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Brilliant Orange

A psicanálise do futebol holandês

Poucos países podem se gabar de ter um passado tão rico na história do futebol e, ao mesmo tempo, um sério problema em transformar seus méritos em triunfos, suas inovações em passaportes para a glória. Para tentar entender essa complexa relação, David Winner analisou profundamente a psique do futebol holandês num livro imperdível: “Brilliant Orange: The Neurotic Genius of Dutch Football”. 

País algum disputou três finais de Copa do Mundo, sendo vice-campeão em todas elas. A não ser a Holanda, é claro. 

A obra de Winner, escrita antes do Mundial de 2010, na África do Sul, explora, em quase trezentas páginas, o subconsciente tão complexo do futebol da nação laranja. O subtítulo não engana ninguém: o gênio neurótico do futebol holandês. 

“Brilliant Orange” é um livro sobre futebol, é claro, mas também, uma obra de psicanálise moderna, pintada em tons sociológicos, sem esquecer a relação importante do esporte com a economia e a história de uma nação. E o futebol holandês é, como não podia deixar de ser, o reflexo de suas gentes, o motor de muitas das metamorfoses que a nação protestante vive desde o começo do século XX. 

David Winner mergulha na dicotomia social que é esta Holanda profundamente conservadora, trabalhadora e inimiga de qualquer demonstração exterior de alegria. Tudo fruto da herança protestante, em contraposição a uma seleção que ensinou ao mundo como jogar um futebol atrativo, intenso e efusivo. Sexy, como batizaria Ruud Gullit anos mais tarde. “Total”, como a história preferiu recordar os dias de Rinus Michels no comando do esquadrão. Um estilo de jogo que retira a paixão interior dos neerlandeses dos espartilhos sociais em que cresceram, mas que, de certa forma, elabora os argumentos suficientes para gerar uma eterna relação de desconfiança entre uma nação e sua seleção. 

Um país desenhado por seu futebol

Em vinte capítulos, organizados numericamente de forma aleatória, assim como as camisas laranjas na Copa do Mundo de 1974, o leitor pode viajar até a forte presença do ruralismo no jogo criativo, num país em que as planícies se prolongam até onde a vista se perde, sem espaço para os altos e baixos geográficos que possam originar outro tipo de jogo, outro tipo de filosofia. 

O autor percorre a vida de grandes símbolos artísticos, de mentores táticos geniais e, sobretudo, de movimentos sociais importantes, desde o silêncio da sociedade holandesa frente aos crimes nazistas durante a Segunda Guerra Mundial até a afirmação das comunidades imigrantes, inclusive a de origem surinamesa. Esta, inclusive, essencial na conquista do título europeu de 1988.

“Brilliant Orange: The Neurotic Genius of Dutch Football” é um livro indispensável, pois permite que o leitor compreenda a forma como um país influencia seu futebol e vice-versa. Uma obra que transpira o jogo sem se esquecer que o esporte bem jogado desenha o mundo na mesma velocidade em que o mundo o desenha para ele. 

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.