoção com que o Fernando Martinho foi tomado ao falar da Corner e dos desafios de 2021. Ao amigo, desde já, estendo meus cumprimentos e desejo todo sucesso à grupo (revista, editora, branding como um todo. Não deixem a peteca cair, pois a Corner é gigante, meus amigos.

    O segundo ponto, não menos importante, é a admiração e amizade que o tempo fez questão de desenhar como as curvas suaves traçadas pelas mãos de Oscar Niemeyer. Uma amizade, sem dúvida, de admiração mútua. É raro ver alguém falar de um amigo como o Fernando falou a respeito de ti, Miguel.

    Desejo sucesso a ti, MIguel, e ao Fernando também. Viva à Corner e ao futebol que se lê nas entrelinhas. Azar da FIFA, haha.

    Abç.

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