Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Colónia de exploração

Pau-brasil, cana de açúcar, ouro, diamantes, gado, cacau e jogadores de futebol. As riquezas exploradas por Portugal no Nordeste brasileiro

Ao largo de mais de trezentos anos, os portugueses utilizaram os recursos naturais das terras mais ricas do Brasil para o seu usufruto e proveito. O final do império português das especiarias na Índia relançou a sua exploração das riquezas dessa imensa terra desconhecida que viria a ser o Brasil, um território em forma de continente rodeado de espanhóis por todos os lados. Década atrás de década, os navios mercantis lusos foram levando para Lisboa os grandes recursos naturais que exploravam de diferentes regiões de sua colónia sul-americana. A situação não ficou muito diferente. Mas em vez de navios, há aviões; e em vez de ouro, cana de açúcar e outras matérias primas — que logo os portugueses revendiam para a Europa —, há o jogador de futebol brasileiro. Esse talento em bruto que encontra no futebol português uma porta de entrada preferencial para singrar no jogo europeu de elite.

O modelo de negócio não mudou demasiado e, se houve uma região imensa do Brasil que se viu afectada por essa realidade, essa foi a do Nordeste brasileiro. Muitos clubes europeus se especializaram em ir às grandes cidades do sul, de Porto Alegre a Belo Horizonte passando por São Paulo e pelo Rio de Janeiro à procura da próxima estrela. Mas o imenso e desconhecido Nordeste, para muitos europeus, continuou a depender dessa conexão histórica, sim, mas também empresarial, traçada com os mesmos portugueses, que já séculos antes por lá, andavam à procura de fortuna. Um mundo à parte dentro de um país-continente, o futebol no Nordeste se move em duas direções, rumo às cidades ricas do sul do Brasil ou cruzando o Atlântico em direcção de Portugal.

Seria possível montar um onze bastante competitivo só escolhendo os mais talentosos jogadores nordestinos que, nos últimos dez anos, passaram pelo campeonato português. É difícil, aliás, conseguir fazer o mesmo em qualquer outro país europeu. A conexão Nordeste-Portugal é inevitável. Basta pensar em Liedson, um dos goleadores mais prolíferos do futebol luso dos últimos quinze anos que, nasceu na Bahia, buscou sua sorte no sul e no sudeste no Brasil, e encontrou aí a porta de entrada ao futebol europeu. Liedson nunca chegou a transferir-se para um grande clube fora de Portugal na Europa, mas a sua popularidade foi tal que acabou mesmo nacionalizando-se para disputar o Mundial de 2010. São muitos os jogadores reconhecidos que são naturais do imenso Nordeste, como os casos de Hulk, de Pepe — naturalizado português —, ou de Diego Costa — naturalizado espanhol. Futebolistas que foram campeões de Portugal como o goleiro Fabiano, e jogadores populares no futebol luso como Matheus, Crislan, Ewerthon ou Lionn, são apenas exemplos dessa inevitável ligação comercial.

O futebolista nordestino encontra quase sempre em Portugal o seu primeiro ponto de saída à pobreza que vive — em muitos casos — na sua terra natal. O Nordeste, na sua imensa e apaixonante beleza, continua longe de ser capaz de produzir equipas de elite, mas isso não significa que não produza jogadores de alto quilate. Muitos rumam às grandes cidades do Brasil, mas aqueles que vão para a Europa sabem que têm de parar, nem que seja por um ano ou dois, nas cidades portuguesas. Tanto faz que seja Lisboa, Porto, Braga ou, até mesmo, a Ilha da Madeira. Esse ponto de paragem é quase obrigatório e se contam pelos dedos das mãos os futebolistas reconhecidos do Nordeste que conseguiram evadir essa rota.

A maior parte dos que seguiram outro caminho foi apenas e só porque antes, largaram o Nordeste por outros grandes emblemas brasileiros e, quando chegaram à Europa, já como estrelas sul-americanas, muita gente tinha esquecido até que eram do Nordeste, tal a associação com equipas cariocas ou paulistas, como sucedeu com Rivaldo, Dida, Juninho Pernambucano ou até Marcelinho Paraíba. Alguns, inclusive, ainda que tenham ido noutra direcção, mesmo assim estiveram a ponto de passar por Portugal, como sucedeu com Daniel Alves antes de assinar pelo Sevilla, ou Roberto Firmino previamente à sua ida para o Hoffenhaim, que tiveram ofertas na mesa de clubes lusos antes de optar por jogar directamente em ligas de maior prestígio, como é o caso da espanhola ou alemã.

No entanto, é evidente que Portugal tenha uma capacidade especial de explorar os recursos futebolísticos mais talentosos vindos do Nordeste brasileiro. Uma realidade que se deve a dois factores que se complementam. Por um lado, é barato e fácil para qualquer clube português — mesmo falando dos mais modestos — enviar os seus olheiros ao futebol brasileiro pelo conhecimento linguístico e, até, social. E claro, sempre buscando o melhor negócio: o olheiro luso não vai assistir a um Flamengo e Corinthians no Brasileirão sendo que é mais fácil buscar por preciosidades nas bancadas de jogos dos estaduais pernambucano, alagoano, baiano ou cearense, onde o talento custa muito menos do que custaria no sudeste ou no sul.

É por isso que equipas sem grande capacidade financeira são, ainda assim, capazes — todos os anos — de atrair dezenas de jogadores brasileiros a um campeonato europeu bastante pobre em questões financeiras e onde, raramente, os salários são pagos a tempo, e dentro desse grupo, particularmente, abundam jogadores do Nordeste. Muitos se chocam com a realidade e regressam rápido, ou partem para outros campeonatos financeiramente mais recompensadores, seja na Europa de leste, seja no futebol asiático. Só uns poucos eleitos conseguem ir subindo as escadarias de um clube modesto luso para um dos chamados “grandes”, como passou com o goleiro Fabiano Soares que, de uma equipa modesta do Algarve, o Olhanense, acabou por assinar pelo Porto antes de se mudar para o futebol turco. Outros, como Ronny — contratado pelo Sporting Lisboa —, acabam por singrar noutro lado, no seu caso o Hertha de Berlim. E uns poucos, como Diego Costa, dão o salto directamente de um clube modesto como o Sporting de Braga para um grande da Europa, caso do Atlético de Madrid — ainda que, com vários empréstimos pelo caminho.

Por outro lado os empresários de futebol brasileiros sabem também que é mais fácil criar redes de negócio com uma liga modesta como plataforma, do que entrando em campeonatos onde o nível é muito superior e a legislação mais exigente. Não é de estranhar que muitos desses jogadores nordestinos cheguem a Portugal não pelas mãos de um olheiro luso, mas sim do seu empresário — em alguns casos, como o do Corinthians Alagoano, um clube criado propositadamente para a exportação de talento — que passa o verão a passear o jogador pelos clubes portugueses em vários dias de testes. Foi essa a realidade de duas das maiores estrelas do futebol nordestino, Pepe e Hulk. Ambos se notabilizaram por singrar ao mais alto nível no FC Porto para depois se transformarem em estrelas do futebol europeu e, em alguns dos jogadores mais bem pagos do mundo nas suas posições respectivas.

Mas ambos entraram em Portugal pela porta pequena, da mão do seu agente, e estiveram a ponto de voltar para casa sem nada nas mãos. Pepe, nascido em Maceió, foi um producto de formação do Corinthians Alagoano, um clube utilizado como trampolim de jogadores para a Europa por um grupo de investidores. Quando aterrou em Lisboa, foi enviado pelos seus agentes a fazer um treino a experiência no Sporting de Lisboa. Aí conheceu, pela primeira vez, Cristiano Ronaldo, um júnior que fazia os primeiros treinos com a equipa principal, e forjou uma larga amizade. Mas o negócio não correu bem porque o agente de Pepe e o clube de Lisboa não acertaram cifras de comissão.

A ponto de voltar para o Brasil, Pepe foi então treinar a experiência num segundo clube, o Marítimo, equipa da Ilha da Madeira que todos os anos contrata uma dezena de jogadores brasileiros desconhecidos. A aposta funcionou, Pepe transformou-se numa das revelações da liga e foi contratado por José Mourinho, então treinador do Porto, clube onde confirmou o seu talento e que lhe serviu de porta para acabar por assinar com o Real Madrid, onde finalmente se encontraria com Mourinho — o treinador deixara o Porto para assumir o Chelsea quando Pepe se transferiu pra lá.

Por outro lado, Givanildo “Hulk” Sousa também entrou em Portugal num voo que, praticamente, tinha bilhete de ida e volta. Treinou a experiência no Porto e não convenceu, passando depois pelo modestíssimo Vilanovense — clube de Vila Nova de Gaia, das divisões inferiores —, antes de optar pelo caminho financeiramente mais compensador: o da liga japonesa. Foi daí que o Porto, que o manteve debaixo de olho, o resgatou antes de vendê-lo ao Zenit por uma pequena grande fortuna. Em ambos os casos, os jogadores triunfaram em Portugal graças mais aos seus agentes do que aos seus clubes de origem. E nos dois casos foram fazendo milionários todos os intervenientes do processo. Todos, menos os que ficaram no Nordeste, claro, porque entre empresários e clubes portugueses se reparte a riqueza que as ruas e os pequenos clubes nordestinos acabaram por parir. E como o dinheiro, esse motor de tudo, continua longe de cair onde deveria, a situação tende a perpetuar-se e os grandes clubes do Nordeste permanecem pequenos em influência e poderio financeiro na realidade brasileira e, por consequência, mais permeáveis à exploração dos clubes europeus, mesmo daqueles mais pobres.

Igualmente não se pode esquecer aqueles casos de jogadores que, não sendo nordestinos de nascimento, também utilizaram a conexão Nordeste-Portugal para triunfar no futebol de elite europeu. Os casos mais sonantes são os de Deco e David Luiz, duas estrelas mundiais, vencedores da Champions League em suas carreiras, e que chegaram ao futebol português depois de passar pelo futebol nordestino. No caso de Deco, que em 2002 se naturalizou português, tendo sido um dos futebolistas mais importantes da seleção lusa durante essa década, o jogador começou a sua carreira em clubes paulistanos, mas em 1997 assinou pelo CSA de Maceió, clube especializado em servir de ponte com o futebol europeu. Foi aí que o seu empresário o levou então a Portugal, onde esteve a ponto de assinar com o Benfica depois de ter estado num período curto de prova. No final, o Benfica não mostrou interesse, mas Deco ficou em Portugal, primeiro jogando no Alverca e depois no Salgueiros, pequenos clubes que actuavam na primeira divisão portuguesa. Foi de aí que passou finalmente para o Porto, onde conquistou todos os títulos do futebol europeu antes de assinar pelo Barcelona, jogando mais tarde, inclusive, no Chelsea. Já David Luiz, também ele paulista, chegou ainda adolescente ao Vitória onde começou a mostrar toda sua valia chamando a atenção do Benfica que o contratou em 2007, com apenas 20 anos. Três anos depois, se tornou num dos defesas mais caros do mundo ao ser vendido ao Chelsea por 25 milhões de euros, clube onde actualmente milita depois de uma breve passagem pelo PSG. Entre os dois jogadores se movimentaram cerca de 150 milhões de euros em transferências e se podem contar três triunfos na Champions League e duas Europa League/Taça UEFA. São os dois casos de maior sucesso desportivo da plataforma nordestina com passagem por Portugal, ainda que em ambos os casos, a origem dos futebolistas estivesse no sul do Brasil. Foi, no entanto, no Nordeste que encontraram a visibilidade suficiente para chegar até ao futebol português e de aí conquistarem a Europa.

Há uma questão fundamental para essa relação entre Portugal e Nordeste do Brasil. O futebolista brasileiro ocupa uma vaga de extracomunitário em todas as grandes ligas, mas em Portugal, graças aos acordos entre os países, a legislação é muito mais permissiva, o que faz com que cada clube luso tenha, de média, quase uma dezena de brasileiros no seu plantel ao início de cada ano. São cerca de 150 brasileiros ao ano — a maioria de zonas modestas como o Nordeste — o que representa quase um 40% de todos os futebolistas que abandonam o Brasil para outros países. Os restantes clubes da Europa sabem disso e preferem não se arriscarem demasiado e esperar para ver se o jogador já têm as credenciais para funcionar no futebol europeu, utilizando, assim, Portugal como um período de prova. Nada de diferente do que sucedia tantos séculos atrás, quando para as grandes nações comerciais europeias era mais vantajoso deixar os comerciantes portugueses cruzarem o difícil Atlântico e arriscarem-se a trazer as matérias primas para depois, comodamente, irem a Lisboa comprar as mesmas que depois se venderiam a preço de luxo nas grandes praças.

Na prática, uma realidade que o futebol português começou a explorar verdadeiramente nos anos noventa, e perdura mais forte a cada ano. Ainda que a aparição de mercados apetitosos, como dos oligopólios da ex-união soviética ou da liga chinesa, sirvam de atracção importante para talentosos jogadores do Nordeste, a verdade é que Portugal continuará a ser a porta de entrada preferencial para singrar na Europa — o sonho de quase todo o futebolista. O próximo Diego Costa ou Hulk pode ter seguido num voo no último verão europeu para qualquer equipa portuguesa, seja o Benfica ou o Portimonense. Será, no entanto, uma excepção numa longa lista de jogadores que falham no seu objectivo e voltam para casa sem fazer história. Mas a relação entre o Nordeste e Portugal seguirá, desta forma transversal, neste planeta que é o Futebol.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.

Deixe seu comentário