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Metamorfose Mundial

Inauguração do McDonald’s em Moscou em 31 de janeiro 1990 já dava indícios de que nada mais seria igual depois daquele ano
(Foto: McDonald’s)

A mudança do mundo em uma Copa pelas páginas do Jornal do Brasil e a visão de João Saldanha sobre o último mundial de sua vida

Talvez, de tão chata como dizem que foi, a Copa de 1990 pode ter acelerado a morte de João Saldanha. A agonia de jogos sendo decididos nos pênaltis, com defesas formadas por três zagueiros que recuavam todas as bolas que podiam pros goleiros — que ainda podiam pegar com as mãos —, tenha sido a amargura que Saldanha não poderia ter vivido.

07.06.1990

Na véspera da abertura da Copa de 1990, João Saldanha não publicou sua coluna no Jornal do Brasil, pois ele se encontrava doente em Roma, onde estava fazendo a cobertura pela TV Manchete, canal aberto no qual era comentarista.

08.06.1990

A coluna de Saldanha voltou a ser publicada. Ele falou da Copa do Mundo de 1930. Nessa edição, o jornal mostrava também a chegada de Fernando Collor à Itália, onde assistiria à abertura daquele Mundial. O então primeiro presidente eleito diretamente da era democrática já acumulava derrotas no Congresso e no Supremo, mas desviou das perguntas na sua chegada. Seu porta-voz disse que a ministra da economia, Zélia Cardoso de Mello, buscava medidas de controle da inflação e previa queda de 2% do PIB.

Eram tempos estranhos da política brasileira, que vivia uma democracia pueril com uma economia desgovernada, o futebol era uma ponta de esperança pra um país que tinha pouco do que se orgulhar e, até ali, ser tricampeão mundial era motivo suficiente pra ainda poder estufar o peito.

Também era um período de incertezas na geopolítica global. Metade do mundo ruía, todo o bloco soviético e os países alinhados deixavam de ser socialistas para ser algo que se via por entre as frestas da Cortina de Ferro, representada no Muro de Berlim, que caía no ano anterior a essa Copa da Itália.

As convicções políticas e futebolísticas de João Saldanha derretiam durante junho e julho de 1990. A Romênia estava mais preocupada com a sucessão do ditador Ceaușescu — que comandou o país de 1974 até dezembro de 1989 — do que com o substituto de Gheorghe Hagi, lesionado. Restava a Saldanha ressaltar, em sua coluna no Jornal do Brasil, o viés político dos jogos de abertura. Porém, ele falava das relações políticas da FIFA com seus países membros. Fez um breve histórico das partidas iniciais de cada torneio.

09.06.1990

Quando Zélia Cardoso de Mello apelava para a contenção nos salários dos trabalhadores, ela disse aos empresários reunidos num evento no Maksoud Hotel, em São Paulo: “resistam, resistam, resistam”. Os argentinos — e o mundo — foram surpreendidos por Camarões, que venceu os campeões vigentes no jogo de abertura, que contou com a presença de Fernando Collor, e a OTAN decretava oficialmente o fim da Guerra Fria. Sem falar que a primeira-ministra britânica, Margareth Thatcher, se encontrava em Moscou com Mikhail Gorbachev ao mesmo tempo que a Hungria anunciava que se desligaria do Pacto de Varsóvia.

João Saldanha primeiro reclamou da festa de abertura, disse que tinha pouco de futebol e, surpreendido com a vitória camaronesa, falou também que os africanos precisavam se distanciar das relações colonialistas, mas que era sonhar demais acreditar que Camarões poderia ganhar da Argentina e que seria uma barbada:

“E o time africano venceu com dois jogadores expulsos. Pensava que eles jogariam se defendendo e segurando pra não perder de muito. Pois logo que Camarões perderam o medo de perder de muito que pressionaram mais. E a Argentina que fique sabendo que só com Maradona não vai dar.”

“Penso que o futebol brasileiro tem que atacar com mais gente e um sistema de defesa mais ofensivo. Nunca fomos tão defensivos e isto não é que me desagrade, mas me incomoda e muito.”

10.06.1990

Senador à época, Fernando Henrique Cardoso disse ao JB que o governo Collor tropeçava por burrice, incompetência e inexperiência, e o Plano Collor seguia em discussão no país. No bloco do Leste Europeu, a Bulgária voltaria a votar livremente depois de 46 anos.

Após a estreia do Brasil sobre a Suécia, o título da coluna de Saldanha resumia: “Não gostei muito” e defendia uma tese que deixaria os guardiolistas com inveja: “defensores ofensivos”. Depois de criticar a falta de companhia de Valdo no meio de ataque, João diz: “Penso que o futebol brasileiro tem que atacar com mais gente e um sistema de defesa mais ofensivo. Dá pra entender isso? Nossos defensores sempre foram bons atacantes, principalmente os do meio-campo. Nunca fomos tão defensivos e isto não é que me desagrade, mas me incomoda e muito.” Romário e Bebeto não tinham plenas condições de jogo, mas Saldanha acreditava que ambos deveriam compor o ataque brasileiro ao lado de Careca.

12.06.1990

No Peru, tudo indicava que Alberto Fujimori venceria as eleições presidenciais com ampla vantagem sobre seu oponente, o escritor Mario Vargas Llosa e, no Brasil, Zélia enviava ao Senado uma lista com os nomes das pessoas que sacaram mais de NCz$ 1 milhão (algo em torno de US$ 25 mil), limite muito acima do previsto no bloqueio das contas instituído pelo plano. Por segurança, essa documentação foi colocada no cofre do Senado, onde estavam documentos históricos como as cartas do líder comunista Luís Carlos Prestes, que tinham sido divulgadas fazia pouco tempo. O senador Jamil Haddad havia solicitado essas informações para análise com intenção de processar as pessoas que violaram a determinação sob pena de crime de responsabilidade. Jamil daria prioridade aos saques realizados por parentes e amigos de membros do governo brasileiro.

Os presidentes das repúblicas Bálticas (Estônia, Letônia e Lituânia) se reuniriam em Moscou naquele 12 de junho de 1990 com Gorbachev para rediscutir o status dos países. A Lituânia havia proclamado a independência em março daquele ano e os russos promoveram um bloqueio comercial para forçar a desistência separatista dos lituanos. Moscou também negociava a unificação alemã. E, em campo, entrava o último favorito. A campeã europeia de 1988, a Holanda, era a última candidata ao título que faltava estrear. Rijkaard, Gullit e van Basten tinham conquistado a Copa dos Campeões com o Milan 20 dias antes e jogariam “em casa”, o que os credenciava ainda mais para o inédito título mundial.

Em sua coluna, Saldanha cuspia marimbondos nos oportunistas que tentavam vender pacotes de viagem mais caros sob a alegação de que não havia disponibilidade hoteleira na Itália. Ele afirmava que, neste período do ano, o país estava mais vazio do que na mesma época em 1989 e que era possível encontrar entradas pros jogos: “Nem na finalíssima você deixará de achar ingresso… seus trouxas, não entrem na onda dos especuladores”.

“Ancelotti arruma tudo. Mas o Carnevale metendo a cara, reclamando, pulando, dançando, dizendo palavrões e imprecações era o Rei da Cocada Preta. Um Heleno de Freitas da Era moderna”

13.06.1990

No Rio de Janeiro, um juiz determinou que o comerciante Elias Gonçalves de Sousa (aos 63 anos) e sua esposa, Maria de Jesus Brito de Sousa (de 50 anos), pudessem usar o dinheiro retido em suas poupanças pelo Plano Collor para a compra da casa própria. Eles viviam de aluguel e o proprietário do imóvel havia ingressado com uma ação de despejo, o que levou o juiz José Ricardo Siqueira a garantir o desbloqueio das economias do casal. Elias, eleitor de Collor, foi defendido pelo próprio filho, e disse que votou no então presidente achando que ia ficar mais fácil pra se comprar um imóvel, mas confessa que ficou mais difícil. Ainda assim, acreditava que tudo ia dar certo.

O país estava em ebulição. Uma greve dos bancários não teve muito sucesso, os metalúrgicos do ABC paulista cruzavam os braços aos poucos e médicos pararam de trabalhar em São Paulo devido à carência de serviços da Justiça e da Polícia Civil. E Collor, de volta ao país após ida à Itália, estava preocupado com a demora na prisão dos acusados pelo assassinato de Chico Mendes no Acre. No entanto, a preocupação do presidente estava muito mais ligada à imagem do Brasil no exterior e abriu espaço em sua agenda para entrega do prêmio Sasakawa, o Nobel do meio-ambiente, post-mortem ao ex-líder seringueiro, e o valor de US$ 200 mil seria dividido entre as três instituições que Chico Mendes liderava: Conselho Nacional dos Seringueiros, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e Brasiléia.

Gorbachev só aceitava a unificação alemã se o novo país ainda permanecesse com uma cadeira no Pacto de Varsóvia. O Ocidente queria que a Alemanha unida fosse membro da OTAN. George Bush (pai), disse: “Nossa posição é bem conhecida, a Alemanha unificada deve ficar na OTAN sem condições.” Gorbachev, por sua vez, discursou sobre a presença dos alemães nos dois blocos alegando que isso garantiria uma transição até a dissolução dos blocos político-militares e a criação de um novo sistema de segurança europeu. Mas Gorbachev, na verdade, já demonstrava sinais de fraqueza quanto à influência exercida pela URSS nos países integrantes do Pacto de Varsóvia. Antes, ele sequer admitia a presença unificada alemã na OTAN, agora, o líder russo já admitia. Era uma questão de tempo até que os russos abrissem mão, politicamente e militarmente, dos países integrantes do bloco do Leste Europeu e também de várias das repúblicas membros da União Soviética, a começar por si próprios. Naquele mesmo dia, o parlamento russo aprovou por 907 votos contra 13, além de nove abstenções, a supremacia das leis locais sobre a legislação soviética em vigor. Foi um ato de soberania em sintonia com o recém-eleito presidente da República da Rússia, Boris Yeltsin, opositor de Gorbachev. “O dia 12 de junho será o dia da independência da Rússia”, declarou Yeltsin.

Ao mesmo tempo, o Kremlin já admitia negociar com os países bálticos, e o parlamento soviético aprovava, pela primeira vez, uma lei de imprensa que garantia o fim da censura e que os meios de comunicação não eram mais propriedade do Estado. Fim dos áureos tempos da revolução popular que condenou gerações à falta de poder popular.

Na Argentina, Carlos Menem precisou decretar a proibição de entrada da sua ex-mulher Zulema Yoma na residência oficial do mandatário em Olivos, no norte da Grande Buenos Aires.

Lazaroni dava a entender que Romário ficaria no banco. Mas o médico da CBF, Lídio Toledo, entrava em rota de colisão com o baixinho. Incomodado com a presença de seu fisioterapeuta, o médico disse que a Seleção não precisava de fisioterapia. Havia uma forte resistência aos tratamentos fisioterapêuticos e Lídio deixava isso claro.

O ex-técnico Helenio Herrera cravava o Brasil como favorito à conquista do Mundial na Itália, terra onde ele instaurou o Catenaccio para todo o sempre, e comentou que não havia variações táticas: “todos jogam no 3-5-2”.

“Os cobras jogam na Itália”. Assim foi intitulada a coluna de João Saldanha. Saldanha apontava a superioridade da Liga Italiana. Eram 38 jogadores, todos eles na primeira divisão do calcio. Brasileiros, argentinos, holandeses ou alemães eram estrelas ou coadjuvantes dos melhores times do futebol italiano.

E sobre os italianos, Saldanha rasgou elogios controversos a Andrea Carnevale: “Embora pra mim o melhor fosse o Ancelotti, que parece que não vai mais jogar, com ou sem a bola, Ancelotti arruma tudo. Mas o Carnevale metendo a cara, reclamando, pulando, dançando, dizendo palavrões e imprecações era o Rei da Cocada Preta. O time italiano dominando e o gol não saindo. Carnevale reclamava de todos os 23 em campo. (…) Mas se o homem da Itália [o técnico Vicini] não tira o explosivo Carnevale, não teria ganho o jogo fartamente merecido. Um verdadeiro macaco numa casa de louças. Um Heleno de Freitas da Era Moderna. Um tipo curioso, que é dócil e fera ao mesmo tempo”.

Ah, João, que maneira de ver futebol e de escrever. Na mesma coluna, ele disparou contra colegas comentaristas: “Achei muita graça nos nossos comentaristas que se colocavam em cima do muro e ficam a falar bobagens, como a de que a Costa Rica é um respeitável adversário. É nada. Seria bom se todos fossem do quilate da Costa Rica. Que mania que não querer errar! De todas as maneiras, parece que os principais concorrentes já deram a sua nota. E são a Itália, cada vez mais favorita, a Alemanha, com aquele esmagamento brutal sobre a Iugoslávia, o Brasil e a Holanda.

“Parece que os principais concorrentes já deram a sua nota. E são a Itália, cada vez mais favorita, a Alemanha, com aquele esmagamento brutal sobre a Iugoslávia, o Brasil e a Holanda”

14.06.1990

O embate entre a comissão técnica e médica da CBF e o fisioterapeuta particular do Baixinho, Nilton Petronni, continuava. O “Filé” assegurava que Romário estava pronto para jogar, mas Lazaroni anunciou que o atacante não estava em forma física para sequer ficar no banco de reservas.

A URSS jogou o seu penúltimo jogo sob o regime soviético como ele era até então. A Argentina venceu a seleção que se desintegrava como time e como união de repúblicas socialistas. O parlamento soviético aprovava a passagem da economia centralizada para um modelo de mercado regulamentado e o primeiro desafio era frear o aumento dos preços do pão. Gorbachev suspendia parcialmente o bloqueio econômico à Lituânia, que se declarou independente em março daquele ano, e propunha uma nova união entre os Estados socialistas com caráter mais brando, com autonomia política das repúblicas, mas com cooperação econômica entre os países membros respeitando as peculiaridades históricas, étnicas e culturais dos 15 Estados.

O símbolo tangível da divisão do mundo em dois blocos era derrubado. Em Berlim, o Muro que separava o lado socialista do capitalista da cidade tinha retomado o processo de demolição. Mas havia quem protestasse contra. Um morador do lado ocidental temia que o fluxo de alemães do leste trouxesse mais problemas sociais do que impactos positivos: “Acho que deveríamos fechar o nosso lado com um muro duas vezes mais alto”. A data prevista para a reunificação monetária era 1º de julho, e as ruas de Berlim, separadas por 29 anos, voltavam a conectar lentamente.

No mesmo grupo de Argentina e URSS, a Romênia jogaria contra Camarões. O resultado poderia liquidar as chances do pouco que restava de União Soviética. Já a Romênia, embora pudesse seguir adiante na Copa, ardia em chamas em seu solo. Militantes opositores a Ion Iliescu incendiaram carros e o quartel da polícia, além de atacar prédios governamentais. O mundo mudava. Rápido.

O Brasil também. Além de querer desestatizar as empresas do país, Collor queria de qualquer jeito incriminar os assassinos de Chico Mendes. Porém, o promotor do caso, Eliseu Bouchmeier de Oliveira, declarou que o presidente queria Ibope. O próprio sucessor de Chico Mendes na presidência do Conselho Nacional de Seringueiros, Julio Barbosa de Aquino, questionava o interesse de Collor no caso: “Por que toda essa preocupação com o julgamento se só duas pessoas estão na cadeia e todas as outras que o próprio Chico denunciou como interessadas na sua morte estão soltas?”

Era o Brasil recém entrando nos anos 1990, mas com a cabeça ainda na década anterior. O governo começava a discutir a liberação da mais alta tecnologia das telecomunicações, proibida pela lei da informática de 1984, que restringia a importação de aparelhos de Fax que custava pelo menos US$ 600.

A mão invisível

15.06.1990

O Brasil tentava se abrir para o mercado internacional. A União Soviética também. As reformas liberalizantes no bloco socialista traziam consequências de diferentes complexidades, como o aumento iminente do preço do pão e uma taxa de desemprego estimada em até três milhões de trabalhadores. Imaginem o que seria de todo um bloco econômico, de um dia para o outro, acordar sem empregos e com o preço do pão mais alto. Um colapso total. Mas, por outro lado, o Ministro do Trabalho da URSS, Vladimir Cherbakov, disse que garantiria a permissão de saída de cidadãos que quisessem buscar trabalho no exterior. Uma garantia da liberdade de ir e vir. Um paradoxo.

“O nível esportivo está excelente — e isto se deve ao rigor do cumprimento das leis. Como é bonito o futebol respeitado!”

Em sua coluna, João Saldanha elogiava a arbitragem. Quase 30 anos antes do VAR, Saldanha, porém, se disse perplexo com a não marcação do pênalti a favor dos soviéticos contra a Argentina. Maradona, outra vez, com a mão, protagonizou um lance capital. Se, em 1986, Diego usou a mão direita para anotar um gol nos ingleses capitalistas e imperialistas, foi com a mão esquerda que El Diez impediu um gol dos soviéticos comunistas.

Saldanha intitulou sua coluna “Com a mão não vale” e enalteceu o nível da competição, que, segundo ele, estava sendo jogada dentro da regra: “Repito, o nível esportivo está excelente — e isto se deve ao rigor do cumprimento das leis. Como é bonito o futebol respeitado!”

16.06.1990

A União Soviética já nem tão mais União assim se preocupava com o preço do pão e com o iminente desemprego que batia à porta, agora já entreaberta, de todo o bloco. O Brasil, por outro lado, anunciava que iria aceitar investimentos estrangeiros em setores reservados ao capital exclusivamente nacional, como bancos, seguros, informática (!), construção civil e transportes.

De acordo com a edição desse dia do Jornal do Brasil, em 1986, o Brasil se retirou de uma reunião do GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) no Uruguai depois da insistência dos Estados Unidos em incluir esses serviços no acordo. Se a União Soviética temia desemprego, uma greve no Brasil dava prejuízo de US$ 1 milhão à Petrobrás. Os grevistas se opunham às demissões na estatal prevista na reforma administrativa promovida pelo governo Collor. Em todo o país, chegavam a dois milhões de trabalhadores de diferentes grêmios em greve, de acordo com a CUT.

O neoliberalismo ganhava contornos claros em diferentes continentes. Em meio a isso tudo, a URSS se despedia da competição após vitória de Camarões sobre a Romênia. E em Bucareste, os protestos contra o governo de Ion Iliescu arrefeciam. O presidente romeno atribuía as manifestações populares a “forças direitistas estrangeiras”.

Mas nem mesmo as “forças esquerdistas estrangeiras” estavam em conformidade. Por um lado, a Comunidade Econômica Europeia adiava a assinatura do acordo comercial com o país e o governo dos EUA retirou as ajudas humanitárias de Bucareste. Por outro lado, Polônia, Tchecoslováquia e o que ainda restava da Alemanha Oriental também se opuseram à atuação policial e militar na Romênia.

Os romenos jogariam o último jogo do grupo, valendo classificação, contra a Argentina. Os argentinos não teriam seu goleiro titular e campeão em 1986, Nery Pumpido, que se machucou na vitória contra a URSS. A Argentina vivia uma economia instável como sempre e, historicamente, o dólar era o principal indexador de preços.

O Brasil enfrentaria a Costa Rica e o extracampo era um problema maior do que os das quatro linhas. Antes de a Copa começar, ainda em Teresópolis, os jogadores tamparam a logomarca da Pepsi, patrocinadora da CBF, em protesto contra a premiação acordada, posto que o valor revelado pela entidade era inferior ao que realmente foi pago pela marca de refrigerantes.

Já na Itália, no entanto, a patrocinadora anunciou que pagaria uma cota extra, segundo reportagem de Tadeu Aguiar no Jornal do Brasil, publicada no dia do jogo contra a Costa Rica. De acordo com a matéria, porém, sete jogadores não aceitaram dividir o valor extra: Ricardo Rocha, Alemão, Silvas, Muller, Taffarel, Careca e outro atleta não revelado.

De acordo com a matéria do JB, essa cota-extra integral seria de US$ 9 mil. Sobre a partilha, a publicação ainda dizia que Ricardo Rocha havia declarado ao subir no ônibus da delegação: “No Brasil ficou decidido que seriam 22 a dividir. Aqui, se resolveu que a verba seria pra 32.”

Procurado por esta reportagem, Ricardo Rocha negou ter dito qualquer coisa contrária à partilha dos prêmios e acrescentou que o erro, segundo ele, foi não ter definido nada no Brasil, deixaram pra definir somente na Itália, e foi isso que acarretou em problemas. Pro Xerife, isso foi um aprendizado pra própria CBF que, na Copa seguinte, definiu tudo antes do início da competição, ainda no Brasil, deixando os jogadores concentrados somente no Mundial.

A Alemanha [Ocidental] esmagava novamente. Desta vez, os Emirados Árabes Unidos, que eram treinados por Carlos Alberto Parreira. Após o 5 a 1, o técnico brasileiro elogiou o time comandado por Franz Beckenbauer: “Esse time da Alemanha é maravilhoso. Joga pelos lados, na frente, atrás, com técnica, com força. É quase perfeito.”

Bebeto achava que era a sua hora. Saldanha dava como certa a vitória: “Não viemos aqui pra cruzar bigodes contra times desse quilate. Penso tratar-se de jogo fácil e sem problemas, que nos proporcionará a classificação.”

“Não viemos aqui pra cruzar bigodes contra times desse quilate. Penso tratar-se de jogo fácil e sem problemas, que nos proporcionará a classificação”

17.06.1990

Uma vitória magra contra a Costa Rica gerou críticas na capa do Jornal do Brasil: “Seleção erra muito e Lazaroni muda quatro” era a manchete. Logo abaixo, outra chamada mostrava um embrião do Brasil de 2020: “Pentecostais esperam eleger 50 deputados”.

O Bispo Edir Macedo lançava, no Rio de Janeiro, a candidatura da advogada Socorro Costa para a Câmara dos Deputados em Brasília. O empresário da fé havia comprado a TV Record em abril daquele ano por US$ 45 milhões, e sua rede de radiodifusão já contava com 13 emissoras. Nas eleições presidenciais de 1989, o Bispo apoiou Fernando Collor.

A União Soviética, praticamente eliminada da Copa do Mundo, protestou contra a arbitragem, mas a FIFA não reconheceu o erro do juiz sueco Erik Fredriksson, que não viu a mão de Maradona. Restava olhar pra si. Os soviéticos viam sua seleção se desfazer desde o coração político do bloco. O parlamento russo aprovou uma emenda à constituição suprimindo o papel dirigente do Partido Comunista em seu território. A maior república integrante da União Soviética adotava, na prática, um pluripartidarismo. Embora a Lituânia recuasse na sua proclamação de independência, a medida tinha um caráter apenas de facilitar os entendimentos com o Kremlin. Os países bálticos haviam perdido a sua autonomia em 1940, quando Stalin anexou as repúblicas à União Soviética.

Stalin, que acabava de ter mais uma crueldade revelada. Crianças encontraram ossos, medalhas, pedaços de uniformes e moedas na Ucrânia do que seriam 6.500 soldados poloneses e cidadãos soviéticos mortos pela polícia stalinista. Os corpos foram encontrados numa vala na cidade de Kharkov.

O momento era tão atípico, se comparado com as últimas cinco décadas de Guerra Fria, que o Pacto de Varsóvia já fazia movimentos de cooperação com a OTAN. Seria como se a Coreia do Sul e do Norte fizessem as pazes. O mundo estava mudando tanto — e ninguém entendia pra onde as coisas estavam indo — que o chefe do governo da Alemanha Ocidental, Helmut Kohl, precisou prometer que respeitaria as fronteiras estabelecidas com a Polônia após a reunificação alemã, em oposição aos anseios dos ultraconservadores, que pretendiam recuperar territórios sob posse dos poloneses após a fim da Segunda Guerra Mundial.

A Tchecoslováquia ainda existia e fazia bonito na Copa. Os dois países que a integravam já davam indícios de uma transição rumo a uma separação amigável. A Revolução de Veludo, em dezembro de 1989, destituiu o governo comunista, instaurou a democracia e o país passou a se chamar oficialmente República Federal da Tcheca e Eslováquia, no lugar de República Socialista da Tchecoslováquia.

Os tchecoslovacos venceram os EUA e se classificaram para a fase seguinte antecipadamente. O técnico Jozef Vengloš virou notícia. O treinador era formado em Filosofia e o desempenho de seus comandados projetava Vengloš no mercado do futebol. Até essa época, uma Copa do Mundo era uma vitrine única, a cada quatro anos, em que desconhecidos viravam estrelas.

Após a Copa do Mundo na Itália, Vengloš assumiu o Aston Villa e se tornou o primeiro técnico de fora do Reino Unido e Irlanda a comandar uma equipe da primeira divisão inglesa.

O Brasil vivia uma expectativa esportiva e econômica. O presidente Fernando Collor, prestes a completar 100 dias no governo, disse que a Seleção Brasileira está jogando um futebol excepcional a despeito da opinião pública da época e que o Brasil seria tetracampeão. Collor pediu para os brasileiros torcerem tanto pela Seleção quanto pelo Plano Collor, em entrevista ao vivo após o jogo contra a Costa Rica no programa Domingão do Faustão.

João Saldanha, no entanto, era outro a se opor a Collor. Reclamou da pouca quantidade de atacantes: “A Costa Rica veio apenas participar e pouco se pode saber de maiores pretensões com base nesse jogo a não ser que continuemos a jogar com poucos no ataque. Isto não me agrada nada.”

Sobre a formação tática, Saldanha completou: “Temos um time que pode jogar os 90 minutos contra uma Itália sem tomar gol. Mas não faremos também. Nosso futebol é tradicionalmente mais.”

João, sem medo algum, deu nomes aos bois e demonstrou suas predileções: “Creio que Dunga e Muller representam uma concepção de futebol defensivo e que joga a não perder. Confesso que não é o time que me dá conforto que eu gostaria de ter. E Bebeto? E Romário? Podem entrar? Se entrarem pra fazer apenas dois na frente não adianta nada. Temos de atacar pelo menos com três homens se quisermos caprichar. O futebol brasileiro, alegre e descontraído está preso a uma série de restrições. Prefiro um futebol mais nacional, mais alegre e — por que não? — mais aventureiro.”

“Temos de atacar pelo menos com três homens se quisermos caprichar. O futebol brasileiro, alegre e descontraído está preso a uma série de restrições. Prefiro um futebol mais nacional, mais alegre e — por que não? — mais aventureiro.”

18.06.1990

Até Careca, titular de Lazaroni, se queixava do isolamento que vivia no time. “É um grave equívoco eu ter apenas uma chance de gol em 90 minutos. Alguma coisa tem que ser feita”, disse o camisa 9 brasileiro, de acordo com o artigo de Lédio Carmona no JB.

Careca disse que não era questão de ter três, quatro ou cinco jogadores no ataque, mas achava que o time tinha de atacar mais. “Falo abertamente porque Lazaroni nos dá essa liberdade.”

Sobre o jogo contra a Costa Rica, quando foi substituído, Antonio Careca apontou a razão pela qual o Brasil tinha de ter atacado mais: “Eles tinham 10 cara atrás. Não havia muita coisa para defender.” Mas não criticou o esquema com três zagueiros de Sebastião Lazaroni: “Todo mundo joga assim”. E sai em defesa do criticado Muller: “é meu parceiro ideal”, afinal, Careca e Muller formaram ataque no São Paulo campeão brasileiro em 1986.

1986 foi o ano que Maradona conquistou o mundo. Seu gol antológico e com a mão de Deus contra a Inglaterra ficaram pra História. E sua mão era notícia novamente. Alvo de críticas, Diego rebateu a imprensa: “Só pode ser coisa de Norte contra Sul”, afinal, o camisa 10 do Napoli despertava ódio dos rivais setentrionais. A Argentina precisava da vitória sobre a Romênia e torcia contra uma derrota de Camarões para terminar em primeiro no grupo, mas o tornozelo de Maradona não deixava ele render como em 1986.

Quem também não rendia como anos antes era a Holanda. A campeã europeia em 1988 não entregava o que prometia. Nem van Basten, nem Gullit, nem Rijkaard mostravam o futebol apresentado no Milan, campeão europeu um mês antes.

Em sua coluna, João Saldanha conta uma anedota sobre a compra de uma seringa às duas da manhã em Roma. Ele precisava tomar uma injeção, não falou pra que, e um colega que foi comprar voltou com a polícia atrás. Acharam que ele estava traficando receita. Quem emitia a receita médica era Doutor Osmar, médico, mas também comentarista de futebol da TV Manchete.

19.06.1990

A Romênia aprovava no seu congresso a repressão policial e militar contra oposicionistas. Na Copa, os romenos empataram com a Argentina por 1 a 1 e se classificaram em primeiro lugar.

A Argentina também se classificou, mas em terceiro lugar! Se o Brasil vencesse a Escócia, os países hermanos se encontrariam em Turim pelas oitavas-de-final. O Brasil tinha problemas. Bebeto se lesionou durante treinamento, e governo, empresários e trabalhadores buscavam um acordo político para a estabilização da economia. O acordo buscava um meio do caminho para as demissões em massa previstas no setor público e privado e um congelamento das tarifas públicas por 60 dias.

Zélia Cardoso de Mello tinha protagonismo nas páginas de jornais e o governo Collor completava seu primeiro trimestre tão questionado quanto o time de Lazaroni nos primeiros jogos da Copa da Itália.

A União Soviética se despedia do Mundial sem entregar o ouro, com uma goleada por 4 a 0 sobre Camarões. No entanto, o sistema socialista soviético, este sim entregando o ouro, se despedia do mundo com a confirmação, do parlamento russo, da nomeação de Ivan Silaev como primeiro-ministro da maior e mais importante república soviética. O principal país entre os 15 que compunham a URSS se tornava um Estado soberano a fórceps, criando, inclusive, um partido próprio, rompendo assim o monopartidarismo, instituído desde 1920. Silaev prometia a privatização das empresas estatais russas.

A economia mundial sofria impactos significativos com a iminente dissolução da URSS. A Perestroika não parecia ser tão precisa — assim como o Plano Collor, no Brasil. O preço do ouro caía devido à quantidade assombrosa do metal que a União Soviética começava a depositar em bancos ocidentais em troca de dólares. Estimava-se que os soviéticos podiam negociar até 300 toneladas do mais precioso metal.

Nem o Plano Collor convencia, nem a Seleção. Lazaroni era criticado por não ter um plano. Antes de um jogo que pouco valia, na verdade só determinaria a escolha do adversário nas oitavas de final, o treinador brasileiro era acusado de não ter rumo.

O técnico da Argentina, o polêmico Carlos Salvador Bilardo, achava — com razão — que o Brasil era seguro na defesa. Ele afirmava que seria uma final, como vinha sendo cada jogo desde a derrota na estreia contra Camarões, e falou da condição de Maradona no jogo contra a Romênia: “Diego hoje quase não podia jogar. Sentia dores no joelho e no tornozelo. Isso dificultou sua atuação e de toda a equipe.”

Conhecido por artimanhas táticas, e não tão táticas assim, Bilardo disse que seu time tinha um mesmo esquema que implantaram desde 1986 no México e que, depois do título mundial, foi copiado por muitos. Inclusive, o Brasil passou a jogar com três zagueiros, acompanhando a tendência mundial.

Mas, para Saldanha, tinha de ser tudo ao contrário: três atacantes. Na verdade, ele se incomodava mais com os dois volantes do que com os três zagueiros em si. Ele queria ofensividade.

Às vésperas do jogo derradeiro da fase de grupos, Saldanha insistia: “Nossa seleção está jogando para não perder. Não foi assim que ganhamos três mundiais.”

Ao seu estilo, sempre bélico, João Saldanha atacou a trajetória de Lazaroni: “A rapaziada entrava na escola [militar]. E, com 20 ou 22 anos, saía com o pomposo título de professor de futebol sem nunca ter chegado perto de uma bola. Até hoje é assim e eles estão sempre impondo teorias. A mais triste é a da formação dos garotos de menos de 15 anos, que, sem saberem o que vão ser na vida, aprendem nas escolinhas de superpicaretagem, quase sempre dirigidas por homossexuais, a colocar e rotular posições defensivas.”

Sobre o 3-5-2, Saldanha disse que ninguém, nem o Brasil, poderia pretender aquela Copa sem atacar com pelo menos três. Que tinha de jogar no 4-3-3 e que não fazia mal nenhum que um dos quatro de trás atuasse como líbero, “ou o nome que queiram dar”, mas que com mais dois à frente da zaga era uma besteira. E clamava por três atacantes: “Não discuto quem seja, mas tenho preferências por Bebeto, Romário e Careca.” 

João Saldanha finaliza sua coluna criticando Paulo Roberto Falcão, que elogiou o esquema de Lazaroni: “Admira-me o Falcão, bradando por um esquema defensivo. Exatamente o [esquema] que o barrou na Copa de 1978, lá na Argentina quando ele ficou de fora e em seu lugar foi o Chicão. Esta concepção eu sempre detestei porque grosso nunca entrou no meu time. O futebol brasileiro é alegre e ofensivo”.

“Nossa seleção está jogando para não perder. Não foi assim que ganhamos três mundiais.”

20.06.1990

Romário ia pro jogo contra a Escócia no lugar de Muller. Se vencessem os escoceses, os brasileiros enfrentariam os argentinos. Muita expectativa para a mudança no ataque.

Muita expectativa para o possível encontro nas oitavas de final contra a Argentina. Muita expectativa frustrada na economia do País. Após uma longa reunião entre empresários, líderes sindicais e governo, não foi firmado um pacto. Zélia Cardoso de Mello disse que “Este país nunca esteve tão perto de um pacto social”, que previa suspender as demissões do serviço público por um lado e estabelecer uma política salarial baseada na livre negociação e, por sua vez, participação dos empregados no lucro das empresas.

Enquanto o Brasil vivia esse racha, a Alemanha vivia um processo de reunificação. Ninguém sabia o que ia acontecer politicamente depois de décadas de separação entre leste e oeste. Os ocidentais tinham uma seleção pra torcer naquela Copa. E no terceiro jogo, depois de vencer Iugoslávia e Emirados Árabes contundentemente, os alemães ocidentais empataram com a folclórica e inesquecível Colômbia de Higuita, Valderrama e de Freddy Rincón, autor do gol de empate que garantia a classificação colombiana pras oitavas, onde enfrentaria Camarões.

21.06.1990

A vitória sobre a Escócia confirmava o que o mundo esperava. Com gol de Muller, que entrou justamente no lugar de Romário, o Brasil continuava apresentando dificuldades e acumulava críticas da imprensa: “A terceira vitória do futebol feio” estampava a capa do caderno de esportes do Jornal do Brasil.

“Mais uma de um”, era o título da coluna de João Saldanha. “Um time excessivamente planificado para o meu gosto”, criticou e disse que, pelo que se viu, entre Romário e Muller, ele achava que tinha de ser o Muller.

22.06.1990

“A Copa Dunga”, chamou o JB a edição do Mundial na Itália, alegando falta de emoções devido aos poucos gols: média de 2,27 por jogo. Porém, dois duelos das oitavas de final tinham caráter de final, dada a magnitude: Brasil-Argentina e Alemanha-Holanda.

Os holandeses chegaram às oitavas com três empates, sem mostrar nada do favoritismo e da patente de campeões europeus. A Alemanha, por seu turno, demonstrava força pra ser campeã. Brasil e Argentina não eram nem sombra do que foram em Copas anteriores, mas eram brasileiros e argentinos duelando em uma Copa do Mundo.

Os anfitriões corriam por fora. Roberto Baggio ganhou admiração de Zico, que estava na Itália acompanhando a Copa, após um gol antológico, que combinou um jogo coletivo e o melhor de Baggio: drible e definição. Os italianos clamavam por Baggio e mais dez, que tinha acabado de ser comprado pela Juventus junto à Fiorentina por US$ 20 milhões.

Saldanha apontava que todos os sul-americanos se classificaram às oitavas, comemorava que Maradona não estivesse 100% e achava que o Brasil tinha um time formado, que Lazaroni não deveria mais mexer: “Por favor, cara, não mexa mais no time.” Até outro dia, João Saldanha dizia que o técnico deveria colocar três atacantes.

23.06.1990

Sobre declarações controversas, Collor acusava os EUA de colonialistas em discurso na reunião ministerial de balanço dos 100 dias. Ele reclamava acesso à tecnologia de ponta por parte dos americanos. Os EUA queriam, porém, investir em setores reservados ao capital brasileiro, como informática, mineração e aviação.

Ao mesmo tempo, sete mil operários ocupavam a fábrica da americana Ford em São Bernardo do Campo. O sindicalismo, no entanto, entrava em conflito. CUT (Central Única dos Trabalhadores) e CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) acabaram aos tiros numa disputa pela representação dos aeroviários em Guarulhos.

Em Berlim, o Checkpoint Charlie, uma guarita de controle fronteiriço entre os dois lados da cidade, era erguida por uma grua. O posto simbólico da separação das Alemanhas no Muro de Berlim seria destinado a um museu. No evento, o secretário de Estado soviético, Eduard Shevardnadze, propôs a retirada das tropas da cidade.

Tudo estava mudando. O futebol tinha um nítido desenho tático dominante e Saldanha não se conformava com um estilo defensivista. Na sua coluna, bem didática, ele cita as origens táticas do futebol, do 2-3-5, que só era possível graças à lei de impedimento da época, explica, e que isso não queria dizer que os times eram mais ofensivos, pois tudo dependia da posição dos “halfes” — como eram chamados os meias —, mas que quase todos jogavam com um meia central recuado, ou center-half: “Pronto, olhem aí o desgraçado do cabeça de área.”

“Quem tem medo se esconde atrás do papai ou da saia da mamãe. O Brasil só ganha a Copa se atacar.”

Crítico ao estilo de Lazaroni, Saldanha afirmava na véspera do duelo contra os argentinos: “O futebol brasileiro, pela música que canta, a do Zizinho, a do Didi, Gerson Jair e outros meio-campistas avançadores e craques. Quem tem medo se esconde atrás do papai ou da saia da mamãe. O Brasil só ganha a Copa se atacar.”

24.06.1990

Era domingo. Brasil e Argentina se enfrentavam, ao meio-dia, horário de de Brasília, em Turim. Nilton Santos e Bellini, em consonância com João Saldanha, criticavam o esquema “europeu” do time de Lazaroni. “As pessoas da CBF são muito vaidosas, mas esquecem que estão perdendo há 20 anos”, disse Bellini.

Nilton Santos afirmou que “estão brincando com o nosso prestígio” e pede pontas. Mas não Renato: “Ele joga pelo meio. Eu queria um ponta como Garrincha, Julinho, Sabará.”

Camarões eliminou a Colômbia graças a Higuita, que quis se apropriar da posição em moda de líbero e entregou a paçoca. A Tchecoslováquia passava pela Costa Rica e a FIFA recebia propostas para rever a lei de impedimento. Duas alterações estavam sendo analisadas: A “mesma linha” passava a habilitar o atacante, e o jogador de ataque que estivesse numa posição passiva não acarretaria em marcação de impedimento.

Iugoslávia e Espanha se enfrentariam em um outro duelo das oitavas de final e trazia um aspecto político que supostamente afetava o campo. Com toda a transição do regime soviético, os nacionalismos dos Bálcãs floresciam e a unidade iugoslava começava a ruir. Nessa época, os separatismos espanhóis, porém, não tinham a força que vieram a ganhar a partir dos anos 1990. Inclusive, a realização dos Jogos Olímpicos em Barcelona servia como símbolo da união espanhola.

25.06.1990

“Seleção da Era Dunga não supera arte de Maradona”, estampava a capa do Jornal do Brasil daquela segunda-feira de cinzas. Lazaroni lamentava, com razão, a derrota naquela que foi a melhor atuação do Brasil na Copa, mas nada além do título deixaria de ser encarado como fracasso.

João Saldanha reconheceu a atuação. “Dono do jogo”, disse o colunista. “E Maradona está lá. Numa jogada largou o companheiro na frente do gol. Gol para eles. Sim, dominamos o jogo. E daí? Quem vai fazer o gol?”, continuou inconformado com a ausência de mais atacantes. Saldanha não comentou nada sobre a vitória alemã sobre os holandeses num confronto bélico.

“E Maradona está lá. Numa jogada largou o companheiro na frente do gol. Gol para eles. Sim, dominamos o jogo. E daí? Quem vai fazer o gol?”

26.06.1990

Acabava, em tese, a Era Dunga. Acabava União Soviética. E os países da Comunidade Econômica Europeia (CEE) aprovaram a convocação para uma conferência que definiria uma unificação monetária. Um esboço de o que seria União Europeia estava sendo desenhado e tinha como símbolo a fase final da construção do Eurotúnel que ligaria Inglaterra e França por sob o Canal da Mancha, que faltava apenas 7,5 km para conectar o Reino Unido à Europa.

Zélia Cardoso de Mello anunciava abertura de mercado de importações e o fim do protecionismo para a indústria têxtil no Brasil. Esse era o cenário daqueles anos 1990 que se iniciavam com um florescer da globalização e marcando o fim do mundo dividido ideologicamente.

Na Argentina, em festa após a vitória sobre os brasileiros, o neoliberalismo era apresentado com a compra de 60% da Entel, a empresa estatal de telecomunicações do país, por parte da Telefônica Española e da Bell Atlantic dos EUA. Porém, a aquisição da participação se deu por conta da compra de títulos de dívidas externas do país. Entretanto, a estatal tinha sido entregue como garantia a empréstimos internacionais durante o período da ditadura cívico-militar. Um negócio “à Argentina”.

No futebol, porém, o país “estava mal, mas ia bem”, como diria outrora sobre a economia hermana, Carlos Menem. O time de Bilardo avançava e enfrentaria o vencedor de Iugoslávia e Espanha. A jogada de Maradona e o gol de Caniggia deixou o Brasil despedaçado. Um pedaço ficou na Europa e o outro voltava pro País junto com Lazaroni.

Dentre os que ficaram na Europa, Romário foi um deles e, segundo Tadeu de Aguiar, no JB, o Baixinho disse que não jogaria mais com a Amarelinha. Desapontado, disse: “Vi que a Seleção não era tudo aquilo com que sonhava.”

Sobre Lazaroni, Romário teria dito que “foi um técnico honesto e liberal, mas se abriu muito e deixou transparecer falta de liderança e comando”. E sua volta à Seleção estava condicionada a figuras como o médico da CBF, que entrou em conflito com o seu fisioterapeuta: “Daqui a três anos, se não existirem pessoas como Lídio Toledo na Seleção, é possível até que eu volte a jogar.”

“Ele queria que eu jogasse os 90 minutos contra a seleção da Umbria para provar que eu devia ser cortado. Não é uma pessoal confiável”, relatou o camisa 11. Ainda sobre Lídio, Romário disse: “Ele queria me deixar de fora como fez com o Clodoaldo em 1974, para aparecer. Os médicos só aparecem quando fazem alguma coisa especial.”

Já João Saldanha também disparava: “Espero que esse jogo da Argentina tenha marcado o início de um momento histórico em nosso país. Desde 1970, o futebol foi usado como veículo e tráfego de vaidades, mordomias, bocas, gastos fantásticos. Em 1986, no México, gastamos mais do que todas as delegações juntas. Ninguém foi preso.”

27.06.1990

Zélia decretou economia livre. O plano de modernização da indústria nacional previa uma drástica redução de todas as tarifas de importação e o fim da política protecionistas no País. O presidente Collor lançava o programa SOS Estradas para a recuperação das estradas.

Os caminhos do futebol brasileiro também estavam comprometidos. Paulo Roberto Falcão era o nome preferido para comandar os rumos da Seleção para o diretor de futebol da CBF, Jorge Salgado.

“Bebeu a água que a mamãe pediu para tomar cuidado.”

Saldanha ironizava a água supostamente benzida que Branco tomou. Chamou de conto do Chapeuzinho Vermelho, que “bebeu a água que a mamãe pediu para tomar cuidado.” Ah, Saldanha.

Restavam oito seleções depois que a Inglaterra eliminou a Bélgica e a Espanha caiu para a Iugoslávia, que, por sua vez, não sabia quanto tempo iria durar como país e jogava, sem saber, a última competição como República Socialista. 

28.06.1990

Lazaroni tinha acertado com a Fiorentina. O treinador não saiu pelo saguão junto com Ricardo Gomes, Renato, Mauro Galvão, Taffarel, Bismarck, Alemão, Mozer e Mazinho, ele preferiu usar uma saída alternativa, pelo setor de embarque.

A Tchecoslováquia, Estado em processo de desintegração, enfrentaria a Alemanha Ocidental, que vivia o processo inverso, de reunificação com o lado oriental. No leste do país, filas intermináveis nos bancos devido à unificação monetária. Ninguém queria ficar com o Marco oriental no bolso. Na Berlim ocidental, os supermercados retiraram os itens de suas prateleiras já que poderiam ter prejuízo ao aceitar a moeda dos ex-vizinhos.

A edição seguinte do Jornal do Brasil trazia uma preocupação, por parte de alguns alemães, com os triunfos na Copa. Alguns ocidentais preferiam o fracasso no Mundial para frear o nacionalismo alemão. Segundo a matéria, alguns veículos acabavam estimulando a superioridade alemã, como no caso de um jornal de Hamburgo, após a vitória sobre a Iugoslávia, que trazia a manchete: “Matthäus fuzila os Iugoslavos.”

29.06.1990

Zico defendia que somente jogadores que atuassem no Brasil defendessem a Seleção. Zagallo queria um técnico jovem e “livre de táticas”. Com essas idéias, o Brasil iniciava um novo ciclo no futebol. Já o técnico da Argentina saiu em defesa do trabalho de Lazaroni. Disse que o time era organizado e que abdicar desse esquema utilizado seria retroceder 10 anos.

O futebol mundial, no entanto, mudava. A International Board decidia mudar a regra do impedimento. A partir de 25 de julho de 1990, o atacante estando na mesma linha do defensor deixava de estar fora de jogo.

“No campo, mandamos um time de jogadores e não um grupo de mercenários que apenas queriam saber do bicho em dólares. Era Dunga, Era dos enlatados, Era da mentira”

Saldanha bradava contra o que ele chamava de “defensivismo e sistema de jogo moderno”, atacava os conceitos concebidos como avançados: “tal sistema foi exercido em 1933, exatamente pelos italianos. É aqui que estamos. Basta ir nos arquivos de jornais.”

“No campo, mandamos um time de jogadores e não um grupo de mercenários que apenas queriam saber do bicho em dólares. Era Dunga, Era dos enlatados, Era da mentira”, disparou João.

30.06.1990

Noutra coluna, Saldanha falava — com total razão — que a Itália era nata do futebol mundial. Mas quando o Parma anunciava a contratação de Taffarel, sem conhecer, talvez, o poderio da Parmalat e seus planos no futebol, o colunista atacou a agremiação: “Comparando e sem ofender os brios, o Parma, em nossa escala de valores, seria o Itaperuna.”

Sua coluna era intitulada como “Mais um…”. Os jogadores que atuavam no exterior causavam desconforto em muitos. Acostumados a ter sempre os melhores brasileiros nos gramados do país, esse sentimento perdura a cultura nacional.

Enquanto isso, duelariam a Argentina de Maradona contra a Iugoslávia de Stojković pelas quartas de final no mesmo dia que Irlanda, que ninguém dava nada, e a badalada Alemanha, favoritaça ao título.

01.07.1990

Nascia a Super Alemanha. Desde a hora zero desse dia, o mapa da Europa sofria uma alteração na sua divisão geopolítica. Na prática, o que acontecia era a tal unificação monetária que causou alguns transtornos, sobretudo em Berlim, com alguns desabastecimentos no lado ocidental e filas em bancos na parte oriental.

Em campo, a “Super Alemanha” não era tão super assim para João Saldanha, que perdeu a confiança após o empate contra a Colômbia. “Os alemães empataram a duríssimas condições e acho que se não fosse o idiota do Higuita, com seu futebol alegre, a Colômbia ainda poderia estar por aí”, sintetizou ao seu estilo.

Ainda sobre o goleiro colombiano, Saldanha concluiu: “glorificaram o pobre idiota na disputa das finais da Libertadores, foram campeões com Higuita guindado à categoria de herói nacional. Pouco mais, e até o Simón Bolívar correria perigo. Agora, o Higuita estragou a festa com suas presepadas que o futebol sério não aceita”.

Em Florença, a Argentina passou pela Iugoslávia nos pênaltis, consagrando Goycochea que defendeu duas cobranças. E, em Roma, a Itália passou pela Irlanda por 1 a 0, com gol salvador de Salvatore Schilacci, considerado, até ali, o melhor da Copa para Saldanha.

02.07.1990

Em Nápoles, a Inglaterra — que ocupava as páginas do Jornal do Brasil muito mais pelos atos e pelo temor causado pelos hooligans do que pelo futebol jogado — venceu a surpresa da Copa, Camarões, na prorrogação, por 3 a 2, com gol de Lineker, e chegava à semifinal em jogo eletrizante pra calar os críticos.

Berlim estava em festa. A Alemanha passou pela Tchecoslováquia em Milão por 1 a 0, gol de pênalti de Matthäus. Quem apitou à marca da cal foi o árbitro austríaco Helmut Kohl, homônimo do premiê em exercício da República Federal Alemã. A festa em Berlim se dava, sobretudo, pela “chegada do capitalismo”, como intitulava a matéria do Jornal do Brasil.

Não existiam mais, na prática, as Alemanhas Ocidental e Oriental. Muito em breve só existiria uma bandeira da República Federal da Alemanha. João Saldanha apontava, no entanto, quanto ao nome verdadeiro de outro país, da seleção recém-eliminada de Camarões: “Uma nota quase desesperada a do embaixador de Cameroon à imprensa que seu país não se chama Camarões. Cameroon realmente não nada a ver com camarão.” Sobre os semifinalistas, Saldanha disse que a Itália que enfrentaria a Argentina, em Nápoles, era a favorita: “Sou dos que acham esta Copa imperdível para os italianos”.

“Sou dos que acham esta Copa imperdível para os italianos”

03.07.1990

Se a Alemanha se unia, Maradona dividia a Itália. A arte de capa do caderno de esportes do Jornal do Brasil ilustrava Diego serrando o país ao meio após declarações sempre ácidas do camisa 10 argentino diante do confronto: “Todos estão pedindo ajuda aos napolitanos, que nos demais 364 dias do ano não são considerados italianos”.

Maradona elevou o Napoli à potência no futebol italiano dos anos 1980. Sua chegada trouxe dois inéditos scudetti. O único clube ao sul de Roma a gozar da glória nacional. Os anos 1990 chegavam com o calcio sendo o destino de todos os melhores. Uma Premier League antes do tempo.

O destaque da Tchecoslováquia, o atacante Tomáš Skuhravý, acertava com o Genoa e o recém-promovido à Série A, o Parma, com o suporte da Parmalat, atraía jogadores como o sueco Tomas Brolin e o goleiro brasileiro Claudio Taffarel. João Saldanha não se conformava: “Este clube da segunda ou terceira, mas que compra em dólares, e o Internacional, glória do futebol brasileiro, vende também em dólares.”

04.07.1990

Em Napoli, o dono da casa levou a melhor. Maradona correu para os braços de Goycochea depois da defesa no pênalti cobrado por Michele Serena. A Argentina eliminava a Itália em seu próprio território, mas sob posse de Diego Armando Maradona.

Caniggia empatou o jogo, fazendo o único gol sofrido pelos italianos até ali e levou o jogo pros pênaltis nos quais Goycochea brilharia. Nesse jogo, porém, a Itália não parecia estar jogando em casa: “A verdade é que jogou o tempo todo com medo e esperando o time argentino na sua linha média. E o paredão Zenga? O gozado é que a Itália tomou um gol em toda a Copa e foi desclassificada. Este jogo demonstra com fartura que Copa do Mundo tem que ser jogada com cabeça”, finalizou sua coluna no Jornal do Brasil, João Saldanha.

“O gozado é que a Itália tomou um gol em toda a Copa e foi desclassificada. Este jogo demonstra com fartura que Copa do Mundo tem que ser jogada com cabeça”

05.07.1990

Brasil e Itália eram os únicos tricampeões mundiais até 1990. A derrota da Inglaterra para a Alemanha em Turim determinava que haveria, de uma forma ou de outra, um terceiro país tricampeão do mundo. Argentina e Alemanha fizeram a final de 1986 e uma rivalidade se construía.

Aquela noite de Turim, no entanto, virou livro. Não era pra menos. Uma noite mágica. O chute de Chris Waddle na trave já na prorrogação representou exatamente o que deve ter sido sentimento inglês. Nunca se viu uma Inglaterra tão capaz de conquistar uma Copa como em 1990. E foi novamente num disparo de Waddle que o sonho dos ingleses acabava. Mas aquela noite ficaria pra eternidade:

“Um belo jogo e bem jogado. E em futebol é muito importante o domínio do jogo, e depois do gol alemão, os ingleses passaram a atacar com todas as forças. Foi visível que os alemães queriam apenas o fim dos quarenta e cinco. Mas Lineker não deixou. Este foi o mais bonito, bem jogado e disputado jogo da Copa”, resumiu João Saldanha.

06.07.1990

Fernando Collor desembarcava em Buenos Aires no dia anterior e articulava com Carlos Menem uma integração comercial entre os dois países. Ambos os países viviam tempos de hiperinflação. Quem também buscava ajuda além das fronteiras era Mikhail Gorbachev. O presidente soviético pediu auxílio à Margareth Thatcher. A dívida externa soviética saiu do controle desde a medida de Gorbachev, no final de 1989, de descentralizar o comércio exterior.

Carlos Bilardo também precisava de ajuda para preparar o time pra final. A Argentina, que não contaria com Ricardo Giusti, expulso contra a Itália, nem Batista, nem Olarticoechea, nem com Caniggia, autor dos gols contra Brasil e Itália, fundamentais para a chegada à final. Todos os três ficariam de fora por receber dois cartões amarelos.

07.07.1990

Collor voltava da Argentina com um acordo para criação de um mercado comum para 31 de dezembro de 1994, último dia de seu mandato, em tese. E a União Soviética foi condicionada a adotar uma política econômica de mercado para receber ajuda do Ocidente. Era capitalismo cravando o punhal no peito do comunismo e girando.

Em Bari, Itália e Inglaterra, sem nada a perder, fariam um duelo pra definir o terceiro colocado. Uma medalha de honra estava em disputa por duas seleções que fizeram bonito.

08.07.1990

O tempo não pára. Cazuza morria no dia anterior, vítima de complicações derivadas da Aids. Essa sua música seria gravada dois anos mais tarde pela banda argentina Bersuit Vergarabat. O grupo argentino compôs “Toco y me Voy”, uma faixa futeboleira cujo título ficou conhecido no Brasil por Galvão Bueno, a cada jogo contra a Argentina quando dizia: “é o famoso TOCA ME VOY dos argentinos”. O famoso narrador também insistia que a pronúncia de Ayala era “ATCHÁLA”, sempre que o zagueiro entrava em campo contra o Brasil. Mas, na verdade, com sotaque portenho, se pronuncia “ASHALA”.

Em jogo à altura do que apresentaram Itália e Inglaterra na Copa, os italianos ficaram com o bronze em homenagem às noites mágicas que os anfitriões receberam. Os ingleses voltariam pra casa de forma triunfal sem esperar, e esta história fica pra outra edição, quando adentrarmos na figura do homem que fez este sonho possível: o técnico Bobby Robson. Se bater uma curiosidade, vale assistir ao documentário “More Than a Manager”, de 2018. Fabuloso!

09.07.1990

O Jornal do Brasil intitulava na capa do seu caderno de esportes: “Final digno de Copa ruim”. Essa idéia se difundiu, sobretudo no Brasil, devido à quantidade de empates e jogos decididos nos pênaltis. “Futebol bom” é comumente associado ao número de gols, mas, ao revisitar cada jogo, o que se vê é o melhor futebol possível para a época. Mas essa é outra discussão.

O pênalti controverso, marcado pelo mexicano Edgardo Codesal, era digno da opinião de Saldanha, mas era o quarto dia sem coluna de João Saldanha. 

10.07.1990

Os finalistas desembarcavam em seus países. A Alemanha levava o seu terceiro troféu pra casa, agora um país maior do que quando embarcou para a Itália. A seleção da Argentina trazia as suas lágrimas — por uma Copa tão sofrida ser decidida por um pênalti pra lá de duvidoso — e era recebida por uma multidão na Praça de Maio. Mais uma vez, João Saldanha não publicava a sua coluna.

11.07.1990

Gorbachev era reeleito líder do Partido Comunista por ampla maioria dos votos. Não é de surpreender que ninguém mais quisesse assumir um cargo com tempo de vida nitidamente datado. Não à toa, seis candidatos renunciaram à candidatura e somente Teimuraz Avaliani concorreu ao posto. Fica a pergunta: o que ele poderia fazer para reverter o quadro ou o que ele faria para acelerar o fim da União Soviética?

12.07.1990

O futebol brasileiro retomava seus contornos. Mazinho, do Vasco, que estava no elenco da Seleção Brasileira, era mais um a ser vendido para o futebol italiano. Seu filho Thiago, nasceria exatos nove meses depois, em terras italianas. Saldanha, se tivesse escrito a sua coluna, certamente teria criticado a transferência, ainda mais para o Lecce!

13.07.1990

Morre João Saldanha. Manchete de capa e mais duas páginas no Jornal do Brasil. No mesmo dia, o jornal trazia a notícia da cisão do Partido Comunista Soviético depois de 70 anos. Saldanha, que foi presidente do — clandestino — Partido Comunista Brasileiro, nasceu no ano da Revolução Bolchevique e levava consigo seu vasto conhecimento, seu temperamento singular e seu apego por um futebol muito diferente do que vinha sendo jogado no mundo. Ele não resistiria à burocrática Seleção de 1994.

“Eu não acreditei. Ele não tinha a menor condição e disse que ia. Já tinha fugido de hospital meses antes e contrariou médicos mais uma vez. O avião quase parou no Recife, de tão mal que ele estava. Teve problemas respiratórios no voo. Quando chegou na Itália, desembarcou de cadeira de roda”

Assim contou Paulo Stein, narrador da extinta TV Manchete, ao UOL, em matéria de José Ricardo Leite e Pedro Ivo Almeida. Stein ainda contou que Saldanha chegou com uma mala na redação, pediu que o levassem ao aeroporto e comprou sua própria passagem em um cartão de crédito pessoal.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.