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O que o doutor disse ao filósofo?

Os ex-treinadores César Luis Menotti e Carlos Bilardo conduziram a Argentina a seus dois títulos mundiais, em 1978 e 1986, respectivamente. Desafetos declarados, dificilmente dividem o mesmo ambiente, mesmo que a ocasião assim o requeira. O jogo de egos é tamanho que parece tornar impossível qualquer tentativa de conciliação advinda de um dos lados. Hipoteticamente, Bilardo até tentou.

Em 7 de abril, às 17h21, Carlos Bilardo <carlosbilardo86@gmail.com> escreveu:

Estimado César Luis,

Temos falado sobre os acontecimentos que nos marcaram. E creio que fui eu quem melhor se saiu — tal como mostram os fatos — no que diz respeito à capacidade técnica e tática de dirigir um time. Os fatos me endossam. Não obstante, me proponho a finalizar esse pleito demonstrando-lhe em absoluto que sou eu o número um, não apenas pelas conquistas, senão pela forma como elas se deram.

Com todo o respeito, César Luis. Você era notado apenas quando acendia um cigarro na hora em que deveria fazer algo. Fui eu quem tive que explicar a Oscar Ruggeri — um desconhecido antes do Mundial de 1986 — o que eu queria dele, numa pizzaria, com azeitonas representando zagueiros, enquanto ele jantava com sua família. Na Itália, em 1990, eu costumava despertá-lo a cada noite só para perguntar quem ele tinha que marcar.

Fui eu quem se meteu no espetáculo musical da sobrinha de José Luis Cucciufo — jogador que nem mesmo a própria mãe conhecia — para dar-lhe indicações táticas. Fui eu quem quase pôs abaixo um avião porque corríamos o risco de voltar para casa antes. Não, meu senhor. Eu chego às finais porque eu detesto assisti-las pela televisão.

Mas ainda pior, César Luis, fui eu quem esperou o Tata Brown, que não tinha espaço nem no Deportivo Español — que jogava na posição do Passarella, campeão do mundo e capitão nos dois mundiais anteriores —, por treze horas na estrada só para detê-lo. Ele estava saindo de férias com sua família a Mar del Plata, a um ano do Mundial. Eu o parei e desenhei o campo de futebol com pedrinhas, no acostamento da estrada. Fiz o campo, desenhei os posicionamentos e expliquei tudo o que ele tinha que fazer em 1986. E olha que ainda estávamos em 1985.

Ano de 1985, entende? Entende, Sr. Menotti? Em 1985 já fazia dois anos que você não ganhava um puto título, porque o último havia sido com o Barcelona em 1983, com um time que era uma máquina que jogava sozinha e até minha senhora teria sido campeã com eles. Você ganhou aquele título para nunca mais ser campeão de mais nada, entende? Nada. E eu… Eu entrei para a história.

Por isso, me despeço com esta pequena lista, para que o senhor veja os que ficaram na história mundial, Menotti, não como técnicos do futebol argentino ou campeões mundiais, mas como precursores de um modo de jogar futebol.

Leia e deleite-se, mas não busque pelo seu nome. Não busque “Menotti”, porque não aparece. Mas se você reler… Se reler, tampouco seu nome vai aparecer. Ah, e todos já sabemos que esse negócio que dizem que você é filósofo é tudo conversa… Tudo conversa.

Os dez maiores:

Bury, em 1900. O sistema era 2-3-5;
Arsenal, em 1936. O sistema era 3-2-5. Técnico: George Allinson;
Internazionale, em 1953. O sistema era 3-3-4. Técnico: Alfredo Foni;
Seleção da Hungria, em 1953. O sistema era 3-2-5. Técnico: Gusztáv Sebes;
Seleção do Brasil, em 1958. O sistema era 4-2-4. Técnico: Vicente Feola;
Seleção do Brasil, em 1962. O sistema era 4-3-3. Técnico: Aymoré Moreira;
Internazionale, em 1964. O sistema era 1-3-3-3. Técnico: Helenio Herrera;
Seleção da Inglaterra, em 1966. O sistema era 4-4-2. Técnico: Alf Ramsey;
Ajax, em 1973. O sistema era 4-3-3. Técnico: Stefan Kovács;
Seleção da Argentina, em 1986. O sistema era 3-5-2. Técnico: Carlos S. Bilardo.

Saudações,
Carlos Salvador El Doctor Bilardo, campeão e vice-campeão do mundo

05-02-2015 15:22 GMT-03:00 Carlos Bilardo <carlosbilardo86@gmail.com>:

Estimado César Luis,

Espero que deixemos de ridiculezas. Ao final, parece que jamais nos poremos de acordo, homem. O que acontece com você? Não me irrite, ok? Já que não há desculpas sobre Passarella, aqui não haverá escapatória. Agüente o que vem por aí: o que me diz do Maior de Todos? Qual será a desculpa com o Maradona? Diga-me: por que ele não foi ao Mundial em casa?

E não me responda, porque eu mesmo tenho a resposta. Você acreditava que ele era só mais um entre tantos outros, alguém que tinha feito uma boa temporada e nada mais, e que podia ser substituído por qualquer outro. Não há respostas, por mais que o senhor as procure. Ou você leva um jogador para uma Copa ou você não leva. E você preferiu não levá-lo. Eu, sim, levei. E ele fez aquele gol contra os ingleses — o melhor gol de todos os tempos —, mas também fez um gol de mão. Percebe? Você percebe isso, César Luis?

Não tem outra, velho, você se equivocou. Deveria tê-lo levado em 78 e evitado aquele mico que foi jogar em Rosário e ter que pagar aos peruanos com sacos de milho para que se deixassem golear e a Argentina passasse.

Evitaria estar com o rabo cheio de perguntas (com todo o respeito) até o último minuto da final contra os holandeses, porque Maradona fazia tic-tac-tac e pronto. Me entende? Maradona jogou quatro mundiais — um deles com você, quando ele foi expulso porque chutou as bolas de um brasileiro. E o expulsaram porque a Argentina perdia por 3 a 1 contra seu eterno rival, inimigo de toda a vida.

Comigo, Maradona jogou dois mundiais e foi campeão e vice-campeão. Foi vice-campeão porque nos roubaram, senão, seríamos bicampeões. E veja lá se eu permitiria que nosso eterno rival nos ganhasse. Nem morto! Para ganhar, tivemos até mesmo que dar ao Branco a água batizada. É vencer ou vencer a qualquer preço. Quando a porra fica séria, não se brinca.

E com Basile está a prova. No último Mundial jogado por Diego ele caiu no antidoping porque não souberam controlá-lo. Ninguém nunca pôde lidar com Diego. Eu pude. E, comigo, o Diego quebrou tudo!

Não há nenhuma resposta que você possa mandar que seja considerada válida, mas espero sua contestação mesmo assim.

Saudações,
O Doutor

01-02-2015 15:22 GMT-03:00 Carlos Bilardo <carlosbilardo86@gmail.com>:

Estimado César Luis,

Antes de mais nada, entendo que meus e-mails podem ser um pouco longos e requerer muita dedicação para serem lidos por um homem da sua idade, o que me faz supor que isso deve gerar grande cansaço à vista e, como conseqüência, terríveis dores de cabeça.

Devido a esse incômodo, me limitarei a ser preciso e perguntar por Daniel Alberto Passarella. Aquele mesmo que você levou como capitão em dois mundiais e que comigo teve que assistir às partidas das arquibancadas porque alegava dores estomacais. É esse o grande capitão? Aquele que come um ensopado que não lhe cai bem e fica quatro meses sem jogar por causa disso? Sou médico e sei muito bem que o problema dele eram gases acumulados. Ou talvez ele tenha se decidido por essa desculpa barata ao encontrar-se como reserva de Tata Brown — que jogou com grande destreza todo o Mundial, mas que era criticado pela opinião pública por não ser aproveitado sequer no Deportivo Español.

Um clube como o Deportivo Español, que não tenha em conta um defensor como o Brown… Logo o clube onde debutei — sim, porque todos pensam que eu comecei e joguei sempre pelo Estudiantes, mas não. Comecei no Deportivo Español. Viu o que o Menottismo faz? Percebe o que você provocou naqueles tempos? Que o Brown não jogasse mais, porque há tipos que vêem o futebol como você vê, só que não. Foi demonstrado que não. Brown jogou e foi figura importantíssima.

O que me diz? E o Passarella? E o Jorge Carrascosa? Por que você não conta, César, que o seu capitão era Jorge Carrascosa desde o primeiro momento e que depois ele renunciou à seleção? Depois de 22 anos, descobrimos que ele se foi porque havia coisas nebulosas naquele seu time.

Espero respostas, imagino onde isso vai dar.

Atenciosamente,
Carlos Salvador

19-01-2015 15:22 GMT-03:00 Carlos Bilardo <carlosbilardo86@gmail.com>:

Estimado César Luis,

Como já lhe expliquei, não é minha intenção abrir esse debate. No entanto, há uma diferença radical: o senhor foi campeão em 1978, com tudo que isso implica. Eu fui campeão fora de casa, sem nenhuma “ajudinha”. Mas por aqui me detenho.

Não é minha intenção ofendê-lo argumentando que o senhor chegou à seleção havendo ganhado apenas um campeonato como técnico [com o Huracán, em 1973] e que sua trajetória como jogador não é lembrada por ninguém. Muito menos pretendo humilhá-lo alardeando que fui eu quem o tirou do seu lugar no comando do time nacional. Tampouco quero pôr sobre a mesa minha reconhecida carreira como jogador do Estudiantes de La Plata, onde conquistei um Metropolitano Nacional, duas Libertadores da América e uma final Intercontinental contra o Manchester United. Também não vou esfregar na sua cara meu vice-campeonato mundial logo após ter sido campeão do mundo, quando você foi demitido para que eu assumisse a seleção.

Por isso, deixarei essas questões de lado porque já nos conhecemos muito bem e agora prossigo com o que eu quero dizer.

Sem discutir a situação do país, quero apenas dizer, César Luis, que o senhor não atravessou as eliminatórias para a Copa do Mundo devido à vaga que se outorga ao país anfitrião. Fui eu quem teve que sofrer até o último minuto contra o Peru, no Monumental, o terrível risco de ficar fora do Mundial. A classificação me adjudica mais um ponto em todo o processo do México 86.

Se eu não tivesse metido o Gareca nesse dia, não teríamos nos classificado. Definitivamente, não haveria gol contra os ingleses, nem la mano de Dios, nem Argentina campeã do mundo, nem porra nenhuma. Suportei a pressão e obtive a classificação como um gigante. Classificação que a você foi servida de bandeja. Mas sigamos…

O que você me diz do Kempes, hein? Ele sequer figurou nas suas primeiras convocações. Você teve que esperar o Rodolfo Kraly, um auxiliar que você tinha — porque agora, sim, se usa isso de auxiliares, porque na sua época, flaco, os auxiliares sequer existiam e você já tinha um. E eu, doze anos mais tarde, ainda não tinha nenhum auxiliar. Para Itália 90, levei só o roupeiro Galíndez, que se limitava a levar um pouco d’água para os rapazes, nada mais. E você teve que esperar o Kraly falar para você levar o Kempes! Graças a Deus esse filho da puta te convenceu, senão ficávamos sem Mundial, irmão!

Era o Kempes! Ainda não o chamavam de matador, mas ele já era Kempes e você não teve o olhar crítico. Para onde você estava olhando? Quem teria enterrado os holandeses se você não tivesse levado o Kempes? Quem você queria levar? O paraguaio Cabañas? Sendo que ele era do Paraguai e ficou famoso apenas em 1992, quando foi campeão com o Boca? Como é que você ia levar o paraguaio para a seleção tantos anos antes?

Creio que esta questão carece irremediavelmente de uma resposta para que possamos avançar neste diálogo. Espero apaixonado.

Saudações,
Carlos

12-01-2015 15:22 GMT-03:00 Carlos Bilardo <carlosbilardo86@gmail.com>:

Estimado César Luis,

Para que seja real, preciso esclarecer algumas questões que nos posicionam numa situação tal que não podemos chegar a compartilhar nenhum espaço físico conjunto, de maneira que a correspondência escrita me parece a melhor metodologia para saldar certas discussões.

Em primeiro lugar, não é minha intenção julgá-lo por ter sido o técnico da seleção nacional em tempos de ditadura militar, já que — como já disse algumas vezes a meus próprios jogadores — não se deve misturar o esporte com questões políticas nacionais, inclusive quando o futebol é usado como uma cortina de fumaça por aqueles que dispõem dos meios para definir o rumo de nossa nação.

Não o culpo pelos acontecimentos do passado.

Esclarecido esse ponto, gostaria de poder avançar com o tema esportivo. Na realidade, é isso, e não outra coisa, o que nos compete.

Espero sua resposta ansiosamente.

Cordialmente,
Dr. Carlos Salvador Bilardo

10-01-2015 15:22 GMT-03:00 Carlos Bilardo <carlosbilardo86@gmail.com>:

Estimado César Luis,

Como sei que deve estar surpreso com esta correspondência, gostaria de enumerar certos esclarecimentos pertinentes para que o senhor entenda o motivo dela.

Tal como já deve ter visto nos jornais, os EUA retomaram as relações diplomáticas com Cuba. O anúncio chama atenção porque, mesmo depois do aperto de mãos entre as duas nações, o embargo econômico à ilha continua.

Essa realidade foi o gatilho que me levou a pensar que, se foi suspensa uma inimizade que durava mais de cinqüenta anos, nós — eu provindo da medicina e você, da filosofia, mas no final das contas somos apenas técnicos com pontos de vista distantes — podemos fazer um bem a nosso país com nossa reconciliação.

Não seguirei no desenvolvimento deste tema, pois, talvez, sua intenção seja repudiar minha iniciativa. Mas, se ao senhor parecer apropriado estabelecer esse diálogo, espero sua resposta.

Atenciosamente,
Dr. Carlos Salvador Bilardo

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