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Bendita Copa Maldita

O sabor de refrigerante com água benta do sonho do tetra na Itália

Primeiro presidente democraticamente eleito desde 1960, o ex-diretor de futebol do CSA “exigiu”, em março de 1990, a conquista do tetra mundial pela Seleção brasileira na Copa da Itália. “Para dar alegria aos 140 milhões de brasileiros”. A exortação, mais para decreto presidencial, era mesmo abuso de poder e despudor. Também por ser outro Brasil. Não eram mais os “90 milhões em ação” da empolgante canção de Miguel Gustavo para a conquista do tri mundial, no México, em 1970. Eram 50 milhões a mais vestidos de verde e amarelo 20 anos depois.

Fernando Collor de Mello recebeu 35 milhões de votos no segundo turno da eleição de 1989 e assumiu a presidência do Brasil em março de 1990. Logo depois da posse, lançou pelos ares o Plano Collor na economia. Em outros campos, uma invencionice que seria tão desastrada quanto acabaria pagando o pato e o canarinho: o esquema com três zagueiros na Itália. Quando o Brasil teve o pior desempenho em Mundiais, desde 1966 até 2018.

A metáfora parece rasa e rala, como alguns dos discursos empolados do tecnocrata treinador Sebastião Lazaroni, que foi achincalhado antes da Copa, e, sobretudo, depois do gol de Caniggia, na dolorida derrota nas oitavas de final, quando a Seleção fez sua melhor exibição em Turim. Porém, foi derrotada pela canhota pesada de Diego Maradona, que, mesmo com um tornozelo lesionado e inchado como uma bola, fez todo o lance do gol que eliminou o Brasil burocrático e rachado internamente desde a concentração na Granja Comary, em Teresópolis.

Mas foi só o treinador brasileiro o responsável no banco pelos talentos retidos pelo Plano Lazaroni? A Argentina, então campeã mundial de 1986, e, duas semanas depois, vice da Copa, foi a vencedora de uma partida maluca em que o Brasil mandou três bolas na trave hermana e poderia ter goleado no clássico que perdeu numa genialidade maradoniana. 

Mania nacional de expiar burros em caso de derrota, sobrou ainda mais para Dunga o peso da eliminação. O ótimo primeiro volante (um dos melhores em campo na derrota no quarto jogo) foi massacrado sem dó. Praticamente, só respondeu pela overdunga brasileira de um time que parecia ter apenas volantes desgovernados. Mas o torneio com a pior média de gols da história das Copas foi só por causa do Brasil que não rolou e mal jogou?

O Mundial modorrento no verão italiano pareceu ser disputado por 24 Irlandas que jogavam para não jogar ninguém. Jogos tão sonolentos e chatos que levariam a International Board a mudar algumas regras do jogo em 1991, como as limitações de recuo para o goleiro defender a bola com as mãos e o impedimento não sendo mais marcado quando atacantes defensores estivessem na mesma linha.

A Copa de 1990 foi tática e retrancada como se fosse disputada onde foi — na Itália. Foi pior do que a de 2010. Para não dizer o pior Mundial desde 1930. A Holanda, campeã europeia de 1988, flopou (termo que então não existia para um fracasso redondo). A Itália fez bom papel mais por ser dona da casa do que pelo seu desempenho. A Inglaterra parou na semifinal, nos pênaltis que sempre foram penalidades máximas de fato para os inventores do futebol. A Argentina foi muito além do planejado com um desempenho medíocre de um time que jogou exatamente para decidir nos pênaltis (e justo um discutível, marcado no tempo normal, deu o título à melhor seleção: a Alemanha de Matthäus em campo, Beckenbauer no banco, e a eficiência germânica em tudo).

Foi um torneio mais sem graça e boas lembranças do que o governo Collor — que terminaria com o impeachment em dezembro de 1992. Um Brasil pouco brasileiro em campo. Ou, como muitas vezes, mal aproveitado. Porque 10 dos 22 convocados para aquele desempenho decepcionante seriam, quatro anos depois, campeões mundiais nos Estados Unidos. Fosse o presidente Ricardo Teixeira em 1994 tão tacanho e corneteiro como havia sido em 1990 depois do fiasco (quando não queria mais nenhum dos eliminados pela Argentina jogando com a camisa amarela), o Brasil não teria sido tetra com Carlos Alberto Parreira. Com o então renegado Dunga não só novamente em campo, mas jogando mais uma vez bem e erguendo o caneco como capitão do tetra.

Culpa só dele e de Lazaroni pelo fiasco em 1990? Culpa do esquema do Brasil com três zagueiros, adotado por 18 das 24 seleções, inclusive pela grande campeã?

Dunga não merecia ser tachado como foi em junho de 1990. O contribuinte brasileiro não merecia ser taxado como foi em 1990. O presidente mereceu ser fichado sujo em 1992.

Dunga voltou em 1994. Collor voltaria ao Senado. Nada como um jogo depois de outro, tudo como uma jogada depois de outra. 

O craque quebrado

No mesmo março de 1990 da posse de Collor em Brasília, em Eindhoven, o PSV — campeão europeu em 1988 — goleou o Den Haag por 9 a 2. Mas um carrinho de Marco Gentile quebrou o perônio direito de Romário naquele dia. Perônio era o nome então da fíbula. Romário já era o maior nome da Seleção. O segundo melhor na conquista da Copa América de 1989 no Brasil, depois do artilheiro da competição: Bebeto.

Torneio que começou tão mal para a Seleção, antes mesmo de a bola rolar ainda pior no péssimo gramado da Fonte Nova. Na véspera da estreia contra a Venezuela, a comissão técnica cortou três nomes da lista de 20: entre eles, o centroavante Charles, ídolo do Bahia, campeão brasileiro meses antes. Resultado: nem 10 mil pessoas no estádio. Tirante a torcida do Vitória, quase todo o estádio soteropolitano vaiando desde o Hino Nacional, que só teve a introdução executada, calada pelos apupos da pequena torcida.

A vaia só foi menor do que a que se ouviria depois pelo pouco que se viu de futebol. Pela primeira vez com três na defesa (zagueiraços do nível de Mauro Galvão, Ricardo Gomes e André Cruz); dois excelentes alas (Mazinho e Branco); um meio-campo criativo com três armadores, mas que não jogou bem (Tita, Geovani e Valdo); uma dupla afiada de ataque que sucumbiu (Bebeto e Romário). Como qualquer respeito que não se teve naquela triste tarde. Quando a Seleção entrou em campo, foi recebida com pedras e bagaços de laranja, enquanto os reservas não relacionados nas tribunas foram xingados antes da partida e tiveram de sair. Depois do 3 a 1 (o primeiro gol que a Venezuela fez na história contra o Brasil), a imprensa detonava tanto o time como a ideia de jogo do treinador com três atrás.

Ricardo Gomes foi bem na sobra da zaga. Não apenas pelo frágil ataque rival. Mas ele se soltou mesmo como líbero e participou diretamente do terceiro gol. Mas quem queria saber? Jogar com três na zaga na Seleção tri mundial era então crime lesa-bola. Coisa de vendilhão da pátria de chuteiras. Um pária tático. Ainda mais em uma equipe que perdeu gols absurdos na segunda etapa em Salvador.

Na segunda partida contra o Peru, dois dias depois, menos gente (8.223 pagantes), mas também menos vaias. O atacante reserva Renato Gaúcho levou uma ovada entrando no gramado. O time jogou ainda pior e não saiu do zero. Lazaroni inventou Alemão como ala pela direita; Aldair substituiu André Cruz na zaga; Dunga entrou na cabeça da área e Geovani ficou como armador ao lado de Valdo, no repaginado 3-3-2-2 brasileiro. O time rendeu pouco. E quem estava melhor, como o ala-esquerdo Branco, foi inexplicavelmente substituído por Renato. Lazaroni pediu para ser ainda mais vaiado e xingado de “burro”.  A torcida começou a torcer pelo Peru, gritar olé nas jogadas rivais e quase foi embora quando Dunga chutou para lateral uma bola na entrada da área.

Na mesma noite, a imprensa paulista pedia em coro a saída de Lazaroni (ex-treinador de Vasco e Flamengo). Ainda sob as brumas bairristas, ainda que com razão pelo mau futebol, o embate Rio-São Paulo nas redações também não ajudava uma Seleção que se atrapalhava sozinha.

Na terceira partida, Charles voltou ao grupo. Até o Hino voltou a ser aplaudido na Fonte Nova. Mas a pressão sobre o treinador aumentava. Valdir Espinosa, Carlos Alberto Silva e Emerson Leão eram os nomes especulados para substituir Lazaroni depois da Copa América. Para não dizer que tinha gente que o queria fora durante o torneio… o futebol seguiu ruim. Novo zero a zero contra a Colômbia.

No quarto jogo, o Paraguai já classificado para o quadrangular final fez o favor de escalar oito reservas. A CBF deu um jeito com a Conmebol de mandar a partida para Recife, onde mais de 70 mil pagantes apoiaram no Arrudão o time que retribuiu o carinho atirando flores para os torcedores. Em campo, os 2 a 0 foram justos, mas, de novo, com muitos gols perdidos. Mauro Galvão agora era o “líbero”, atuando na sobra, com Ricardo Gomes pelo lado esquerdo. Silas ganhou o lugar na armação que Geovani não vinha conseguindo dar conta, e fez ótima parceria pela direita com Mazinho, com Valdo e com Branco pelo outro lado.

No quadrangular final, no Maracanã cheio, estreia contra a Argentina de Maradona (com cinco dos albicelestes que enfrentariam o Brasil, um ano depois, em Turim). A mesma escalação do jogo anterior, outro astral. Também porque Romário, enfim, foi o Baixinho esperado, melhor condicionado fisicamente e num gramado melhor. Com 13 segundos do tempo final, deu um rolinho em Maradona de levantar o Maracanã. Gol espetacular de Bebeto, outro de oportunista de Romário, antes de uma sequência de dois chapéus do Baixinho que quase deu novo Gol de Placa no Maraca. O “olé”, desta vez, era da torcida brasileira contra os hermanos.

Contra o Paraguai, o mesmo bom futebol e desempenho. Mais um de Bebeto, em ótima combinação de Mazinho e Silas (três que viraram reservas no Mundial na Itália). Romário e Bebeto se entendendo muito bem (depois de um ano de farpas trocadas pela imprensa). Valdo e Silas invertendo os lados e pisando na área, os alas Mazinho e Branco construindo o jogo pelos lados e por dentro também. Bebeto faria o segundo numa pancada de canhota no ângulo de Gato Fernández. Romário marcaria o merecido terceiro gol pouco antes de Dunga retomar a enésima bola no meio-campo e a torcida, acredite, gritar “Dunga, Dunga!” com a bola rolando…

Um ano antes do estigma não merecido do vilão de estimação até o Mundial de 1994.

Na decisão no Maracanã, contra o Uruguai, com 132.473 pagantes, não teve fantasma de 1950 (mesmo com a partida disputada no mesmo fatídico 16 de julho…).  Os “Ghostbusters” Romário e Bebeto facilitaram um jogo menos eficiente do Brasil. Mazinho fez bela parceria com o atacante baiano para colocar na cabeça do Baixinho o gol do primeiro título brasileiro no torneio sul-americano desde 1949. No apito final, com muita festa no Maracanã, o primeiro abraço apertado de Lazaroni foi com o diretor de seleções da CBF: Eurico Miranda. O segundo foi com Dunga.

Não apenas o abraço foi apertado. O treinador resolveu fechar com aquele grupo. Naquela base de que não entraria quase mais ninguém.

No quadrangular final no Rio, o técnico achou o time das conturbadas Eliminatórias contra Venezuela e Chile. Passaporte para a Itália obtido no jogo que não acabou em setembro de 1989, no Maracanã, quando o goleiro Rojas simulou ter sido atingido por um sinalizador, e o Chile abandonou o gramado quando já perdia por 1 a 0. Acabou eliminado no tribunal e perdeu o direito de disputar as Eliminatórias seguintes.

A Seleção parecia preparada para o Mundial. Ainda mais com o luxuoso reforço de Careca, centroavante do Napoli, melhor parceiro de Maradona.

O grupo estava fechado pelo treinador. Parecia unido. Mas não contava com a “astúcia” dos cartolas da CBF, chefiados por Ricardo Teixeira, que completava o primeiro dos 22 anos que esteve à frente da entidade antes de quase ir parar atrás dos engradados de bebidas com que ele se embriagou e ergueu brindes que não cumpriu.

Um gole de veneno

O primeiro negócio fechado entre a agência de marketing esportivo Traffic com a CBF de Ricardo Teixeira foi o patrocínio do uniforme de treino. No papel, US$ 2 milhões pagos pela Pepsi. No papo com os convocados, um milhão era a bolada “paga” e declarada ao grupo. Valor que, dias depois, os atletas descobriram a conta certa (e o valor pela metade pago ao elenco). O desgaste inevitável levou à célebre foto oficial dos atletas perfilados (e alguns membros da comissão técnica) com a mão direita sobre o peito. A “foto patriótica” como alguns jogadores falaram. De fato, até parecia. Na prática, eles taparam o logotipo da marca de refrigerante, por terem sido tapeados pelos cartolas da entidade e da agência de marketing.

Depois, eles se acertaram. Mas o casco de refrigerante já estava trincando. E não era retornável. “Foi tudo mal contado e administrado. Foi um mal-estar por conta disso. Depois, falaram que não poderiam pagar nossa premiação também porque tinham que pagar o hotel na Itália. E lá chegando soubemos que era uma permuta”, disse Silas.

“Não foi por isso que perdemos a Copa. Mas criou uma desconfiança muito grande no elenco”, afirma Ricardo Rocha. “Todos erramos com esse episódio. Algumas vaidades foram afloradas e prejudicaram demais o ambiente. Mas aprendemos todos com isso. Para 1994 já saímos do Brasil com a premiação definida e justa com a CBF”.

Na concentração em Asti, na Itália, nova discussão sobre prêmios. Os atletas se fecharam e não queriam nem dividir o bolo com outros membros da comissão técnica. O treinador fechou com os parceiros de banco. Perdeu ainda mais a parte do elenco que não falava a mesma língua, e nem se arriscava no lazaronês. Também porque era a primeira Copa em que a Seleção tinha mais “estrangeiros” que gente atuando pelo Brasil (12 a 10). Não foi por isso que o escrete não tão canarinho foi mal na Itália, mas não havia a mesma sintonia, piorada pela inexperiência do presidente da CBF (e por Ricardo Teixeira ter as impressões digitais que sempre teve). Ambiente azedado pelo ausente chefe da delegação. Olavo Monteiro de Carvalho já havia sido cartola do Vasco, era primo da ex-mulher do presidente Collor. Empresário de sucesso, mas um tanto festivo demais para a função. (Não confundir com Olavo de Carvalho, o guru de outro presidente. Ou pode confundir se quiser).

Entre as Eliminatórias e a Copa, o Brasil evoluía. Ainda em 1989, ganhou, fora de casa, amistosos difíceis contra Itália e Holanda. Em 1990, no primeiro jogo no final de março, derrota injusta em Wembley contra a Inglaterra, com arbitragem tendenciosa. 

Sem Romário provavelmente até o início da Copa (ele colocou um pino no perônio na véspera do jogo em Londres), e pela fase instável de Bebeto, Lazaroni optou pelo entrosamento, que vinha desde 1984, de Muller e Careca no São Paulo. O técnico modificava o time para começar o Mundial, mas deixava claro que, para ele, o Brasil seria “Romário mais 21”, o que não pegou bem no grupo. Entre tantas coisas, poucos aceitavam a reserva. Muitos questionavam as escolhas do treinador. Ex-titulares da Copa América perderam espaço até entre os 22 por conta da fase ruim. André Cruz e Geovani foram descartados. Julio César, zagueiro titular da Copa de 1986, foi esquecido.

O esquema com três na defesa e com laterais convertidos em alas não era tão demonizado depois da fase final da Copa América. Telê Santana era um entusiasta. Taffarel se sentia mais seguro. Mas a equipe já não transmitia nos preparativos a mesma confiança. A fragilidade institucional e a inexperiência dos cartolas da CBF jogavam contra. Eurico Miranda deixou a entidade e ficou só no Vasco. Jorge Salgado assumiu a direção de seleções. Mais um motivo para o manda-tsunami vascaíno atrapalhar a preparação, negando a liberação de atletas, ou dificultando ao máximo.

Em 16 de abril, a lista definitiva: pela primeira vez desde 1930, mais “estrangeiros” faziam parte do grupo de 22 chamados: apenas 10 atletas atuavam no Brasil, sendo oito deles no Rio de Janeiro, um em São Paulo e um no Rio Grande do Sul. Mais um motivo ainda para a birra bairrista que achava a Seleção carioca demais. O meia Neto — que ainda não estava na forma espetacular que teria no final do ano, quando foi campeão brasileiro pelo Corinthians — disse: “se eu jogasse no Vasco estaria na Copa”. De fato, os vascaínos Tita e Bismarck (um experiente demais, outro de menos) foram chamados pelo ex-treinador vascaíno Lazaroni. Mas a lista era realmente boa. Era praticamente o que havia de melhor à época. Telê Santana, treinador brasileiro nas duas Copas anteriores, concordava com “95% da lista”. Carlos Alberto Silva, antecessor de Lazaroni, com “60%”.

Difícil era compreender algumas ausências, como o ponta-esquerda João Paulo, do Bari. Pelo jornal italiano “Gazzetta dello Sport”, o melhor atacante do campeonato que tinha Van Basten, Careca, Klinsmann e Völler… e não tinha João Paulo entre os 22 chamados para a Copa.

“Quero um camisa 10 que chegue na área e ainda ajude na marcação”, pedia e não achava e nem chamava Lazaroni. Não eram mesmo tantas opções. Ainda mais com a escolha tática do treinador. Ele preferiu fechar mais o seu “3-3-2-2” trocando Silas (em fase instável) pelo segundo volante Alemão, que estava muito bem no Napoli de Maradona e Careca. “O Lazaroni colocou o Alemão no meu lugar. Ele era mais um volante, e que sabia chegar à frente, tinha bom chute. Mas não era um meia como eu. O Valdo acabou sobrecarregado na criação. Mas o maior problema não foi tático ou técnico. É que as metas do time e de alguns companheiros parece que mudaram durante a Copa”, disse Silas, 30 anos depois da campanha.

A Itália estava encantada ou encanada com o futebol brasileiro. Tanto que a Fiorentina contratou Lazaroni para assumir o clube logo depois do Mundial. Acerto sacramentado quando ele viajou para a Bota para gravar um famoso comercial para a Fiat. No filme, um guarda de trânsito italiano, ao conferir os documentos dele, desconfiou que ele fosse treinador do Brasil com aquele sobrenome…

Nome artístico

No comercial da Fiat, quando Lazaroni insistia ser técnico da Seleção brasileira, o personagem que representava o policial disse “então, prazer, eu sou o Papa”.

Para a mídia brasileira, a Itália era mais o Vaticano do que quem tem bola vai a Roma. O mote da campanha da TV Globo era “papa essa, Brasil!”. A Itália era logo ali. Mas não foi. A confiança no sucesso da Seleção era moderada. E foi definhando com a preparação no Rio. Uma semana depois da convocação, apenas 16 dos 22 se apresentaram na Granja Comary. Faltavam alguns estrangeiros e outros disputando Libertadores e estaduais. Além do lesionado Romário. Treinando, mesmo, só 10 começaram.

O mau desempenho se viu nos dois amistosos disputados ainda no Brasil. Poucos jogos e pouco futebol. Vitória macérrima contra a Bulgária, em Campinas. Torcida gritou olé para os rivais. No jogo de despedida, o Brasil cedeu o empate por 3 a 3 no final para a Alemanha Oriental. Mais vaias, mais uma atuação muito fraca. Pontaria muito ruim da Seleção, que foi menos eficiente do que o presidente Collor, que, na véspera, em Teresópolis, bateu de bico um pênalti em Taffarel e fez o gol.

Só na Europa o treinador teve o grupo todo à disposição. Menos Romário, ainda se recuperando da fratura. Mas a equipe não se acertava, até em questões básicas. Silas e Renato Gaúcho queriam usar a camisa 10. Até o zagueiro Ricardo Rocha também queria. E o treinador nem isso definia.

Na vitória por um gol contra o frágil selecionado de Madri, Lazaroni trancou mais o meio-campo. Sacou o armador Silas e optou pelo segundo volante Alemão, pouco à frente de Dunga. Para o treinador, era um modo de o Brasil jogar “mais sujo”. Ou “menos limpo”, como ele reclamava…

Na zaga, o zagueiro-direito Mozer queria ser o líbero que vinha sendo Mauro Galvão (e que no começo era Ricardo Gomes). Para piorar, no jogo-treino contra a seleção da Umbria, província onde estava concentrada a delegação brasileira em Gubbio, o time foi ainda pior e perdeu por 1 a 0. Gol do inusitado Edoardo Artistico.

Só em 25 de maio Romário chegou, com seu fisioterapeuta Nilton Petroni. O Filé. Prontamente frito pelo bisturi afiado do doutor Lídio de Toledo. Até a comissão técnica não se entendia.

Mas o pior ainda nem tinha dado o ar da desgraça.

A Copa

A Seleção estreou contra a Suécia em Turim, no novo estádio Delle Alpi. O Brasil estava perfilado para ouvir o Hino no mesmo momento em que Ayrton Senna estourava champagne em Montreal ao lado de Nelson Piquet, segundo colocado no GP do Canadá de Fórmula 1. O Hino que se ouviu na América mal se ouvia na Itália, porque o locutor do estádio escalava as equipes enquanto a banda desafinava os hinos nacionais.

Bola rolando, o Brasil espetava demais a bola para o ataque. Os três zagueiros a todo momento buscavam a velocidade de Muller. Era muito pouco. O meio-campo brasileiro sofria com torcicolo por ver tanto balão junino na Itália. O centroavante e craque Careca saía bastante da área para buscar a bola que não chegava com Valdo e com Alemão.

Os três zagueiros trocavam a bola com muita lentidão. E quando ela era recuada para Taffarel, a vaia vinha abaixo. O jogo era feio e improdutivo. 

O gol brasileiro sairia em um lance bem trabalhado pelo ala-esquerdo Branco. Ele caiu por dentro e achou Careca, que driblou o goleiro e fez 1 a 0, dançando na celebração com a lambada que então dominava o mundo.

Parecia o próprio Brasil na Copa. Como se fosse o sucesso do grupo Kaoma, com um ritmo brasileiro, uma canção em português, mas meio que importada, pasteurizada, plastificada. Como a própria seleção mais “estrangeira” do que brasileira. Sem a riqueza das várias culturas. Apenas a descaracterização do que era bom.

Na segunda etapa, o Brasil foi o que exagerou Lazaroni: “não quero mais espetáculo, quero vitória”. Careca ampliou em ótima chegada de Muller na linha de fundo, depois de bela bola longa do ala-direito Jorginho (que ganhara a posição de Mazinho).

A Suécia diminuiu com o jovem Brolin, virando fácil em cima de Mozer (de atuação irreconhecível). Taffarel fez boas defesas que garantiram um “sai que é sua, Taffarel” (o primeiro em Copas de Galvão Bueno), e um “haja coração” até o final da justa vitória brasileira. Careca e Branco foram os melhores do Brasil. Dunga também foi muito eficiente na proteção aos três zagueiros.

No jogo seguinte, contra a Costa Rica, o mesmo time. A bronca ainda maior de Renato Gaúcho por ser reserva. Nem no banco de reservas, ao lado dos demais não relacionados, ele quis ficar. O namoro com a modelo Luma de Oliveira era mais comentado que o desempenho dele. O zagueiro Aldair também estava desgostoso por ser a última opção de Lazaroni. Chegou a cogitar deixar a Seleção. Para o bem geral da nação, ficou, e seria fundamental no tetra em 1994.

O Brasil seguia irreconhecível até para a transmissão oficial. Durante a execução do Hino, os jogadores rivais eram mostrados em vez dos brasileiros. A Seleção seguia batendo na trave. Mandou quatro bolas no poste durante outro jogo morno contra um rival frágil e fechado como quase todas as equipes da Copa medrosa e medonha.

Ânimos estavam à flor da chuteira. Dunga cobrou Branco por um lance e só não saíram no braço por Mauro Galvão, com a elegância usual, intervir. Valdo se aproximou mais de Muller e Careca, mas o Brasil seguia distante do nível ideal.

A Seleção chutou 22 bolas, criou 11 lances importantes, mas fez apenas um gol, em um sem-pulo de Muller que carambolou em dois rivais antes de entrar. Dunga seguiu sendo o melhor passador da equipe. Não apenas óbvios passes. Seis bolas longas dele foram produtivas.

A vitória deu tranquilidade demais à delegação. Até ao diretor de seleções Jorge Salgado, que cogitou publicamente o indizível até para o travesseiro: que o Brasil talvez perdesse o primeiro lugar no grupo para evitar o confronto prévio com a dona da casa Itália…

Dois dias antes da terceira partida contra a mediana Escócia (vitória por 1 a 0), Bebeto lesionou o joelho. Lazaroni perdia ótima opção no banco. E dele tirou Ricardo Rocha para substituir o suspenso Mozer. A zaga ficou muito melhor, em grande atuação de Mauro Galvão. O Brasil, nem tanto. Romário enfim veio a campo. Aos 19 do segundo tempo. Como o Brasil, pouco jogou. Não fosse Taffarel fazer defesa espetacular no único lance rival, aos 45 finais, o empate seria dolorido demais. Mas não injusto.

Para o cronista de “O Globo”, Agamenon Mendes Pedreira, “Lazaroni repreendeu Muller por desperdiçar um gol nesta fase. Ele poderia guardar o gol feito para um jogo mais importante”.

Tinha muita lógica. Alemão e Dunga foram os melhores brasileiros. Mas o ambiente se deteriorava. Careca defendia Muller e Romário com ele no ataque, e não o time mais trancado de Lazaroni. Mozer batia no peito e dizia que voltaria de qualquer jeito à equipe. Muller se juntava ao time dos emburrados ao lado de Aldair e Renato. Por mais que os coros de “burro” se ouvissem, sobretudo na torcida brasileira, Lazaroni seguia firme nas suas escolhas.

Derrota lazarenta

Na véspera das oitavas contra a Argentina, em Turim, Maradona ligou para Careca, genial parceiro de Napoli: “Antonio, não estou bem. Terei de fazer infiltração no tornozelo esquerdo. Ele está uma bola”.

Campeã mundial em 1986, a Argentina repetia o esquema com três na zaga. Mas era um milagre a seleção albiceleste ter se classificado (como uma das melhores terceiras colocadas). Para piorar, Maradona estava baleado.

Mal tocaria na bola. Mas quando tocou…

O Brasil fez sua melhor exibição no Mundial. Uma de suas melhores partidas quando foi derrotado em Copas. Como em 2018, quando caiu diante da Bélgica perdendo um pacote de gols. Como no ótimo primeiro tempo contra a Holanda em 2010. O jogo inteiro contra a França em 1986. A Itália no Sarriá de 1982.

A Argentina, em Turim, foi menos time que o Brasil. Mas deu tudo mais errado do que deixar Ricardo Teixeira como presidente da CBF até 2012.

Tão ruim que Dunga quase pagou com a vida pela cobrança exagerada. Como Gérson, de má Copa em 1966, pôde se recuperar em 1970, Dunga faria o mesmo em 1994. Com a diferença de que ele fez ótima Copa em 1990 — para aquilo que se propôs e lhe foi pedido. Mas quem se importa? Ele mal deixou Maradona andar — até por Diego mal conseguir correr. Dunga só perdeu um lance para El Diez. Mas justo aquele.

Com 57 segundos de jogo, Careca fez grande lance com Muller, mas escorregou na hora de vencer o grande defensor de pênaltis — e medíocre goleiro — Goycochea. O Brasil começou jogando e marcando muito à frente. Sufocando a Argentina, que fez cera todo o primeiro tempo. Maradona só tocou na bola aos 7 minutos e foi vaiado. Alemão esteve muito bem, e Valdo fez sua melhor partida na primeira etapa. Aos 18 minutos, Dunga roubou mais uma bola e partiu à frente para mandar de cabeça na trave. Dois minutos antes, ele havia desarmado Maradona, que ficou desconcertado.

Aos 25, Diego parou para trocar as chuteiras. Merchan da Puma ou ele precisava mudar mesmo muita coisa? Um minuto depois, o armador Troglio chutou fraco e de longe para a primeira defesa de Taffarel. Do outro lado, a segunda saída atrapalhada de Goyco da meta quase deu gol brasileiro. Era só forçar mais que ele entregava. O zagueiro-direito Ricardo Rocha apareceu na ponta-esquerda aos 33. Só dava Brasil. Foram cinco boas chances até o intervalo. Apenas um lance mais perigoso argentino na bola parada, como estava Maradona até então.

Turim, 24.06.1990

Argentina 1-0 Brasil

Aos 6 minutos do segundo tempo, Goycochea quase fez gol contra em cruzamento de Careca, que abriu mais pela esquerda. Na sequência, Alemão mandou um balaço na trave. Em 10 segundos, duas bolas nos postes argentinos.

Maradona? O primeiro lance digno em todo jogo foi aos 14. Em todos, ele seguiu vaiado. O Brasil seguia melhor. Dunga deu, aos 25 minutos, passe belíssimo de três dedos para Careca. Mas quem quer lembrar? Dois minutos antes, Maradona deu passe bisonho para lateral…

“Un’estate italiana”, assim se chamava a canção oficial da Copa em razão do verão italiano, no qual Alemão e Valdo pregaram fisicamente a partir dos 25. Lazaroni não mexeu. Muller também não estava bem. O jogo pedia Silas. Mesmo Renato. Mas a bola exigia Maradona. Aos 35, D10s recebeu na intermediária e passou pelo esgotado Alemão. Dunga correu atrás e Ricardo Rocha deu o bote. Mauro Galvão também tentou se antecipar. Em vez de acompanhar Caniggia, que se largava pela esquerda, Ricardo Gomes preferiu pedir o impedimento, mas ele mesmo dava condição de jogo. Os zagueiros trombaram, Maradona enfiou entre as pernas de Mauro a bola que Caniggia driblou Taffarel e fez o gol inesperado.

Mais dois minutos e Ricardo Gomes foi expulso por derrubar Basualdo, que entrava como se fosse Diego na área brasileira. Enfim Lazaroni atirou a campo Silas e Renato. Taffarel fez mais um milagre ao evitar golaço de Maradona na cobrança de falta. Até o 10 argentino aplaudiu o goleiro brasileiro.

Aos 43, Muller recebeu livre bola espirrada pela zaga argentina depois de um bumba-meu-canarinho brasileiro, mas bateu mal, de canela para fora.

Foi a última chance brasileira. Ao final do jogo, Maradona desfilou pelo gramado com a camisa amarelinha celebrando com a torcida argentina. E causando suspiros na carente torcida brasileira que então chegava a um jejum de 20 anos sem Copas.

Água benta

“A sorte jamais esteve ao nosso lado”, lamentou Lazaroni, no vestiário derrotado. Branco disse que, durante o jogo, tomou água ofertada pelos argentinos e passou mal. Anos depois, alguns membros da delegação hermana disseram que a água fora batizada com Rohypnol, um calmante. Branco a tomou aos 40 do primeiro tempo, no atendimento de Troglio.

Motivo verossímil para ele ter jogado bem menos na segunda etapa. Quando todo o Brasil parecia ter tomado a água que canarinho não bebe. E tomamos pior. Justo na tarde em que a Seleção havia encontrado seu melhor futebol. Jogou muito mais do que a Argentina. Mas não tinha Maradona, que, em apenas dois lances, foi Diós.

Silas ainda lembra com dor a derrota. “O Ruggeri, anos depois, me disse que não sabia como eles tinham vencido o jogo. O time deles não estava bem, o Maradona não estava 100%… se a gente passasse por eles, iria até a final em Roma. Mas é o futebol. O mesmo que depois fez justiça ao Dunga, em 1994, mostrando o capitão que ele sempre foi. O Laza acabou sendo injustiçado então. Até pelo Brasil ter sido penta em 2002, com um esquema com três zagueiros que ele já usava 12 anos antes”.

“Nosso time em 1990 era individualmente melhor que o de 1994”, afirma Ricardo Rocha, um dos dez de 1990 que foram tetra. “Mas Deus sabe o que faz. Talvez se a gente tivesse ganhado aquele jogo contra a Argentina não teríamos sido campeões, e nem mesmo em 1994. Talvez a conquista na Itália acobertasse muita coisa errada que fizemos. E no futebol tem dia que é assim. Dá tudo errado. Se aquele jogo continuasse até hoje, tenho certeza que ainda estaríamos perdendo para eles. Essa é a graça do futebol: o único esporte onde nem sempre o melhor vence. E nós éramos melhores do que eles”.

Mauro Galvão: “não conseguimos ter o mesmo foco no Mundial que tivemos na Copa América. Alguns jogadores estavam insatisfeitos e refletiu muito no ambiente isso. Pessoas interferindo na concentração… fizemos uma boa Copa. Jogamos bem contra a Argentina. Criamos, mas não matamos o jogo. Erramos um lance e eles fizeram o gol. Precisamos do algo mais que não tivemos. O brasileiro não entende que as outras seleções são boas. Mas todos nós fizemos menos do que podíamos no Mundial. Tínhamos chance de chegar até a final. Mas campeões do mundo eu não sei”.

O Brasil, de fato, pouco lembrou o futebol tricampeão durante a Copa. Mas não a ponto de Ricardo Teixeira proibir Paulo Roberto Falcão — sucessor de Lazaroni na Seleção a partir de agosto de 1990 — chamar os 22 precocemente eliminados no Mundial.

Erro que corrigiria já em 1991. Para felicidade geral da nação:  entre os ex-proscritos da queda de Turim, estavam Romário, craque do Mundial dos Estados Unidos, e Dunga, capitão do tetra. Um dos melhores do Brasil em 1990. Mas carimbado com o injusto naming right da fracassada “Era Dunga”. Fala Ricardo Rocha: “esse papo é uma grande injustiça com ele. Todos nós perdemos em 1990”. O infeliz estigma quase desbotou o verde-amarelo na Itália. Ou “colloriu” demais em dias de poupança e recursos confiscados por um poder que não sabia o que fazer. Ou que foi vencido pelas forças de um mercado mais competitivo. E de um toque de Maradona.