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Ascensão, queda e renascimento de um império

Como a Serie A se tornou, deixou de ser e pode voltar a ser um grande centro do futebol mundial

Dennis Bergkamp e Davide Fontolan: dois loirinhos que faziam a dupla de ataque da Internazionale naquele Derby della Madonnina da temporada 1993/94. A Inter havia vencido pela última vez a Serie A em 1989 e via seu arqui-rival se aproximar do terceiro título consecutivo.

Na década de 1990, as transmissões do campeonato italiano já eram tradicionais. Domingo era dia de visitar a bisavó e foi lá que deu pra assistir a esse encontro. Antes de sair de casa, Elia Jr, simpático carequinha da, então, Bandeirantes — “O Canal do Esporte” —, fazia o pré-jogo e se empolgava com uma possível vitória da Inter sobre o todo-poderoso conjunto milanista.

O Milan era, naquela época, algo parecido com o Real Madrid entre 2014 e 2018. Um time que todos detestavam, apesar de reconhecer a superioridade técnica e tática. No comando de Arrigo Sacchi, o time levantou duas Copas dos Campeões em 1989 e 1990 e mantinha-se no topo no início dos anos 1990.

Os Rossoneri perderam a final da Champions em 1993 contra o Marseille. Mas o Olympique não disputou a Taça Intercontinental daquele ano contra o São Paulo por conta da suspensão imposta ao clube por suborno em jogos do campeonato francês. Naquela final da Intercontinental, Milan e São Paulo fizeram uma partida épica em Tóquio, que terminou com a vitória do Tricolor Paulista por 3 a 2.

Os Milanistas chegariam à outra final da Champions mais adiante, em 1994, desta vez vencendo o Barcelona de Cruijff, campeão em 1992, já com Romário no time.

Era o Milan de Fabio Capello. Arrigo Sacchi deixou o clube em 1991 para assumir a seleção italiana. O novo técnico herdou jogadores como Gullit, van Basten e Rijkaard do time montado por Sacchi e foi recebendo outros jogadores fantásticos. À medida em que os antigos medalhões saíram, chegaram novas feras como Boban, Lentini, Savićević e Jean-Pierre Papin. Mas lá estavam sempre Franco Baresi, Alessandro Costacurta e Paolo Maldini na defesa, ponto forte do quadro rossonero.

A Serie A italiana era similar ao que a Premier League se transformou da metade dos anos 2000 em diante, ou talvez até mais, pois não havia uma concentração tão grande de craques na dupla Real Madrid–Barcelona. Desde os anos 1980, quando a Itália abriu as portas para jogadores estrangeiros, os melhores do mundo desembarcavam em algum ponto da Velha Bota.

Dessa forma, se despertou um interesse midiático natural. As pessoas queriam assistir a duelos entre a Roma de Falcão e Toninho Cerezo, contra o Napoli de Maradona, ou a Udinese de Zico e Edinho. Tinha também a Fiorentina de Sócrates e Passarella, e nem falar da Juventus de Platini, Boniek e também Michael Laudrup. As narrações eram, no início, de Luciano Bruno, mas depois, de Silvio Luiz e os comentários ficavam com Silvio Lancelotti, que também teve uns programas de culinária na TV Bandeirantes ao longo da semana.

Eram os anos dourados do calcio. A Copa de 1990, embora carregue consigo uma fama — injusta — de ter sido um Mundial ruim, foi a cereja do bolo de um eldorado do futebol italiano. Era na Itália onde se jogava o futebol mais avançado do mundo — tática e tecnicamente.

O futebol na Espanha se reestruturava depois de uma profunda crise financeira que levou à uma legislação específica, precisamente no ano de 1990, para controlar a atuação econômica dos clubes com maior transparência, que os convertia em SAD [Sociedades Anónimas Deportivas], e o país, em si, ainda cicatriza as feridas do franquismo, que caiu em 1978. O Barcelona ainda contratava jogadores a peso de ouro, como Roberto Dinamite, Maradona ou Lineker, mas a economia espanhola não permitia uma liga forte durante toda a década de 1980, mudando o cenário somente no início dos anos 1990, mas La Liga só começou a se solidificar na metade final daquela década.

A Alemanha estava dividida até a queda do muro de Berlim em 1989 e, exatamente nessa época, os principais jogadores alemães também escolheram a Itália pra jogar. Rudi Völler foi contratado pela Roma em 1987 e, nesse mesmo ano, Thomas Berthold assinou com o Verona. Andreas Brehme e Lothar Matthäus chegaram à Inter em 1988 e, já na primeira temporada, conquistaram o Scudetto. Logo depois, chegou outro craque germânico: Jürgen Klinsmann.

A força do futebol italiano no final dos anos 1980 era perceptível nas competições européias. No livro Noites Européias, de Miguel Lourenço Pereira, publicado no Brasil pela Corner, esse período recebeu um capítulo próprio chamado Calcio D’Oro. Antes de falar da Copa dos Campeões da Europa, vale lembrar que no seu antigo formato e até alguns anos após a criação da Champions League, um país só era representado pelo campeão e apenas a liga que tivesse o campeão da edição anterior poderia ter dois times participantes. Foi nesta época que o Milan mostrou ao mundo a potência econômica e esportiva do calcio.

Fiat Uno

O presidente da Fiat, Gianni Agnelli, apresentava em 1983 um novo modelo de carro que renderia muito lucro à montadora. Com um custo reduzido pela produção em série robotizada e aumento da produtividade, o Fiat Uno chegava logo após uma crise política entre sindicatos e empresas no final dos Anos de Chumbo na Itália.

A Juventus, tendo a Fiat como empresa-mãe, acompanhou o sucesso do novo modelo. O clube de Turim chegou à final da Champions em 1983, já com as estrelas Platini e Boniek, quando perdeu pro Hamburgo em Atenas. Em 1985, os Bianconeri chegariam novamente à final, e encarariam o campeão Liverpool de 1984 num jogo que dividia o curso das águas. O título demonstrava a proeminente força dos clubes italianos, afinal, era o primeiro título após duas finais perdidas, e marcaria um fim do domínio quase hegemônico inglês, desde a metade final da década de 1970. Não só a derrota inglesa sentenciaria isso, mas sim a batalha campal entre torcedores ingleses e italianos, que ficou conhecida como Tragédia de Heysel, acarretaria na suspensão de clubes ingleses de competições européias.

Com os temidos times — e torcedores — ingleses de fora, o futebol europeu abria espaço, primeiro, para “pequenos” clubes chegarem à glória, como Steaua Bucareste, Porto e PSV Eindhoven, mas depois, o Milan, de Arrigo Sacchi, chegaria ao trono e alternaria com a Juventus a dinastia italiana do futebol europeu.

Mas não foi por acaso. Para que se juntasse a genialidade de Sacchi e de jogadores do quilate de van Basten e cia, houve um personagem chave: Silvio Berlusconi. E para entender a aparição de Berlusconi, é fundamental entender o contexto político e social italiano, um terreno fértil no final dos anos 1980 para o surgimento de personagens como Berlusconi.

Aldo Moro e os Anos de Chumbo

O clima político na Itália na metade final dos anos 1970 era complexo. No governo estava Aldo Moro, do Partido Democrata Cristão. Ele iniciou sua carreira política em 1942, dentro do espectro cristão de oposição ao Fascismo. Com o fim do regime fascista, Moro ascendeu politicamente de maneira vertiginosa.

Eleito deputado nas eleições de 1948, dois anos após ter participado do processo da assembléia constituinte. Depois de diversas iniciativas no campo político e de uma aliança com a centro-esquerda bem sucedida, em 1963, Aldo Moro se elegeu Primeiro Ministro italiano. Era a primeira vez, desde a fundação da República Italiana, em 1946, que um governo formaria uma base com lideranças socialistas no parlamento.

O primeiro mandato de Moro prometia diversas reformas, porém executou pouquíssimas e quase nada. Mas o líder democrata cristão conseguiu ser reeleito mais duas vezes consecutivas. No entanto, ao final do seu terceiro mandato, as demandas da esquerda em todo o mundo também chegam à Itália.

Em junho de 1968, por um lado, a Itália se consagrava campeã européia em Roma ao derrotar a Iugoslávia no Stadio Olimpico, mas dias mais tarde, chegava o fim do período de Aldo Moro como Primeiro Ministro e, por outro lado, o mundo entrava em ebulição. Foi o “Ano que não terminou”, como intitulou Zuenir Ventura em seu livro.

Na Itália, o “Sessantotto” teve, como pontapé inicial, a ocupação da faculdade de Sociologia de Trento, no norte do país, em fevereiro daquele ano. Mas foi em 12 de dezembro de 1969 o verdadeiro marco daqueles que seriam os Anos de Chumbo: um atentado na praça Fontana em Milão deixou 17 mortos e 88 feridos com a explosão de uma bomba na sede do BNA [Banca Nazionale dell’Agricoltura]. A autoria foi do grupo político de extrema direita Ordine Nuovo.

A tensão aumentou gradualmente durante a década de 1970, numa época marcada por terrorismos das militâncias políticas extremistas de direita e de esquerda. O partido Democrata Cristão seguiu no poder.

Em 1974, Aldo Moro voltou ao cargo de Primeiro Ministro e, dois anos mais tarde, foi reeleito no cargo. Apesar de consolidar uma coalizão de centro-esquerda durante seus cinco mandatos, Moro foi perdendo o apoio dos partidos socialistas aos poucos. No seu lugar, em 1976, assumiu Giulio Andreotti, também da Democracia Cristã, partido que Aldo Moro presidia, aliás.

Em 1978, no dia em que Andreotti iniciava seu seguinte mandato, Moro foi seqüestrado pelo grupo político de esquerda Brigate Rosse. O alvo era o partido, que, segundo a Brigate Rosse, oprimia o povo italiano desde os anos 1950. Um dos seqüestradores, Franco Bonisoli, contou que cogitaram seqüestrar o Primeiro Ministro Giulio Andreotti, mas que pelo premiê gozar de uma proteção muito mais ostensiva, acabaram optando por raptar Moro, como relata o livro L’Italia degli anni di piombo, de Indro Montanelli e Mario Cervi, de 1991.

Depois de 55 dias de procuras frustradas, o corpo de Aldo Moro foi encontrado em Roma, num local bem próximo à sede do Partido Democrático Cristão. O episódio foi, talvez, a gota d’água daquele período que culminou no processo de Riflusso, um movimento social de desilusão política de uma “maioria silenciosa”, que disse basta pros Anos de Chumbo.

O marco inicial dos Anos de Refluxo foi a “Marcha dos Quarenta mil” em Turim, em outubro de 1980, que visava reabrir as fábricas da Fiat ocupadas por sindicalistas. Uma faixa carregada na passeata dizia “queremos negociar e não a morte da FIAT” e ilustrava bem como o povo havia se desvinculado dos sindicatos.

Um outro aspecto que caracterizou a época foi a massificação da TV, que trouxe um impacto na relação público e mídia com um boom de publicidade, acarretando diretamente num maior consumo. Começava um período de políticas de bem-estar social e o futebol integrava perfeitamente esse processo com a abertura do mercado para jogadores estrangeiros, e o primeiro deles foi Falcão.

Made in Italy

O bloqueio a estrangeiros ocorreu após a derrota da Itália para a Coréia do Norte na Copa do Mundo de 1966. Nascia o Made in Italy. Uma maneira de evitar que jogadores italianos fossem preteridos por estrangeiros e acabar por não formar talentos locais.

A mesma iniciativa já havia sido colocada em prática antes, em 1953, pelo então ministro do interior, Giulio Andreotti, que viria a ser Primeiro Ministro pela Democracia Cristã, por cinco vezes, inclusive substituindo Aldo Moro em 1976.

Andreotti acatou o pedido do Comitê Olímpico Italiano, que previa a proibição da inscrição de jogadores que não tivessem antepassados italianos, os chamados Oriundi.

Tanto em 1953 quanto em 1966, a motivação era a mesma. Primeiro se deu por conta do desastre aéreo que aniquilou o time do Torino, na Tragédia de Superga. O futebol italiano não conseguia formar uma Squadra forte e acharam que eliminando os estrangeiros o problema seria solucionado. A primeira intervenção durou apenas quatro anos, e foi durante a primeira proibição de estrangeiros que a Fiorentina contratou Julinho Botelho, em 1955. A contratação só foi possível pois encontraram um avô dele na Toscana, precisamente na cidade de Lucca.

O brasileiro havia se destacado na Copa do Mundo de 1954 na Suíça e atraiu a atenção do clube de Florença. Julinho, primeiro brasileiro a jogar na Fiorentina, foi fundamental na conquista do primeiro Scudetto viola e, na temporada seguinte, por levar o time até a final da Champions, quando perderam pro Real Madrid de Di Stéfano no Santiago Bernabéu, por 2 a 0.

Acontece que descobriram que o tal avô, de sobrenome Bottelli, era, na verdade, um sacerdote e a Fiorentina respondeu a um processo penal por alteração ilegal de estado civil, como contou a Gazzetta dello Sport, em reportagem publicada em 7 de maio de 2001.

Nesta época, houve o Passaportopoli — quase cinqüenta anos depois do caso de Julinho —, um escândalo envolvendo um esquema de 15 jogadores da Serie A italiana que usavam passaportes falsos, sendo sete deles brasileiros (dentre eles: Alberto Valentim, Dida e Fabio Junior), além de Juan Sebastián Verón e Álvaro Recoba. As suspensões variaram caso a caso, a maioria dos atletas ficou suspensa por uma temporada e apenas Verón foi absolvido.

Voltando à segunda proibição de jogadores estrangeiros, em 1966, a motivação de melhorar o nível do futebol local talvez tenha tido algum êxito, afinal, logo em 1968, a Itália se consagrou campeã européia naquele ano e foi vice-campeã mundial em 1970, quarta colocada em 1978 e, finalmente, campeã do mundo em 1982.

Mas, no âmbito de clubes, houve um declínio vertiginoso. Antes do fechamento a estrangeiros, o Milan levantou a Champions em 1963 e a Internazionale conquistou o bi da Champions em 1964 e 1965. Durante a proibição de contratações de jogadores não-italianos, somente o Milan conseguiu conquistar o principal título europeu, em 1969, e duas Recopas. A Juventus conseguiu vencer a Copa da UEFA em 1977 e só.

Os clubes italianos só voltaram a ter protagonismo na Europa a partir da reabertura em 1980, quando cada clube passou a poder contratar um jogador estrangeiro por temporada e, em paralelo, uma revolução midiática levaria o calcio aos seus anos mais gloriosos. No entanto, em 1980, houve um caso que mancharia o futebol italiano.

Pubblicità & Totonero

Dado o baixo rendimento dos clubes italianos nas competições da UEFA, o número de vagas passou de seis para quatro na temporada 1979/80. Tudo isso graças ao fechamento para contratação de jogadores estrangeiros, que provocou uma queda brusca de competitividade internacional do calcio.

Nesta temporada, em contrapartida, aconteceram também grandes inovações. Dada a popularidade do calcio e a necessidade de receitas para contratar jogadores e pagar seus salários, se fez necessária uma mudança que infringia, primeiramente, o regulamento da federação italiana de futebol [FIGC] e, depois, o gosto popular: a liberação para inclusão das marcas dos fornecedores de material esportivo, pois a opinião pública achava que qualquer marca estampada sujaria o uniforme.

Desde a década de 1970, já havia um contraste de realidades. Na final da Champions de 1972, entre Ajax e Internazionale, os holandeses estampavam no peito, à direita, a logo da Le Coq Sportif, enquanto a Inter levava o tradicional Scudetto do campeão italiano bordado na camisa apenas.

Havia, porém, alguns antecedentes numa outra época, pré-midiática. O próprio Torino, multi-campeão nos anos 1940, estampou como escudo a logo da Fiat, era uma maneira rudimentar de patrocínio esportivo, mas foram escassos e, logo, regulados e proibidos. Foi só em 1978 que houve uma inclinação para regulamentar não somente os patrocínios, mas também os direitos de TV e as apostas, que ficava a cargo da Promocalcio.

Na temporada 1978/79, ficou permitido o uso de logomarcas das empresas de material esportivo somente, num espaço não superior a 12cm², logo estendido a 16cm². Doze das dezesseis equipes da Serie A conseguiram se beneficiar da abertura comercial do campeonato. E foi aí que entrou uma jogada que envolvia um personagem chave no escândalo de acertos de resultados, que ficou conhecido como Totonero: Paolo Rossi.

O atacante de 22 anos terminou a temporada com 15 gols convertidos pelo Vicenza, mas não pôde evitar que seu clube fosse rebaixado. O faro goleador de Rossi atraiu o interesse dos grandes clubes italianos, mas numa jogada de marketing controversa o jogador acabou assinando com o Perugia.

Embora fosse um caminho sem retorno, quem acelerou a liberação dos patrocínios de camisa foi o presidente do Perugia, Franco D’Attoma, justamente na operação para contratação, por empréstimo, de Paolo Rossi junto ao rebaixado Vicenza. Primeiramente, o teor da transação, um empréstimo e não uma transferência em definitivo, foi fundamental pra convencer os dirigentes do Vicenza a não vender Rossi para nenhum clube grande. Dessa forma, Rossi poderia se valorizar ainda mais jogando a Serie A e se transferir mais adiante por um valor maior.

Com uma cifra de 700 milhões de liras, Franco D’Attoma contratou Paolo Rossi por um ano. Para conseguir a quantia, o presidente do Perugia acertou com a marca alimentícia Ponte um valor de patrocínio de 400 milhões. Mas o acordo previa que a marca fosse exibida no uniforme. D’Attoma, sabendo das restrições, fundou a Ponte Sportswear com a logomarca idêntica à da empresa de massas, e entrou em campo assim no dia 25 de agosto de 1979.

No dia 28 de agosto, o jornal italiano La Stampa constatou — além da óbvia percepção — a fraude, pois Paolo Rossi era o único jogador que não podia usar a marca no seu uniforme, pois o atacante tinha um contrato individual com uma concorrente da Ponte, a Polenghi Lombardo.

Era evidente a tentativa de burlar, mas apesar do veto e da ameaça de multas por parte da Liga Italiana, Franco D’Attoma entrou firme na queda de braço e acabou abrindo o mercado do futebol para a publicidade, pois mostrou uma oportunidade financeira não-explorada pelos clubes.

Por fim, depois de alguns meses proibida, em 23 de março de 1980, a Ponte volta a estampar a camisa do Perugia, desta vez de maneira legalizada.

Mas Paolo Rossi seria protagonista num outro episódio de manipulação bem mais grave: de resultados. O esquema envolvia diversos clubes e atletas. A denúncia foi levada ao ministério público no dia 1˚de março de 1980 pelos comerciantes Massimo Cruciani e Alvaro Trinca, que afirmavam terem sido trapaceados. Cruciani fornecia frutas e verduras para o restaurante de Trinca, onde jogadores da Lazio os induziram a apostar num resultado que estava acertado, no entanto, os apostadores tiveram um prejuízo de centenas de milhões de Liras e resolveram acionar o poder público.

O caso foi rápido, também naquele 23 de março de 1980, mesmo dia em que o Perugia voltou a usar o controverso patrocínio de maneira oficial, uma operação policial prendia, após o final da rodada, nove jogadores da Serie A e dois da Serie B ainda no campo de jogo, além do presidente do Milan, Felice Colombo, como mostrou o Telegiornale 1 da Rai naquela noite. Outros quatro jogadores foram intimados a comparecer à Guardia di Finanza, dentre eles Paolo Rossi.

Em 23 de dezembro de 1980, nove meses depois, todos os jogadores e dirigentes presos foram soltos e absolvidos pela Justiça italiana e as punições ficaram somente no âmbito esportivo, as sanções já haviam sido julgadas em segunda instância pelo “STJD” italiano, entre julho e setembro daquele ano.

Paolo Rossi cumpriria suspensão por dois anos e só voltaria no final da temporada 1981/82, quando já vestia a camisa da Juventus. Em junho de 1982, na Copa do Mundo, após disputar somente três partidas pela Juve, Rossi seria fundamental no título italiano deixando pelo caminho o Brasil, naquela que ficou conhecida como Tragédia de Sarrià, uma ferida que ficará aberta pra sempre no futebol brasileiro.

Das estrelas brasileiras naquele jogo: Zico, Falcão, Sócrates, Júnior, Toninho Cerezo e, no banco, Edinho, todos jogariam no calcio nos anos 1980.

Da luta armada à moda

A abertura do mercado para estrangeiros veio em conjunto com a necessidade de mudar radicalmente a imagem manchada do futebol italiano. Os direitos de TV internacionais seriam somente uma conseqüencia direta de uma combinação esportiva e, sobretudo, de marketing.

Após ser campeã mundial, a Itália vivia um momento de alegria passados, por fim, os anos de chumbo que à esquerda, por parte dos extremistas comunistas denominados Brigate Rosse, foram mais de oitenta mortos em atentados até o final da década de 1970 e, à direita, em somente um atentado, do grupo neo-fascista NAR [Nuclei Armati Rivoluzionari], em 2 de agosto de 1980, foram 85 mortos com uma bomba na estação central de Bolonha, no maior ato terrorista dos chamados Anos de Chumbo.

O início dos anos 1980 trazia uma nova era, de profundas mudanças, em que a população dizia um basta e isso passava também por um novo estilo, uma nova cara pro país e também pelo consumo, era o tal período conhecido como Anos de Refluxo. As manifestações deixavam as ruas. A morte de um Primeiro Ministro, como Aldo Moro, por um grupo extremista de esquerda, justamente ele, tendo sido o único a dialogar com as alas socialistas, acarretou numa conclusão: de que não se entendia nada do que se estava vivendo, como relatou à Rai a jornalista e escritora Natalia Aspesi: “O terrorismo não propunha uma mudança, mas sim a desordem”. E os jovens assim entenderam e deixaram de se interessar por política e seguiram os passos de Tony Manero, o personagem de John Travolta do filme Saturday Night Fever, provocando um aumento de discotecas no país, além de milhões de pessoas que começaram aulas de dança, conforme mostra o documentário L’Italia Della Repubbica – Gli anni del riflusso.

Já outros desiludidos com a revolução buscaram religiões indianas que chegavam à Itália, por outro lado, a droga, precisamente a heroína, também serviu de anestésico para o vácuo ideológico daquela época de transição.

E é nessa transição de comportamento, com o crescimento da publicidade e da teledifusão, que surge um personagem central no que a Itália viveria nas próximas duas décadas: Silvio Berlusconi, seus investimentos no setor de comunicação levaria à fundação do Canale 5 [Cinque], em 1980, com transmissão nacional do Mundialito do Uruguai. Berlusconi antevia o poder da TV, do futebol e da combinação de ambos.

Nada simbolizaria mais essa transição do que a presença de Giorgio Armani na capa da revista Time, de abril de 1982, logo antes da conquista do Mundial. O título da Copa do Mundo também serviu, de maneira simbólica, como marco do fim dos Anos de Chumbo, foi um momento em que a Itália inteira se abraçou. Não havia direita nem esquerda, empresários ou sindicalistas. Eram todos italianos unidos, deixando a política e a crise pra trás.

A Itália já mostrava pro mundo um novo rosto e o futebol também acompanhava a tendência, trazendo uma revolução estética em diversos escudos dos times, como contou John Foot no livro Calcio.

Milan e Inter trouxeram versões minimalistas distantes das heráldicas tradicionais, uma roupagem vanguardista nas camisas dos principais clubes de Milão, cujo slogan publicitário à época era: “Milano da bere” [“Milão para beber”, em tradução livre].

Outros clubes como Roma, Lazio, Torino, Atalanta, Fiorentina, Bari e Verona também seguiram a reformulação de suas “marcas” e, inconscientemente, isso seria importantíssimo para a popularização do calcio no mundo todo, uma vez que os grandes craques mundiais estavam espalhados pela Velha Bota, os álbuns de figurinha da Panini eternizaram esses ícones e até times de botão dos clubes italianos eram vendidos no Brasil.

Em maio de 1984, a FIFA anunciou a escolha da Itália como anfitriã da Copa do Mundo de 1990 em vez da União Soviética, o que caracterizava um nítido esforço político do país para mostrar uma nova Itália desvinculada, por um lado, no futebol, do escândalo das vendas de resultados e, por outro, na política, de disfarce da histórica e enraizada operação da máfia no país.

Enzo Bearzot, técnico da Azzurra na época, falou ao jornal La Repubblica em vinte de maio de 1984: “É uma vitória de todos… a Itália se tornará o centro do Mundo”.

De fato, a Copa do Mundo de 1990 foi uma revolução estética nas transmissões, com a inserção de caracteres muito à frente do que se via na televisão no mundo todo. Não faltaram esforços para mostrar um país pujante, totalmente diferente daquele de dez anos antes.

As figuras de Giorgio Armani, Gianni Versace e Luciano Benetton davam uma cara à tendência da alta costura que transcendia as passarelas. Benetton marcou, além da moda, a publicidade com anúncios à frente de seu tempo, o famoso “United colors of Benetton”. Além disso, a grife também era uma escuderia de Fórmula 1, outro pilar italiano neste processo de revolução.

Nicola Raccuglia

Nascido em Palermo, na Sicília, Raccuglia foi um jogador inexpressivo nos anos 1960, que jogou em clubes de segundo escalão como Arezzo, Vicenza, Ascoli, Jesi, Marsala, Cavese, Juve Stabia e, finalmente, no Pescara, onde se aposentaria e iniciaria um empreendimento no setor têxtil, precisamente no segmento de roupas esportivas.

Se dentro de campo não há nenhum vestígio de genialidade, fora dele, Nicola Raccuglia foi um visionário, talvez por acaso, quando ele percebeu, no início dos anos 1970, que as camisas de futebol poderiam ser objetos de coleção. Mas nada teria ficado para a posteridade se, em paralelo, a Itália não se tornasse o centro do futebol mundial.

As camisas de quase todos os principais times do Calcio foram, em algum momento, fabricadas pela NR, marca que levava as iniciais de Nicola Raccuglia. Ícones como Sócrates na Fiorentina, Baresi no Milan e, sobretudo, Maradona no Napoli, todos eles levaram o NR no peito, uma marca que carrega uma carga sentimental que remete aos primórdios do marketing esportivo, quando os jogos já eram transmitidos em outros continentes, mas o mercado nem sonhava com a expansão de distribuição global de camisas de times.

Além de Napoli, Milan e Fiorentina, também vestiram NR: Lazio, Roma, Sampdoria e outros times da Serie A e B da Itália. E já nos anos 1990, dois times fora da península itálica tiveram seus uniformes confeccionados pela NR que marcaram época: Kashima Antlers de Zico e o Uruguai, campeão da Copa América de 1995, com Enzo Francescoli.

Era o tempo pré-expansão e hegemônico das grandes marcas que se consolidariam globalmente no final dos anos 1990 em diante, como Adidas, Nike e Puma. Outras tantas marcas marcaram o imaginário de torcedores do mundo todo em diferentes épocas e lugares. A NR foi uma delas.

Mediolanum

Quem não se lembra de vários patrocinadores que marcaram aquela época? Agfacolor na Udinese, Canon no Verona, Barilla na Roma, ERG na Sampdoria, Danone na Juventus, Misura na Inter. Na camisa do Milan da metade da década de 1980 estava a Mediolanum, que foi um desses patrocinadores clássicos.

Mediolanum é o nome arcaico da cidade de Milão e a marca era de uma financeira de propriedade do grupo Fininvest, fundado por Silvio Berlusconi em 1978. O empresário já detinha também algumas participações em telecomunicações, naquilo que se tornaria o conglomerado Mediaset.

Berlusconi adquiriu o Milan e salvou o clube da falência. Trouxe uma ambição que transcendia o esportivo e o econômico. Havia uma história a ser contada. Tudo premeditado.

Um clube em crise esportiva e institucional, chega um novo presidente — leia-se proprietário —, salva da falência e eleva o time a um patamar continental. Para um mega-empresário, ambicioso como se mostrou Berlusconi, seria uma plataforma midiática tão importante como outros empreendimentos na área de comunicação como ele já detinha: Il Giornale e a TeleMilano, que se tornaria o Canale 5, embrião da Mediaset. Uma estrutura midiática preparada para sua trajetória política, mas ainda faltava um case de sucesso.

Berlusconi adquire o clube em março de 1986, o Milan terminaria em sétimo naquela temporada. O impacto das contratações — de Daniele Massaro para o ataque, Roberto Donadoni pro meio-campo e Giovanni Galli pro gol — foi imediato. O time era comandado pelo sueco Nils Liedholm, ídolo milanista, mas a seis rodadas do fim, após a demissão do treinador, quem assumiu interinamente foi o técnico do time Primavera — como eles chamam o time de juniores —, Fabio Capello, que havia se aposentado no clube em 1980, e treinava os jovens desde 1982.

Capello conseguiu ainda classificar o time pra Copa da UEFA, depois de vencer a emergente Sampdoria no Spareggio, duelo tradicional de desempate no campeonato italiano. Mas a temporada seguinte mudaria os rumos do clube e do futebol mundial, inclusive, com a chegada de Arrigo Sacchi.

Enquanto o Milan se reestruturava e buscava retomar seu lugar no topo do calcio, outros times italianos viviam anos dourados e alguns nunca mais voltariam a viver semelhante esplendor.

Enquanto Berlusconi adquiria o Milan, o Napoli já havia contratado Maradona, a Udinese teve Zico, a Roma contou com Falcão e a Juventus era campeã européia com Platini.

Ou Zico ou Áustria!

A contratação de Zico causou comoção na Velha Bota, pelo menos na região do Friuli. No Brasil, o desconhecido time do nordeste da Itália ganhava fama. Edinho, ex-zagueiro do Fluminense, rumou para Udine em 1982, e esse seria o destino de Zico. No entanto, a transferência do camisa 10 foi contestada devido às cifras envolvidas. Havia uma suspeita de fraude fiscal além da origem do dinheiro pago ao Flamengo, que levou ao bloqueio de ⅔ do salário do jogador pelo fisco italiano.

A transferência foi intermediada pela Groupings Ltd, empresa supostamente com sede em Londres, como conta a Revista Placar de cinco de abril de 1985. A triangulação se deu da seguinte forma: a empresa ficava responsável por fazer um pool publicitário para financiar os US$ 4 milhões pedidos pelo Flamengo pelo passe de Zico, na época com trinta anos.

A título de comparação, Maradona, se transferiu do Boca Juniors para o Barcelona em 1982, aos 21 anos, por US$ 8 milhões e, em 1984, do Barça para o Napoli, por US$ 13 milhões, de acordo com os registros da época. Esses eram os valores máximos pagos pelos melhores jogadores do mundo e quase todos desembarcavam na Itália, como o primeiro de todos: Falcão, cuja cifra girou ao redor de US$ 1,5 milhão, que deixou Porto Alegre para jogar em Roma.

A Udinese tinha subido da Serie B na temporada 1978/79, e até a chegada de Zico ocupava sempre a parte inferior da tabela. Com a chegada do camisa 10, o time conseguiu terminar em nono lugar.

Lamberto Mazza se tornou presidente da Udinese em 1981, e ele foi o responsável pela aquisição de Zico. Mazza era presidente da Zanussi, uma marca de eletrodomésticos italiana da mesma região da Udinese, Friuli. A marca se associou ao futebol um ano antes da chegada de Zico à Udine. A empresa se tornou a primeira patrocinadora do Real Madrid em meados de 1982.

O patrocínio ao clube merengue durou dois anos, pois em 1984, a Electrolux adquire a Zanussi. Talvez esse seja o principal motivo da investigação instaurada pelo fisco italiano e pelo qual Lamberto Mazza relata ao Corriere della Sera em março de 1984, que os políticos friulanos haviam declarado guerra a ele.

Mais do que qualquer perseguição, havia uma suspeita clara de evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Tal como relata a Revista Placar de cinco de abril de 1985, os rumores que corriam na Itália eram de que a operação de Zico foi usada por Mazza para facilitar remessas ao exterior ilegalmente através da Groupings. Além disso, falava-se que a empresa tinha um ridículo capital social de cinco Libras!

A discussão era ampla, pois a mesma reportagem da Placar apontava que a prática era comum na Itália, que jogadores tinham um contrato oficial, sobre o qual pagavam seus impostos, e outro por fora. Sendo uma prática tão corriqueira, a torcida da Udinese estranhou que houvesse uma apuração tão minuciosa e rígida do caso.

Zico chega e é recebido como um chefe de estado, naturalmente. Mas, logo em seguida, a aquisição do craque brasileiro é suspensa temporariamente após sua estréia, que se deu num amistoso contra o Flamengo em Udine. O mesmo aconteceu com Toninho Cerezo, que chegava à Roma na mesma época e ficou impedido de jogar. A Federação Italiana não aceitou a inscrição dos jogadores por conta do gasto ser considerado incompatível com as dimensões dos clubes.

Na série documental italiana I Miti del Calcio, Mazza aparece na Piazza XX di Settembre repleta de gente, dizendo: “Eu decidi fazer a Udinese ser grande” e, em seguida, aparece uma faixa na parte alta do aeroporto, regada de torcedores, com os dizeres: “Mazza, La Nord ti ringrazia” [Mazza, a torcida Nord te agradece].

A medida da Federação Italiana soou como perseguição política e os desdobramentos recaíram numa questão territorial para os habitantes do Friuli. A região já havia sido parcialmente dominada pelo império Austro-Húngaro e coube à população se posicionar contra o governo central a partir da suspensão da transferência do craque brasileiro e é quando surge uma bandeira, durante o pronunciamento do então presidente da Udinese na praça XX di Settembre, com a frase que ficou pra história e virou lenda: Ou Zico, ou Aústria!

Entre o amistoso de estréia e a apresentação definitiva passou-se mais de um mês, quando o imbróglio chegou a um “fim”. Zico voltou a campo contra o Hajduk e iniciou ali, oficialmente, sua passagem efêmera pelo calcio.

Rei de Roma

Quando Falcão chegou à Roma, abrindo o mercado para estrangeiros na Velha Bota, ele ajudou na conquista do bicampeonato da Coppa Italia 1980/81. Mas foi na temporada 1982/83 que o trono romano foi conquistado pelo brasileiro. O segundo Scudetto da Roma era conquistado sob a batuta de Paulo Roberto Falcão. O título garantiu vaga para a Copa dos Campeões da temporada seguinte, na qual os romanistas chegaram até a final, cuja sede era justamente o Stadio Olimpico.

Apesar de perder nos pênaltis, a chegada da Roma àquela final era o prenúncio daquilo que se tornaria um domínio esportivo e econômico do futebol italiano em âmbito europeu alguns anos mais tarde. Falcão estava destinado a ser eterno no clube na Cidade Eterna, embora tenha sido necessária uma articulação política para a permanência do brasileiro na Roma.

O presidente e proprietário da Roma à época, Dino Viola, era um empresário do ramo armamentista e tinha ótimas relações com o governo italiano. Quando, em 1983, a Internazionale, presidida por Ivanoe Fraizzoli, ofereceu um ótimo salário a Falcão, Dino Viola precisou apelar a um contato dentro do governo: Giulio Andreotti, ele mesmo, que já havia sido Primeiro Ministro cinco vezes e, naquela altura, ocupava o cargo de Ministro das Relações Exteriores. O presidente da Inter, Fraizzoli, também empresário, era fornecedor de uniformes para o exército italiano, como relata Paulo Vinícius Coelho no seu livro Bola Fora.

Dino Viola ameaçou falir Fraizzoli, rompendo o contrato do governo com a sua empresa e usou Andreotti para mandar o recado. Não coube outra alternativa ao presidente da Inter, a não ser desistir da contratação de Falcão. Assim, o brasileiro permaneceu na Roma, onde chegaria à final da Champions naquela temporada.

O Scudetto fantástico

Após a crise do Totonero, da chegada controversa de jogadores financiada por operações pra lá de suspeitas, a temporada de 1984/85 foi a mais fantástica. O Milan ainda não era nem sombra do que seria a partir de 1988, mas aquela temporada marcou a chegada de ninguém menos que Diego Armando Maradona à Itália, onde já estavam Zico, Platini, Falcão, Passarella e Sócrates.

O jogo entre Udinese e Napoli pela penúltima rodada nessa temporada foi a síntese do que era o futebol italiano naquele momento. Um mar de fotógrafos atrasava o início da partida para registrar um abraço entre Maradona e Zico. Depois da foto, o árbitro também quis aparecer no meio dos dois e convocou novamente os dois capitães para outra foto.

Os melhores momentos desse jogo parecem um compilado de lances de um campeonato inteiro de cada time. Zico e Maradona fizeram jogadas magníficas, desfilaram em campo. Empate por 2 a 2. No final do jogo, Zico já falava em retornar ao Flamengo quando um repórter perguntava sobre se transferir para um time grande da Itália.

O Napoli terminou o campeonato em oitavo lugar e a Udinese acabou na 12.ª colocação. Essa temporada teve um sistema de definição de árbitros diferentes. Historicamente, a arbitragem era nomeada pelos clubes e uma comissão especial definia quais eram os árbitros adequados para cada encontro. Mas em 1984/85, os juízes eram sorteados.

Coincidência ou não, nem Juventus, nem Inter, nem Roma, nem Milan. O campeão desta edição seria o modesto Verona. Um título inesperado.

Estranhamente, a federação voltou a adotar o sistema de nomeação logo após o triunfo do Verona e somente o Napoli, na temporada 1986/87 sob a liderança de Maradona, e a emergente Sampdoria conseguiram furar o domínio dos clubes mais ricos do centro-norte do país.

Calcio D’Oro

Como já citado, o time de Arrigo Sacchi venceu as edições de 1988/89 e 1989/90 da Copa dos Campeões. Na temporada 1990/91, os Rossoneri caíram pro Marseille nas quartas-de-final e o campeão italiano, Napoli, caiu nas oitavas-de-final pro Spartak de Moscou. Era a última vez que Maradona jogaria numa competição européia pelo time napoletano.

Antes, o Napoli tinha conquistado a Copa da UEFA na temporada 1988/89 com o camisa 10 argentino, em sua plenitude, ao lado do atacante brasileiro Careca. Um jogo em especial marcou essa edição, foi nas quartas-de-final, quando Napoli e Juventus se enfrentaram.

No jogo de ida, a Juventus tinha vencido por 2 a 0 em Turim. Na volta, um 3 a 0 a favor dos napolitanos, proporcionando um duelo à altura do futebol italiano daquela época. O terceiro gol se deu aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação, após cruzamento de Careca e cabeceio de Renica.

Os festejos no Stadio San Paolo eram comparáveis a um título, uma explosão libertadora, pois existia uma mensagem subliminar importantíssima para a população do Sul da Itália, que era a eliminação em um torneio europeu de um poderoso time do norte diante da única força do sul que conseguiria tocar o céu em âmbito continental. Nunca antes nem depois — até 2018, pelo menos — um clube da parte de baixo da península itálica conquistou uma competição européia.

Naquela temporada, as três competições européias contaram com italianos nas finais: Milan venceu a Copa dos Campeões, o Napoli a Copa da UEFA e a Sampdoria perdeu pro Barcelona a Recopa.

A partir dali, ficava visível a hegemonia italiana também na Copa UEFA, com Juventus e Fiorentina fazendo a final da edição 1989/90 e o título ficando pros Bianconeri; na temporada seguinte, outra final italiana, quando a Internazionale bateu a Roma e ficou com o caneco. Um ano mais tarde, outro italiano chegava à final da Copa da UEFA: o Torino perderia, no entanto, para o Ajax, de Dennis Bergkamp, que se transferiria pra Inter e faria dupla com Fontolan.

Era o grande centro do futebol mundial. Aliado ao desenvolvimento econômico da liga desde o início dos anos 1980, a partir da abertura para jogadores estrangeiros, e isso também envolveu muita corrupção, lavagem de dinheiro de famílias mafiosas e de empresas, sem falar de Silvio Berlusconi, que fez do Milan a sua principal plataforma de ascensão política após pegar o clube em uma crise institucional e elevá-lo à potência italiana e européia.

O renascimento do Milan se deu em paralelo à “desconhecida” Sampdoria que subiu degraus dentro da Itália e conquistou duas Coppe Italia, em 1987/88 e 1988/89, que lhe deram vagas pra extinta, mas tradicionalíssima à época, Recopa da UEFA. A Samp chegou à final em 1989 quando perdeu pro Barcelona e, no ano seguinte, chegou novamente à finalíssima mas, desta vez, levava o título europeu pra Gênova.

A Sampdoria atraía jogadores do quilate de Toninho Cerezo, primeiramente, que se juntou aos atacantes Gianluca Vialli e Roberto Mancini, além do goleiro Gianluca Pagliuca e ao icônico meia Attilio Lombardo. Esse time comandado pelo iugoslavo Vujadin Boškov chegou à glória máxima na temporada 1990/91 ao conquistar o inédito título da Serie A, terminando cinco pontos à frente do poderoso Milan de Arrigo Sacchi.

A Samp chegaria à final da última edição da até então chamada Copa dos Campeões, que passaria a ser chamada Champions League na temporada seguinte. A final era em Wembley, mas o resultado final coroou o Dream Team do Barcelona de Johan Cruijff. De todas as formas, os feitos da Sampdoria configuraram uma verdadeira epopéia.

Se houvesse uma trilogia do Calcio D’Oro, esse teria sido o primeiro ato. A segunda parte começaria com o Milan de Fabio Capello, na recém criada UEFA Champions League, que caiu diante do Marseille na temporada 1992/93. Como era comum na época, os principais jogadores do time francês desembarcariam no calcio logo adiante: Marcel Desailly foi pro Milan, Didier Deschamps e Alen Bokšić, para a Juventus; já Jocelyn Angloma e Abedi Pelé assinaram com o Torino.

Um ano mais tarde, na final da Champions League, duelariam os dois clubes que jogavam o futebol mais fantástico na Europa naqueles últimos cinco anos. Chegariam à final da edição 1993/94, às vésperas da Copa do Mundo dos EUA, o Barcelona de Johan Cruijff, reforçado por Romário, e um Milan mais poderoso do que nunca, com uma defesa que jogava junta há muitos anos.

De um lado um jogo propositivo, com um Guardiola de primeiro volante onde todas as bolas passavam por ele e, do outro lado, um time ultra-organizado, pragmático taticamente, que tinha uma defesa impecável e um contra-ataque letal.

O time de Capello herdou a organização defensiva de Arrigo Sacchi, que assumiu a seleção italiana em 1991. Há um relato interessantíssimo de Sacchi contado no livro Os Números do Jogo: “Eu convenci Gullit e Van Basten quando expliquei a eles que cinco jogadores bem organizados ganham de dez mal organizados”, disse ele. “E provei. Peguei cinco jogadores: Galli no gol, Tassotti, Maldini, Costacurta e Baresi. O outro time tinha dez jogadores: Gullit, Van Basten, Rijkaard, Virdis, Evani, Ancelotti, Colombo, Donadoni, Lantignotti e Mannari. Eles tinham 15 minutos para fazer um gol contra meus cinco jogadores. A única regra era que, se nós roubássemos a bola ou se eles a perdessem, eles tinham que recomeçar da própria área. Eu fazia isso toda hora e eles nunca marcaram. Nem uma vez sequer.”

As idéias de Cruijff, incorporadas e desenvolvidas por Guardiola posteriormente, visavam a posse de bola como maneira de controlar o jogo e evitar gols dos adversários. Frases como “só há uma bola em jogo, então você tem que ficar com ela” sintetizam o conceito do holandês.

Entretanto, pelo menos neste duelo de idéias opostas, Arrigo Sacchi saiu vencedor. Fabio Capello manteve a mesma organização defensiva dos tempos de Sacchi e aplicou um 4 a 0 sobre o time de Cruijff com Romário, Stoichkov, Koeman e Guardiola em campo naquela final em Atenas.

Anni novanta

A consistência econômica do calcio não acompanhava mais a economia italiana, que começava a apresentar graves problemas. A política de bem-estar social trazia um aumento de déficit público, sobretudo porque, além de mais despesas, as receitas caíram com a sonegação de impostos.

A crise econômica do modelo de bem-estar social trouxe à tona um sentimento separatista espelhado num discurso nacionalista neo-liberal, personificado em Silvio Berlusconi. O sucesso do Milan desde 1988 até 1994 era o grande case do empreendedor que dispunha de uma plataforma financeira e de telecomunicações invejáveis. Não à toa, se apropriou do slogan Forza Milan para criar o slogan Forza Italia, que transmitia exatamente a idéia de êxito que tinha mudado drasticamente o inconsciente popular nos anos 1980.

Cresceu exponencialmente o número de pequenos empreendedores, sobretudo impulsionados pelo mercado de moda e também no âmbito financeiro, quando a Bolsa de Milão teve uma grande adesão de novos pequenos investidores. Os empreendedores deixaram de ser inimigos do povo e passaram a ser um exemplo a seguir. Era exatamente o caso de Berlusconi.

Forza Italia era um braço da Lega Nord, fundada em 1989, que originalmente propunha a independência da Padania, região norte da Itália. Padania deriva do nome latino do Rio Pó [Padus], e compreende as regiões do Val D’Aosta, Piemonte, Lombardia, Liguria, Veneto e Friuli, além de Toscana e Emilia-Romana.

Em 15 de abril de 1994, Silvio Berlusconi assumia seu primeiro mandato como deputado nacional pela Forza Italia. Quase dois meses mais tarde, seria eleito Primeiro Ministro: xeque-mate.

A entrada oficial de Berlusconi na política trouxe uma imediata instabilidade esportiva para o clube rossonero. Adriano Galliani levou tempo até conseguir recolocar o Milan nos trilhos. Contratações fracassadas, mudança de técnicos e uma Juventus que assumiu o lugar deixado pelos milanistas dentro e fora da Itália.

Os anos 1990 marcaram o ápice do futebol italiano em todas as suas vertentes, das negociatas e injeções de dinheiro que acarretariam em rebaixamentos por falências. Alguns clubes foram salvos por magnatas após serem destruídos por outros magnatas, como a Lazio de Cragnotti que foi recuperada por Claudio Lotito após uma operação fraudulenta mal-sucedida.

Cragnotti, dono da Cirio que patrocinava a Lazio, criou uma nova empresa [Eurolat] que controlaria a operação de laticínios da Cirio e seria controlada pela Parmalat. Mas a Parmalat também passaria por profundos problemas financeiros e deixaria o Parma endividado. Outro caso emblemático foi o da Fiorentina que, em 2001, já apresentava um processo de falência, mas as vendas de seus principais jogadores [Gabriel Batistuta, Rui Costa e Francesco Toldo] apenas adiaram o que aconteceria inevitavelmente um ano mais tarde. A Fiorentina faliu em 2002, foi refundada e recomeçou sua trajetória na Serie C2.

O Parma, outro expoente dos anos 1990, também atravessaria graves problemas econômicos depois da quebra da Parmalat que, por sua vez, se descobriu fraudulenta logo após a falência decretada. O calcio se tornou um paraíso fiscal de magnatas italianos. As transferências e altos salários de jogadores e técnicos levaram a diversos casos de falência e refundação dos clubes, caso do Napoli pós-Maradona.

Mas enquanto o dinheiro jorrava, o calcio dominava a Europa. Finais de Copa da UEFA, títulos da Recopa e três finais consecutivas da Juventus. Era um momento de transição não só do futebol europeu, a partir da lei-Bosman e da reformulação da principal competição européia de clubes, que passou a ser chamada de Champions League e a contar com mais times participantes gradualmente, mas também estava por surgir o Euro como moeda, que traria um teto e uma prestação de contas das finanças italianas junto ao Banco Central Europeu. A farra estava com seus dias contados.

A Itália sempre esteve à frente em negócios como a co-propriedade de atletas. A própria Parmalat passou a controlar clubes por meio de patrocínios em diferentes países, como Benfica, Boca Juniors e Palmeiras na mesma época.

Ferran Soriano contou em seu livro “A bola não entra por acaso” que a negociação com italianos era sempre mais complexa. Soriano, ex-vice presidente do Barcelona, relatou o caso da transação de Zambrotta para o Milan, quando Adriano Galliani, após a reunião, detalha toda a transferência por telefone. Ao desligar, Ferran Soriano pergunta com quem ele estava falando, afinal, ele dera muitos detalhes da negociação na chamada telefônica. Galliani disse que estava falando com um jornalista, que preferia ele mesmo passar as informações antes que as inventassem. Os rumores do “calciomercato” movimentavam demais as redações e, logo, as vendas dos principais jornais esportivos da Itália, como Gazzetta dello Sport, de Milão, Corriere dello Sport, de Roma, e o TuttoSport, de Turim.

Tudo isso colocou a Itália à frente do futebol mundial. Outros processos aconteciam em paralelo em diferentes pontos da Europa. Por um lado, o Ajax recrutava jogadores em mercados periféricos como Finlândia, de onde trouxe Jari Litmanen, ou África, onde garimparam Finidi, que somados a uma geração formada nas camadas inferiores do clube, sob a batuta de Louis van Gaal, conseguiram duelar com o todo-poderoso Milan em 1995, conquistando o título da Champions League, um ano depois dos Milanistas massacrarem o Dream Team do Barcelona de Johan Cruijff.

Na temporada seguinte, praticamente o mesmo time do Ajax chegaria novamente à final da Champions, na qual cairia diante da proeminente Juventus, que tomou o lugar do Milan imediatamente após Berlusconi iniciar sua carreira política. Com o Mercado Comum Europeu a pleno vapor, os principais jogadores do Ajax acabariam no Milan, na Juventus e até na Sampdoria, caso de Seedorf, que logo depois se transferiu para o Real Madrid, que se reconstruía num plano ambicioso de Florentino Pérez.

O Bayern perdia um pouco da sua força dentro da Alemanha, o Dortmund desbancou o clube da Baviera na Bundesliga e foi o time a bater a Juventus na final da Champions, em 1997.

No ano seguinte, na terceira final consecutiva da Juventus comandada por Marcello Lippi, foi o Real Madrid, já com Seedorf, que levantou a orelhuda. Nesse momento, o Barcelona estava perdido após a saída de Johan Cruijff, que deixava o futebol por problemas cardíacos. Entre contratações recordes como a de Ronaldo, em 1996, e a venda um ano depois para a Inter, o clube acabou se transformando num centro holandês, liderado por Louis van Gaal vindo do Ajax, de onde trouxe muitos de seus pupilos, como os irmãos Frank e Ronald de Boer, Reiziger, Kluivert e outros holandeses, como Cocu e Zenden.

O clube blaugrana contratava Rivaldo num primeiro momento e Riquelme logo depois para o lugar do brasileiro, jogadores que não encaixam nas idéias táticas de van Gaal. Enquanto seguia sem um rumo definido, quem dominava a Champions era o Real Madrid, com três títulos em cinco edições entre 1998 e 2002.

Em 1999, um clube inglês finalmente voltaria a uma final de Champions como conseqüência da revolução imposta pelo Relatório Taylor, que levou à criação da Premier League. Os inventores do jogo estavam muito atrasados e corriam atrás para recuperar o déficit.

Pra chegar à finalíssima da Champions daquele ano, disputada em Barcelona, o Manchester United teve de superar a poderosíssima Juventus, à essa época já comandada por Carlo Ancelotti e não mais por Lippi, que deixou o clube para treinar a Inter que buscava seu lugar ao sol.

Naquele duelo válido pela semifinal, o Manchester United superou os italianos mostrando a força do trabalho de um clube que apostava no mesmo técnico desde 1986 e de uma liga que começava a mostrar sinais de competitividade continental novamente após chegarem ao fundo do poço, quando mesmo proibidos de disputar qualquer competição européia, entre 1985 e 1991, proporcionaram o maior dos desastres, aquele de Hillsborough em 1989 na semifinal da Copa da Inglaterra, entre Liverpool e Sheffield Wednesday.

Para enfrentar o Manchester United na final, o Bayern buscava recuperar o território que havia perdido dentro da Alemanha, onde dominava desde a fundação da Bundesliga e via o Dortmund crescer. Com um final épico, decidido nos acréscimos com gols dos reservas Sheringham e Solskjær, o título do United significava um novo momento do futebol europeu. Os italianos ainda tinham a melhor liga e demonstraram isso por mais algum tempo, sobretudo na Copa da UEFA. Mas a página começava a virar.

Desde 1989, a final da competição continental secundária teve um representante italiano pelo menos, exceto em 1996, quando Bayern e Bordeaux duelaram na final. No Bordeaux se destacaram dois jogadores: Christophe Dugarry e Zinédine Zidane.

O Milan foi eliminado nesta edição justamente pelo Bordeaux, nas quartas-de-final. Depois de ganhar em Milão por 3 a 0, os Rossoneri perderam na França por 3 a 0, com dois gols de Dugarry. Ao finalizar a temporada, os Milanistas correram pra contratar o atacante, já a Juventus, campeã da Champions, contratou Zidane. O resto é História.

O Milan continuou perdido entre contratações deste estilo e a Juventus se transformou numa máquina de incorporar talentos.

A Copa da UEFA se tornaria um reinado italiano até o início da década de 2000. O Parma, com um time altamente competitivo subsidiado pela Parmalat, conquistaria duas vezes a competição, a primeira delas diante da Juventus em 1995.

Também em 1995, a Internazionale foi comprada por Massimo Moratti, empresário que herdou o grupo Saras de refinaria de petróleo e também a paixão pela Inter, que já havia sido presidida pelo seu pai, Angelo, nos anos 1950 e 1960. Em 1998, após contratarem Ronaldo e uma infinidade de jogadores, os Nerazzurri finalmente levantaram uma taça expressiva ao derrotarem a Lazio na final da Copa da UEFA. A Inter tinha perdido na final do ano anterior, a mesma Copa da UEFA, para o Schalke 04.

No ano seguinte, foi a vez do Parma tocar o céu pela segunda vez, ao derrotar o Marseille por 3 a 0 na final, em Moscou. Desta vez com um esquadrão histórico. Era o ápice dos investimentos da Parmalat, no time estavam jogadores do calibre de Buffon, Thuram, Sensini, Cannavaro, Verón e Crespo.

Verón e Sensini assinariam com a Lazio. Crespo chegaria um ano mais tarde ao clube da capital onde, juntos, conquistariam o Scudetto na temporada 2000/01, o segundo da história dos Laziali. Era um time caríssimo para a dimensão do clube, tal como no Parma, a Lazio só podia manter os gastos graças aos aportes de Sergio Cragnotti por meio da sua empresa e patrocinadora do clube, a Cirio. O envolvimento de empresas em negócios com retorno duvidoso levantava suspeitas de lavagem de dinheiro, já que os investimentos estavam muito acima do que valeria um patrocínio de camisa.

O Milan padecia com a falta de um projeto esportivo consistente, sobretudo após a aposentadoria de Franco Baresi em 1997, pilar defensivo do time de Arrigo Sacchi, responsável pela saída de bola e pelo avanço da defesa para deixar os adversários em impedimento.

Até que, em 1998, o clube contratou mais um atacante, depois de George Weah e Patrick Kluivert não terem dado certo como se esperava. Chegou da Udinese o alemão Oliver Bierhoff, que terminaria como artilheiro do time e campeão, quase sem querer, graças a um empate da Lazio com a Fiorentina em casa, na penúltima rodada. Mas o Milan só voltaria à sua plenitude mais adiante.

Na mesma temporada de 1998/99, o Dynamo de Kiev fez uma Champions League surpreendente. O time tinha dois jogadores que despontavam: Shevchenko e Rebrov. Desta vez, o Milan contratou Andriy Shevchenko.

Nessa época, precisamente no ano de 2000, o campeonato italiano deixou de ser transmitido pela ESPN. Foi um momento de turbulência da comunicação, chegavam as operadoras via satélite como Sky e Directv ao mercado, concorrendo com as outras TVs por assinatura mas via cabo. A Sky tinha um canal exclusivo, a PSN [Panamerican Sports Network], que pertencia ao grupo investidor do Corinthians e Cruzeiro, a Hicks & Muse. Mas o canal logo desapareceu e os direitos de transmissão ficaram sem dono no Brasil até voltar a ser transmitido na ESPN.

Milan volta a ser Milan, Itália volta a ser Itália

Na trilogia do calcio, o primeiro ato correspondia à abertura do mercado para estrangeiros nos anos 1980. O segundo ato começava com o domínio europeu do futebol italiano e terminava com a eclosão a Cirio de Cragnotti na Lazio, da Parmalat no Parma e da Fiorentina do magnata Vittorio Cecchi Gori, preso por falência fraudulenta do clube em 2002.

O terceiro ato começa com a chegada de Alessandro Nesta da Lazio, quando o Milan voltaria a ser uma potência européia. Haviam remanescentes daquele velho time de Arrigo Sacchi, como Maldini e Costacurta, além de adições como Nesta, Shevchenko, Seedorf e Pirlo.

Andrea Pirlo demorou até se encontrar no futebol italiano. Foi logo contratado pela Inter, que contratava qualquer talento que via pela frente, num desespero para rivalizar ora com Milan, ora com Juventus. Mas até Roma e Lazio conseguiram conquistar a Serie A, enquanto Massimo Moratti torrava fortunas em contratações. Enquanto isso, Pirlo foi emprestado à Reggina, do sul da Itália, pra tentar se reencontrar, mas foi no seu retorno ao Brescia onde ele achou seu tutor e sua missão na Terra.

A inserção de Pirlo como volante aconteceu por acaso. Quando ele retorna ao time que o revelou, ele se reencontra com o veteraníssimo Roberto Baggio, que usava a camisa 10 do time e, obrigatoriamente, fez Pirlo se reinventar, se encaixar no time em outra posição. Pirlo já havia enfrentado a concorrência de Baggio na Inter temporadas antes.

Carlo Mazzone, técnico do Brescia em 2001, foi o responsável pela mudança de posição que mudaria a carreira de Pirlo para sempre. Logo depois foi incluído numa negociação com o Milan e lá se encaixaria à perfeição com Gattuso, responsável por fazer o trabalho sujo, Seedorf e Rui Costa, encarregados da criação antes da chegada de Kaká, quando o time recuperaria o título europeu diante da grande rival até a época Juventus na final da Champions de 2003, no Old Trafford.

A Juventus se manteria no duelo cabeça-a-cabeça com o Milan até 2006, quando conquistou a Serie A, mas o tribunal esportivo retirou o título após um novo escândalo de venda de resultados no qual a Juventus encabeçava o esquema através de seu diretor esportivo, Luciano Moggi.

O Milan, que também estaria envolvido no esquema, conseguiu chegar à final da Champions em 2005, quando, após estar vencendo por 3 a 0, permitiu o empate e perdeu para o Liverpool nos pênaltis, no episódio que ficou conhecido como “O Milagre de Istambul”.

Na Copa do Mundo de 2006, conquistada pela Itália, o paralelo era inevitável. Após um escândalo de corrupção, o título mundial foi para os italianos. Mas, se em 1982, o título após o Totonero abriria o caminho para quase três décadas de supremacia do calcio, este escândalo, conhecido como Calciopoli, anunciaria o fim dos anos dourados do futebol italiano.

A Juventus foi condenada ao rebaixamento e abriu caminho para o crescimento da Inter, que só teria como oponente o seu rival de Milão pelo domínio no calcio. E assim foi, enquanto o Milan conseguiu em 2007 retornar à final da Champions, novamente contra o Liverpool, mas desta vez levantando a orelhuda em Atenas, a Internazionale faturaria quase todos os títulos domésticos desde então.

O sonho de Moratti e os anos de escuridão

O Milan via seus talentos envelhecerem e Silvio Berlusconi já não conseguia estar à altura dos investimentos que o todo do futebol europeu exigia àquela época. No livro A Bola não entra por acaso, Ferran Soriano fala do atraso do Barcelona com relação ao seu arqui-rival Real Madrid e, sobretudo, ao Manchester United, que enxergaram na Ásia a solução econômica para poderem contratar os melhores jogadores do mundo.

Já não bastava um magnata injetando dinheiro, era necessário fazer as cifras se multiplicarem. O futebol italiano chegou ao ápice com seu funcionamento quase amador, tendo nos seus donos a fonte das principais receitas. O negócio ficou caro para esse tipo de investidor, que configurava quase um mecenato.

Em 2008/09, Pep Guardiola assumia o comando do Barcelona e mudaria a história do futebol. Pep montou um time que, logo na primeira temporada, apresentou um jogo único e conquistou a Champions League em Roma, batendo o Manchester United. Guardiola elevaria Messi ao posto de melhor jogador do mundo. O Real Madrid, clube mais rico do mundo naquele momento, não deixou barato. Contratou Cristiano Ronaldo junto ao Manchester United e Kaká junto ao Milan. Havia ali uma mudança de eixo visível: um clube espanhol contratou os dois últimos vencedores da Bola de Ouro. Anos antes, eles teriam desembarcado na Itália.

O Barça seguia com seu futebol exuberante e resolveu mostrar seu poder financeiro quando contratou Zlatan Ibrahimović junto à Internazionale e, como contrapeso, mandou Samuel Eto’o pros Nerazzurri.

Mas eram só sintomas. Talvez poucos percebessem os movimentos ou encarassem somente como fruto da globalização. No livro Soccernomics, de Simon Kuper e Stefan Szymanski, publicado em 2008, eles apontavam que não demoraria muito para haver um campeão europeu londrino, que Chelsea ou Arsenal seriam campeões da Champions League. O Arsenal já tinha batido na trave em 2006, até que em 2012 a “profecia” se concretizou, mesmo que com o pior Chelsea desde a chegada de Roman Abramovich em 2003. O magnata russo, cuja fortuna tem origem bastante controversa, não economizou para chegar ao título europeu. Contratou José Mourinho, campeão da Champions em 2004 pelo modestíssimo Porto para alcançar a glória mas, após três temporadas e decepções em âmbito europeu, quando viam o Liverpool de Rafa Benítez chegar a duas finais em 2005 e 2007, o técnico português acabou sendo demitido.

O tipo de “investidor” mudava. O perfil de Abramovich nada tinha a ver com o de Berlusconi. Em 2008, o Sheik dos Emirados Árabes, Mansour bin Zayed adquiria o Manchester City com um projeto ainda mais ambicioso que o de Abramovich.

Na temporada 2008/09, quando Guardiola assumia o Barça, Mourinho acabara chegando a Milão pra assumir o comando da Internazionale no lugar de Roberto Mancini. O português manteve a seqüência de títulos domésticos na sua primeira temporada, mas foi em 2009/10 que Mourinho, já sem Ibrahimović, entraria definitivamente para a História ao eliminar, com um jogador a menos, o Barcelona numa semifinal épica no Camp Nou. O título europeu retornaria pra Milão três anos depois da última conquista do Milan e 45 anos após o último título da Internazionale, quando o pai de Massimo Moratti era o presidente.

Mas esse foi o último suspiro do calcio. O desempenho pífio na Copa do Mundo de 2010 e 2014, apesar de uma boa performance na Euro de 2012 e uma campanha razoável em 2016, somados à não-classificação para a Copa de 2018 na Rússia, mostraram que, em muito pouco tempo, o futebol italiano deixou de ser o melhor do mundo enquanto liga e uma potência enquanto seleção pra cair num limbo.

Talvez o fracasso de 2018 tenha a ver com a derrota da Itália em 1966. Entretanto, em vez de se fechar em si mesma, parece que a Itália buscou soluções que o mundo globalizado e digitalizado oferece.

As críticas às presenças dos não-italianos na seleção surgiram, claro. Jogadores naturalizados, como Balotelli, despertaram os mais profundos sentimentos fascistas que, em um primeiro momento, eram mais velados, mas que ganharam espaço na sociedade italiana devido à crise financeira que o país atravessa desde 2008. Esse período econômico nada próspero e com o aumento exponencial de imigrantes africanos e sírios permitiu a ascensão do discurso fascista personificado em Matteo Salvini, uma espécie de Bolsonaro italiano, que chegou à vice-presidência do conselho de ministros pela Lega Nord, aquele partido que prevê a separação do norte italiano.

No futebol, em 2015, a Inter foi vendida para Erick Thohir, um empresário indonésio, e em 2016 vende sua parte ao grupo chinês Suning Holding Group. Já o Milan foi vendido primeiramente também para empresários chineses, mas acabou sendo assumido pelo grupo norte-americano Elliot.

A Roma, que nesse meio tempo foi adquirida por empresários norte-americanos, montou um projeto esportivo e institucional muito interessante e austero. Já o Napoli, que ressurgiu das cinzas e, dentro de suas limitações, assumiu ao lado da Roma o lugar deixado por Milan e Inter.

A Juventus manteve-se como propriedade da Fiat, dominou o calcio desde então impulsionada pelo Juventus Stadium, inaugurado em 2011, e assumiu a responsabilidade para revolucionar a si mesma e trazer consigo toda a Serie A nas costas.

Após dois vice-campeonatos europeus, quando perdeu para o Barcelona em 2015 e para o Real Madrid em 2017, ficou evidente a discrepância das realidades. Foi quando a Juve resolveu contratar Cristiano Ronaldo e apontar os holofotes pra Turim. Seu reflexo acabaria iluminando o breu que havia tomado conta da península itálica.

Serie A Pass e DAZN

Os tempos mudaram. A geografia do futebol europeu mostrava claramente a mudança do eixo. Se nos anos 1980, 1990 e início dos 2000, o centro do futebol mundial era a Itália, a partir da midiatização dos binômios Barcelona-Real Madrid, Guardiola-Mourinho e Messi-Cristiano Ronaldo, dominavam não somente as atenções da imprensa e do público, mas também os títulos ficavam restritos à dupla.

Desde 2008 até 2017, o melhor jogador do mundo eram Cristiano Ronaldo ou Messi invariavelmente. Cada um ganhou cinco títulos da Bola de Ouro, contando somente o prêmio da revista France Football, que viria a ser unificado com o título de melhor do mundo da FIFA e depois dissolvido novamente. Foi neste período que o separatismo catalão ganhou evidência e o Barça sempre foi a principal plataforma. A rivalidade acentuada excedia o campo, respingava na política e vice-versa.

Além disso, entre 2014 e 2018, foram cinco títulos da Champions League para La Liga. Quatro deles pro Real Madrid de Cristiano Ronaldo e o outro pro Barcelona de Messi. Em duas ocasiões o outro finalista foi o Atlético de Madrid.

Mas dois novos gigantes surgiam e começaram a concentrar talentos pagando fortunas incompatíveis com as suas receitas. Dois projetos árabes em clubes que passaram a integrar o clube VIP da Champions League de maneira cada vez mais regular: Manchester City e Paris Saint-Germain.

O clube francês reinseriu a liga francesa no mapa a partir de 2012, quando levou Zlatan Ibrahimović, que foi a última grande figura do Milan. Aquele tipo de jogador franquia, que vende camisas, que atrai a atenção do mundo. Um embaixador. Mas foi em 2017 que a Cidade Luz ficou ainda mais iluminada com tantos flashes após o anúncio da contratação mais cara da história: Neymar deixava o Barcelona e assinava com o PSG por € 222 milhões.

O caminho natural era o contrário. Jogadores despontavam na poderosa Premier League e acabavam desembarcando no Real ou Barça. Assim foi com Cristiano Ronaldo, Gareth Bale, Luka Modrić ou Luís Suárez e Philippe Coutinho. O PSG mudou essa lógica.

Em paralelo, as transmissões da Champions League passaram a ser cada vez mais populares. A TV Globo, sobretudo com a ida de Neymar para o futebol europeu, primeiramente pro Barcelona, começou a priorizar a cobertura dos jogos da Champions e passou a transmitir jogos da fase de grupos, que antes eram sub-licenciados para a Band. Na TV fechada, o Esporte Interativo entrou no cenário quando adquiriu os direitos do triênio 2015–18.

A renovação dos direitos de transmissão, no entanto, surpreendeu ainda mais. Muitos esperavam pela entrada da Sportv ou até mesmo da ESPN, que historicamente transmitia a Champions. Mas foi quando surgiu notícia de que o Facebook e o Esporte Interativo transmitiriam a competição.

O streaming não era mais uma tecnologia do futuro, era uma realidade. A multiplicidade de dispositivos capazes de suportar a transmissão dava uma nova cara ao consumo de futebol. Celulares, tablets, computadores e Smart TVs proporcionavam um alcance ainda maior à competição.

A chegada de Neymar ao futebol francês e de Cristiano Ronaldo ao calcio, além das novas plataformas de transmissão disponíveis fizeram as negociações dos direitos de TV mudarem radicalmente.

O campeonato italiano recuperou grande parte da demanda que havia perdido e o francês passou a ser requisitado como nunca. Ambos os campeonatos inflacionaram as suas pedidas e os canais convencionais se viram incapazes de atender às demandas. As emissoras acreditaram num possível blefe e que as ligas abaixariam as cifras uma vez começado os campeonatos.

Até que chega pelas redes sociais um anúncio publicitário, de um serviço de streaming do campeonato italiano, o Serie A Pass. A mensagem era clara: era necessário aumentar o alcance e, ao mesmo tempo, as receitas provenientes dos direitos de TV, mas só era possível essa briga com os players consolidados graças à chegada de Cristiano Ronaldo e das ferramentas digitais disponíveis. Em seguida, surgiu o anúncio da plataforma de streaming DAZN que transmitiria o calcio e outras competições. O mundo era outro, o alcance e o consumo também.

No futuro, certamente Cristiano Ronaldo simbolizará pro futebol italiano aquilo que Falcão simbolizou no início dos anos 1980. CR7 pode promover uma reabertura, um reinício, mas num contexto externo totalmente diferente daquele, em uma Europa que, apesar de toda a crise econômica vivida desde 2008, passou a acumular os maiores talentos do futebol espalhados por diversos clubes de todo o continente, mas concentrados em uma só competição, que caminha ano a ano para uma Liga Européia de Clubes em que as competições nacionais passaram a se parecer com os moribundos campeonatos estaduais do Brasil.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

1 Comment

  1. julianoortiz

    novembro 13, 2021

    Fernando, cara, só esse texto já valeria a compra da revista com o resto das páginas todo em branco. Jamais tive o prazer de ler um texto imenso e ao mesmo tempo gostoso de ler, fluido, leve e riquíssimo em informação.
    O que tu conseguiste neste texto, sinceramente, é artigo raro.

    Nem sei quanto tempo levei lendo, mas lendo mesmo, com calma, apreciando cada linha. Aula de texto jornalístico!

    Que esplendor. Parabéns!

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