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Aquele AZ Alkmaar 2008/09

Quando o AZ vencia até os três grandes

Desde 1993, Dirk Scheringa era presidente do AZ. Não só isso: por meio de seu banco, Frisia (que passou a se chamar DSB em 2005), Scheringa era o mecenas do clube de Alkmaar, investindo quantias que pudessem fazê-lo forte na Holanda. O projeto teve sua primeira fase bem concluída em 1997/98, com o time alvirrubro sendo campeão da segunda divisão e voltando à Eredivisie um ano após sua queda. Em 2005, um novo ponto alto, com a chegada às semifinais da Copa da UEFA. Mas só na temporada 2008/09 é que o Alkmaar Zaanstreek viveu o último apogeu de seus 52 anos de história. Em 19 de abril de 2009, o AZ superou seus concorrentes. Superou até os três grandes da Holanda — Ajax, PSV e Feyenoord.  

De um trauma surge a força

A história poderia ter tido esse fim antes, no Campeonato Holandês da temporada 2006/07. Já com Louis van Gaal como técnico, e boa parte dos jogadores que se consagrariam em 2009, o AZ fez uma ótima Eredivisie. Chegou à última rodada empatado, na liderança, com PSV e Ajax — 72 pontos —, mas tinha maior saldo de gols, e enfrentaria o Excelsior, já destinado à repescagem de acesso/descenso. 

Parecia fácil para os Alkmaarders conseguirem o primeiro título holandês desde 1980/81. Contudo, o dia foi traumático: o goleiro Khalid Sinouh foi expulso ao cometer um pênalti, o Excelsior venceu o AZ por 3 a 2 e o PSV ficou com a taça. Impacto difícil de superar para os alvirrubros de Alkmaar. Tanto que a temporada seguinte, 2007/08, foi esquecível para a equipe, com um triste 11º lugar.  

Já em 2008, depois de uma pré-temporada com vitórias sobre clubes amadores e derrotas para Genoa e Fiorentina, o campeonato começou no mesmo ritmo pessimista para o AZ: dois resultados negativos. Na primeira rodada, 2 a 1 para o NAC Breda em casa. Na segunda, pior ainda: 3 a 0 para o ADO Den Haag. Parecia a gota d’água para Louis van Gaal — que precisava reagir na carreira, ainda marcada pela campanha que deixou a Holanda fora da Copa do Mundo de 2002 e pela segunda passagem ruim pelo Barcelona. O técnico chegou, inclusive, a pedir demissão para a diretoria do AZ. Só foi impedido porque os próprios jogadores pediram que ele permanecesse. Apenas ele poderia dar o toque diferenciado para que aquele grupo chegasse a algum lugar na temporada.  Até porque, muitos dos atletas que pediram a permanência de Van Gaal já estavam com ele na decepção de 2006/07. 

Um bom exemplo era Kew Jaliens, lateral-direito holandês convertido em zagueiro. Outro era o promissor volante Stijn Schaars, vindo do Vitesse, capitão da seleção holandesa sub-21 campeã europeia em 2006. Ao lado de Schaars, mais um volante, David Mendes da Silva, holandês de ascendência cabo-verdiana. Para trazer a bola do meio ao ataque, o meio-campista Demy de Zeeuw também já estava no AZ em 2007, assim como o belga Maarten Martens. Para ser o homem-gol, Mousa Dembélé — sim, na época, o hoje volante belga jogava no ataque, deixando no banco Graziano Pellè, italiano vindo do Lecce. E uma promessa de Alkmaar que surgia: o atacante Jeremain Lens, de 19 anos.  

Entre 2007 e 2008, mais jogadores chegaram a Alkmaar para Van Gaal. Como o atacante Mounir El Hamdaoui, marroquino nascido em Roterdã que tivera passagem esquecível pelo Tottenham Hotspur e reconstruía a carreira na Holanda. Também o goleiro argentino Sergio Romero, que surgira muito bem na seleção sub-20 de seu país, campeã mundial da categoria em 2007, e o atacante brasileiro Ari (depois naturalizado russo), que vinha do Kalmar, da Suécia. Além do zagueiro finlandês Niklas Moisander, aposta egressa do Zwolle. Havia ainda alguns coadjuvantes, por exemplo, o zagueiro belga Gill Swerts — convertido em lateral-direito no AZ — e os volantes Simon Poulsen e Nick van der Velden.  

Da água para o vinho  

Com os novos jogadores e os remanescentes de 2006/07, Van Gaal tinha de reagir na terceira rodada do Campeonato Holandês. Partida simplesmente contra o PSV, então tetracampeão da Eredivisie. Se ganhasse, haveria um respiro para o técnico continuar trabalhando e para o AZ reagir. Se perdesse, ficaria difícil evitar a demissão. Pois o AZ venceu: 1 a 0 em Alkmaar, com Martens marcando o gol da vitória aos 82 minutos. Foi o momento da virada. Não só para os Alkmaarders reagirem na Eredivisie, mas para se transformarem num time campeão. Até porque, os três grandes holandeses estavam em baixa.  

O PSV vivia uma temporada de transição entre o time tetracampeão e uma nova fase (o grande símbolo do tetracampeonato, o goleiro brasileiro Gomes, saíra). O Ajax estava ainda mais confuso: como técnico, Marco van Basten sofria para dar rumo a um time que tinha talentos — Maarten Stekelenburg, Jan Vertonghen, Luis Suárez —, mas também, contratações de qualidade duvidosa, como os zagueiros Rob Wielaert e Oleguer. O Feyenoord estava ainda pior, recheado de veteranos (Giovanni van Bronckhorst, Michael Mols, Roy Makaay, Jon Dahl Tomasson), e o técnico Gertjan Verbeek tinha problemas justamente com eles. 

Enquanto isso, o AZ seguiu vencendo após aquela vitória fundamental sobre o PSV, na terceira rodada: 5 a 2 no Willem II, 6 a 0 no Sparta Rotterdam, 2 a 0 no De Graafschap, 3 a 0 no Volendam. E, na 12ª, assumiu a liderança do campeonato. No ataque, Dembélé se valia da velocidade para ajudar a marcação no meio, enquanto El Hamdaoui, que pouco se destacara na carreira até então, virava o grande nome daquele campeonato, marcando muitos gols. No meio-campo, Demy de Zeeuw era outro a desfrutar de um momento que nunca tinha vivido (e nunca viveria depois), marcando e avançando com a mesma eficiência, com a dupla Schaars-Mendes da Silva firme no bloqueio aos ataques adversários. A defesa se entrosava, com o mexicano Héctor Moreno, outra contratação, consolidando-se ao lado de Moisander, enquanto o belga Sébastien Pocognoli tomava conta da lateral-esquerda. No gol, protegido por um time embalado, Romero chegava perto de um recorde: cerca de 950 minutos sem sofrer gols na Eredivisie.  Mas foi no retorno da pausa de inverno — ou seja, na virada de turnos — que o AZ deixou de ser uma surpresa para virar real candidato ao título. 

O Ajax seguia os Alkmaarders na disputa pelo título, mas, na vigésima rodada, perdeu para o Heerenveen em casa. Na partida seguinte, também na Amsterdam Arena (hoje, Johan Cruijff Arena), empatou com o Heracles Almelo. Na 22ª, em Arnhem, foi inapelavelmente goleado pelo Vitesse (4 a 1). Nas mesmas rodadas, o time de Van Gaal empilhou vitórias: 2 a 0 no Sparta Rotterdam, 1 a 0 no Roda JC, 3 a 1 no Willem II. A diferença de nove pontos poderia até ter ido além. Contra o PSV, em plena Eindhoven, o AZ fez 2 a 0 no primeiro tempo, mas levou o empate dos Boeren, com dois gols de um jogador que passara por Alkmaar: o atacante Danny Koevermans.  

Algumas dificuldades também surgiram no AZ. No gol, por exemplo, Romero perdeu a reta final da temporada por um episódio, no mínimo, bizarro: o argentino socou furiosamente uma parede do estádio após a derrota para o NAC Breda, nas quartas de final da Copa da Holanda, e, com isso, quebrou o punho, dando lugar ao croata Joey Didulica. Pelo menos, o meio-campo do AZ seguia sólido e entrosado, com Martens, Schaars, Mendes da Silva e De Zeeuw. No ataque, El Hamdaoui se convertia no nome do campeonato, independentemente de seu parceiro (Ari, Dembélé ou Pellè). O título se aproximava. E era inegável: ele teria Van Gaal como grande responsável, num dos grandes trabalhos de sua carreira.

Alarme falso, anticlímax e alívio  

O momento da comemoração que Alkmaar tanto esperava poderia chegar no dia 18 de abril de 2009. Na 31ª rodada do Campeonato Holandês, com 76 pontos, nove à frente do Twente, a situação era cômoda. Bastava vencer o Vitesse no DSB Stadion, num Sábado de Aleluia, para que o time alvirrubro se consagrasse como o primeiro a furar o domínio de Ajax, PSV e Feyenoord desde o seu próprio título, em 1980/81.  

E tudo começou bem: aos dezenove minutos, El Hamdaoui saiu da marcação, com um drible de corpo na entrada da área, e tocou na saída do goleiro Piet Velthuizen, fazendo 1 a 0 para o AZ e garantindo, naquele momento, o título. Desde então, como sempre naquela temporada, o AZ controlou a vantagem. Manteve o jogo no seu ritmo, trocando passes, criando chances…até que algo saiu errado. Ainda no primeiro tempo, aos 36 minutos, Alexander Büttner cobrou uma falta, a bola desviou na barreira e enganou Didulica: 1 a 1. Tudo bem, a vitória ainda era possível. Mas a partida do título passou a ser tensa para o AZ. E a tensão foi para o pior caminho no fim do jogo. Aos 84 minutos, após um erro na saída de bola, o jovem Ricky van Wolfswinkel dominou na entrada da área e fez 2 a 1 para o Vitesse. Anticlímax em Alkmaar: não seria naquela noite que o AZ seria campeão holandês. Pelo menos, o Twente perdera para o Feyenoord no mesmo dia. 

Seria preciso esperar o clássico entre Ajax e PSV no dia seguinte, antes de soltar o grito de campeão. Até porque, a rodada posterior teria Ajax x AZ em Amsterdã.

Para sorte do AZ, o time da capital sofria com a sua inconstância. Suárez já mostrava o goleador promissor que era, disputando a artilharia do campeonato com El Hamdaoui, mas a zaga ajacied era assustadoramente frágil — até no gol, onde Stekelenburg, em má fase, fora barrado por Kenneth Vermeer, escalado em seu lugar por van Basten. Nada disso adiantou contra um PSV imparável em Eindhoven: Edison Méndez, Ibrahim Afellay e Bálazs Dzsudzsák deixaram a defesa dos Godenzonen tonta no Philips Stadion, goleando o rival de Amsterdã por 6 a 2. 

Todo o time de Alkmaar acompanhou aquele clássico, ansioso, num amplo escritório dentro do DSB Stadion, com centenas de torcedores em frente ao estádio. Se o PSV vencesse, a festa poderia começar. Goleou. E logo que o jogo em Eindhoven acabou, o mecenas Dirk Scheringa saiu para a sacada do escritório, acompanhado pelos jogadores e por Van Gaal. A festa, aguardada e merecida, podia começar.

De tanta celebração, as três rodadas seguintes passaram quase em branco: o AZ empatou com o Ajax, perdeu para o Twente, vice-campeão, e foi goleado pelo Sparta Rotterdam. Já o Ajax viu Marco van Basten pedir demissão após o vexame. A entrega da taça, na última rodada, foi com festa após a vitória de 3 a 1 contra o Heerenveen. De quebra, El Hamdaoui se consagrou como artilheiro da Eredivisie, com 23 gols.

Novamente valorizado na Europa após aquele feito, Louis van Gaal já sinalizava que aceitaria a proposta do primeiro clube grande ou da seleção que aparecesse — aceitou a do Bayern de Munique. A magia do AZ se perdeu, o clube foi mal na Champions League do ano seguinte e o banco DSB faliu justamente no segundo semestre de 2009. Contudo, o torcedor do time da cidade do queijo não se esquece: naquele ano, seu time foi o maior da Holanda.