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Ame-o ou deixe-o

A relação história e política do futebol-arte no Brasil

Tá faltando drible!”. Atire a primeira pedra quem nunca falou ou ao menos pensou isso num jogo quente de Copa do Mundo, ou decidindo a classificação do seu time na Libertadores, principalmente nos momentos nos quais a derrota parece próxima, mas reversível por um lance do melhor jogador do time.

Hoje, o drible parece “nosso” — para um brasileiro, driblar pode não ser certeza de resultado, mas sim algo que se gosta de ver no jogo. Nem sempre foi assim. Simbolizar a expressão estética do futebol de um país com certeza não foi um processo linear ou cronológico, mas cheio de nuances, lombadas e polêmicas. Sabendo que o futebol chega ao Brasil no começo do século XX e que só na década de 1930 aparecem os primeiros tratados mais profundos sobre o esporte, veremos que, como fenômeno sociológico, demorou um bocado para ele ganhar corpo — e foi Giberto Freyre quem primeiro deu esse status ao esporte.

Nascido no fim do século XIX no Recife, Freyre frequentou as melhores escolas da época, como boa parte dos filhos de elite pernambucana na época. Alberto Freyre, seu pai, juiz e professor de Economia, o mandou estudar no Texas e na Universidade de Columbia. Aos 25 anos, publica sua tese de mestrado, intitulada “Vida social no Brasil nos meados do século XIX”.

O contato com o futebol começa ainda na infância e aflora anos depois da publicação de “Casa Grande & Senzala”, sua obra mais famosa. No artigo “Foot-ball Mulato”, publicado no Diário de Pernambuco a para Copa do Mundo de 1938, Freyre descreve a maneira de jogar futebol do brasileiro como inconfundível, dotada de alegria, ginga e coragem, um claro contraponto à organização e frieza dos europeus. Era a primeira semifinal do Brasil em Copas, e muito provavelmente encantado com Domingos da Guia e Leônidas da Silva, ele logo reforça que se trata de um “time fortemente afro-brasileiro”. Perceba o termo, “afro-brasileiro”.

“Os nossos passes, os nossos pitus, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, há alguma coisa de dança ou capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos ingleses […]”

Na época, Freyre era persona non grata no Recife pelas polêmicas de Casa Grande & Senzala. O livro foi queimado em praça pública por sua linguagem “vulgar e obscena”, e muitos acadêmicos colocaram em xeque os métodos pouco convencionais de Freyre, que incluíam pesquisar até receitas culinárias — um outro livro seu, “Açúcar”, é mais um tratado sobre o cotidiano brasileiro. Além disso, a linguagem excessivamente romântica, cheia de descritivos minuciosos e longe do linguajar da academia, provocava muitos narizes torcidos. Como alguém que sequer se descreve como sociológico pode fazer sociologia?

Início da Segunda Guerra Mundial. Governo Vargas. Não demorou para Freyre ser chamado de comunista. Se opôs ao Governo de Getúlio Vargas, foi preso e espancado em 1942 após um artigo, e indicado a tribunal em 1945, logo depois se elegeu deputado pela UDN após a redemocratização do país e apoiando pesquisas culturais. Freyre era tido como o maior sociólogo e estudioso do Brasil dentro e fora do país.

Depois de um tempo longe do futebol, Freyre se vê obrigado a defender o esporte, massacrado pela imprensa após as derrotas em 1950 e 1954. Em 1955, na revista O Cruzeiro, Freyre escreve que o estilo brasileiro é diferente do europeu e resulta, basicamente, da presença de negros no futebol. Que o individualismo não deve envergonhar, pois aproximava o padrão esportivo dos “gregos atenienses”, e que era preciso “conciliar esse individualismo com a disciplina”.

O Brasil precisava do romantismo de Freyre após duas Copas do Mundo de decepções. Precisava salientar seu futebol arte, precisava de uma primeira Copa. Ela veio em 1958 e 1962, exatamente como Freyre previra – o individualismo de Pelé e Garrincha fazendo a diferença num time marcado pela “mestiçagem de raças” que ocorreu pacificamente por aqui desde o fim da escravidão. A noção do negro como ser forte e capaz de superar seus problemas tinha em Pelé, o “Criolo”, sua figura máxima.

“Que importam, […] tais fracassos, se estamos criando um bailado em que a mestiçagem brasileira de raças e de culturas encontra expressão sociológica ou satisfação estética?”
É aí que começa o jogo de sete erros de Gilberto Freyre. De 1955 para 1964, o Brasil lentamente mudou de um país rural para uma nação industrializada e urbana, sofrendo os problemas da forma desordenada e orgânica que esses processos ocorreram. Freyre, então, assume posição até hoje contraditória: apoia a intervenção militar em 1964 com o objetivo de resgatar a ordem patriarcal e hierárquica, que para ele tinha sido destruída pelos governos democráticos de JK e Jango.

Freyre queria o resgate do Brasil. Ou melhor, o resgate do seu Brasil, um país nos quais os conflitos de raça não existiam e o preconceito não passava de uma coisa “inventada”. Freyre jamais negou a existência da escravidão, mas fora acusado por sociólogos como Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso — ele mesmo — de “suavizar” a escravidão, a violência e a tensão entre escravos e brancos no Brasil Colonial.

Na época, Freyre era um bon vivant do Recife que já não tinha o prestígio de antes, confrontado diretamente por Darcy Ribeiro e por sociólogos da USP. Enquantos uns se refugiaram, Freyre se uniu à Arena e se tornou o mentor “informal” do Brasil que imaginara décadas antes: miscigenado sim, mas em paz, sorridente e “além-raça”. Um país promovido pela ditadura. Um país que nunca existiu.

Caiu como uma luva a vitória na Copa do Mundo de 1970, com Pelé fazendo a diferença, o caminhão de gols de Jairzinho e Carlos Alberto Torres levantando a taça, sorridente. A imagem do negro triunfante, sem medo de ser negro e superando os “obstáculos da vida”, fez a mente toda uma geração de brasileiros mitigada pela noção de democracia racial e avessa a uma posição mais forte contra o racismo, seja pelo medo, seja pela conivência. Os militares, assim como Freyre, viam no futebol um forte instrumento agregador de emoções e representante da cultura nacional.

Tanto que Freyre voltaria a escrever sobre futebol logo após a derrota para a Holanda em 1974, acusando dirigentes e técnicos de se deixarem levar pela derrota e de não adotarem o verdadeiro estilo brasileiro para vencer. Era, novamente, a noção de que o Brasil era um país pacífico, que precisava trabalhar e não pensar em crise — soou familiar? — para superar seus problemas. O artigo é bem sugestivamente chamado de “Futebol Desbrasileirado”.

Um ano antes, em 1973, Gilberto Freyre foi reconduzido ao Conselho Federal de Cultura pelo general Emílio Garrastazu Médici, lugar que já havia ocupado em 1969. Também foi convidado para escrever sobre o Regime e seus desafios, segundo Marco Antonio Villa, em seu livro Ditadura à brasileira. O autor conta que Freyre sempre apoiou a ditadura militar, e àquela altura julgava não ser mais necessário o AI-5: “Foi necessário porque as forças que cairam em 1964 estavam se reagrupando. Agora acho que está se prolongando demais. Contudo, qualquer medida deve ser tomada levando-se em conta a situação internacional, pois há forças internacionais querendo a desagregação do Brasil.”

Marco Antonio Villa relata que Freyre defendia um modelo híbrido de autoritarismo e democracia, e que esta estava aberta a novos conteúdos, pois a a democracia estava em crise no mundo.

Freyre foi um homem contraditório até a espinha. Criticou Getúlio Vargas, mas se encantou com a ditadura de Salazar em Portugal, segundo ele capaz de promover o “luso-tropicalismo”. Foi chamado de comunista e soviético pelos usineiros de açúcar no Recife, mas atacou o reitor da Universidade do Recife por ser conivente com propaganda comunista no governo Jango.

Freyre contribuiu muito para toda a forma como se pensa futebol no Brasil está relacionada aos escritos de Freyre e sua propagação nos anos seguintes. O contraponto entre “individualismo” e “coletivismo”, a briga entre o futebol-arte e o futebol-força, a dicotomia entre “perder como em 82 ou ganhar como em 94”, tanto falada, teve início na primeira observação de que Brasil e Europa não eram farinha do mesmo saco quando o assunto é futebol. Mas também levou para essa visão alguns problemas de sua controvérsia ideológica. A noção do individualismo como fundamental no jogo e da arte como matéria concreta e não abstrata provocam demissões e má-gestões até hoje.

O fato de Freyre ter caído no ostracismo nas universidades brasileiras na década de 1970, 1980 e 1990 provavelmente jogou um escuro grande em seus escritos de futebol. Estão sendo resgatados hoje, assim como toda a obra de Freyre, que apesar de considerada ideologicamente incorreta em muitos de seus temas, influenciou gente do calibre de Mário Filho e permanece intacta em suas descrições do cotidiano no Brasil colonial.

Freyre faleceu aos 87 anos no mesmo Recife em que nasceu. Sobre as críticas, ele dizia que era mal-interpretado, e que tentava resgatar um pouco do romantismo do Brasil que se perdera. Para muitos, esse romantismo jamais existiu, assim como no futebol. Para outros, é capítulo à parte de um homem genial à seu modo. Ame-o ou deixe-o, Giberto Freyre contribuiu demais para a forma como vemos nosso futebol.

Jornalista e publicitário. Estudou comunicação na Universidade Federal do ABC, escreve para o Globoesporte no Painel Tático e para a Corner. Tem uns filmes empoeirados e acha que cinema com futebol é melhor que bacon.

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