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O exagero do 7 a 1

Os precedentes e as conseqüências políticas do maior vexame da Seleção

Em dezembro de 2011, Barcelona e Santos se enfrentaram na final do Mundial de Clubes da Fifa. O campeão da Libertadores tinha Neymar, com 19 anos, e Paulo Henrique Ganso, com 22 anos de idade. Já o Barcelona chegava a essa instância novamente dois anos depois de vencer o Estudiantes de Alejandro Sabella a duras penas na prorrogação.

O resultado do jogo entre aquele que era o time dos dois jogadores mais promissores do futebol brasileiro — Neymar e Ganso — e uma equipe consolidada mundialmente, com o melhor jogador do Mundo, deixou uma distância expressiva entre as realidades de cada clube: 4 a 0.

Paulo Vinícius Coelho disse à época, nos programas em que participava, que ninguém discutia a superioridade do Barcelona sobre o Santos, mas que o resultado distorcia essa diferença.

Um ano antes, porém, o Internacional, campeão da Libertadores, sequer chegou à final do Mundial de Clubes da FIFA. Ao perder pro Mazembe do Congo, na semifinal, um sinal de alerta deveria ter sido ligado. Mas o fato foi encarado como um acidente.

O 4 a 0 do Barça sobre os Santistas também não serviu pra ligar nenhum alerta. Ficou a mesma sensação de sempre a cada derrota contra europeus. Neste caso, o técnico Muricy Ramalho foi covarde ao escalar três zagueiros ou que Neymar amarelou. Sempre havia uma muleta.

2012 foi o ano de uma suposta redenção do futebol brasileiro. Os mais conservadores se sentiram aliviados com a vitória ajustada por 1 a 0 do Corinthians sobre o Chelsea, que foi o campeão europeu daquele ano sem ser, nem de longe, o melhor dos quatro semifinalistas.

Isso não diminui em nada a glória e os méritos do fortíssimo Corinthians de Tite. Mas o resultadismo, método muito freqüente na cultura brasileira, ficou aflorado. Não quer dizer que o resultado não importa, é claro que importa e, muitas vezes, é a única coisa que importa. Mas o resultadismo, aqui, pressupõe a leitura de superioridade a partir do resultado acima da maneira como se conseguiu aquele resultado.

Voltando alguns anos, no mesmo Mundial de Clubes da Fifa de 2006, o mesmo Internacional de Porto Alegre, que perdeu em 2010 para o Mazembe, conseguiu uma das maiores façanhas do futebol mundial ao derrotar o Barcelona de Ronaldinho, o melhor jogador do mundo daquele ano.

No ano anterior, o São Paulo derrotou o Liverpool que, meses antes, havia derrotado o Milan naquela final épica de Istambul. O milagre, que fez os Reds empatarem um jogo que estavam perdendo por 3 a 0, desta vez funcionou para os São-paulinos, que conquistaram seu terceiro título mundial.

Ambos os casos foram estratégias muito assertivas de seus treinadores. Tanto Paulo Autuori quanto Abel Braga jogaram como podiam para enfrentar um adversário superior. A explicação da superioridade é econômica. E essa vantagem financeira só aumentou e propiciou uma discrepância na comparação entre as qualidades dos elencos dos melhores da Europa e da América do Sul.

Até o ano de 2000, quando o Boca Juniors foi campeão mundial ao derrotar o Real Madrid de Figo, melhor jogador do mundo daquele ano, as diferenças entre os esquadrões do Velho Continente e da América do Sul não existiam. A Lei Bosman, que se fez possível no iminente Mercado Comum Europeu que se formava, e uma moeda única neste novo bloco econômico foram a combinação que se refletiu, anos depois, dentro de campo a cada edição do novo Mundial de Clubes, organizado pela Fifa, que substituiu a Taça Intercontinental em 2005.

A possibilidade econômica e burocrática de contratar jogadores de diferentes nacionalidades fez com que um grupo de clubes europeus se sobrepusesse aos seus rivais continentais e também aos adversários do outro lado do Atlântico.

Começaram a surgir potências como o Bayern, Manchester United, Milan, Inter, Barcelona e Real Madrid que, mais do que nunca, passaram a concentrar os melhores jogadores do mundo, respeitando a nova legislação em vigor que não contabilizava jogadores nascidos em outros países do mesmo continente como estrangeiros. A isso se soma o fato de que muitos atletas sul-americanos possuem passaportes europeus devido às suas ascendências familiares ou pelo tempo de residência no país em que exercem suas profissões.

Esses grandes clubes, que se tornavam cada vez maiores e mais fortes, formavam verdadeiras Torres de Babel. Em 2010, a Internazionale foi campeã europeia sem nenhum italiano como titular e somente três no banco de reservas. Um deles era Mario Balotelli. 

O Barcelona de 2011 era um caso à parte, pois o trabalho de Pep Guardiola foi muito eficaz em montar um elenco com jogadores oriundos do próprio clube, mesmo que recontratados após terem deixado o clube bem jovens, como Gerard Piqué e Cesc Fàbregas. Até mesmo sua maior estrela, Lionel Messi, embora fosse argentino, foi formado no clube catalão.

Todos os demais campeões europeus a partir do início do novo milênio começaram a contar, por essas razões econômicas e mercadológicas, com elencos multinacionais. A Premier League, fundada em 1992, começava a mostrar um potencial econômico no início dos anos 2000 a partir de receitas provenientes de mercados asiáticos, e o Manchester United, seguido pelo Real Madrid, foram os pioneiros nesse quesito, como bem explica Ferran Soriano, no livro “A bola não entra por acaso”.

Esse mercado aquecido se tornava atraente para os melhores jogadores de qualquer canto do mundo, sobretudo do Brasil e da Argentina. Os milhões de euros em contratos somados à qualidade de vida européia eram sedutores demais. O desnível era inevitável nos anos que estavam por vir.

Pep Guardiola permaneceu no Barcelona até maio de 2012. Seis meses depois de vencer o Santos pelo acachapante placar de 4 a 0. O então melhor técnico do mundo deixava os Blaugranas órfãos e, após um ano sabático, Guardiola foi anunciado como treinador do Bayern.

O Bayern acabava de ser campeão europeu, da Bundesliga e da Copa da Alemanha. Pep Guardiola assumia um clube vencedor por natureza, mas com um plantel pronto e um futebol exuberante. Cabia ao novo técnico aperfeiçoar o time deixado por Jupp Heynckes. O sarrafo era alto.

E foi em 2013 que outro “acidente” aconteceu novamente no Mundial de Clubes. O representante sul-americano, Atlético Mineiro, perdeu para o Raja Casablanca e não enfrentou o Bayern de Guardiola. O Galo não contava mais com Bernard, e esse personagem é central no desenrolar do texto. O jovem ponta tinha sido negociado com o Shakhtar Donetsk logo após a conquista da Libertadores.

O trabalho de Guardiola no Bayern, por um lado, e a forma como Bernard, ex-Atlético Mineiro, era visto por grande parte da opinião pública brasileira explicam grande parte do que se lerá a seguir. A outra parte tem a ver com a Copa das Confederações.

Bernard estava prestes a completar 21 anos quando se transferiu para o Shakhtar. Aquele ano de 2013 foi mágico para o jovem promissor. Suas atuações no Atlético Mineiro o levaram para Seleção Brasileira daquele ano, que disputava a Copa das Confederações no Brasil um ano antes da Copa do Mundo.

Após acumular os principais títulos disputados entre 2008 e 2012 — aqui se exclui a Copa das Confederações de 2009, não pelo fato de não terem conquistado a competição, mas sim por não se tratar de um dos principais torneios —, a Espanha chegava ao Brasil com todo o favoritismo de quem conquistou a Eurocopa de 2008, a Copa do Mundo de 2010 e, novamente, a Euro de 2012. Mas, como já dito, o torneio estava longe de ser prioridade para as grandes seleções européias.

Em ritmo de treino, na fase de grupos, a Espanha aplicou uma goleada histórica sobre o Taiti, no novíssimo e totalmente remodelado Maracanã, inaugurado logo antes da Copa das Confederações. O resultado emulava a força dos “campeões de tudo”. Aquela seleção espanhola trazia nove jogadores daquele Barcelona que humilhou o Santos em 2011: Valdés, Piqué, Alba, Busquets, Xavi, Iniesta, Fàbregas, Pedro e Villa.

Naquele fim de tarde de inverno do Rio de Janeiro, a cidade proporcionou a maior manifestação popular da época que ficou marcada na história da política nacional. Dilma Rousseff, Sérgio Cabral e Eduardo Paes eram os alvos, e a PEC36 — que previa flexibilizações nas leis trabalhistas além dos aumentos nas tarifas dos transportes públicos — era a motivação dos partidos de esquerda para as mobilizações massivas na cidade que sediaria a final daquele torneio e da Copa do Mundo no ano seguinte.

O Brasil fez uma campanha firme na fase de grupos e, na semifinal, enfrentou o seu adversário mais duro: o campeão da última edição da Copa América, o Uruguai. Porém, um fato chamou a atenção: o hino nacional cantado à capela por jogadores e torcida após a abreviação de sua execução pela organização do evento. O novo Mineirão lotado de verde e amarelo bradava retumbantemente numa demonstração exacerbada de nacionalismo com simbolismos perigosos. Era só o começo de um sentimento que estava por crescer.

O jogo duríssimo terminou com a vitória brasileira por 2 a 1 sobre os uruguaios no estádio que havia acabado de ser inaugurado e onde, um mês depois, o Atlético Mineiro de Bernard seria campeão continental. Parecia ser um estádio destinado para glórias inesquecíveis.

O triunfo sobre o Uruguai encheu de orgulho o país que vivia um momento de altíssima especulação imobiliária, uma crescente inflação que tirava o poder de consumo das classes mais baixas, tudo produto de uma política pautada no poder de compra das camadas menos favorecidas com créditos jorrando por todos os lados numa espécie de milagre econômico à brasileira promovido pelo Partido dos Trabalhadores. Era o início do fim de um modelo que deu à classe média oportunidades jamais vistas e as demandas dessa mesma classe média não seriam nunca mais as mesmas de antes.

Se, no Mineirão, o hino à capela chamou a atenção, na final contra a Espanha, seleção campeã mundial três anos antes, bicampeã européia, o eco foi ainda maior. A manifestação nacionalista se viu nos jogadores e na torcida uma vez que, novamente, o cerimonial da Fifa cortou precocemente a execução da primeira parte do hino. Jogadores abraçados e torcida em coro terminaram a primeira parte com os olhos marejados. Antes, durante o hino espanhol, algumas vaias, e todos os jogadores em silêncio, mas não era por falta de nacionalismo, mas sim porque o hino hispânico não tem letra mesmo.

Aliás, o nacionalismo espanhol merece um capítulo à parte, uma foto após a conquista da Euro mostrava todos os jogadores do Barcelona daquela seleção atrás do troféu da Eurocopa, enquanto Juanfran, jogador do Atlético de Madrid caminhava de costas. Normal que jogadores de um mesmo clube se reúnam após uma conquista, porém, Xavi estava envolto à bandeira — não separatista — da Catalunha. Além dele, Cesc Fàbregas, Gerard Piqué, Sergio Busquets, Jordi Alba e Victor Valdés eram catalães, enquanto Andrés Iniesta e Pedro Rodríguez são oriundos de Castilla-La Mancha e das Ilhas Canárias. A integridade nacional espanhola é sempre contestada devido aos nacionalismos, independentismos e separatismos das diferentes regiões do país ibérico, enquanto no Brasil, apesar de algum movimento pseudo-separatista no Rio Grande do Sul e das dimensões continentais do país, o sentimento de unidade é muito mais forte e isso é representado de uma forma singular com a camisa amarela da Seleção.

Símbolo pátrio, sinônimo de um orgulho escasso em outras atividades, a camisa amarela do Brasil ganharia protagonismo político a partir dali. Aquele jogo contra a Espanha marcou um antes e um depois na história do País. A sensação de ter conquistado o cinturão de campeão do mundo ao derrotar uma seleção que, sim, tinha vencido tudo até ali, não só condenou o time de Luiz Felipe Scolari ao maior vexame da história do futebol brasileiro como também determinou os rumos políticos da nação.

Aquele Barcelona e aquela Espanha que venceram e convenceram o mundo com um futebol revolucionário, rapidamente, sem que quase ninguém percebesse, já estava obsoleto. O ritmo de treino da Espanha naquela Copa das Confederações demonstrava nitidamente que não havia mais futuro no tiki-taka tal como todos conheceram entre 2008 e 2012.

O Barcelona, com esses mesmos jogadores, sem Messi, lesionado, tinha sido atropelado pelo Bayern de Jupp Heynckes na semifinal da Champions League por um placar acumulado de 7 a 0. O atropelamento se deu dois meses antes do passeio do Brasil sobre a Espanha no Maracanã. Estavam em campo pelo Barcelona contra o Bayern e pela Espanha contra o Brasil: Piqué, Alba, Busquets, Xavi, Iniesta e Pedro.

O resultadismo em questão é sintoma de uma cultura. A idéia de que vencer os campeões vigentes transforma o vencedor do duelo em campeão — como acontece no boxe — tem um teor reducionista perigoso. Sem dúvidas, ninguém entra em campo para perder, mas o contexto precisa ser levado em consideração e, sobretudo, o entendimento do que está em jogo. Normalmente, os dois lados estão disputando a mesma coisa, mas é comum que haja uma diferença de ambição no certame, e o melhor exemplo disso é a eterna discussão sobre a importância que os europeus davam para a Taça Intercontinental.

A Copa das Confederações era outro exemplo. Ao incluir os campeões continentais, a disputa simulava vários aspectos do evento mas, obviamente, sem a importância de um Mundial. Mas o Brasil era o país que mais levava a sério a competição. O único exemplo de comparação possível foi o Mundialito disputado no Uruguai entre 30 de dezembro de 1980 e 10 de janeiro de 1981, onde os uruguaios viram a chance quase única de se sentirem campeões do mundo novamente depois de 30 anos.

O Brasil levava tão a sério a competição que, em 2001, após uma fraca atuação de uma seleção totalmente desfalcada, o técnico à época, Emerson Leão, foi demitido, como se o evento teste da Fifa também fosse um teste esportivo na mesma proporção.

2005, 2009 e 2013. O Brasil conquistou as três Copas das Confederações e teve um desempenho muito parecido nos Mundiais posteriores. Sempre muita expectativa e pouco futebol. A expectativa era pautada a partir do desempenho e do título nas Copas das Confederações, na qual os adversários entravam com ambições muito abaixo das brasileiras, e, quando chegava uma Copa do Mundo, tudo mudava de figura. O sarrafo era bem mais alto.

Mas 2014 veio e o time de Luiz Felipe Scolari embarcou no nacionalismo das arquibancadas. Aquele perfil de torcedor visto na Copa da Confederações nos novos estádios tinha muito a ver com a mudança social que o Brasil sofreu nos 10 anos anteriores. Uma ascensão econômica de uma parcela considerável da população pautada sobretudo no consumo, mas que viveria o último ano dessa ilusão. Era ano de eleição também, e a camisa amarela sairia das arquibancadas pras ruas.

Diferentemente de 2013, quando as manifestações tinham um núcleo claramente partidário e popular que ganhou o apoio da classe média, a partir de 2014 a cor das camisas do Brasil começou a ser vista como preponderante em passeatas à beira-mar no Rio de Janeiro e na Avenida Paulista em São Paulo, especialmente aos domingos, num evento de lazer familiar, e não de operários e trabalhadores ameaçando greve como em 2013.

Os constantes gritos de “não vai ter Copa” e as multidões vistas em 2013 perderam força em 2014 e foram facilmente reprimidas pela força policial militar. As lideranças políticas de esquerda dinamitaram o governo mais próximo da esquerda que o país já teve, apesar de suas agendas claramente neoliberais com fomento ao consumo e ao bem-estar social. Bancos, empreiteiras e grandes empresas lucraram como nunca no período PT. O terreno estava preparado para um discurso patriótico. Bastava a então iminente crise econômica surtir efeito no bolso da classe média que o Brasil veria o outro lado da moeda.

A outra crise, a futebolística, explodiria na semifinal, com o emblemático 7 a 1. Todos se lembram do jogo, do “quem é que sobe” e o “virou passeio” de Galvão Bueno. Um baile sem precedentes na história da Seleção. Um time desequilibrado muito mais psicologicamente do que tática ou tecnicamente. E o hino nacional tem tudo a ver com isso.

Neymar havia ficado de fora após a dura entrada por trás de Camilo Zúñiga nas quartas de final entre Brasil e Colômbia. O colombiano atingiu com o joelho uma vértebra na região lombar do melhor jogador brasileiro. O desfalque era significativo. Mas a noção de mundo dos brasileiros e, sobretudo, da comissão técnica da CBF mostraram que o desastre estava muito mais relacionado com o nacionalismo do que com a ausência de Neymar ou até mesmo com a qualidade dos demais jogadores.

Quando o Brasil foi eliminado em 2006 para a França na Alemanha, se tornou comum o argumento de que o técnico à época, Carlos Alberto Parreira, deveria ter colocado o volante Mineiro na cola de Zidane, que fez uma de suas maiores exibições individuais. A verdade é que, mesmo que se tivesse colocado dois Mineiros em cima do franco-argelino, Zidane teria humilhado os dois igualmente.

Em 2010, após uma falha de Júlio César no gol contra de Felipe Melo que, além do desvio pra dentro das próprias redes, também foi expulso. Os culpados foram eles dois. Contudo, Dunga pagou o pato. Perdeu, então o técnico não presta. Mas em 2009, prestava. E de fato prestava, apesar de sua conduta antipática, o trabalho era bom, não só pelos resultados, mas sobretudo pela eficácia e em saber armar um time competitivo sem as estrelas de outrora e com os poucos astros que tinha à disposição em declínio físico, como Kaká.

Em 2014, André Rizek pediu coragem a Felipão, para que o técnico não escolhesse um esquema defensivo diante do desfalque de Neymar. Felipão entendeu que Bernard, aquele jovem jogador, campeão da Libertadores com o Atlético Mineiro em 2013, seria o escolhido para a vaga do camisa 10. Muito bem.

Thiago Silva, que chorou na disputa de pênaltis contra o Chile no mesmo Mineirão do 7 a 1, era outro desfalque daquele jogo contra a Alemanha. O choro do zagueiro era sintoma do nacionalismo em questão. Era um sentimento que transbordava e tirava os jogadores de si.

O ufanismo impediu que o povo e comissão técnica enxergassem que Dante, zagueiro do Bayern, era incapaz de jogar ao lado de David Luiz. José Mourinho tinha avisado ao não escalar David Luiz na zaga do Chelsea na temporada anterior à Copa de 2014. Quando Mourinho optava pelo jogador, ele jogava de volante.

A derrota por 7 a 1 tem muito menos a ver com futebol do que se imagina. O resultado foi tão humilhante que deixou todos perdidos em busca de explicações táticas e de um trabalho esplendoroso da Alemanha que se mostra insustentável levando em consideração os resultados antes, depois e também durante aquela Copa do Mundo no Brasil.

O 7 a 1 é muito mais relacionável com a cultura brasileira, e isso se reflete no jogo jogado em campo e como se enxerga o mundo. Entender que escalar Bernard no lugar de Neymar é resultado de ingenuidade ou de prepotência. Essas duas coisas se confundem, aliás. A prepotência leva a uma visão ingênua de mundo. Essa prepotência nasceu no pentacampeonato em 2002. Uma arrogância derivada do orgulho nacional de ser o único país a ter vencido cinco vezes a Copa do Mundo. Em 2002, Itália e Alemanha tinham três títulos mundiais. Os dois foram justamente os vice-campeões dos dois últimos títulos do Brasil, o que deixava uma sensação ainda mais clara de que ninguém seria capaz de igualar ou superar o “País do Futebol”.

Voltando ao jogo um pouquinho. Estavam em campo pela Alemanha: Neuer, Lahm, Boateng, Schweinsteiger, Toni Kroos e Thomas Müller (sem citar Mario Götze, que não entrou no jogo), todos do Bayern àquela altura. O mesmo Bayern que aplicou aquele baile sobre o Barcelona de Piqué, Busquets, Xavi, Iniesta e cia. O Brasil não tinha muitos motivos para se sentir tão poderoso. Ainda mais que a Espanha, derrotada pelo Brasil em 2013, seria humilhada pela Holanda na primeira fase por 5 a 1, e seria eliminada naquela fase.

O trabalho do Bayern de Munique, sim, era extremamente consistente e tinha uma base de jogadores alemães que serviram à seleção germânica como espinha dorsal. Porém, olhando pra campanha da Alemanha na Copa do Mundo de 2014, jogo a jogo, fica claro que o resultado diante do Brasil era uma anomalia e incompatível com o futebol apresentado.

Na estréia, diante de uma seleção portuguesa mal montada e sem o melhor do seu principal jogador, Cristiano Ronaldo, o resultado de 4 a 0 deixou uma impressão de que, depois, somado ao 7 a 1, parecia ter sido uma campanha irretocável. Mas não. É só olhar para o segundo jogo.

Em Fortaleza, a Alemanha teve muita dificuldade diante de Gana. Após fazer 1 a 0 com Mario Götze de joelho-cabeça (!), os ganeses viraram o jogo e quase venceram, não fosse o oportunismo de Miroslav Klose para evitar a derrota, empatando o placar ao seu estilo. Indiscutivelmente, os ganeses formavam um time bem competitivo. No entanto, sequer classificaram para as oitavas de final.

No terceiro jogo, uma vitória simples garantiria a classificação, mas, do outro lado, estavam os Estados Unidos, treinados por Jürgen Klismann, histórico artilheiro alemão e ex-técnico da Mannschaft na Copa de 2006. A Alemanha teve muitas dificuldades e conseguiu o 1 a 0 graças ao implacável Thomas Müller. Após o 1 a 0, o jogo arrefeceu, o resultado garantia a classificação às duas seleções, remetendo ao episódio da Copa do Mundo de 1982 entre alemães e austríacos que promoveram um verdadeiro jogo de compadres após o 1 a 0 que garantia a classificação de ambos países à fase seguinte.

A primeira fase alemã foi bem contestável. Ninguém cravava os alemães como favoritaços ao título naquela altura além do favoritismo padrão que se atribui a qualquer seleção que já tenha levado pra casa uma Copa do Mundo. Nas oitavas, a Argélia não seria páreo frente à tradição alemã. Não seria, mas foi. E como foi! A Alemanha precisou da prorrogação para abrir o placar em Porto Alegre. Uma finalização — se é que pode ser chamada assim — de Schürrle após cruzamento fez o 1 a 0 pra Mannschaft. Mesut Özil fez o segundo gol na segunda etapa do tempo extra. Os argelinos ainda teriam a oportunidade de descontar. Apesar do sofrimento, veio a classificação.

Vieram as quartas de final, num dia de calor tipicamente carioca em pleno inverno. A França era um adversário em construção, um projeto do que seria o time vice-campeão europeu em 2016 e campeão mundial em 2018. O jogo foi duro, muito travado e especialmente lento devido aos mais de 31ºC registrados no Maracanã naquela tarde de sol. Com uma exibição bem sólida, muito em virtude do gol vespertino de Matt Hummels de cabeça, após cobrança de falta de Toni Kroos, logo aos 13 minutos de jogo, a Alemanha avançava e o rival na semifinal seria o Brasil, país pentacampeão do mundo, diante de sua torcida.

Após vencer a Colômbia num jogo extremamente brigado, a euforia nacionalista tomou conta de — quase — todos. A semifinal se tornou um duelo de adultos contra crianças. A emoção dos jogadores durante a execução do hino nacional que novamente foi cantado à capela e a camisa de Neymar segurada por David Luiz e Júlio César evidenciavam que esses simbolismos nacionalistas pesam pouco e quase nada quando o assunto é futebol. O episódio fez provar aquela máxima de que se cantar o hino nacional com entusiasmo desse algum resultado, o México teria no mínimo dez Copas do Mundo.

Na verdade, tamanha era demonstração de desequilíbrio para uma instância tão avançada de uma competição em que a concentração faz tanta diferença. Nesse aspecto, sim, os alemães não perderam o foco nem quando o resultado já estava sacramentado. 5 a 0 no placar e nem tiraram o pé nem tentaram humilhar o bêbado que já estava caído. O resultado de 7 a 1 mostrava uma superioridade emocional maiúscula e, olhando só pro resultado, entrou em cena o resultadismo que distorceu tudo o que se viu antes e depois daquele jogo.

Não houve ali um surpreendente Carrossel Holandês ou um Tiki-Taka inovador. Havia uma base em campo do Bayern, já treinado por Guardiola, que mostrava a tendência do futebol naquela altura. Neuer, Lahm, Boateng, Schweinsteiger, Toni Kroos e Thomas Müller estavam em campo no 7 a 1 e promoviam o mesmo futebol de seu clube, um jogo que beirava a um estilo muito mais mecânico, sem margem de erros táticos e com uma apuração técnica e física impecáveis. Porém, vale lembrar que este Bayern de Pep Guardiola não foi capaz de superar o Real Madrid na Champions League dois meses antes. Havia outras formas de vencer no futebol.

Na final, um jogo extremamente estudado por ambos os lados, e como prova de que não havia nada de extraordinário do lado alemão, não fossem as falhas de Gonzalo Higuaín, Rodrigo Palacio e Martín Demichelis, o título de 2014 estaria em outras mãos. Mas a narrativa que se impôs foi equivocadamente pautada no 7 a 1. Há um recorte que reduz toda uma campanha, que foi boa, não foi uma campanha ruim, longe disso, porém, distante também de um projeto esportivo perfeito como pintaram e venderam após a conquista daquele mundial.

Para efeitos de comparação, a campanha da França em 2018 foi muito mais vigorosa e estável. Como não houve uma vitória tão elástica no percurso, ficou uma imagem de uma seleção sem brilho. No entanto, o futebol jogado pelos franceses na Rússia foi napoleônico. Não havia como vencê-los. Já a Alemanha deve muito a Higuaín, claro, mas não somente a ele.

O erro de finalização de Rodrigo Palacio após um cruzamento da intermediária de Marcos Rojo mostrou que havia buracos, que a defesa alemã não era impenetrável. Tanto não era instransponível, que Messi recebeu uma bola nas costas de Boateng e chutou uma bola que raspou a trave de Manuel Neuer. Por fim, o erro de Martín Demichelis que deixou Mario Götze totalmente livre para fazer o gol do título, já na prorrogação. A Argentina mostrou muita força tática e, sobretudo, psicológica naquela Copa do Mundo. Mas a “extraordinária” seleção alemã precisou novamente da prorrogação para vencer.

O que ficou, tirando todos os exageros por parte da opinião pública, foi uma Alemanha forte, com um elenco capaz de executar um jogo com a frieza para jogar os 90 ou 120 minutos em uma competição de tiro curto. Jogadores como Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger, Toni Kroos —os três do Bayern — e Mesut Özil que controlavam o jogo. Tudo passava por eles, um meio campo de altíssimo nível, sem dúvidas. Sem falar de Thomas Müller, um jogador sem posição definida, polivalente, um atacante que marca, um meia que faz gols como camisa nove. Também estavam Manuel Neuer no gol, Boateng e Hummels na defesa em ótima forma. Mas também jogaram Höwedes e Mustafi, jogadores medíocres em meio a outros tantos fortíssimos.

Mas tudo virou “7 a 1” e o Brasil ficou com a sua autoestima muito ferida. O futebol, que sempre foi o símbolo de orgulho da cultura brasileira, foi transposto para fora dos estádios. A camisa amarela da Seleção começou a integrar uma onda de manifestações a partir dali. Inconformados com a derrota nas eleições do final de 2014, que reelegeram Dilma Rousseff e seu péssimo governo a mais um mandato, a oposição e seus eleitores começaram a promover passeatas com carros de som, bonecos infláveis e lá estava massivamente a camisa da Seleção.

O péssimo governo de Dilma está retratado nos próprios índices econômicos: inflação e inadimplência alarmantes e um mercado receoso com o fim das linhas de crédito. O pessimismo se instaurou e 2015 foi palco para essas manifestações “suprapartidárias” que atacavam o governo PT como ditadura socialista e disseminavam essa fantasia de um comunismo iminente. Desde Lula até Dilma, os governos tiveram vários defeitos graves, mas não tinha nada de ditadura e muito menos de socialista. Ao contrário, tinha muito de economia de mercado e de liberdades que nenhuma ditadura toleraria.

Como símbolo de um nacionalismo remanescente desde os tempos do regime militar — que talvez chamar de ditadura seja um equívoco técnico por não haver um ditador em específico, mas sim no sentido de não haver liberdades básicas como a de livre expressão e de imprensa — a camisa amarela era usada para manifestar oposição a esse suposto socialismo financiado por alucinações também remanescentes dos tempos de Guerra Fria.

Nem Cuba, nem Coréia do Norte, nem o Butão — únicos países com regimes comunistas —, mal conseguem se autofinanciar, quanto mais apoiar qualquer governo. A Venezuela com a sua economia precária e caótica virou uma ameaça proporcional à União Soviética no auge das tensões políticas entre capitalismo e socialismo. O imaginário popular embarcou nessas alucinações muito em função da decepção não somente dentro de campo com a Seleção, mas, sobretudo, com os gastos abusivos em estádios de futebol em um país que carece de hospitais e escolas. O sentimento ingênuo de quem torce é o mesmo de quem vota. O impeachment se deu nesse contexto, nada razoável e muito ufanista. Afloravam os valores conservadores pelo fim de um socialismo que pretendia instaurar uma educação sexual que, segundo essas forças pseudo-intelectuais de direita, visava transformar todas as crianças em homossexuais. Falácias muito similares àquelas dos anos 1960 e 1970 que afirmavam que comunistas comiam crianças.

O resultado é a única coisa que importa nesse resultadismo cultural. Não importava se o governo PT tivesse sido verdadeiramente neoliberal, importava bradar o hino no congresso nacional após o inescrupuloso impeachment como revanche moral do 7 a 1 e lavar a alma no Maracanã após a conquista da medalha de ouro no futebol nos Jogos Olímpicos com gol derradeiro de Neymar na disputa de pênaltis exatamente contra a Alemanha, mas com Michel Temer na presidência da república.

Nada melhor que o futebol para explicar como funcionava a corrupção. Os estádios da Copa do Mundo de 2014 deixaram tão evidentes os superfaturamentos das obras que o imaginário popular se sentiu roubado, afinal, de fato, o povo foi assaltado. Após o impeachment, as eleições de 2018 eram logo ali. E o candidato que vestisse a camisa amarela da seleção bradando o patriotismo outrora nas arquibancadas, prometendo um país parecido àquele campeão do Mundo em 1970, em tempos de regime militar e de caça ao fantasma do comunismo, teria adesão imediata de grande parcela da população. E foi como aconteceu. A camisa amarela venceu. O Brasil não.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.