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Bandeira Branca

E um “T” de Timão

Comecei a ir ao estádio sozinho com 11 anos. Na época, menores de 12 anos não pagavam para entrar no jogo, mas precisavam estar acompanhados por um adulto responsável. Como eu e meus amigos gostávamos de nos aventurar sem a presença dos nossos pais, chegávamos na fila dos ingressos e íamos cutucando joelho por joelho dos adultos presentes. “Ei, você aí, me acompanha?”

Era difícil que alguém negasse o pedido, tamanho o brilho que tínhamos nos olhos, sedentos pela aventura do jogo. No entanto, alguns destes adultos se aproveitavam de nossa condição para pedir algo em troca, sabendo que as crianças não passavam por revista da polícia. Os favores variavam, um dia a missão poderia ser a de carregar um rojão pra dentro, em outro um amendoim pra vender ou até mesmo algo pra ser fumado lá dentro, de maneira recreativa.

Quando finalmente completei meus 12 anos, idade que me emanciparia ao status de torcedor autônomo, minha mãe, dona Ana, também corintiana, costurou uma linda bandeira e me deu de presente. A bandeira tinha exatamente dois metros de largura por três e meio de altura, toda branca com um T, de Timão, bem no centro.

O símbolo do Corinthians ficava atrás desse “T” e, para sustentar toda a beleza do que eu acreditava ser a obra de arte mais bela em que tinha pousado meus olhos, um cano de PVC de uns bons quatro metros. Era por este cano que eu segurava a bandeira e descia de escada os treze andares do prédio em que morávamos na Rua Caiubí (logicamente, a bandeira não cabia no elevador) e caminhava até o Estádio do Pacaembu.

Dos 12 aos vinte anos, ela foi minha fiel escudeira. Os momentos que passamos juntos, eu e a bandeira, foram indescritíveis. Nossa despedida, no entanto, faço questão de contar.

Como disse, ela me acompanhou até o auge dos meus vinte anos. Era o ano de 1984 e eu estudava na PUC. Vocês devem saber o que se passava nessa época, com Brasil em plena e fervorosa luta pela democracia. Eu, como estudante e corintiano, invariavelmente comparecia às manifestações, acompanhado, é claro, da querida bandeira. Para mim, ela representava toda a infância e adolescência em que eu tinha freqüentado o estádio e tremulado, junto a ela, nos altos e baixos do Timão. A luta agora era mais adulta, e assim como eu tinha crescido, estava na hora de ela crescer também. Lembro-me do sentimento de responsabilidade que tive ao abrir a caixinha de tintas de meu pai e pegar uma lata de esmalte branco. Com muito cuidado, pintei, na linha vertical do “T” da minha bandeira a palavra “Diretas” e na linha horizontal “Já”. Foi assim que a preparei para a passeata.

Quando o dia chegou, estávamos mais preparados do que nunca. Caminhamos, neste dia, da rua Monte Alegre, bem na altura do TUCA, até o Vale do Anhangabaú, onde aconteceria o grande ato. Mas foi logo na rua Direita, já no Centro, que me deparei com um carro de som e, curioso, parei para observar quem falava. Eram os três: Sócrates, Casagrande e Wladimir. Minhas pernas tremiam, mal podia acreditar. Ao lado deles, uma grande amiga, Dani. Chamei-a, pulando um pouco desengonçado, e estiquei a bandeira. Pedi encarecidamente para que ela chamasse meus ídolos e mostrasse minha pintura. Funcionou. Ela pegou a bandeira das minhas mãos e entregou a eles, que a amarraram na beira do palanque improvisado. O carro saiu em marcha, Sócrates falando e minha bandeira erguida.

Depois disso, eu nunca mais a vi. Levaram minha bandeira e me deixaram a memória gostosa e a sensação de uma despedida honrada. No fim, foi como dizem, a bandeira saiu da vida para entrar para a história. Mais especificamente, ela saiu da minha vida e entrou pra história da luta democrática corintiana. Onde quer que ela esteja, torço para que esteja erguida.

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