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Cizrespor e a resistência curda

Durante o combate entre curdos e o Estado Islâmico no cerco de Kovanî, um time da região levantava vôo no futebol turco

Setembro de 2014. O Cizrespor visitava o Yüksekova Belediyespor — ambos da quinta divisão — pela fase preliminar da Copa da Turquia. Uma vitória dos visitantes por 2 a 1 garantia a vaga na primeira fase da competição. O adversário seguinte é o Mardinspor e a vitória fora de casa aconteceu novamente, desta vez por 4 a 1.

A segunda fase foi contra o Aydınspor 1923, da terceira divisão. Pelo menos desta vez, o Cizrespor jogaria como local. Ao mesmo tempo, chegam as notícias de que o Estado Islâmico havia tomado a cidade de Kobanî, na fronteira da Síria com a Turquia. A região representa a faixa oeste do território reclamado como Curdistão.

A cidade de Cizre fica à margem oeste do Rio Tigre, próxima a fronteira da Turquia com Síria, na província de Şırnak que também faz fronteira com o Iraque. A cidade de Cizre fica à margem oeste do Rio Tigre, próxima a fronteira da Turquia com Síria, na província de Şırnak que também faz fronteira com o Iraque.

A vitória por 3 a 1 sobre o Aydınspor 1923 não ofuscou a realidade local. Oprimidas pelo governo turco, tanto a língua quanto a etnia curda sofrem duramente para se manterem de pé. “Aqui a polícia atira gás lacrimogêneo por prazer”, disse um garoto de 15 anos, segundo o relato de Stefan Martens no site IBWM.

“Aqui a polícia atira gás lacrimogêneo por prazer.”

Desta vez, quem visitaria Cizre seria o Göztepe Izmir, outro time da terceirona turca. O mês de outubro começava com um motim na cidade – provocado pelo bloqueio turco à Síria –, impedindo que combatentes curdos cruzassem a fronteira para ajudar a enfrentar o Estado Islâmico em território sírio.

As revoltas em Cizre ocasionaram 35 mortes. Outros 17 cidadãos da região morreram no Cerco de Kobanî. Mas no fim do mês, ao menos uma boa notícia: o Cizrespor derrotou o Göztepe Izmir por 2 a 0 e se tornou o primeiro time amador a atingir a fase de grupos da Copa da Turquia. A euforia tomou conta. Segundo o artigo de Stefan Martens, o caminhoneiro Orhan Suat disse que eles queriam enfrentar os melhores: “Queremos jogar contra o Bayern!” No entanto, o entusiasmo e a ilusão tinham um limite realista.“Chegamos até aqui, mas a polícia provocou alguns incidentes para nos causar alguma suspensão de mando de campo”, agregou Suat.

A Turquia é acusada de ajudar a expansão do ISIS para fomentar o extermínio dos curdos – inimigos comuns de turcos e islamitas.

A fase de grupos colocava o pequeno time curdo diante de Gençlerbirliği e Konyaspor da primeira divisão, e de Giresunspor, da segundona. Era o maior desafio esportivo da história do clube e todo um sonho para uma cidade. “Nós não vamos ser campeões, mas é sempre importante subir mais um degrau”, disse Abdi, um lojista de Cizre, como conta Stefan em seu relato.

Pelo Grupo H, o Cizrespor perdeu em casa por 2 a 1  em sua estreia contra o Gençlerbirliği. Resultado normal. Na segunda rodada, derrotou o Giresunspor, fora de casa, também 2 a 1. Três pontos e saldo zero.

O contraste entre dois mundos bem distintos

Foi a vez de visitar o Konyaspor em seu magnífico e reluzente estádio novo em folha. O cenário pode ter distraído o bravo time amador. Atônitos — afinal, estão acostumados a jogar no humilde estádio municipal de Cizre —, nem se deram conta de que o jogo já estava em 4 a 0 pros donos da casa. Tentaram diminuir e até marcaram um gol. Mas antes do apito final, ainda haveriam de sofrer outros três. Konyaspor sete, Cizrespor um.

Mesmo já tendo ido jogar na capital turca anteriormente, os curdos não sabiam o que era jogar num estádio “Padrão Fifa”. Talvez o contraste de realidades tenha mesmo atrapalhado a concentração do Cizrespor e o saldo de gols negativo complicava o sonho curdo. Com o início do segundo turno e jogando em casa contra o mesmo Konyaspor, eles venceram por 2 a 0 e chegaram a seis pontos na tabela. Era a vez de enfrentar novamente o — impronunciável — Gençlerbirliği, em Ankara.

“É o jogo mais importante da história do Cizrespor.”

As milícias curdas anunciavam a expulsão das forças do Estado Islâmico da cidade de Kobanî, mas alguns islamitas, no entanto, ainda se faziam presentes em alguns vilarejos – os esporádicos ataques do Estado Islâmico ainda causavam muitos danos à resistência curda.

Voltando às quatro linhas, o Cizrespor também sofreu um duro golpe. Perdeu por 4 a 0 para o Gençlerbirliği e, embora tivesse a mesma pontuação que o Konyaspor, seu saldo negativo comprometia sua classificação na tabela.

A última rodada se aproximava. Stefan Martens relatou em seu artigo a atmosfera que a cidade vivia. Uma simples vitória em casa sobre o não tão forte Giresunspor combinada a uma derrota ou empate do Konyaspor contra o time de pronúncia difícil dariam a classificação aos curdos. “É o jogo mais importante da história do Cizrespor”, disse Faruk, um vigia noturno do periclitante terminal rodoviário de Cizre.

Apesar da alegria proporcionada pelo time local, a realidade em Cizre não mudava. A polícia era acusada de abrir fogo contra crianças e adolescentes em bairros como Cudi. Seis mortos, sendo o mais novo de apenas 12 anos. “A polícia está matando nossas crianças” disse um taxista a Stefan.

O jogo contra o o Giresunspor foi agonizante. Um 0 a 0 que poderia ter classificado o time curdo, não fosse o empate no outro jogo do grupo: Konyaspor e Gençlerbirliği também empataram em zero e, com o saldo de oito gols negativos contra os três gols positivos do Konyaspor, o Cizrespor terminou em terceiro, empatado em pontos com o time de Konya – aquele do estádio bonito. A temporada seguia.

Em junho de 2015, o Estado Islâmico voltou a atacar Kobanî. Morreram mais de 200 civis e dezenas de combatentes de ambos lados. Quatro dias depois, os curdos conseguiram expulsar os islamitas. A incrível resistência curda nas batalhas contra as duas frentes — turca e do ISIS — também se refletiu no futebol. Enquanto os islamitas recuavam em Kobanî, o Cizrespor conquistava a quinta divisão, ascendendo à quarta categoria do futebol turco.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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