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Aquele FC Twente 2009/10

Quando pela segunda vez, o Trio de Ferro ficou sem o título

“Eenmaal zullen we de kampioen zijn / FC Twente, FC Twente / Eenmaal zullen we de kampioen zijn / En dan kan niemand in de wereld iets aan doen” (“Alguma vez seremos campeões / FC Twente, FC Twente / Alguma vez seremos campeões / E ninguém poderá evitar isso”) Lançada pelo ex-jogador Eddy Achterberg em 1974 — ele mesmo um símbolo do Twente vice-campeão da Copa da UEFA em 1974/75 —, essa canção virou uma das mais queridas da torcida do clube de Enschede. 

Até que em 2 de maio de 2010, enfim, a torcida dos Tukkers conseguiu concretizar o sonho cantado: neste dia, o clube vermelho conquistava um título histórico na Eredivisie. Certo, o tempo revelou que aquele sonho estava sob bases muito frágeis e um tanto quanto ilusórias, e tudo foi punido com sanções financeiras e com o rebaixamento em 2017/18. Mas a alegria do Twente encantou o Campeonato Holandês na temporada 2009/10. E esta alegria já andava próxima havia pelo menos duas temporadas. 

Desde que assumira o comando do clube em 2003, em meio a uma grave crise financeira, o empresário Joop Munsterman tentava reestruturar o Twente para que o clube ostentasse certa grandeza, como fizera no meio da década de 1970. Na temporada 2006/07, o primeiro sinal: a fase de grupos da Copa da UEFA. Já no fim da temporada seguinte, o projeto de reestruturação deu seu primeiro grande fruto: nos playoffs por uma vaga na Champions League, o time ganhou o lugar na terceira fase preliminar ao eliminar o Ajax (2 a 1 em Enschede; 0 a 0 em plena Amsterdã Arena). O Twente foi eliminado pelo Arsenal na Champions League de 2008/09, mas o sinal do ressurgimento estava sedimentado. 

E ficou ainda mais forte com outro grande resultado: o vice-campeonato holandês ao fim do mesmo ano, garantindo, novamente, a participação na terceira fase preliminar da Champions na temporada seguinte. Tudo isso sem contar a (re)inauguração do antigo estádio Arke, em 2008, rebatizado de De Grolsch Veste em razão da cervejaria que comprara os naming rights do local.  

Além disso, jogadores se faziam presentes temporada após temporada, configurando uma base sólida em campo. No gol, o veterano Sander Boschker já se transformara num estandarte do Twente: o arqueiro de 39 anos era o mais querido da torcida, e estava no clube desde o início da carreira, em 1989 (com uma pausa na temporada 2003/2004, quando foi reserva no Ajax). No miolo de zaga, o brasileiro Douglas Franco — vindo do Joinville — e Peter Wisgerhof estavam plenamente entrosados. Douglas, inclusive, naturalizou-se e foi convocado para defender a Holanda numa partida contra a Romênia em 2012.

No meio de campo, a prioridade era da dupla Theo Janssen-Wout Brama: o primeiro, um trator a carregar a bola para o ataque, enquanto o segundo era ídolo dos torcedores, nascido e criado em Enschede. No ataque, mais um nome caminhando para a história: o suíço Blaise Nkufo, símbolo daquela evolução do Twente, que chegara em 2003 para se tornar o maior goleador da história do clube (114 gols em 223 jogos, entre 2003 e 2010).  

O projeto do Twente já ganhava atenção e respaldo a ponto de receber notáveis e atrair reforços. No primeiro quesito estava o técnico Steve McClaren: em baixa após ficar de fora da Eurocopa de 2008, o britânico precisava reabilitar seu nome, e teve em Enschede o cenário perfeito para isso. No segundo grupo estavam nomes baratos que chegavam para fortalecer a espinha dorsal: Boschker-Douglas-Wisgerhof-Brama-Janssen-Nkufo. 

Atletas como o jovem atacante Luuk de Jong, de 19 anos, vindo do De Graafschap em 2010. Como outro atacante também garoto, o eslovaco Miroslav Stoch, emprestado pelo Chelsea. Como o costarriquenho Bryan Ruiz, que já tivera bom desempenho no Gent, da Bélgica. Como o experiente Kenneth Perez, dispensado pelo PSV e contratado imediatamente. Como o jovem zagueiro Slobodan Rajkovic, também cedido pelo Chelsea. Como o lateral-direito Dwight Tiendalli, que deixou a grave crise vivida pelo Feyenoord para ser mais um reforço do Twente para a temporada 2009/10.  E como outros nomes periféricos, por exemplo, o atacante sul-africano Bernard Parker e o volante iraquiano Nashat Akram.  

O Twente caiu na terceira fase preliminar da Champions League para o Sporting de Portugal, indo para a fase de grupos da Europa League. Mas bastou o Campeonato Holandês começar para que o clube se mostrasse um time incrivelmente regular. Fosse uma máquina, “azeitada” seria o melhor adjetivo para descrevê-la: a dupla Nkufo-Ruiz se entrosava às mil maravilhas no ataque (com o auxílio de Stoch, muito rápido); Brama e Janssen seguravam as pontas no meio; Kenneth Perez armava bem as jogadas; Douglas e Wisgerhof formavam a melhor dupla de zaga da Eredivisie. 

Os bons resultados começaram a se acumular. A tal ponto que os Tukkers terminaram o primeiro turno invictos: quinze vitórias e dois empates. De quebra, na terceira rodada, com o gol da vitória sobre o ADO Den Haag, fora de casa, Nkufo se tornou o maior goleador da história do Twente. Na décima rodada, o então campeão — e fragilizado — AZ foi superado: 3 a 2, com gol de Nkufo no último minuto. Já na 13ª, o Ajax sucumbiu em De Grolsch Veste: 1 a 0.  

A rigor, o Twente só tomou os primeiros solavancos no returno. Na 18ª rodada, o empate por 0 a 0 com o Groningen deixou o PSV na liderança. Na 21ª, o Ajax fez 3 a 0 em Amsterdã, a primeira derrota dos Tukkers na Eredivisie daquele ano. As vitórias passaram a ser mais dramáticas — na 22ª rodada, o time fez 2 a 1 em cima do Vitesse com dois gols nos últimos dez minutos. 

A grande arrancada, porém, começou a partir da 27ª: em 12 de março de 2010, o time de Enschede reassumiu a liderança ao fazer 3 a 1 no ADO Den Haag, enquanto o PSV sucumbiu para o Ajax e caiu para o segundo lugar. Na rodada seguinte, seria o duelo direto entre líder e vice-líder, fora de casa. E o Twente saiu com um empate valioso: 1 a 1. Tirava, assim, um concorrente do páreo: o time de Eindhoven perderia a vice-liderança para o Ajax, que perseguiria o Twente até o fim, carregado pela temporada esplendorosa de Luis Suárez. 

Mas o clube vermelho de Enschede já atingira o sonhado “embalo”. Boschker, Douglas, Wisgerhof, Theo Janssen, Brama, Nkufo, Bryan Ruiz, Stoch, os reservas Luuk de Jong e Parker…eles não fraquejariam. E o Twente seguia vencendo. 

Houve um susto, é verdade: na 32ª rodada, veio a segunda derrota da temporada, 1 a 0 para o AZ, o Ajax venceu,  2 a 0 no Willem II, e a vantagem caiu para apenas um ponto. Qualquer tropeço nos dois duelos decisivos seria o fim do sonho. 

Em casa, na penúltima rodada, o Twente bateu o Feyenoord. E na derradeira do holandês, naquele 2 de maio de 2010, Ruiz e Stoch foram premiados: com um gol de cada, o Twente fez 2 a 0 no NAC Breda, fora de casa.  A torcida podia celebrar: o clube era campeão nacional. E mais do que isso: jogadores como Boschker, Nkufo e Parker iriam à Copa do Mundo, disputada pouco depois, aumentando o orgulho da equipe. 

A derrocada, contudo, começou a partir dali: ao ambicionar manter o clube brigando na parte de cima, Joop Munsterman tomou decisões que dilapidaram os cofres e diminuíram a respeitabilidade da instituição em poucos anos. A queda doeu: o Twente sofreu punições sucessivas da federação, sendo rebaixado na temporada 2017/18. É verdade que voltou à primeira divisão da Holanda no ano seguinte, mas seu status é de um clube médio atualmente. Para consolo dos torcedores, sempre haverá a lembrança do dia 2 de maio de 2010.