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Bruno Formiga

Ele entrou em contato com a Corner, durante a campanha de financiamento coletivo da segunda edição, se disponibilizando para ajudar no que fosse necessário. Falou que amava o jornalismo impresso. Foi logo depois disso que o canal Esporte Interativo começou a ser distribuído também pela Sky, e ter mais visibilidade. Afinal, desde quando o canal adquiriu a exclusividade dos direitos da UEFA Champions League que muita gente ficou perdida, e aos poucos, o canal começou a ser distribuído em todas as operadoras de TV por assinatura.

O mercado de TV paga, no que concerne à programação esportiva, sofre mutações constantes. A oferta de conteúdos em streaming é — ao mesmo tempo — uma nova concorrência e um complemento na programação de um canal. O Esporte Interativo foi um dos primeiros a fazer isso, a disponibilizar seu sinal 24 horas online— quando ainda era um canal de TV aberta. Mas os contratos de transmissão e o crescimento do canal mudaram um pouco o formato de entrega, até lançarem uma plataforma própria, com diferentes programações sob demanda.

Foi mais ou menos no meio disso tudo que Bruno Formiga chegou ao canal que leva no nome a interatividade. Desde os tempos de Orkut — uma era quase medieval na comunicação digital —, que o Esporte Interativo aposta neste formato. Depois, vieram as hashtags, e a explosão mundial do Youtube. E é nessa plataforma de vídeos que o canal também começou a difundir seu conteúdo. Um deles é o programa Polêmicas Vazias, que de vazias nada têm. Quem comanda essas “polêmicas” é Bruno Formiga: Cristiano Ronaldo ou Messi? Palmeiras foi campeão do mundo?

Mais do que os argumentos, que buscam sempre uma neutralidade, uma fuga do lugar comum, o programa traz uma linguagem, não só do apresentador, mas de cortes, com um ritmo totalmente adaptado à velocidade que a hiperconectividade pede. Qualquer momento de lentidão faz a audiência escapar, trocar de aba, verificar o Whatsapp, e dispersar. Bruno Formiga conseguiu conjugar tudo isso. Conteúdo e ritmo. Qualidade e popularidade. E o melhor de tudo é um quadro intitulado “Opiniões que você não tem o direito de ter”. Uma dessas opiniões que deveriam ser proibidas é justamente com relação ao sotaque de Bruno Formiga. Cearense, mas filho de pai carioca, ele percebeu que seu sotaque é visto como engraçado, segundo seus relatos, desde que se mudou para o Rio, quando ingressou no Esporte Interativo.

E foi lá, na sede do canal no bairro de Botafogo, que Bruno recebeu Fernando Martinho. Andando pelos diferentes andares, alguns em obras, era um momento de crescimento do Esporte Interativo, que olhava para o futuro em tempos de crise econômica e de instabilidade política. Enquanto todos se retraíam, o canal vinha se reinventando. Depois de dominar o território nordestino com o ressurgimento da Copa do Nordeste, veio a aquisição dos direitos exclusivos da Liga dos Campeões da UEFA para a TV fechada, juntamente com a venda de grande parte do canal para o grupo internacional de mídia Turner. E na seqüência, uma série de clubes brasileiros venderam os seus direitos de transmissão de TV Fechada para o canal a partir de 2019.

Com uma linguagem própria, o canal sofre críticas de um público “formado” pela antiga ESPN. O mesmo público que passou a criticar impiedosamente a própria ESPN, após algumas mudanças editoriais do canal. A Corner #1 abordou o assunto. É provável que após a inserção nas principais operadoras do Brasil, o Esporte Interativo também se adapte a uma nova audiência, passando a “gritar” menos nas narrações e se importe pouco com as hashtags.

Após o apoio dado à segunda edição da Corner, Formiga recebeu a sua revista em mãos — assim como vários leitores do Rio e de São Paulo — lá mesmo no canal. Dessa vez, era a entrevista. Elevador, terceiro andar, logo à esquerda, na redação, a mesa dele. Ao lado da mesa de Felipe Rolim — outra fera, que comenta campeonato indiano[!]. Foi quando começou a andança pelo canal. Desce um andar, salas de reunião à direita. À esquerda centrais de controle, e ao fundo uma sala temática da Champions League, onde, aliás, é gravado o tal programa Polêmicas Vazias.

Um andar abaixo; e já dentro um estúdio de transmissão de jogos, várias telas e monitores, Alexandre Gimenes estava ali, de backup pra um programa ao vivo. Papo foi, papo veio, uma foto aqui, outra ali. Gimenes tira uma foto com seu celular, manda pro grupo de Whatsapp da firma. Formiga fica meio sem graça, mas vai se soltando. Tudo aquilo podia ser visto do Switcher do canal, a central de controle. Bruno olhava pra uma das câmeras que sabia que estava ligada e falava com quem estivesse na mesa de controle: “Vocês vão ver! Aqui pra vocês, oh!”

Quem melhor que Bruno Formiga pra falar, desde dentro do jornalismo esportivo, sobre a principal pauta da terceira edição da Corner? Nordeste, sotaque e preconceito. Ia ser um papo rápido e durou quase duas horas. Sua trajetória, sua região natal e o canal se encontraram e se misturaram.

Fala um pouco da sua trajetória.

Primeiro eu fiz um curso técnico de jornalismo em Fortaleza, na Gama Filho. Meu irmão se formou em publicidade pela Gama Filho, e a minha mãe achou que era uma boa pra eu entrar mais rápido no mercado de trabalho. Foi legal. Mas na época teve uma puta discussão sobre a questão do diploma que envolvia o curso técnico, se era válido ou não. Se não me engano, foi o primeiro curso técnico de humanas. Então, não se sabia se o MEC ia aprovar e reconhecer o curso. Ficava aquela dúvida. Fiz o curso de História também, passei pra Universidade Estadual, e fiz em paralelo. Depois eu fiz o bacharelado em Comunicação Social. No final das contas eu fiz seis anos de jornalismo.

Sua mãe te estimulou ou você já queria jornalismo?

Eu sempre quis jornalismo. Na verdade, eu queria jogar. Mas acho que houve uma preguiça. Ou a minha pouca necessidade, talvez tenha me feito desistir no meio do caminho. Uma coisa é você se divertir jogando bola, e outra coisa é você trabalhar jogando bola. Aí, passa a ser obrigação. Em vez de você ir pra uma pelada três vezes por semana, você começa a ter que treinar todo dia, e fazer treino físico, bater em gol… E você começa a perceber que gosta de jogar bola, brincar de bola, e não jogar futebol competitivamente. E mais, você encontra um puta preconceito ao contrário. Você chega lá, por exemplo, com uma chuteira bacana, ou sei lá, com um short da Nike, e há uma exclusão às avessas. Você tem que quebrar isso aos poucos. Às vezes, não se consegue. É um ambiente hostil. Um ambiente de competição. Todo mundo ali quer as poucas vagas que existem e a maioria vem de classes mais baixas. E eles percebem que aquilo ali lhes pertence. E aí, vem o playboy de fora querer tomar o que é a única chance. Isso vai te desanimando, mas você percebe que, de fato, tem gente que quer mais que você. E futebol não é saber, é querer mais. Não existe um fenômeno natural que bloqueie talento. Só vai haver talento na Zona Norte [do Rio de Janeiro], e na Zona Sul não vai ter bom jogador. Isso não existe. Ou então, só há bom jogador no subúrbio de Fortaleza ena orla só tem perna de pau. A diferença é que uns precisam e querem mais, e outros sabem, mas precisam e querem menos. Eu tenho vários amigos que jogaram em categorias de base, chegaram até a jogar no profissional mas que foram engolidos pela comodidade, talvez, ou por preferirem outras coisas, ir estudar e o cara sai fora.

E qual foi esse divisor de águas pra você?

Acho que foi mais preguiça. Encarar que eu sabia jogar, mas talvez eu não quisesse ser atleta. Era muito chato a parte de treinamento físico, ter que pegar dois ou três ônibus todo dia pra ir treinar. E, talvez, aí entre a parte “playboy”. Primeiro eu tinha vergonha do meu pai me levar. Isso criava uma barreira com os caras. Mas, ou eu ia com meu pai, ou ia de ônibus. Fortaleza não tem metrô. Na época, nem tinha os terminais, tinha que pegar um ônibus, descer no meio do caminho, e pegar outro. Não estava acostumado com aquilo. Isso me testou, e eu não passei nesse teste. Que bom, pois acabei indo pro jornalismo. Meu irmão é professor de literatura, é poeta, sempre gostou de escrever, e meu pai é um cara que, apesar de não trabalhar com isso, gosta muito de português e escreve muito bem. Eu sempre fui estimulado a ler, escrever e ter senso crítico. Meu pai mora em Fortaleza há 40 anos, e há 40 anos que ele critica a cidade. É um cara muito crítico, meu irmão também. Estive sempre num ambiente lúdico e cético. De criticar e endeusar ao mesmo tempo. Então, se não vou jogar, vou trabalhar com futebol. Eu ia bem no colégio, nas redações e em história. E futebol é uma puta ferramenta pra você conhecer histórias e entender a História. Tudo isso me levou ao jornalismo. Eu saí da faculdade já empregado. Fiz alguns estágios, trabalhei na Caixa Econômica como “Posso Ajudar?”, foi uma experiência quase que antropológica, pra me fazer ver que alguns seres humanos existem. Peguei filas quilométricas na porta do banco. Mas entrei no jornal O Povo, como repórter. Tive uma rápida experiência como comentarista na rádio Transamérica. Mas só saí do jornal pra vir pro Rio, pro Esporte Interativo. Nesse meio tempo trabalhei na afiliada da TV Cultura, e depois na afiliada da Record.

Sair do Nordeste e trabalhar numa TV no sudeste. O Ei é um canal nacional, com base no Rio de Janeiro, mas sempre focou muito no nordeste, houve alguma relação nisso?

Total! Eu arrisco dizer que se não fosse a Copa do Nordeste, eu não teria vindo pra cá. Sem dúvida nenhuma. Eu até brinco aqui que vim por um sistema de cotas. O pessoal ri e tal. Mas no fundo eu acredito um pouco nisso. Nada pejorativo. De fato, havia um olhar mais apurado para o Nordeste, pois era um mercado inexplorado, com um público consumidor, com muitos clubes, muita torcida e por vários motivos, as pessoas teimavam em ignorar. O Esporte Interativo viu ali uma oportunidade, e de mão dupla, de entregar um bom conteúdo, e receber de volta muita audiência. E o negócio vai crescendo, que foi fundamental pra entrar em outros mercados. E eu vi que pro que eu queria, eu tinha que sair do Nordeste. Eu não sabia até quando o jornal impresso ia me dar um retorno que eu precisava, e ao mesmo tempo cada vez mais criando raízes, com meus filhos crescendo lá. Eu tinha contato com o Lédio Carmona, do Sportv, que muitas vezes ia pra Fortaleza fazer Copa do Brasil, Série B ou Série A, e saíamos pra jantar, acabamos virando amigos. Ele me descobriu porque ele tem o hábito de ligar pra repórteres locais pra pedir informação, pra estudar o jogo. Então, ninguém melhor que uma pessoa local pra te dar isso. Depois veio o Whatsapp e Twitter, mas essa lógica ainda continua. Principalmente campeonato estadual ou Copa do Nordeste. E aí, o Lédio acabou me indicando a alguns lugares. Conversei com a ESPN aqui, no Rio, com a Sportv, com a Fox Sports e com o Globoesporte.com também. Mas não acertei com ninguém. Não tinha dado tempo de ir ao Esporte Interativo, pois eu só tirei quatro dias de folga. Aí eu encontrei o Fábio Medeiros pelo Facebook, eu sabia que ele era um dos gestores. Eu mandei meu portfolio, e sabia que em 2013 seria a retomada da Copa do Nordeste. E o Esporte Interativo tem uma relação muito forte com isso. O canal começou como uma agência de Marketing Esportivo, era a Top Sports, era responsável pela Copa do Nordeste no início dos anos 2000. Numa época dourada, com Sérgio Alves artilheiro do Brasil. E sabendo disso, que eles iam olhar pra lá, achei que seria interessante ter uma pessoa do Nordeste. Entrei em contato com ele [Fábio Medeiros] em setembro de 2012, e em janeiro de 2013, eu já estava no Rio. Calhou dele já estar de fato procurando [alguém do nordeste], ele queria, mas ficou receoso de me fazer uma proposta que não desse pra trazer minha família pra cá. No final, eu consegui empatar com o que eu ganhava em Fortaleza. E ao final do primeiro ano, eu renovei o contrato e fui ficando. Mas partiu de mim ir atrás. Mostrei. E dei sorte de eles estarem procurando.

Embora o canal já tivesse como foco o mercado nordestino, ele está baseado no Rio de Janeiro, e é um canal nacional. Mas já aconteceu algum caso de rejeição ao teu sotaque por parte da audiência?

Foi uma adaptação tranqüila. Eu entrei para fazer um programa chamado Conexão Nordeste. O fato do sotaque, em vez de distanciar, serviu para aproximar. Pra tornar o canal mais plural. Vitor Sérgio, por exemplo, é do Rio. Alexandre Gimenes é de São Paulo. Giovanni Martinello de Santa Catarina. Taynah do Rio Grande do Sul. Clara Albuquerque da Bahia. São vários sotaques. Por mais que no ar você tenha que falar mais pausado, o sotaque diminui um pouco, mas nem tanto. Só que se eu falo com meus colegas em Fortaleza, eu fico no limbo, eles acham que estou com sotaque carioca. Mas o pessoal daqui acha que eu tenho sotaque de lá. Eu tenho um não-sotaque. Lá eu falo chiando, mas aqui eu continuo sendo o cara do sotaque engraçado. Mas no início não me atrapalhou em nada. Pelo contrário, ajudou. Mas a medida que comecei a fazer outros jogos, de Liga dos Campeões, gravando Barça TV, fazendo jogo do Bayern, ou do Manchester, ou do Milan, assim, em alguns momentos isso causou estranhamento pois, de fato, não é habitual pro brasileiro em geral ouvir o sotaque nordestino na TV. Eles ouvem em novela temática, algo caricato. E em alguns momentos, vem uma frase: “Ah, esse cara desse sotaque” ou “Esse nordestino”, então assim, existe o preconceito. Mas vejo que é menor do que se imagina. Não foi do tamanho que eu imaginava. Mas eu sei que sendo nordestino eu preciso quebrar uma barreira do não-habitual. Tem nordestinos comentando, mas são poucos, se você contar aí, vai contar nos dedos. Juninho Pernambucano é ex jogador, Ricardo Rocha também. Eles entram em outra categoria. E fora esses, é difícil, não vou lembrar. Na ESPN tem a Rafaela que é apresentadora, e é pernambucana. Não é fácil. O cara está zapeando, e do nada vê um “e” mais aberto, causa um estranhamento. Pois é tudo muito pasteurizado. E vem toda uma carga simbólica, e faz o cara refletir: “Poxa, esse pessoal pensa”, pois é aquilo, mão de obra, as pessoas sempre viram no Nordeste como um grande celeiro. Mas a impressão que dá é que quando for pra pensar não vale. Jogador pode, pedreiro, porteiro. Mas professor, gera dúvidas. Comentarista, dão uma segurada. Por mais que, na realidade, você tenha compositores, cantores, escritores, artistas, uma porrada de gente que pensa pra caramba do Nordeste, as pessoas tendem a ignorar isso.

No entanto, esses caras tiveram que vir para o Sudeste pra ganhar todo o reconhecimento. Existe uma ordem econômica que fala alto e dita algumas coisas. São séculos que consolidaram o sudeste como centro econômico. Mas a questão do sotaque, além da necessidade de ter que vir para o Sudeste, também é uma barreira a ser superada? Como você vê isso?

Eu já tive algumas conversas pra ver se valia à pena diminuir o sotaque. Ir ao fonoaudiólogo ou não. Fica muito claro que não. Não precisa. E essa é uma tendência nas TVs como um todo. Antigamente, você tinha um padrão. E o fonoaudiólogo, de fato, ele tira o teu sotaque. Os telejornais tinham um padrão de voz todo igual. No dia a dia são vozes diferentes, mas no ar fica um timbre e o mastigar das palavras muito parecidos. A coisa mudou bastante. Não me preocupo com isso. O fato de eu não ter um sotaque tão acentuado, talvez isso se dê por ser filho de um carioca. Pode ser. Durante muito tempo eu vinha pro Rio passar férias. Fiz fono só pra tentar ter a voz um pouco menos nasal, e acho que não adiantou muito. [Risos] E eu nunca fui um cara de ter muitas raízes. De ter muito orgulho de ser brasileiro ou de ser nordestino. Esse sentimento se aflorou quando eu me mudei pra cá. Quando vim pro Rio, senti a necessidade de preservar a minha identidade. Minha mulher sempre fala isso. Eu bato de frente, não sou um militante da causa, mas se o cara falar uma asneira, uma bobagem, eu vou dar uma atravessada. Como eu já ouvi em padaria, do cara estar brincando com o nordestino de alguma forma, eu estar do lado, e falar alguma coisa. Primeiro que eu não sou paraíba, eu não nasci na Paraíba, e quem nasce lá é paraibano. Eu sou cearense. Não é um bolo só. São vários estados. Eu não chamo um cara do Rio de paulista, nem um de São Paulo de carioca. Chamam tudo de nordestino e que incluiu o Norte até. O cara confunde. Ele fala: “O Nordeste tem grandes torcidas, Remo e Paysandu…”. A CBF contribuiu com isso ao não incluir na Copa do Nordeste os times do Piauí e do Maranhão, que geograficamente, na lógica da CBF, estavam no Norte. Depois conseguiram “corrigir” essa geopolítica maluca.

Isso é curioso, pois nunca se ouviu ninguém chamando ninguém de sudestino.

É, o sulista até se ouve. Mas pouco, porque gaúcho marca bem o fato de ser gaúcho. É um ser isolado… Mas só pra deixar claro, isso não é um problema só do carioca ou do paulista de rotular com preconceito. O nordestino muitas vezes faz com o cara do Norte. E o cara do Norte faz com o boliviano. Tem sempre uma hierarquia. Vai ter sempre alguém diminuindo alguém. E você, como está diminuído, encontra alguém pra diminuir. Você, pra se proteger, em vez de bater de volta, você procura um mais fraco pra bater. Num sistema injusto, pois o brasileiro reclama de ser rotulado pelo europeu, mas rotula o africano, o cubano, por exemplo. Sempre se faz isso com o — economicamente — mais frágil.

A Copa do Nordeste, como você frisou, foi reerguida pelo Esporte Interativo, fale um pouco da importância não só esportiva, mas cultural da “Lampions League”. Aliás, você acha que o termo Lampions League é pejorativo?

Ninguém sabe quem criou esse termo. Muita gente atribui ao Xico Sá, mas ele mesmo disse que retuitou. E também, não importa quem criou. É um grande rótulo, não precisa entrar em quem foi Lampião. Está atrelado ao nordestino e ponto. Acho que é fantástico. Da forma como foi criado, foi de uma forma extremamente carinhosa. Não dá pra parar todo mundo na rua que usa a camisa do Che Guevara e perguntar quem foi também. Mesmo sem saber a história de Lampião, ele sabe que existe uma região que é extremamente vinculada ao sertão, à seca, e tem um cara que foi, de uma forma ou de outra, um revolucionário no sertão nordestino, numa época específica, era um guerrilheiro, um cara que foi filmado, biografado etc., então, é natural que essa imagem fique associada a quando as pessoas olham pro Nordeste, e lembrem da vestimenta do Lampião, da Maria Bonita e toda aquela história. É só um trocadilho, não vejo nenhuma maldade. Até porque as pessoas abraçaram. Foi feito camisa lá. As pessoas curtiram. Foi natural que se associasse, afinal a Copa do Nordeste foi concebida nos moldes da Liga dos Campeões, com um troféu parecido, um sorteio pomposo, fase grupos e mata-mata. Toda uma preocupação com a identidade visual, as cidades e estádios serem plotados, cerimonial pré-jogo. Então, nesse ponto, ligar a Champions League à Copa do Nordeste, gerando a “Lampions League”, foi até natural. E a importância de ter uma Copa do Nordeste, é por se valorizar algo que é desvalorizado, que são os campeonatos estaduais. As vagas vêm dos campeonatos estaduais, então, além do título, também dá a vaga à Copa do Nordeste, que dá dinheiro. O Ceará, em 2014, quando foi vice-campeão, faturou quase R$ 4 milhões. Coisa que no Estadual não conseguiria nunca. É um início de ano que dá um ganho financeiro e técnico. Afinal, você coloca os principais clubes do Nordeste jogando entre si, em vez de se restringirem aos times do próprio estado. E você ainda fomenta as rivalidades interestaduais. Bahia e Pernambuco que são as duas forças econômicas. O Ceará ali, que é colado no Rio Grande do Norte. Esses estados disputam hubs de empresas aéreas, investimentos de petrolíferas, então, assim, há uma disputa econômica, e você leva essa disputa para o campo de jogo. Pra ver qual é o melhor time, não do estado, mas de toda a região. E agora o campeonato é transmitido para todo o Brasil. Criando uma mão dupla. Mostrando que também tem time grande lá. Mostrando como os estádios estão cheios, com uma média de público melhor que a do Campeonato Paulista e Carioca. E foi muito legal que a primeira edição desta retomada fosse vencida pelo Campinense. Você deu um recado maior ainda. Um time mais esquecido mostrando um bom trabalho. E não foi por acaso, pois chegou a duas finais [em 2013 e 2016], ganhando uma e perdendo a outra.

A Copa do Nordeste conseguiu a projeção, respeito e audiência que merecia? Ou é vista como um torneio secundário?

Tem uma questão simbólica de ser valorizado por quem vê de fora. É meio Douglas Costa. Quando era convocado pelo Dunga ninguém valorizava, pois diziam que era a o pessoal da cota Shakhtar. E quando o Guardiola contratou o Douglas Costa pro Bayern, aí passaram a dizer que ele era bom. Eu não gosto do Dunga, mas ele já tinha observado isso. Bastou o Douglas Costa ir pro Bayern pra ser chancelado. Quando a Copa Nordeste passou a ser transmitida para o Brasil todo e a gente recebendo mensagem de gente assistindo em Porto Alegre, que não têm nenhuma ligação com os clubes, aí que você começa a perceber que de fato é bom. Porque tem gente de fora dizendo que é bom. É uma loucura do ser humano, de precisar de um terceiro que venha e dizer que o que você está fazendo está certo. Lá nos anos 2000, teve uma explosão, mas logo depois acabou. Não deu nem tempo de se consolidar nacionalmente. Mas nessa retomada, ela virou nacional. Influenciou a criarem a Primeira Liga, a pedirem a volta do Rio-São Paulo. Surgiu a Copa Verde, todo um movimento, de clubes se unirem e formarem uma liga. E o Santos, por exemplo, foi buscar o Rodrigão no Campinense e o Jean Mota que começou o ano muito bem na Copa do nordeste. O Palmeiras levou o Keno que estava no Santa Cruz. Além de tudo, também serve como uma baita vitrine. Passaram a conseguir melhores preços nas vendas de seus jogadores. E a audiência, que agora é nacional.

Quando você veio pro Esporte Interativo, você não sabia da aquisição dos direitos da Champions League para TV fechada. Como foi isso? Você vê algum paralelo entre o nordeste e o Esporte Interativo?

Então, a gente já transmitia. Mas na TV aberta. E aí, tem algo muito parecido entre o canal e o Nordeste. São duas coisas grandiosas, mas que eram desprezadas. O Nordeste tem uma economia forte, uma cultura forte, uma identidade forte, mas as pessoas teimam em achar que não existe. Ou é tudo muito estereotipado. O Esporte Interativo sempre foi o canal esportivo com maior alcance. Não tinha a maior audiência, nem repercussão, pois não atingia o que se chama de formadores de opinião. Mas através da parabólica, o sinal chegava a milhões de residências que os canais fechados nunca chegaram. Mas também teimavam em ignorar. Ao ponto de, por exemplo, ter um jogo do Real Madrid, numa terça-feira, que era o dia que a gente transmitia, aí as redes sociais diziam onde ia passar o jogo, e ignoravam que ia passar no Esporte Interativo. Era como se não fosse passar. E tinha canal que dizia que tal jogo era exclusivo. Era mentira, o jogo não era exclusivo. E se você fosse questionar o canal, eles diziam que não sabiam. E não me espantava que, de fato, eles não soubessem. Então, neste ponto, há uma relação aí. De um lugar que queria espaço, ou reconhecimento, e uma emissora que tinha um alcance que as pessoas ignoravam. Era curioso. E a gente só notava quando saia da bolha, ou seja, quando eu ia fazer Copa do Nordeste, ou ia pro interior de Minas, até Porto Alegre, e algumas regiões de São Paulo. A gente existia, e cumpria um papel bem legal de levar futebol internacional pra TV aberta que não tinha.

O Sul e Sudeste são esses vilões todos? Qual o papel do Nordeste, não só no futebol, em se auto valorizar?

Não sei se são vilões. É um negócio tão natural. Você sempre esteve acostumado a distribuir. Você é o centro, ou o Eixo, como chamam. O mineiro e o gaúcho têm esse mesmo sentimento em relação a Rio e São Paulo. Até quando o que importava no brasil era o açúcar, o Nordeste estava bem. O pernambucano fala isso até hoje. Que Pernambuco sustentou o Brasil durante muito tempo. Até por isso, eles talvez sejam, de todos no Nordeste, os mais combativos. Com uma cultura que eles valorizam mais, que se protegem. O que acho que estão muito certos. O gaúcho também é assim. Mas quando mudou pro café, aí fodeu! Aí, desceu, e as pessoas esqueceram. E depois veio o movimento migratório com o crescimento econômico do Sudeste, as pessoas vieram ajudar a construir essa região. Saíram de lá pra isso. Mas acho que isso é um pouco natural. Não é por maldade. Não é pensado. Mas é claro, é uma forma de se proteger, de quem está na forma de dominante e querer continuar como tal. E se ninguém se incomodar, vai continuar. Pra que mudar? Vão continuar distribuindo os jogos de Flamengo, de Corinthians, de Palmeiras. Se eu continuo sendo o centro, eu vou mudar pra que? Essa tentativa tem que partir de quem se sente excluído. Nesse ponto, o pernambucano, o gaúcho, o mineiro também — e estão do lado —, mas se sentem à margem. É só olhar a minutagem do que aparece dos clubes paulistas e cariocas, é muito mais do que de Cruzeiro e Atlético. E estão na mesma região. Não é de sacanagem. Acho que há uma cultura um pouco passiva também. Posso ter um pouco de culpa mesmo. Eu deixei de usar certas expressões para usar algumas do carioca. Fui trocando. Em vez de falar “frescar”, eu falo “zoar”. E têm o mesmo significado. Mas não vou ser entendido se usar frescar. Eu usava palavras quando era criança, e vinha de férias pro Rio, como “baitola”. Ninguém sabia o que era isso, e depois vieram a conhecer por causa do Falcão e de Tom Cavalcante. Pelo humor. Se eu tivesse vindo morar aqui quando criança, eu teria deixado de usar essa palavra. Obviamente que tenho procurado não usar nem “baitola”, nem “bicha” ou “viado”, até pra não confundir uma brincadeira com um preconceito homofóbico, e que está enraizado e acabamos passando pra frente sem perceber. Citei apenas o exemplo de uma palavra que virou comum.

Por falar em expressões regionais, você era um “verminoso por futebol”?

Sempre! [Risos] Que inclusive, é um dos sites mais legais que tem por aí, o Verminosos Por Futebol. E esse termo é usado mesmo. “Cara, tô com verme de jogar bola.” Porque quando o cara está com verme, o que acontece? Ele está sempre com fome, né? Porque o verme come aquilo que você come. E aí, você nunca fica satisfeito. Você sempre quer mais. Eu tinha um verme em mim. Eu jogava de manhã, de tarde e de noite e queria mais.

É o fominha!?

Mas não é a mesma coisa? O que é um fominha? O cara está com fome. E quem tem verme tem fome. Quando seu filho está comendo muito e quer mais, pode ir atrás que está com verme! Eu nunca estava saciado, em jogar bola, em jogar videogame de futebol, ou em ver jogos na TV. Acho que até piorei, porque esse verme me remunera.

Givanildo, Canindé Oliveira… Xico Sá falou também de Flávio Araújo, que apesar de sempre apresentarem bons trabalhos, estão sempre relegados a times da Série B ou C…

Dado Cavalcanti também. Já fez excelentes trabalhos. É o mais novo de todos até. E Marcelo Chamusca que é nordestino também. Ele subiu com o Guarani, é irmão do Péricles, foi auxiliar muito tempo e virou treinador. O Péricles está nos Emirados Árabes ou Arábia Saudita, não sei. Que aliás é outro lugar que tratamos tudo como uma coisa só, é tudo Mundo Árabe. É tudo dividido, mas nos resumimos a falar “Mundo Árabe”.

Mas sempre ficam mais restritos a trabalhos nos times do Nordeste. Quando treinam um time de Série A, quase nunca treinam times de fora. Você acha que o sotaque tem um papel determinante nisso?

Talvez tenha. Já ouvi isso muitas vezes: “Ah, como você tem um sotaque engraçado.” Se o cara acha que o meu sotaque é engraçado, inconscientemente quem é engraçado não tem tanta credibilidade assim. O cara que é engraçado ele não está ali pra liderar. Está ali pra fazer rir. Não está ali pra me inspirar ou me ensinar. O humorista tem esse papel, mesmo que faça uma crítica, mas é sempre engraçado. Se o cara acha que meu sotaque é engraçado, toda vez que eu falo com ele, é esse gatilho que eu aciono, fica muito difícil que ele me leve a sério, né? Estou falando aqui e o cara inconscientemente está querendo rir. Se você não ouvisse isso duas, três vezes, como eu já ouvi várias vezes, ou seja, se muita gente acha isso, no âmbito de pessoas normais, por que no universo do futebol, as pessoas também não vão achar engraçado, o jogador ou o dirigente. Talvez tenha aí um inconsciente coletivo que acabe atrapalhando. Até porque as estatísticas nos ajudam a crer que os técnicos nordestinos são minoria, levando em conta os clubes de elite. Isso não é achismo. É um fato. Alguns tiveram chance e não souberam aproveitar em parte. Lula Pereira fala claramente que há preconceito. E o preconceito está no subconsciente, às vezes, nem se percebe. Diz que não é, mas é. Teve aquele vídeo de como as pessoas enxergavam a mesma foto, com o personagem em questão sendo branco ou negro. O branco era um empresário. O negro era um chofer ou segurança. A negra era a empregada, e a branca era a dona da casa. E eles estavam fazendo a mesma coisa. Uma branca lavando louça e a negra também lavando louça. E as mesmas pessoas que falaram isso, se você perguntar a elas se são racistas, vão dizer que não. O negro mesmo, se for perguntado vai dizer isso. Clóvis de Barros Filho falou que, quando ele passou para ser professor, que foi comemorar num restaurante, e após o jantar com a família dele, ele começou a conversar com o garçom, e o garçom disse que ele tinha gastado a metade do que ele ganhava em um mês. E ele acabou se sentindo provocado pela questão, e quis ir além, e perguntou se ele achava isso justo. Além de outras perguntas, “se lhe parecia justo”. O garçom disse que sim em todas. Ele acha que é justo alguém ir num restaurante consumir e gastar numa noite metade do que ele ganhar em um mês. Quando você chega nesse ponto, é porque o cara está ideologicamente dominado. Ele é explorado e isso não é visto como injustiça. Aí, fodeu! Se o cara é negro, sofre preconceito e acha que é normal, fodeu! O cara é nordestino e percebe que perdeu uma oportunidade, e ele acha que é assim mesmo, lascou. Se o cara que é vítima, não se considera como tal, como que o “vilão” vai se considerar vilão. Está tudo tão diluído e enraizado que é difícil de você ver aonde é o gatilho. É o sotaque? É a economia? É a história? A distância? É tudo!

Você brincou de se sentir “cota”. Não existe uma cota pra nordestino, no entanto. Mas como você enxerga o sistema de cotas?

Eu acho justo pra caralho. As cotas são a sociedade pagando uma dívida. Achar que a gente não tem dívida com os negros é bizarro. A gente dominou os caras. Temos culpa. A gente usufrui disso. O meu filho não tem as mesmas oportunidades que o filho da minha empregada. Seria uma ilusão achar que tem, que eles vão traçar os próprios destinos. É mentira. O meu filho tem uma nota de partida diferente da filha da minha empregada. E pra que a coisa se iguale… E por chegou a esse ponto? Você tem a educação privada de um lado e a educação pública sucateada de outro. Uma menina pra chegar no colégio precisa descer um morro, chega num lugar sucateado e pega uma professora que ganha pouco. Ao contrário de uma educação particular onde eu me sinto no direito de cobrar. E na educação pública, os pais não se sentem no direito de cobrar, porque pensam que por ser gratuito não têm esse direito. Não é gratuito. Todos pagam por essa educação gratuita. A cota existe pra tentar diminuir uma diferença que existe. É só pensar num escravo livre, lá em 1888, ele teve um filho, essa criança já não teve chance nenhuma. A geração seguinte, ou seja, os netos dos escravos libertos, os bisnetos e vai chegando aqui perto. E a coisa pouco mudou. Pra essa dívida ser paga, vai ser na sétima ou oitava geração daquele escravo lá atrás. É justo que se faça alguma coisa. Ser livre mas sem dignidade, sem casa, sem porra nenhuma. O livro 1808, que fala da chegada da Família Real, talvez o melhor livro de história já publicado aqui, toca nesse assunto. E diz que o maior genocídio da história foi com os escravos. As estatísticas mostravam que mais ou menos metade dos negros que saíam da África chegavam. O Brasil chegou a ter vinte milhões de escravos. Matamos, pelo menos, mais vinte milhões. Superando qualquer outro genocídio. E tem gente que acha que cota não é justo, que não há dívida. Falam de meritocracia. Que meritocracia? Meu filho não tem mérito em nascer com uma condição melhor que a filha da minha empregada. Isso não é mérito, é sorte! Se ele der errado, que pôde estudar em bons colégios que tem mais culpa do que os que não puderam. Mas o outro, se der certo, é um herói.

Qual diferença você vê entre Celso Roth e Givanildo Oliveira? Não querendo dizer que o Roth seja um lixo, nem que o Givanildo seja um Mourinho.

O lugar que o cara nasceu, né? Mas o Celso não é horrível, nem o Givanildo é um gênio. Ele é um grande exemplo de um cara que não parou no tempo. Givanildo é o técnico mais longevo nas principais divisões do Brasil. E se olhar pros times dele, não são times retrógrados. São times que fazem o que os outros também fazem. E nas entrevistas dele, você vê uma entrevista sempre muito honesta. Sem frases prontas ou media training. Ele é um cara que não parou no tempo. Ele continuou sendo um cara inspirador. E acho que o Celso parou mais no tempo, apesar de ser um cara bem mais novo. Você olha o Inter de 2016, ou o Vasco de 2015, e compara com outras equipes que ele treinou tempos atrás, a diferença é muito pequena. E nas entrevistas do Celso isso fica bem mais evidente. Nesse ponto quem é melhor? Só que você vai olhar o mercado pro Celso Roth e o salário não tem comparação. Aí, você se pergunta por quê. Acho que a região está intimamente ligada a isso.

Como você vê o jornalismo contribuindo com esse status quo? Ou está no dirigente isso?

A imprensa cria a grife e os dirigentes se apoiam nisso. Então fica um ciclo vicioso. Eu sempre brinco que tem comentarista que usa um pacote de comentários prontos. Ele bota um pote ali do lado, e puxa um comentário. Parece um comentário de videogame. E funciona vi videogame! E poucas vezes dá errado, o algoritmo lá dá certo. E tem comentarista que faz isso na vida real. Nisso, quem ganha é bom, e quem perdeu é uma merda. Aí vem o personagem também. O próprio Lisca, que tem apelido de “Doido”. É mais fácil fazer uma manchete no dia seguinte com o Lisca Doido do que com Givanildo. Ganha musiquinha: “Saiu do hospício, tem que respeitar. Lisca Doido é Ceará!” Isso viraliza, e vai sustentar o cara durante muito tempo. Ele é até muito bom. Mas é ajudado pelo personagem ao seu redor. O Marinho, por exemplo, sempre foi bom jogador. O grande público só foi reparar nele quando ele deu aquela entrevista engraçada falando “sabia não, que merda”. Até então, só o conhecia as torcidas de onde ele tinha passado. Ele fez parte do time campeão da Copa do Nordeste do Ceará. Dali ele vai pro Cruzeiro. A imprensa vai trabalhando com isso. A culpa é nossa, pois é mais fácil fazer manchete com alguns personagens. O jornalismo contribui muito pra isso sim. Você vai pra uma entrevista pós jogo do Celso Roth, com aquele jeito mais sisudo, com frases mais bem colocadas, às vezes, dando umas bordoadas na imprensa, vai dar uma sensação de respeito maior do que o Givanildo, que é um senhorzinho, que fala frases mais rápidas, uma coisa mais Seu Lunga, que é um personagem de tolerância zero, mas fica sempre mais na coisa caricata. Aí, o dirigente pensa que é melhor não trazer esse cara, pois o jogador não vai respeitar. Mas quem não respeita é o dirigente e a imprensa. Eu lamento, que um Cristóvão não tenha um trabalho fantástico ainda, pois ele teve as oportunidades, afinal começou logo no Vasco. O Renato Gaúcho por exemplo, que admiro muito o trabalho dele, sempre vende o trabalho dele como intuitivo, mas você observa os times dele e são sempre defensivamente bem organizados. Não é “à caralha”, “vou sentar aqui e vocês vão jogar por mim, tem que ter culhão etc”. É legal ver uma entrevista do Renato, ele joga pra torcida. Ele é um puta personagem. Mas imaginemos que ele fosse só isso, ele já ia ser, pra imprensa, muito mais interessante do que o Cristóvão Borges. Quem você vai preferir levar num programa? E não estou falando de qualidade e sim do personagem. É onde entra o subjetivo, a carga simbólica. Queira ou não. Goste ou não.

Você disse se sentir “preconceituado” no futebol por ser um playboy. Você torcia pra um time do sudeste também, o que não era nada incomum. Você observa uma mudança nesse cenário? De estimular a se torcer por times locais?

A mudança foi de começarem a valorizar e torcer para times locais. Na minha turma de colégio, era raríssimo o cara que torcia só pro Ceará, pro Fortaleza ou pro Ferroviário. O cara era um [time] de lá e um de fora. O cara era Ceará e Flamengo, era Fortaleza e Palmeiras… Dentre os meus amigos, a maioria esmagadora era Flamengo. Eu não tive o hábito de ir ao estádio. Eu nunca fui ao estádio ver o Ceará ou o Fortaleza.

Você foi ver Flamengo e Botafogo com gol de Bebeto de falta? Teve Flamengo e Dortmund antes também.

Vi, estava lá! Em 1996, nesses dois jogos. E nos outros também, Palmeiras e Dortmund, e Palmeiras e Flamengo. Era assim, minhas idas ao estádio era meio de turista. Eu não tive a cultura de torcedor. Talvez me faça falta, mas é bom pro meu trabalho, pois me sinto isento. Às vezes eu quase não entendo ver um cara chorar, fazendo loucuras por um time.

E voltando aos torcedores que torciam pra dois times… Acarretou até em casos de violência.

Criou-se um movimento “Nordestino de coração torce para um time da sua região”. E aí veio o rótulo dos “torcedores mistos”, que originalmente eram os que torciam pra dois clubes. Um local e um de fora. Mas mesmo aquele que só torce pra um time de fora é considerado um “torcedor misto”. Esse movimento nasceu radical demais. Mas veio se tornando mais tolerante. Ele tem a sua importância. Quando nasceu, eu conversei com alguns dos fundadores em Fortaleza, alguns deles eram estudantes de História. Eu achava muito radical, pois eu pensava que se eu gosto de rock, eu posso ser fã de uma banda de fora, se eu gosto de cinema, eu posso assistir filme de fora. Mas eu entendi melhor depois. Essas pessoas precisam existir para dar mais valor aos times locais e à cultura local. Tem que existir, senão o clube vai minguando. A cultura futebolística local vai ficando distante. E está acontecendo com a molecada que torce pro Barcelona e pro Real Madrid. Antes passavam os jogos dos times do Rio e São Paulo, por rádio e TV. Depois, começou a transmitir campeonato europeu. E o primeiro contato muitas vezes vem pela TV. E nunca passavam os jogos nem de Fortaleza e nem de Ceará. Como que eu vou escolher por um time local se davam mais espaço na mídia para times de fora? Trabalhei pro jornal O Povo durante muito tempo, e algumas vezes a gente dava a capa pro Flamengo e pro Corinthians. Tinha discussão interna sobre colocar ou não pôster do Corinthians campeão. E tinha vezes do editor bancar, e não querer colocar. Mas isso começou de um uns tempos pra cá. Antigamente não tinha dúvidas. Ia ter o pôster Corinthians ou do Flamengo. E tinha público pra isso. Do ponto de vista comercial, é correto você dar o pôster, pois tem público. Mas do ponto de vista simbólico e cultural é uma merda isso. Você já imaginou O Globo dando pôster do Barcelona campeão da Champions? Olha o que se constrói com isso. Hoje, não parece um problema. Mas projeta isso daqui a vinte anos, o peso que isso tem ano após ano, ter um pôster do Barça ou um Real Madrid na capa. Era o que acontecia lá. Os clubes de lá também tinham culpa nisso. O Flamengo tinha uma escolinha mais legal lá. Colônia de férias. E pra mim, talvez fosse melhor eu torcer pra um time local. Eu não tenho memória de arquibancada. Mas não foi assim que aconteceu. Profissionalmente foi bom. Mas eu não tenho histórias de arquibancada. Minha relação com futebol pra valer mesmo é na várzea. Ali eu vivi o futebol em estado bruto. Disso eu tenho muita memória. Ter jogado em quase todos os campos do subúrbio de Fortaleza, convivendo com todo mundo, quebrando o braço, chutando bola em vaca…

E você parou de jogar na várzea, então?

Então, teve uma história que aumentou muito a minha sensibilidade como jornalista, afinal eu já era jornalista. Já estava com 28 anos. Quando eu vou criticar, eu critico, mas certas opiniões passam do desempenho, e vão pro pessoal. Eu ouvi tanta história, pois eu me infiltrei como jogador em um time, foi uma idéia do editor. O Maguari era um clube que faliu, e depois voltou. Foi refundado e o Rafael Luis Azevedo, do Verminosos por Futebol, sempre teve essa idéia. Ele queria colocar alguém infiltrado num time. Pro cara viver a coisa. O jornal já tinha feito isso, de colocar o cara pra ser cordeiro no Fortal, pra segurar a corda, enfim, pra entender aquilo ali. Ou pra recolher o lixo. Aquilo que o Tim Lopes fazia, e acabou falecendo por esse envolvimento. O Rafael saiu, e o Emanuel Macedo assumiu e viu a brecha no Maguari. Era complicado, pois eu tive que me afastar da redação um tempo. Ia treinar com o time, e escrever uma história por dia. O presidente topou e o treinador sabia. Eles acharam bacana. Afinal, ia dar uma projeção de mídia legal pro time. Eu assinei contrato de três meses. Tinha multa rescisória de R$ 100 mil pra clubes estrangeiros! Fui registrado no BID, até tatuei o número na minha perna esquerda. Treinei, perdi 11Kg, joguei seis jogos. A gente não subiu de divisão. Mas escrevi 45 histórias, era pra ser por 30 dias, acabei ficando quase 60. E no final, o treinador ainda falou que se eu tivesse feito a pré-temporada, eu teria sido o camisa 10 que ele sempre procurou. Esse foi o maior elogio que eu poderia ter recebido. Mas talvez ele tenha dito isso porque eu era jornalista. Os jogadores ficaram sabendo, mas nada mudava, treinávamos a vera. Tive uma tendinite no joelho até. Muito coletivo e treino físico e eu já com 28 anos. Foi fantástico. Mantive relação com muitos. Tinha só um volante que era mais velho que eu, o resto eram só garotos. Muitos pararam logo depois. E a quantidade de história, de jogador sendo assediado sexualmente, ninguém falava com quem tinha sido. “Não foi comigo, mas já ouvi falar.” De dirigente e empresário chamando pra comer pizza em casa. É um ambiente bem sujo. Os caras saem do nada. A mãe ganha um salário mínimo, e aí de repente, assina um contrato pra ganhar R$ 10 mil. A primeira coisa que faz é comprar um brinco que vale mais do que a casa onde a mãe mora. Como você vai condenar essa pessoa? Eu já condenei. Mas depois, não condenei mais. Ninguém está preparado pra esse salto. E faz parte de um comportamento padrão do meio. De se vestir, de ouvir certo tipo de música. Quem não se enquadra é cuspido. Tem que falar de mulher, depilar a perna pra não encravar o pelo, enfim. Mas há exceções, o Rogério Ceni gosta de rock, o Rafael Sóbis… Na base, é muito difícil um moleque falar que não vai pro samba porque é roqueiro. Se alguém falar alguma coisa de mulher, e ele falar que não acha legal, por ser machismo, se ele falar isso, ele tá fodido no vestiário. Então, eu passei a entender um pouco da lógica dessa “tribo”. E mais velho, eu rompi o ligamento do joelho jogando pelada. Apesar de ser muito ruim se machucar, foi bom pra me fazer entender o que é. Eu me senti um jogador lesionado. E fui fazer fisioterapia no Sindicato do Atletas. Fez eu me sentir um deles. E ter essa cicatriz, acabei achando bom.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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