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Aquele Super Depor

Durante os anos 1990, a grande alternativa à hegemonia de Real Madrid e Barcelona surgiu na Galícia

Bebeto, Djukić, Fran, Mauro Silva, Donato, Aldana, López Rekarte. Nomes próprios desta história que mergulha na mitologia do futebol europeu uma das suas maiores surpresas. Numa era onde o dinheiro começava a fazer, cada vez mais, a diferença, o Deportivo La Coruña apresentou uma versão alternativa de como encarar o futebol de alta competição. E transformou a sua política esportiva em gesta. E, de gesta em gesta, tornou-se lenda.

Numa cidade que nunca tinha feito parte da história maiúscula do futebol espanhol, surgiu um time sem medos e sem complexos, capaz de olhar dentro dos olhos dos grandes da Espanha e de batê-los no seu próprio campo. Somente o La Coruña e o Valencia conseguiram quebrar a exclusividade de FC Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid desde os títulos da Real Sociedad e Athletic Bilbao no início dos anos 1980.

Um título que culminou com uma história de sacrifícios, surpresas e jogos que entraram para a posteridade do futebol espanhol. Um título que foi também, ironicamente, a reviravolta nesta fábula de heróis inesperados. Uma década depois de fechar com chave de ouro a sua lenda, o Deportivo caiu para Liga Adelante, a segunda divisão de onde tinha escalado, surpreendentemente, em 1990. Ao cometer os erros dos rivais e esquecer-se das virtudes do seu próprio passado, o La Corunã condenou-se a si mesmo. Mas mesmo no seu momento mais baixo nunca deixou os adeptos perderem o rastro à memória do seu Super Depor.

O técnico Arsenio Iglesias e o presidente Augusto César Lendoiro foram os arquitetos da história, os “irmãos Grimm” que escreveram esta lenda de surpresas e suspense desde o primeiro capítulo. Iglesias, que assumiu o La Coruña na obscuridade da segunda divisão em 1988, não esteve presente no momento da consagração definitiva. Mas foi com ele que tudo começou.

O Deportivo tinha chegado de surpresa à liga espanhola e inevitavelmente o primeiro ano na elite desde 1973 — época em que o clube era conhecido como o “elevador”, por subir e descer de divisão ano sim, ano não — foi sofrido. Um play-off contra o Betis fez a diferença. Iglesias e Lendoiro começaram a preparar a nova temporada com afinco. Uma mistura de jovens promessas, lideradas pelo irrepetível Fran, juntou-se a jogadores descartados pelos grandes e um trio de brasileiros fundamental: Bebeto, Donato e Mauro Silva. Ingredientes mais do que suficientes para protagonizar uma surpresa maiúscula.

Nessa época em que o Riazor, histórico estádio construído do outro lado da praia da Corunha, ainda não tinha a sua quarta e definitiva arquibancada, o Deportivo tornou-se o time mais temido do futebol espanhol. Visitar terras galegas e sair com pontos debaixo dos braços tornou-se quase uma utopia. Em 3 de Outubro de 1992 o clube recebeu o Real Madrid de Benito Floro, sério candidato a destronar o hegemônico Barcelona de Johan Cruyff. Os homens da Corunha eram líderes da prova à quinta rodada, ainda sem derrotas, perseguidos pelos Merengues na tabela classificativa. O Real jogava com classe, um futebol ofensivo pragmático do homem que inventou em Albacete, anos antes, o conceito do futebol total manchego, o “Queso Mecânico”. Zamorano, Butrageño, Michel, Hierro e Sanchis eram os habituais heróis de infância dos pequenos que davam os primeiros pontapés na bola às portas do estádio mas nessa noite a cidade galega sentiu que estava a presenciar um fenômeno especial.

O Real Madrid esteve à frente, ganhando por 2 a 0 mas com dois gols de Bebeto e Ricardo Rocha, contra, o La Coruña virou o placar e criaram na imprensa a etiqueta que ficou para a posteridade: “Super Depor”. A equipe galega recebeu quinze dias depois o “Dream Team” e voltou a vencer, de forma clara, e manteve-se durante grande parte do ano à frente da tabela classificativa acabando a temporada no terceiro lugar. Bebeto sagrou-se “Pichichi”, o guarda-redes Liaño venceu o “Zamora” e as bases para o futuro estavam definitivamente consolidadas.

O ano seguinte foi ainda mais épico e traumático. Os homens de Iglesias bateram Barcelona e Real Madrid, outra vez, e chegaram ao último dia do campeonato como líderes. Jogavam em casa, contra o Valencia — que perdido no meio da tabela só fazia figuração — e a vitória era necessária para assegurar a conquista de um título inesperado mas justo mesmo que Barcelona ganhasse o seu jogo no Camp Nou. Os homens de Cruijff cumpriram o seu dever e o La Coruña não podia empatar. No Riazor, as celebrações antecipadas subitamente sofreram um sobressalto. No último minuto o Deportivo, que seguia empatado a zero, viu um pênalti ser marcado a seu favor. Bebeto, o herói do time durante todo o ano, não quis bater e o central Djukić errou, adiando assim o primeiro título do clube. A derrota na última jornada da temporada 1993/94 marcou profundamente Arsenio Iglesias.

Na pré-temporada seguinte, o técnico anunciou que se aposentaria no final do campeonato e deixou os adeptos do clube coruñés a pensar no que seria o seu futuro. Pelo segundo ano consecutivo o Deportivo acabou em segundo, perdendo agora o título para o Real Madrid de Jorge Valdano, mas dessa vez antes da última rodada. Terminar à frente do Barcelona, repetir a medalha de prata e vencer a Copa del Rey — pela primeira vez! — não foi suficiente para mudar a opinião de Iglesias e para o seu lugar Lendoiro, o presidente que resgatou o clube da obscuridade, encontrou no basco Javier Irureta, o homem ideal.

“Jabo”, como era conhecido, manteve de pé a filosofia de Iglesias. Uma equipe sólida na defesa, com um meio-campo com muito músculo e espaço para um criativo solitário e uma linha ofensiva móvel e vertical.

Os resultados não acompanharam as exibições nos primeiros anos e o Deportivo sofreu para manter-se no topo da tabela nas épocas seguintes, particularmente depois das saídas de Bebeto e Aldana. Pouco a pouco o clube começava a rearmar-se, particularmente graças à paciência e olho clínico de Lendoiro, e com as chegadas de Djalminha, Roy Makaay e Pauleta, o clube encontrou a combinação certa para voltar a lutar pelo título que lhe tinha escapado das mãos anos antes.

Irureta alinhava um time onde o virtuosismo de Victor, Fran e Djalminha que era contra-balanceado pelo trabalho de Mauro Silva, Flávio Conceição ou Donato. Os gols de Makaay e a eficácia defensiva de Naybet, Romero e Manuel Pablo garantiam um equilíbrio em ambos vértices do campo. E com esse alinhamento, o Super Depor renasceu de forma definitiva.

Em 1998/99, o clube voltou à Europa ao terminar no sexto posto na tabela classificativa. No ano seguinte os “Turcos”, conquistaram o seu único título até hoje. A vitória por 2 a 1, no Riazor, frente ao Barcelona de Louis van Gaal, campeão nas duas temporadas anteriores, lançou os galegos para o título que confirmaram a duas rodadas do final da Liga. Nessa temporada, o Depor perdeu apenas dois jogos em casa [inesperadamente contra Racing e Numancia] e goleou por 5 a 2 o Real Madrid. Os pontos conquistados em casa deram gordura suficiente para gerir a vantagem na liga e consumar um milagre histórico.

Um título que marcou também uma metamorfose na vida do clube. Lendoiro ambicionou ir mais longe e começou a investir mais e mais dinheiro para melhorar a equipe. Chegaram jogadores como Juan Carlos Valerón, Diego Tristán, Sérgio, Luque, Pandiani e a equipe tornou-se um mata-gigantes das provas européias, transformando-se indiretamente num fenômeno de popularidade no Velho Continente.

Vitórias frente ao Manchester United, Arsenal, Bayern, Milan e Juventus no Riazor ajudaram a criar a marca “Euro Depor” ao mesmo tempo que o clube mantinha-se como a grande alternativa interna aos grandes, terminando no segundo lugar em 2000/01 [atrás do Real Madrid] e em 2001/02 [apenas batido pelo Valencia, no primeiro ano, desde 1983 que nenhum dos dois grandes de Espanha termina nos dois primeiros lugares da tabela]. Na temporada seguinte o clube foi terceiro e lançou o definitivo ataque a um grande título europeu. A gesta definitiva do Super Depor terminou em Abril de 2004 num mano a mano intenso com o FC Porto de José Mourinho.

Os espanhóis eram favoritos para chegar à final de Gelsenkirchen depois de terem eliminado de forma contundente o campeão de 2003, Milan, mas depois de um empate sem gols no Estádio do Dragão, marcado pela expulsão de Jorge Andrade, um gol de pênalti de Derlei no Riazor acabou com as esperanças da equipe galega. Foi a sua última gesta.

Nas temporadas seguintes, e à medida que os seus grandes nomes individuais deixavam progressivamente o clube, as arcas ressentiam-se da falta dos milhões da Champions League. A saída de Irureta fechou o ciclo iniciado por Iglesias e o Deportivo tornou-se de novo numa figura secundária do futebol espanhol. Mas para os seus torcedores, e para muitos seguidores europeus que fizeram do clube azul e branco um dos seus símbolos alternativos, a épica lenda do Super Depor permanece viva, guardada no baú da história de um jogo controlado pelo dinheiro mas gerido pela ambição de homens como os que fizeram daquele La Coruña uma equipe mítica.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.

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