Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Cristiane

Fotografias: Fernando Martinho

No mais alto

A maior artilheira de futebol em Jogos Olímpicos — independente de gênero. A dona do gol mais bonito, feito na Copa do Mundo de 2019. Considerada a terceira melhor jogadora de todo o planeta em 2008. Cristiane Rozeira de Souza Silva, 35, é quem sempre foi. Paulista, fruto da união de Seu Euclídes, caminhoneiro, com Dona Ivete, empregada doméstica.

Aos seis, descobriu a paixão e vocação: chutar bola. Quando não ganhava o principal instrumento de jogo, usava a cabeça de suas bonecas com propósito de substituir o tal corpo sólido e redondo. Fez-se dona da rua, com toda sua teimosia. Fez-se dona do campo, com todo o seu talento. 

Rodou o mundo. Saiu de Osasco, na grande São Paulo, e foi parar na Alemanha. Passou pela Rússia, aventurou-se na França, encantou-se pelos Estados Unidos e sofreu na China. Chorou com as injustiças. Vibrou com as medalhas. Cabeceou o preconceito. Enfrentou o assédio. 

Hoje, além de nome e sobrenome, tornou-se reconhecimento e inspiração. E quer mais. Não se contenta em ser limitada. Já que driblava os nãos na infância, por que deixará de ser a “bocuda” que se tornou — após guardar tanta timidez dentro de si?

Ao lado de Ana, esposa, Odara, cachorrinha, e Mocinho, calopsita, constrói a família e o dia a dia em um apartamento na Baixada Santista. Quer ter filhos. Quem sabe, encher a casa. Ainda está longe de pendurar as chuteiras, mas almeja, para o futuro, a posição por trás das quatro linhas. Já é o legado para a modalidade, mas ainda quer estrutura. Se, sem apoio e mídia, sempre esteve ON, imagine quando a equidade calçar completamente as chuteiras. 

Começando pelo começo. Como foi o início, aquela dicotomia: bola ou boneca. Como foi isso pra você? Em que momento percebeu que queria brincar com bola e quais as barreiras que você percebeu? Teve a história do teu irmão mais velho, que ele preferia brincar na terra e você entrava no campo… resumindo, como o futebol entrou na sua vida e como foi esse início?

Bom, eu não sei a quem eu puxei — já que meu pai é um baita perna de pau e não sabe fazer nada —, mas eu tenho dois tios que jogavam bola, inclusive um canhoto… e, eu não sei… desde pequenininha, a bola era muito mais um atrativo pra mim do que a boneca, né?

Tinha aquela coisa, na época, de que: “ah, a menina tem que estar com a boneca, usando vestido”, e eu já era o contrário. Gostava de usar shorts, camiseta, porque eu me sentia mais confortável para brincar, me deixava mais à vontade. Eu era uma criança, eu queria brincar. 

Mas, para as pessoas, eram coisas e brincadeiras de menino — as brincadeiras que me deixavam mais à vontade e que era jogar o futebol. Então, eu costumo dizer que eu nasci com aquilo. Não foi uma coisa que com o tempo eu fui aprendendo e falando: “não, eu quero jogar futebol”. Eu acho que nasci com essa decisão, porque tem algumas crianças que com o tempo vão escolhendo fazer várias coisas, e eu não, era só o futebol. Não tinha nada que me deixava mais feliz, uma diversão maior que ele.

Comecei super novinha. Meu irmão ia pra escolinha e eu já ia junto — com cinco anos, se não me engano. No término, quando dava uma parada, ele ficava brincando de terra — zoo sobre isso até hoje — e eu entrava em campo: corria com a bola para o gol, fazia o gol, aí voltava pra outro gol… aquela coisa toda, sabe? As pessoas falavam pra minha mãe: “olha, sua filha vai jogar bola”. E ela: “não, não vai jogar bola, isso é coisa de menino!”. Tinha toda aquela coisa de que a bola era pro menino e a boneca pra menina. 

Tinha toda aquela coisa de que a bola era pro menino e a boneca pra menina.

Tem um vídeo em que o Cristiano Ronaldo está jogando a bola pro filho e atrás está filha dele, copiando o movimento, querendo chutar também… mas ele só rolava a bola para o menino. Teve algum caso em que você queria jogar e as pessoas empurravam outras coisas? Um momento que você lembra de ter sido tão marcante o não estímulo de jogar bola?

Várias situações de “ah, você não pode jogar por ser menina”, mas por eu ser tão teimosa… costumo dizer, tem criança que quando você toma alguma coisa dela, ou insiste dizer que ela não pode fazer, cria-se um trauma. Mas eu era uma teimosa. As pessoas diziam “você não vai jogar bola, vem pra dentro de casa”. Alguém piscava o olho, tava eu na rua de novo.

Eu pedia pros meninos ficarem na esquina olhando pra ver se minha mãe estava chegando do trabalho, porque a louça tinha de estar lavada. Aí eu falava: “fica ali agachado, olha ali pra pracinha, vê se minha mãe tá subindo do ponto de ônibus”. 

Quando via que ela estava chegando, saia correndo pra dentro de casa, subia na cadeira — com pé podre, né, como se ninguém tivesse visto que eu tinha jogado bola… todo preto, sujo, com tampão do dedo estourado — e começava a lavar louça. “Tá vendo, mãe? Tô lavando a louça…não saí!”… toda suada! Aí ela olhava, entendia que eu tava na rua e dava risada.

Então, por mais que tivessem momentos de: “não, você não vai fazer isso”, eu — na teimosia — acabava fugindo pra poder fazer.

Você acha que essa estrutura machista da sociedade trouxe para você, em algum momento — talvez quando sua mãe te interrompia, não deixava jogar bola —, um pensamento de: “putz, eu poderia ter nascido menino!”, ou isso nunca passou por sua cabeça? 

Eu não entendia o porquê de eu não poder fazer aquelas brincadeiras. Eu não entendia o porquê de eu não poder jogar bola, empinar pipa, rodar pião… não entendia o porquê de eu só ganhar panelinha, vassoura ou boneca… eu não entendia! Não via graça naqueles brinquedos! 

Quando eu ganhava boneca e não ganhava a bola, mesmo tendo expectativa de ganhar uma, eu arrancava a cabeça dela. Talvez para que as pessoas pudessem entender que “eu quero ganhar uma bola!”… então, eu cortava todo o cabelo, arrancava a cabeça e virava meio que uma bolinha. 

No mercado, tinha aquelas bolas de plástico, “dente de leite”, e eu ficava com olhinho… de canto… olhando… e sabendo que “poxa, não posso ganhar uma bola, não posso chutar uma bola…”. 

Não julgo minha mãe e suas ações do começo, porque, talvez, ela tenha sido criada assim. Uma coisa que foi levando de um para outra, de não ter o entendimento que ela poderia ter tido essas brincadeiras. Também tinha a preocupação de eu me machucar ou tomar porrada dos meninos. Uma sensibilidade para que eu não sofresse numa brincadeira que se entendia ser só deles. 

Por isso, não tenho esse julgamento de “ai, poxa, minha mãe fez isso”. Não, de maneira alguma! Entendo que ela não tinha conhecimento e aprendeu conforme se passou o tempo, assim como a gente aprende. Isso é de época. Infelizmente, é como se é criado nas épocas. 

Eu passava por cima das dificuldades, simplesmente, para jogar bola. Claro, tinha momentos de tristeza? Tinha. Queria ser amiga dos meninos e das meninas, mas, em determinados momentos, tentava me aproximar delas e, como eu vivia suja — pé sujo, cabelo todo avoado, cheio de grama, porque rolava no chão —, então, as meninas não gostavam de ficar perto. Não sei se era por estar suja, ou por eu andar com os garotos. Então eu acabava tendo mais vínculo com eles.

Então, você se sentia muito deslocada por não ser acolhida pelas meninas, trouxe alguma mágoa? Estar entre os meninos foi bom e desenvolveu você mais? Quando começou a não dar mais liga? 

Existiram os dois lados. Tinha o lado da aproximação com algumas meninas não rolar, mas havia algumas que não se importavam e não viam problema de eu estar com elas. E, também, tinha os meninos que falavam: “vem cá, vem jogar bola com a gente!” e os outros que — talvez por tomar os dribles e não gostarem — diziam: “ai, menina-macho, sai daqui! vai lavar louça”.

Eram dois pesos, entendeu? Tanto negativo quanto positivo. Óbvio, como criança, eu ficava chateada e chorava. Eu tinha o cabelo curtinho. Minha mãe cortou ele, não sei se por facilidade, porque era mais difícil ter de ficar cuidando toda hora. E, realmente, na época a gente não tinha condições financeiras. Lavávamos o cabelo com sabonete, inclusive. 

Só que como eu não me vestia igual “menina” — não tinha lacinho, vestido, aquelas coisas todas — de camiseta e shorts, parecia mesmo mais um garoto. Então, no meio deles, rolavam algumas piadinhas que me faziam mal e, aí, chorava. Não importava que eu jogava futebol, o short e a camiseta… eu era uma menina! Era uma coisa que me fazia mal… mas, depois, estava lá, de novo, enfrentando. Uma coisa que não me afastava das pessoas. 

Eu não me vestia igual “menina” — não tinha lacinho, vestido, aquelas coisas todas — de camiseta e shorts, parecia mesmo mais um garoto.

E ter jogado com os meninos — entre as crianças —, tudo bem, né? Mas tem uma idade que não dá mais. Dá pra insistir mais ou tem que ter uma linha de corte, com 11, 12, 13 anos? O que você acha da formação da base no começo? 

Acho que, em termos de desenvolvimento, pra gente, seria ideal treinar só com as meninas. A gente é muito carente. A gente escuta muitas críticas na fase adolescente-adulta de que “ai, diminui o gol, faz não sei o quê”… e não é isso! É porque nós temos um atraso muito grande!

Um menino em uma categoria de base, às vezes, com sete, oito anos, já está jogando futsal. Ele já tem um lugar pra fazer aquilo. E a gente não tem. Nós não temos! 

O ideal é ter esse início em lugares que já acontecem. Já se vê escolinhas com preparação para as meninas… isso é muito importante. É claro que, quando você é criança, não consegue enxergar tanta desigualdade. Mas, quando entra na fase de adolescência, já sente a diferença.

Tem meninos que a gente costuma fazer amistoso — hoje não muito —, mas fazíamos amistoso com sub-15 em que os meninos pareciam ter 20, porque o desenvolvimento deles era maior. 

Nessa fase, a gente não achava muito ruim não. Tinha que ter a parte do corpo e, pra gente, é bom usar o corpo a corpo. A gente sabe que não vai ganhar na velocidade dele, então, sabemos que tem de fazer a bola rodar, e não tentar apostar corrida com um menino. Não vai ganhar dele nessa idade — da adolescência pra lá, não vai ganhar. Tem de ganhar na bola.

Em termos de preparação, não acho ruim, nessa fase já adulta. Mas, em desenvolvimento, o ideal é ter um local pra começar o trabalho. Para que isso possa ir crescendo e, quando chegar numa fase adolescente-adulta, não ficar escutando ladainha de que “precisa diminuir o gol, porque não tem altura”. 

O ideal é ter um local pra começar o trabalho. Para que isso possa ir crescendo e, quando chegar numa fase adolescente-adulta, não ficar escutando ladainha de que precisa diminuir o gol, porque não tem altura.

Aos 14 anos, vai morar sozinha e jogar no Juventus. Entrou em campo a timidez. Você disse que se retraía, que guardava tudo. Eram sintomas das dificuldades em se enturmar lá atrás, na sua rua, onde as outras meninas se distanciavam. Há essa relação? Como foi o começo no clube da Mooca?

Lógico que a gente evolui, mas eu sempre fui muito retraída, né? Guardava as coisas pra mim e chorava. Não era uma criança explosiva também. Guardava e não colocava pra fora. Era muito, muito, muito tímida. 

Essa mudança de casa aos 14 é mudar de casa aos 14. Uma criança. Tinha toda aquela dificuldade de mudar de escola e viver com outras meninas de outros estados. 

No primeiro momento, quando eu passei nos testes, não queria ficar. Chorei bastante e falei pra minha mãe que não ia ficar longe deles, longe dos meus amigos da escola, da rua… foi quando meu irmão me convenceu e disse: “Não é teu sonho? Não era o que você queria? Conseguimos um lugar não tão longe de casa e que tem outras meninas. Um lugar que está te acolhendo. A oportunidade do primeiro clube está aqui!”. 

Aí, eu parei de chorar e falei: “Ah, vamos lá! É isso que eu queria pra minha vida mesmo!”. Comecei, no dia a dia, conhecendo e conversando com as meninas, a me adaptar e me integrando ao grupo. 

Eles falavam: “você tem que estar em casa ajudando sua mãe! Coisa de homem, de moleque! Sai da rua, menina!

Josias. Se Cristiane fosse uma cidade, teria uma estátua? E o Ary, seria o nome da avenida principal? Conta como foi a história deles na sua vida e a importância em sua carreira. 

O Josias foi uma benção muito grande. Não tínhamos condições financeiras. Morávamos no quintal da minha avó, em dois cômodos, que só foi ampliado quando minha irmã nasceu. Meu pai era caminhoneiro e minha mãe empregada doméstica, então, não tínhamos dinheiro. Não tinha como minha mãe tirar do arroz e feijão e comprar uma chuteira ou material esportivo pra mim. Não tinha como isso!

Ele sempre me via jogando perto da casa dele, então, ele falava: “Olha, dona Ivete, a sua filha tem talento! Deixa eu colocar ela numa escolinha!”. E minha mãe sempre respondia: “não! minha filha não vai jogar bola!”, aquela coisa. 

Insistia várias vezes, até ela ceder. Isso porque começou acontecer algumas situações… eu sempre chegava em casa chorando porque algum vizinho tinha me xingado. Não era nem criança, né, era vizinho. Adulto. Eles falavam: “você tem que estar em casa ajudando sua mãe! Coisa de homem, de moleque! Sai da rua, menina!”…  aquilo me deixava chateada, né, você é uma criança… escutar esse negócio de um adulto… de uma criança já é ruim, imagine escutar de um adulto. E, aí, minha mãe falou: “quer saber? Ela vai! Minha filha vai jogar bola sim!”. Acabou cedendo e ele — seu Josias — pagou a escolinha, comprou material, comprou uniforme.

Eu ia para o treino andando. Algumas vezes, minha avó me dava R$ 1, que, na época, era o preço da passagem. Guardava para volta, porque sempre estava mais cansada do que na ida. Levava quase uma hora até treino. Tinha 12 anos e ia andando. Não tinha tanto perigo como tem hoje.

Nisso tinha o tio Ary. Ele era o treinador da escolinha e acabou virando meio que um “pai protetor”. Quando entrei, só tinha meninos e eu era a única menina, né, então, aqueles olhares todos… “nossa o que que essa menina tá fazendo aqui? Ela vai jogar futebol?”… aquela coisa de “será que ela joga mesmo?”.

Quando comecei a jogar, ele viu que tinha alguma coisa diferente. Eu era meio de meio-campo ainda, mas ele disse: “não, está no lugar errado! Tem que fazer gol! Vai para frente!”. Começou a ver qualidade em mim. 

Mas também começou aquela coisa de apanhar mais dos meninos, porque eu dava drible e não aceitavam. Tinha aquele que tirava um sarro, tinha aquele pai que gostava de fazer uma piadinha: “aí tá tomando drible da menina”. Toda essa situação. Em um campeonato que eu fui inscrita, entrei em campo e o treinador do outro time olhou e não gostou. Fiz gol, dei passe e a gente ganhou. Aí, ele foi reclamar: “não, não pode! Tem que ter menino no campeonato!”.

Foi quando o Ary pensou em criar um time feminino, porque não dava pra ficar apanhando ou não jogar. Ele tentou montar uma equipe. Naquela época, não tinha isso de base e de idade. Então, eu, com 12, jogava com menina que tinha 16, 17, 18… super pequenininha no meio das mais velhas. Foi quando ele falou: “não, pera, eu preciso fazer ela estar com outras meninas”. 

Os dois foram duas pessoas muito importantes na minha vida, que me ajudaram com todo esse começo. Na parte financeira e nas dificuldades, já que minha família não tinha condições para isso.

Jogou futsal, soçaite e campo. Quando você olha pra trás e vê a sua formação, o que desenvolveu — como seu cabeceio — e vê as novas gerações, o que você acha que as meninas têm que você não teve e o que elas não têm que você teve?

Olha a rua me ajudou muito, viu? Vou ser bem sincera. Porque eu não gostava de jogar futsal. Achava a quadra pequena. Eu sempre fui uma jogadora leve — óbvio que as características mudam —, mas eu era muito leve e muito rápida. Queria correr, não tinha espaço. Não tinha muita paciência. Claro, eu fui aprendendo as malandragens do futsal: de pisar na bola, na proteção, do espaço mais curto para driblar… mas eu sempre gostei do campo em si.

E, essa parte de cabeceio, sempre gostei de cabecear. Sempre gostei do: “vai para linha de fundo, coloca a bola, vou tá na área”. Porque a gente nunca teve um trabalho de desenvolvimento de salto. Hoje a gente tem, mas eu não tinha. Como é que eu saltava daquele jeito, se eu não tinha um trabalho para isso, não tinha uma musculatura? Eu nem sabia o que era academia direito. Eu fui malhar com quase 17 anos e não tinha noção de o que precisava para ajudar no desenvolvimento de corrida, de explosão, de força. A parte de suplementação, eu nem sonhava o que era… acho que tem coisas que a gente acaba tendo, sabe, parece besteira falar… “Mas como é que você já tinha um cabeceio?”. Não sei, sempre gostei.

Hoje, claro, consigo me desenvolver melhor. Acho que o que falta e o que vem acontecendo aos poucos é a base. A falta da base. A menina precisa se desenvolver. Hoje, eu tenho muito mais a minha perna esquerda do que a direita, mas você pega um garoto, ele tá treinando tudo. Faz todas as coisas já novinho. Tem todo um desenvolvimento, um trabalho de correr… como é que usa o braço, como é que é a passada, como é que é o movimento de arranque… coisas que a gente não tem. Nós não tivemos isso na época, mas, aos pouquinhos, vem acontecendo. Para uma menina não passar dificuldade que eu passei — em fazer academia com quase 20 anos, de não saber o que é suplementação — e atrapalhar no desenvolvimento. No futebol europeu e americano, elas já têm. Por isso, acabam saindo na nossa frente.

A rua me ajudou muito, viu? Vou ser bem sincera. Porque eu não gostava de jogar futsal. Achava a quadra pequena. Eu sempre fui uma jogadora leve  e muito rápida

2004. Jogos Olímpicos. Você fala que foi quando seu bairro te aceitou. Ali foi um alívio? Foi uma sensação de “agora eu sou a Cristiane Rozeira de Souza Silva, agora eu posso ser eu”?

Acho que em 2003. Foi meu primeiro Pan (os jogos Pan-Americanos são um evento multiesportivo com apenas países do continente americano). Foi quando eu fiz o gol de ouro para a primeira medalha da gente. Eu era até reserva na época, né, então… acho que ali foi quando… “Nossa, olha, tô ficando importante agora! As pessoas não me xingam mais, estou passando de carro de bombeiro na rua!”. 

É engraçado. Não sou muito de guardar mágoa, de nutrir muito isso das pessoas não. Mesmo sendo aquelas que fizeram coisas que me machucaram bastante. Eu só olhava as que me crucificaram, quando eu era mais novinha, pedindo foto, pedindo autógrafo… caraca, o mundo dá voltas, né? É meio doido mesmo. Um dia você é meio que ninguém e, no outro, as pessoas estão querendo tirar foto… depois que eu voltei do Pan aconteceu isso. Depois dos Jogos Olímpicos mais ainda, né, porque foi uma primeira medalha de prata, já tinha sido artilheira na primeira olimpíada… então deu um boom muito maior em termos de imagem — não quanto se tem hoje, mas para a época — porque eram os jogos que estavam em canais abertos para as pessoas poderem acompanhar.

Ida para a Alemanha. Você teve dificuldades somente no início? Foram dois anos e meio. Você disse que evoluiu seu jogo, que era muito de drible, e lá o jogo era mais de passe e físico. Além do drible, o que você trazia da formação de base que as atletas de lá não tinham? Alguma “malandragem” que você aprendeu na rua, por exemplo…

Foi uma mudança muito louca. De temperatura, de nevar todos os dias e eu ter de treinar com pé nela. Eles demarcavam o campo com aquela tinta laranja, a bola laranja e tinha jogo mesmo com a neve caindo. Foi um impacto muito grande.

No meu primeiro jogo, minha chuteira ficou na sauna para eu poder jogar, porque tava muito frio, mas não adiantou nada. Pisei na neve e acabou o quentinho da chuteira… eu também não tinha camiseta térmica, não sabia como eram essas coisas, porque não tinha acesso e nem condições para isso. Entrei só com a camisa do jogo e, nossa, pensei que o meu peito ia cair congelado… muito frio! Tudo congela! Entrei no segundo tempo e saí ainda no segundo tempo  por não aguentar. Foi um impacto muito diferente para mim… e, em termos de estrutura física, elas já eram muito fortes… eu brincava: “cara, o que vocês comem quando são crianças?”… tinha menina com a minha idade, de 19 anos, que era três vezes maior. 

Naquele primeiro clube (Turbine Potsdam, 2006-2007), o treinador não soube entender que tinha uma jogadora brasileira com diferencial das outras alemãs: o drible. Elas eram mais contato físico, mais o toque, mais velocidade. Mas ele não gostava muito que eu driblasse, então, cheguei a jogar na lateral esquerda.

No Brasil, se eu sou volante, sou volante. Lá não… você é volante, mas você vai jogar na zaga, na lateral, porque europeu já se tem isso há muito tempo. A gente vê que o futebol masculino vem mudando muito isso, mas lá eles têm essa característica com a menina e com o menino… “Vai chutar com esquerda, com a direita. Vai jogar em mais de uma posição”. 

Eu falava pra ele: “sou atacante, faço gol. O que eu tô fazendo na lateral?”. Acho que faltou essa sensibilidade de ver um diferencial, de entender que não poderia virar uma alemã, mas poderia aprender o que ele estava ensinando sem perder a minha essência… foi bem difícil o começo. Não quis renovar, porque era um time que eu não jogava — tinha dez atletas da seleção lá. Além de eu não jogar, eu precisava ir para um lugar onde entendiam como eu gostava de jogar. 

Aprendi um pouco de alemão e falei pra ele: “fiquei um ano e meio aqui, você não me usou. Vou ficar fazendo o que?”… foi quando eu fui para Wolfsburg (2007), que hoje é top na Alemanha, mas que, naquela época, era só um time que tinha subido da segunda divisão. Então, acabei me sentindo mais confortável do que não grupo de elite. 

No Turbine Potsdam, fui campeã da Champions, do Campeonato Alemão, da Copa da Alemanha… era um time top, mas eu fiquei mais confortável no que tinha acabado de subir. 

Você começou a rodar a partir dali. Brasil, EUA, Suécia, Rússia, Coréia… onde você viu que o futebol feminino era como tem de ser? Estrutura, grana, torcida…

As pessoas falam que, no começo, eu não fiquei mais de uma temporada em um lugar. O clube pode não renovar com você também… não significa que eu não queira ter ficado. Na época, financeiramente, pesava para mim. Pô, eu morava no quintal da minha avó, em dois cômodos, vou ficar no clube porque ele tá me pagando dois mil euros? Vou ficar 10 anos nele, ou vou para outro que está pagando cinco? — para mim ia fazer muita diferença. O fato de às vezes não permanecer no local, ou era porque o clube não renovou ou o lado financeiro falou mais alto. Para mim, era importante virar e falar: “poxa comprei a casa da minha família. A gente está morando numa casa que é nossa”.

Na Alemanha, o campeonato era muito forte. A Alemanha, na época, era uma força muito absurda… claro que hoje ainda é, mas tem uma renovação muito grande. Depois que os anos se passaram, gostei muito de jogar nos Estados Unidos (Chicago Red Stars, uma passagem em 2009 e outra em 2010). Não só da liga, mas de morar também… mais tranquilo, tava aprendendo o inglês… outro país que eu curti muito foi a França, onde joguei no Paris Saint-Germain (2015-2017). Um auge muito grande na minha carreira, quando estive por lá. 

Na Seleção Brasileira você já teve técnicos e técnicas. Você já elogiou muito o Renê Simões. Por último, uma treinadora estrangeira. Existem diferenças entre um homem ou uma mulher no comando? Ser do Brasil ou do exterior, o que muda?

Eu costumo dizer que eu gosto de olhar pela capacidade. Não olho muito homem ou mulher. Já trabalhei com cara que não sabia dar um treino técnico. Olhava e pensava: “não é possível que ele esteja me treinando”. E já trabalhei com mulher também que não conseguia fazer as coisas… então eu olho muito pelo lado da capacidade do que você faz. 

Quando é uma mulher, a gente entende ser um espaço e uma oportunidade muitas vezes não dada. Uma porta que se abre para que eu possa pensar em trabalhar dentro da modalidade do futebol feminino, no futuro. A gente quase não tem mulheres… muitas vezes é um homem que não sabe porcaria nenhuma. Aí colocam ele e ele boicota a única mulher da comissão técnica. Muitas vezes acontece isso!

Claro, como eu falei… o Renê esteve cinco meses com a gente para brigar por uma medalha e, simplesmente, nos colocou numa final de Olimpíadas (2004). Só não ganhamos porque roubaram… quem acompanhou sabe que passaram a mão no Brasil. 

Hoje, a gente tem a Pia [Sundhage, sueca, treinadora da seleção brasileira desde 2019], que tem um estudo muito grande… uma leitura de jogo. Também conversa muito com a gente, tem um atendimento muito bom! Assim, as pessoas gostam de levantar diferenças, mas olho na capacidade de quem trabalha comigo.

Não olho muito [se é] homem ou mulher. Já trabalhei com cara que não sabia dar um treino técnico.

Qual jogador do masculino você mais admira ou admirava? E em qual jogador você vê mais características semelhantes ao seu futebol? Teve alguém que você olhava e tentava imitar?

Para ser sincera, eu não assistia muito futebol. Passava mais tempo na rua brincando. A minha alegria era a rua… não era aquela criança que quando começava o futebol, já tava com a cara na TV.

Um pouco depois, na fase de adolescência, comecei a acompanhar mais. Eu gostava de assistir o Romário, que não precisava correr muito. O negócio dele era na pequena área, não precisava ir até o meio-de-campo buscar uma bola… dentro da área, ele era bizarro… o drible e inteligência, a maneira de se comportar, uma habilidade muito grande. O Rivaldo, canhoto, um cara que não teve tanta mídia quanto deveria, mas um baita de um jogador.

Ronaldo… Ronaldinho… jogadores que eu gostava de acompanhar demais. E, aí, jogadas ou alguma coisa que eu via — porque, na época, tinha aqueles comerciais dos caras fazendo graça com a bola —, eu parava, ficava olhando e tentava fazer no treino. Errava. Errava… até que eu conseguia. Coisas que eu ia aprendendo, vendo os vídeos na TV, tentava usar dentro de campo. Depois que começaram a transmitir mais os jogos, vieram as referências femininas: a Kátia Cilene, a Pretinha, Roseli, Sissi, que eram jogadoras com uma habilidade própria e muito grande na época.

Eu gostava de assistir o Romário, que não precisava correr muito. O negócio dele era na pequena área, não precisava ir até o meio-de-campo buscar uma bola… dentro da área, ele era bizarro.

Você foi se soltando como pessoa, se tornando ídola, uma coisa foi ajudando a outra?

Fui me soltando… não gostava de dar entrevista. A câmera passava na minha cara e eu falava: “não, bota não sei quem lá! Não quero falar!”. Acabei me desenvolvendo… as meninas brincam: “pô, você fala bem, vai lá ser comentarista”, falo: “gente, o falar bem vem muito de você”. Tem gente que não gosta de falar. A Formiga não gosta de falar. Tá com 40 anos e sempre se escondendo de entrevista. Eu acabei criando uma facilidade para poder falar, para poder ter uma opinião um pouco mais forte. As coisas que eu conquistei também me deram espaço para eu ter uma voz. Infelizmente, a gente sabe que ninguém vai escutar um “Zé Mané” — o que é muito triste, deveria ter uma voz. Eu acabo usando da oportunidade — criada ao longo da minha carreira, com as coisas que foram acontecendo.

Vem a idade também, o acúmulo de experiência. Como é a Cristiane veterana? O que mudou na Cris jovem promessa pra Cris consolidada no esporte — dentro e fora de campo?

Eu criei uma voz que facilitou para que eu pudesse falar, acabei criando espaço para isso, e eu vejo que hoje eu tenho uma voz dentro da modalidade com outras meninas. Isso é importante, porque nós somos referência para elas e eu tento sempre passar a importância de falar, de saber falar e saber cobrar… porque também tem esses dois lados… ser uma líder. Aprendizado a gente vai ter conforme o passar dos anos… às vezes, eu tô jogando com a menina mais novinha, aí, olho e vejo que ela tá meio avoada, mas lembro que é normal, eu também já fui assim. Com o tempo vai se desenvolver.

Em termos de físico, fui criando outros caminhos. Hoje, não tenho o mesmo peso de quando tinha 17 anos, não tenho a mesma estrutura física — era super magrela. Com minha estrutura física maior, fui criando atalhos dentro de campo. 

Eu tenho um preparador físico, que é o Fabinho da Seleção… na Copa, ele me trouxe um vídeo do Ronaldo. Eu tava voltando de lesão, né… perguntei o que ele queria com aquilo, ele disse que “mostrar uma coisa. Onde o Ronaldo está?” — com o passar do tempo, o Ronaldo também mudou toda a estrutura física dele, para encontrar o atalho mais fácil e se desgastar menos em campo —, eu falei: “ele está na grande área do gol”. O Fabinho perguntou: “ele vem alguma vez buscar a bola no meio de campo para ter de se desgastar e dar um pique?”… eu falei: “não, ele fica esperando…” — obviamente, tem de ter os meias para isso. Ele disse: “Pois é! Começa a fazer isso! Procure atalhos!”. É a mesma coisa o Cristiano. Na época do Manchester, driblava um absurdo… hoje, o cara não dribla. É dali para o gol, sendo um centroavante. Com o passar do tempo, aprendi que eu tenho outras armas boas. Então, se eu não tenho mais o pique que eu tinha com 17 anos, tenho maturidade para resolver dentro da grande área com os atalhos. Tenho uma estrutura física melhor.

O que mudou no futebol brasileiro feminino da época em que a Cris começou até 2020, que seria um ano de Olimpíada?

A divulgação está muito maior, não tinha toda essa parte de mídias sociais naquela época… em termos financeiros, eu sei que deu uma boa melhorada. Claro que nem para todo mundo, mas, em comparação, pô a gente ganhava R$ 25 reais de diária para jogar uma Olimpíada, final de Olimpíada e Copa. Agora, toda parte de convocações que é paga é a mesma do masculino… imagina, você jogar uma final de campeonato sem patrocínio, sem material esportivo e ganhando R$ 25 reais? Mudou muita coisa… a gente consegue ver que hoje tem uma divulgação, tem mais interesse justamente por isso. Nem todo mundo a gente consegue fazer entender o porquê houve tanto atraso na modalidade… algumas pessoas passaram a querer conhecer e saber mais o porquê atrasou tanto, por que para menina é mais difícil do que para o menino, por que tiveram dificuldades em termos físicos, técnicos e táticos… a gente conseguiu fazer alguns — que tinham uma mentalidade fechada e preconceituosa com a modalidade — a pensarem e falarem: “putz, é verdade! Nunca tinha pensado por esse lado”. Conseguimos quebrar muitas barreiras assim. 

Você tem noção de que sua geração — você, Marta, Formiga e outras — foram importantes para essa ruptura? Vocês se enxergam como essas guerreiras?

Eu falo para as meninas que, às vezes, é difícil você dizer o quanto você representa para uma menina… tem gente que até me pergunta: “Cris, você tem dimensão disso? De uma fala que você dá, de uma briga por algo importante”… e eu falo: não. Porque não deveria… não é justo ficar brigando toda hora, ter de ficar batendo na porta, pedindo ajuda para alguma coisa… alguém poderia olhar e fazer alguma coisa. Mas já não acaba acontecendo, a gente ia brigar. Tendo voz, como eu disse, nós criamos isso pelas conquistas, pela representatividade dentro da modalidade que muitas vezes é esquecida. 

Falo com as meninas: “tem de criar isso, porque uma hora a gente vai sair… uma hora vou parar de jogar, a Formiga… a Marta”. Nós somos as três remanescentes de uma geração que está chegando ao fim. O que vocês vão fazer quando a gente sair? Vocês vão brigar pelo quê? Eu tenho de falar para elas terem uma união maior do que brigar sozinha. Quando você tem um grupo unido, brigando pela mesma coisa — porque eu vou ganhar e você vai ganhar —, é muito mais importante.

Uma hora vou parar de jogar, a Formiga… a Marta. Nós somos as três remanescentes de uma geração que está chegando ao fim.

Você não acha que tem de ser assim, no final das contas? Tem de ser de dentro para fora… não pode ficar esperando que o mundo te traga essas condições…

Não vai acontecer. Não vai cair nada no seu colo. Vai ter que brigar por alguma coisa. Muitas vezes, você vai ter de lutar mais de uma vez para que vejam a sua qualidade. Quando eu assinei com a Adidas, fiquei com uma felicidade absurda. Pensei: “cara, eu tenho duas medalhas olímpicas… já fui terceira melhor do mundo… ninguém nunca olhou para mim e nunca me deram essa visibilidade”. 

Eu joguei final de Champions League — e isso é recente — e comprei minha chuteira, porque as marcas não me olharam. Por que nunca me olharam? E as atletas? Ainda dei uma questionada neles — claro, sem julgamento. Acho que isso é um trabalho de quem procura… galera de blog, youtuber… mas a gente usa muito mais um tênis do que eles — não desmerecendo o trabalho, de forma alguma! É nosso instrumento de trabalho… poxa, uma chuteira custa R$ 800 reais… imagina, às vezes, uma menina não consegue comprar uma chuteira desse valor…

Nunca consegui entender isso… e eu já via as propagandas lá fora. Uma vez, a gente foi fazer um amistoso nos Estados Unidos — lá em 2003 — e tinha outdoor das meninas! Outdoor! Meu, muito legal! A foto delas em loja esportiva… a gente pensava: “quando é que vai acontecer com a gente?”. Levou muito tempo… e eu ainda continuo batendo nas marcas. Falo muito com o pessoal da Adidas, que precisa olhar mais para as atletas… isso é muito necessário para gente, faz uma diferença absurda!

Uma vez, em entrevista para Glamour, você disse que o Brasil é o país do futebol, mas para os meninos. Como fazer com que isso se torne uma verdade para a categoria feminina também? 

Existem vários caminhos para a gente ir fazendo com que a modalidade tenha um crescimento maior. Precisa haver um trabalho de marketing, de mídia muito bacana, mas que, muitas vezes, o clube não tem direito com o masculino, imagine com feminino… isso faz uma diferença muito grande, né? A partir do momento que se coloca camisas com o nome das meninas à venda, vai ter alguém para comprar. Quantas mensagens eu recebi por não ter camisa com nossos nomes, não ter modelo feminino… caramba. Como quer que a modalidade se desenvolva se não colocam camisas para vender? Se não fazem um trabalho de divulgação bacana?

Ou, então, quando aparece um patrocinador de porte pequeno, oferece R$ 50 mil. Sendo só R$ 20 para o feminino — porque, às vezes, o cara quer pegar o dinheiro e tapar o buraco do masculino — acaba prejudicando com isso… não faz um departamento de futebol feminino com coisas exclusivas para as atletas.

É muito fácil virar e falar que não dá dinheiro… ué, tá dando. Mas não criam nada para que ele se mantenha só com aquilo. Pega atletas que são destaques e as usa com as marcas… eu não tenho problema em fazer isso. “Pô, Cris, vamos usar você para uma marca tal. Vai entrar R$ 100 mil, mas a gente vai tirar R$ 30 para equipe, beleza?”. Beleza. Você tá usando uma atleta com o nome para conseguir ajudar todo o restante do grupo.

Tem gente que não faz isso, porque ainda olha a modalidade com coitadismo ou como obrigação. Teve clube que, nesta pandemia, simplesmente não pagou o dinheiro que a CBF mandou de auxílio… infelizmente a gente sofre muito ainda com isso, né, tem muita gente que é mandada embora quando expõe esse tipo de problema.

De cinco, seis anos pra cá, a Espanha se tornou quem é. Hoje, elas colocam 70 mil pessoas no estádio, porque investem. No Brasil, a gente ainda tem pessoas que são incapazes de trabalhar com futebol feminino e que procuram uma brecha — acaba sendo “mais fácil” e não vai ser cobrado como masculino, então, ele fica encostado ali, sem estudo, sem entender o que está acontecendo globalmente no futebol feminino. Não é só a TV que não transmite, não é só o torcedor que não vai… são outros fatores por trás que acabam não empurrando a modalidade.

Você acha que vai demorar quanto tempo para perceberem que a mulher também “tá ON” nesse cenário? Se você pudesse dar um toque para os que cornetam sem parâmetros, o que você diria?

Nós sempre estivemos ON. Desde novinhas, com um montão de dificuldade… chegamos em final de Olimpíada… isso mostra que o tempo inteiro nós estávamos ali. Realmente, o que faltava era o espaço e a oportunidade, que têm acontecido aos poucos, mas que falta em muitos lugares. 

Em relação às pessoas, tem gente que não adianta… não vai conseguir fazer com que ela entenda, porque não quer entender. Há pessoas que você consegue dialogar e há outras que, literalmente, não querem. Tem aquele que vai criticar porque dá like… ele entende que é um bobão, um babaca, e mais 1.000 babacas vão curtir a babaquice dele… nas mídias sociais, falar mal, falar coisa ruim gera engajamento e é bizarro, né? Esse povo poderia não ter mais contas na vida, mas eles criam perfis falsos só pra isso. 

Há os que, por falta de conhecimento, não sabem que fomos proibidas de jogar bola [instituída pelo governo de Getúlio Vargas, a proibição durou de 1941 a 1979]… por isso, não têm entendimento sobre a modalidade e não compreendem o atraso que ela vive. Demoramos muito para jogar uma Copa (o Mundial de 1991 inaugurou a disputa em proporções globais. Pela primeira vez, as melhores seleções do mundo se reuniam. Foram 12 países disputando o título entre os dias 16 e 30 de novembro), sendo que o masculino já tinha três na nossa frente. Além de toda dificuldade em termos de desenvolvimento da menina na base, de estrutura, de tudo… Quando ele conversa educadamente, tentamos passar isso e, assim, mudamos um pouquinho a visão… “Porra, é mesmo! Deixa eu pesquisar, perguntar para as outras meninas também como é que é!”… mas tem o babaca que vai morrer babaca… em relação a esses aí, não há muito o que fazer.

Nós sempre estivemos ON. Desde novinhas, com um montão de dificuldade… chegamos em final de Olimpíada… isso mostra que o tempo inteiro nós estávamos ali..

Você chegou a se “aposentar” da Seleção. A vontade de vencer o mundial em 2019 foi o motivo pra você voltar? O que mais pesou?

A desistência foi, justamente, uma crítica naquela época. Nada mudava dentro da Seleção… as coisas eram sempre as mesmas, tudo era sempre igual… sabe quando você começa a ficar de saco cheio? Eu pensava: “Bom, ou o presidente não sabe o que tá acontecendo, ou alguém não fala para ele”, porque toda vez a gente sinalizando o que poderia melhorar. 

Naquele momento, a Emily entrou — era a primeira mulher no comando —, e tiraram ela em pouco tempo. A gente queria que tivesse dado um tempo maior para poder trabalhar… fiquei de saco cheio! Eu falei: “vou fazer o presidente ficar sabendo, porque não tá chegando… vou gravar um vídeo, vou postar”. E chegou… ele — Marco Polo Del Nero — fez uma reunião comigo, pediu para eu voltar. 

Eu disse não tinha condição com as coisas que eram oferecidas. Anos e anos repetindo o mesmo… A gente tem medalha olímpica e jogava com Seleção — que não conquistou nada — mas tem mais estrutura. Por que isso? Falei assim:“coloca alguém que queira fazer desenvolver a modalidade! Não adianta você colocar alguém no cargo que não passa os problemas para você”.

Na época, relutei muito para voltar. O professor Vadão me falou: “Volta! A gente precisa de você… não só dentro de campo, mas dentro da Seleção. Você tem uma voz muito forte dentro da modalidade!”. Fiquei sete meses fora. Fiz umas três reuniões com o professor, antes de retornar. Numa dessas, meu pai estava e pediu para que eu pensasse, porque ele iria ficar feliz em me ver jogando de novo outra Copa… tinha minha sobrinha mais novinha também… pensei: “Caramba, acho que eu tenho ainda coisas para agregar… ainda dá para dar umas porradas e fazer as coisas acontecerem”… foi quando eu voltei, já avisando que iria elogiar quando deveria e criticar quando fosse necessário. Tem de ser muito transparente, não adianta passar o que não está acontecendo.

Marco Aurélio Cunha deixou a coordenação das seleções femininas de futebol e a CBF ficou um período muito longo sem “chefe”, até anunciarem a Pelle — Aline Pellegrino. Você ocuparia um cargo desse no futuro, caso tivesse a oportunidade?

Sim! Seja nesta parte de campo, seja nesta área também… inclusive, venho estudando, fazendo cursos, pensando nisso para quando eu parar de jogar. A gente precisa ocupar espaços… não temos de sair daqui! Seja na fisioterapia, seja como treinadora, auxiliar, preparadora física de goleira… precisamos criar nosso espaço. Infelizmente, no Brasil, você não encontra mulheres numa comissão masculina, num banco de reservas… deveria, mas, não acontece… o espaço é muito mais ocupado pelos homens. Precisa ser, também, nosso. 

Costumo dizer que “você não tem que entrar num cargo, porque você foi ex-atleta”. Lógico, vai ajudar muito! Por ter leitura de campo, mas cursos e estudos também trazem capacidade de aprender sobre e adquirir o cargo.

Venho estudando, fazendo cursos, pensando nisso para quando eu parar de jogar. A gente precisa ocupar espaços… não temos de sair daqui! 

A Pelle é sua amiga muito próxima, né? Sobre ocupar um cargo de gestora, no futebol, vocês conversam a respeito disso? Ela dá dicas? “Treina” você para este mercado?

A gente conversa muito — claro, quando dá, porque nossos horários de trabalho impedem de nos falarmos mais… já cheguei a perguntar qual curso ela fez, quanto tempo durou. Vendo tudo de maravilhoso que ela fez dentro da Federação Paulista e a oportunidade que deram. 

Queremos muito ver as ex-atletas nestes cargos — obviamente, se elas quiserem —, porque a gente entende que é uma forma de a modalidade crescer e se desenvolver cada vez mais. 

Você comentou sobre a Copa do Mundo, e a última [2019, na França] teve um grande engajamento no Brasil. Algumas empresas até liberaram seus funcionários para que eles pudessem assistir… uma coisa que nunca tinha acontecido. Como isso impactou pessoalmente? Acha que foi um marco para o futebol feminino ter o começo da visibilidade que estava faltando?

Não há dúvida de que o jogo transmitido em canal aberto, ou as mídias sociais divulgando, fazem uma diferença absurda na sua vida. A minha deu um boom por conta dos três gols que eu fiz. Como eu falei, tinha medalha olímpica, tinha ganhado Champions, tinha feito um monte de coisa, e nunca tive a visibilidade que eu acabei tendo depois da Copa. Foi muito importante! 

Até brinco que Deus me presentou, porque fiquei sei lá quantos anos esperando e nada acontecia — nem por isso eu desanimei ou parei no caminho. 

Chegou no momento muito bacana para mim, depois de ter sido um ano difícil, um ano de lesões, um ano de muito choro… consegui, simplesmente, dar a volta por cima, e tudo foi acontecendo. 

Nunca tinha feito propaganda antes e, depois, ganhei dinheiro com essas coisas. Falo que fiz tudo com 35. Vejo algumas meninas com 20 e poucos reclamando e falo: “Gente, calma! Eu esperei até os 35 pra conseguir as coisas na minha vida!”… tudo veio de uma maneira muito positiva… e não foi só por conta do que eu fiz, mas um trabalho em conjunto… mesmo tendo, infelizmente, a derrota, conseguimos trazer para o público algo que eles estavam esperando de uma Seleção. 

Não sei se por termos um lado financeiro muito menor, uma divulgação muito menor, mas temos um negócio muito louco dentro da gente. Pô, se perdermos, perde a modalidade inteira. Quando perde o masculino, a modalidade já tá andando pra eles há anos…. e pra gente não! Cada derrota, cada vez que deixamos uma competição grande, entendemos que pode ser um retrocesso. 

Quando a gente vai jogar, isso não gira em torno do dinheiro, gira em torno de manter o futebol feminino. Conseguir trazer para o público brasileiro foi muito bom… de mostrar que, “cara, meninas não têm os salários astronômicos, muitas vezes faltam coisas para elas, e tão jogando, tão tendo um tesão muito grande de jogar”. Além de fazer com que todo mundo parasse um pouquinho para acompanhar. 

Tem um lado muito legal também… hoje eu tenho, na minha rede social, um público feminino muito maior do que o masculino. Isso mostra que tá chegando nelas também. Hoje, consigo ver mulheres que — mesmo não entendendo muito de futebol — se reúnem no domingão, vão jogar bola, tem um churrasquinho delas… coisas que os homens fazem sempre. As escolinhas, para as meninas, têm crescido muito… muito legal! Para mim, principalmente, foi muito marcante. 

Maternidade. Você congelou os seus óvulos. Essa decisão foi pautada para não interromper a sua carreira? Como é esse duelo?

A gente nunca consegue ter tempo… a realidade é essa. Além do tempo, entram outros fatores, como: será que depois que eu parar para engravidar, vou conseguir ter um contrato? Vou perder muitas oportunidades? E eu já tenho 35 anos. Em que momento fazer isso se não fosse agora? Talvez, se não fosse a pandemia, eu não conseguisse mesmo… mas tive toda essa preocupação, conversei com minha ginecologista — que acompanha praticamente todo mundo da Seleção — e ela falou que achava importante, porque estou mais velha e, para ser mãe, acaba sendo mais difícil… não conseguimos parar nossa vida e controlar muitas coisas, porque temos medos, de parar, de perder contrato e de perder muitas oportunidades por conta disso… e não deveria, né?

Sexualidade. No futebol masculino, a homossexualidade é um enorme tabu. No feminino, longe disso. Mas você teve receio em se assumir?

Lá atrás, quando eu era mais novinha, tinha medo de perder contrato, de não ter patrocínio… porque achava que as marcas não iam me querer como uma representante, talvez pelas crianças. Já ouvi gente falando: “você não representa meu filho”… mas, meu, que babaquice é essa? Você que deveria ensinar seu filho a respeitar todo mundo desde pequeninho, em vez de ter ódio e passar isso para os outros. 

Eu tinha muito medo disso. Medo de não fechar contrato nunca. Pra mim, foi uma desconstrução muito grande. No futebol, nunca sofri preconceito. Pelo contrário, a gente tinha assediadores. De falar: “eu gosto de mulher” e o cara dizer: “não, que gostar de mulher… você vai gostar de homem!”. Já vi e vivi muito disso. 

Com os caras é muito doido, né? Um preconceito muito bizarro que acaba com a carreira do atleta. Não olham para o que ele faz dentro de campo, o trabalho dele, o comprometimento com a camisa do clube, o profissional que ele é… pode ser o cara — com o perdão da palavra — mais foda do mundo, mas se ele for gay, não querem ele no time. Acho isso um absurdo! 

Tem, lógico que tem dentro do futebol masculino, mas ele não pode se assumir. Aí, tem que ser aquele “cara da família tradicional”… tem de casar, ter filhos, para dizer que é um cara hétero. Mas ele tá fazendo isso, justamente, para não sofrer preconceito e ser prejudicado por isso. 

Dentro da nossa categoria, não temos tanto — lógico que há meninas que sofreram muito em outros lugares — só que a gente não encontra muito isso no futebol. Hoje, não tenho mais medo das marcas não me olharem e não quererem fechar parceria comigo. A maturidade me trouxe isso. Não vou mentir, não vou esconder que sou casada com uma mulher, sou assim. Minha família toda sabe. Todo mundo sabe. 

Tem quem começa a me seguir, vê toda minha vida, vê minhas publicações e ainda fala: “ai, não acredito que você é lésbica”. Ué, cê não tá me seguindo, cacete? Ou rola uma bobagem pra falar de religião — e eu fico doida com isso — com o argumento de que “Deus condena”. Não, amigo, Deus é amor. Quem tá condenando, aqui, é você. 

Na época em que eu me casei, saiu em todos os lugares, este comentário era muito comum. Falavam: “ah, vai queimar no inferno”… quase que eu respondia: “Capiroto tá mandando muito assistente aqui, hein?”… costumo dizer: sou eu com Deus. É a minha vida. A escolha foi minha — assim como Ele deu o poder de escolha pra cada um. No julgamento final, vai ser eu com Ele — não vai ser eu, Ele, você, sua mãe, sua tia, sua avó para decidirem o meu destino. Não pode essa mania feia de julgar o outro, independente de quem seja. 

Você falou sobre assédio dentro do futebol feminino. Teve algum episódio com você — ou com outra menina — que te marcou? 

Já vi, já ouvi gracinha, infelizmente. A gente acaba acompanhando alguns casos. Tem uns que falam: “ah, aquela alí é mais macho”. “Mais macho” porque ela se veste de uma maneira que ele gostaria que fosse outra. E, às vezes, a menina nem é lésbica… é o jeito dela de se vestir… só porque não está decotada. Se a outra está mais “decotadinha”, dão em cima. Infelizmente, a gente acaba vivendo situações assim dentro da modalidade. 

O universo do futebol é muito assediador. No futebol masculino, tem também muito assédio. O machismo é muito aflorado…no feminino, isso é o triplo, né? 

Não só no Brasil. Na época em que eu joguei na China (Changchun Dazhong Zhuoyue, de 2017 a 2018), eles têm um jeito muito triste de lidar com a modalidade. Presenciei a cena de um treinador dando tapa na cara de uma menina… agredindo. Com soco. Todo mundo quieto, porque eles acham aquilo normal… treinador agredindo criança de sete anos de idade!

Para mim, aquilo era um choque. Me questionava como ninguém estava vendo aquilo. Teve um dia que eu não consegui mais treinar… chorei por ver o preparador de goleiro bater na menina de 17 anos só por ela não ter feito o que ele quis. As pessoas passavam por ela e não falavam nada… eu parei, perguntei se ela tava bem. A menina sem reação, porque é algo cultural, né? Teve um time lá que acabou porque o treinador violentava as atletas… a gente não tem noção do que acontece em vários outros lugares. No caso da menina que eu vi apanhar, eu vi. Ninguém me contou. Infelizmente, não consegui filmar. Se tivesse, certamente, teria denunciado.

Inclusive, tive vários casos de abusos — não físicos, mas psicológicos. Aí, eu entrei com processo e ganhei a ação. Fui na Fifa e falei: “ninguém vai me tratar assim não! Não vou deixar assim”. A CORNER é o primeiro lugar que eu tô falando disso… fui atrás dos meus direitos…

Pelo fato de eles terem dinheiro e pagarem “bem”, achavam que poderiam nos tratar como se fôssemos nada. Como se fôssemos merda. Vivi situações difíceis… eles queriam que a gente fizesse tudo: jogar todos os jogos, fazer gols… mas eles não tinham departamento médico, não tinham fisioterapeuta. Então, se você se machucasse… já era! Não tinha o que fazer! Mas insistiam que eu jogasse e treinasse machucada… tive duas lesões de panturrilha que nunca tive!

Quando eu voltei, minha passagem era de primeira-classe e eles me mandaram de “teco-teco” — na companhia mais barata que tinha… paguei quase quatro mil de excesso de bagagem. Tinha direito a voos, mas eles não me davam. Minha mãe não pôde ficar comigo quando eu estava lesionada… deu férias para todo time, mas me prendeu na China… várias situações de abuso psicológico do cara que era treinador e diretor do time. Então, eu guardei tudo e fui atrás. Se eu estivesse tão errada, não ganharia a causa. E ganhei.

Quando você assiste futebol masculino, você não acha que eles se jogam muito? Que fazem muito drama sem ter acontecido absolutamente nada no lance? Os caras precisam aprender a jogar como as minas?

Eu brinco com as meninas: “a gente só não é rica porque não nasceu homem”. Acho que rola um comodismo. “Pô, tô tomando mó chá de banco e, mesmo assim, tô ganhando 900 mil”… tem cara que tá acomodado com aquilo. Tá pingando 900 mil na conta, pra que falar com o empresário que quer sair e ir para outro clube jogar?

Eu ganhava bem na China. Foi o clube com o qual eu mais ganhei dinheiro. Em um ano de contrato, eu tirei 1 milhão e 300 — coisa que um cara ganha em um mês. Foi a única vez que eu ganhei dinheiro mesmo. Tava lesionada e poderia pensar: “ah, vou ficar aqui ganhando meu 1 milhãozinho”. Mas com terror psicológico e sem chegar? Nem ferrando. 

Nós não ganhamos salários astronômicos. Cada jogo, cada campeonato é importante. Tem de rolar o “bicho” para eu ganhar a grana do “bicho”. Tenho de ir super bem para ganhar uma premiação no final da partida. A nossa vontade de fazer a modalidade crescer tem, também, um lado muito pessoal. Quem não quer ganhar dinheiro? Trabalhamos pra isso. 

Não vou julgar um cara que ganha 900 mil, porque não sei o que se passa na cabeça dele. Não tenho noção do que é ganhar isso. Se, pra ele tá bom, tudo bem. Mas, pra gente, rola uma vontade de crescer e de jogar.

Zé Elias, ídolo do Corinthians, já disse que salário alto mina a qualidade dos atletas. Antes, se via muita raça dos jogadores, hoje parece que alguns não querem jogar bola… 

É verdade, até nos clubes fora do Brasil. Manchester, Barcelona, Real… não tinham só dois atletas que se destacavam. Era o time inteiro. Hoje, esses dois ganham uma fortuna, além de todo o time. Acho que o Ronaldo, Ronaldinho não ganharam tanto dinheiro quanto alguns “perebas” hoje ganham. E esses caras jogavam muita bola! 

Geralmente, a gente vê uma vontade neles no começo e, depois, vão embora e isso se perde…

Eu tenho uma visão de antes. O cara tinha que comer a bola no clube dele, depois ser convocado e comer a bola na Seleção pra conseguir ser vendido. Hoje, um garoto de 17 anos faz um campeonato bom e já é vendido por trocentos milhões… e você nem sabe se ele vai vingar! Já consideram ele um “craque”. Mas, peraí… por que ele é um “craque”? Por causa de uma temporada? Essa diferença de antes pra hoje é muito ruim. 

Sobre isso, em uma entrevista com o Vinícius Junior para o The Guardian, ele tinha 18 anos e estava indo para o Real Madrid… estava com chinelo da Louis Vuitton. O preço do chinelo era 2.300 reais…

Tá louco? Risos. Fui comprar farinha, na padaria, e a mulher me falou que era oito reais. Quase caí pra trás… fazer um bolo! Oito reais uma farinha? 

Não é uma crítica ao Vinícius Junior…

Não, não é uma crítica. Só que isso é muito fora da realidade. Enquanto isso, a gente faz a continha para ver quanto vai dar o mercado no final. Feijão tá caro! Arroz tá caro…

Pandemia. Qual impacto em sua vida pessoal e profissional. Sentiu muito na volta dos trabalhos, desde os treinamentos com a equipe até esses primeiros jogos do campeonato brasileiro de 2020? 

Foi uma montanha-russa! Tive aquele momento de comprar aparelhos para fazer uma academia. Uma “empolgação” — não com o momento, mas com a possibilidade de treinar em casa e não perder condicionamento, porque dependo do corpo para trabalhar. 

Também tive momentos de muita tristeza. Perdi amigos, mãe de amigas que faleceram… tomei aquele baque. Tive dias de ficar no sofá e só chorar. Cheio de altos e baixos… de acompanhar as lives, de fazer treinamento online com o clube…

Atrapalhou tudo, né? Tivemos pouquíssimo tempo para treinar. Para ganhar ritmo, se entrosar de novo… levou um tempo pra gente conseguir ganhar a parte de condicionamento físico, mas, não tivemos atletas que perderam tanto e se machucaram — como foi com o masculino. 

Já ouvi gente falando: “você não representa meu filho”… mas, meu, que babaquice é essa? Você que deveria ensinar seu filho a respeitar todo mundo desde pequeninho, em vez de ter ódio.

Falando ainda sobre a pandemia de 2020 e, principalmente, pela questão de saúde mental. Você trouxe à tona uma depressão, após Olimpíadas de 2016. Em seu histórico, já existia uma pressão no PSG, uma lesão, ausência de férias, término de relacionamento, perda da sua avó e perda de um pênalti importante nos jogos, que acabou sendo gatilho para esse momento conturbado. A doença ainda é um grande tabu, principalmente dentro do esporte. O Nilmar foi um dos poucos atletas, dentro do futebol, que falou sobre isso abertamente — assim como você…. acha que o esporte precisa preparar e cuidar dos atletas? Há um trabalho desse tipo?

Acontece, há um acompanhamento. Mas todos os lugares têm psicólogos e, também, tem a questão do atleta… às vezes, ele não quer ouvir o profissional falar. E aí vai fazer o quê? Amarrar ele? Com tempo, tem a experiência de entender a importância do acompanhamento. Quando eu era mais jovem, eu não via necessidade.

Mas eu tenho. Tenho histórico na família, de pessoas com depressão, também, e não imaginei que fosse acontecer comigo… fui entender que era uma doença. Quando falei com a psicóloga e todos os sintomas deram pra isso, foi muito difícil… fiquei super mal, muito magra, perdi cinco quilos… quase saí do time, mas o treinador me apoiou muito.

Foi na época em que me afastei da Seleção, em 2017. Sempre que tinha uma data Fifa, eu era liberada para ficar em casa… amenizava um pouco. Não quis passar isso pra minha mãe. Foi algo entre mim, minha prima – que era próxima —, meu ex-empresário e o pessoal do clube. Uma situação complicada. Não queria saber de nada, só ficar em casa, parar de jogar… sem resposta para nada.

É um tabu ainda. Sei que os atletas não falam — os meninos, principalmente, não são de falar, não são de expor… sei que devem sofrer uma pressão muito grande, por mais que você seja um ídolo — ou um cara super milionário —, tem a pressão da mídia, de torcedor — e alguns são insuportáveis —, e não tem como… ninguém é de ferro! É muito importante ter esse trabalho nas bases para mostrar às crianças e adolescentes que isso é muito sério.

Voltando pro Brasil, você fez uma temporada no São Paulo. Teve uma lesão no meio, o que atrapalhou um pouco, mas, em nove jogos, foi responsável por três gols. Além de estar presente nas finais da Copa Paulista, Campeonato Paulista — a primeira, perdida para o Palmeiras e, a segunda, perdida para o Corinthians; em uma final lindíssima na arena, inclusive, com um público de quase 30 mil pessoas.

Houve críticas sobre a estrutura do clube em relação ao futebol feminino e também um desconforto com a diretoria. Chegou até a receber ataques em suas redes. Como você enxerga esse momento em sua carreira? Ficou alguma coisa não esclarecida entre o São Paulo e a Cristiane? Você gostaria de pontuar ou são águas passadas?

Simplesmente deixei pra lá. Tentei ajudar a equipe… um clube que estava voltando à modalidade depois de muitos anos. Vim com uma proposta que, infelizmente, não chegou a acontecer… tive lesões, mas isso a gente não pode prever… sou atleta, trabalho com corpo e não tem como esperar o que vai acontecer. Tudo foi de um jeito que eu não queria. Esperava ter jogado mais, participado mais dos treinamentos com as meninas, mas, não rolou.

No término de tudo isso, o torcedor — sem saber de absolutamente nada, porque a gente tem torcedores que não enxergam o que está acontecendo —, antes de vir fazer uma crítica, começa a me atacar. Realmente, fiquei muito chateada, na época… tiveram páginas feitas para o clube, inclusive com muitos seguidores, dizendo coisas inexistentes.

“Veio pra cá ganhar seguidor”… primeiro que eu já tinha seguidor na rede social, não precisava disso. “Veio pra cá e não vendeu uma camisa”… eu não sou vendedora. Não sou eu que tenho de fazer isso. “Veio pra cá e não fez marketing”… eu não trabalho com isso. “Veio pra cá falar da estrutura do clube”… mas você foi ver um treino? Conhece como é?… nem no treino a pessoa foi, nunca foi num jogo… nem sabe o que foi prometido, pra me atacar — de uma maneira tão grande — com coisas que não cabiam a mim… não vendo camisa. Não sou do marketing. Falaram uma coisa, tão fazendo outra e a culpa ainda por cima é minha?

Sai de lá como errada. Isso magoou bastante, mas depois passou. Como eu disse, não gosto de guardar mágoas de ninguém. Só que faltou — principalmente aos torcedores que me atacaram — ver o futebol feminino e a estrutura fornecida às atletas de lá. 

Disseram que eu não queria renovar. No primeiro momento, não. Depois, eu pensei: “tô devendo. Independente das coisas que faltaram, eu estou em dívida com o torcedor são-paulino e quero renovar”. Aí, quando meu empresário foi conversar, não quiseram. E eu saí como a errada. Criaram essa rixa ao ponto de os torcedores me xingarem de coisas pesadas… tive de bloquear minha conta, porque ler aquelas coisas era um absurdo. Inverdades. Vou te dar razão se você acompanhar. Mas não foi isso o que rolou.

Faltou ao torcedor tirar um pouco do fanatismo — que o faz ser muito cego, em alguns momentos — e perceber que não foi dessa maneira. Até quando eu voltei pro Santos, continuei recebendo ataques. Falei: “cara, vai torcer pro seu time! Você tá indo ver jogo das meninas? Foi num treino?”… “ah, eu nunca fui num treino das meninas!”… “então, por que você tá vindo me cornetar?”… “Ah, não tenho tempo”… “Porra, mas tem tempo pra me xingar?”.

O torcedor é passional, né? Quase uma relação de fé…Se você critica aquela “religião” dele, ele acaba se sentindo ofendido. Sua não renovação com o São Paulo, teve a ver com as críticas que você fez?

Não, por todo um conjunto. Na época, faltou profissionalismo das pessoas que eles colocaram pra trabalhar. Faltou entendimento de que a modalidade não é brincadeira e precisa ser levada a sério. Eu falei: “cara, tô no lugar errado, então… me trouxeram para que eu pudesse tornar o lugar profissional, brigar por isso, mas nada tá acontecendo… tem alguma coisa errada”.

E, aí, eu sou bocuda, né? No sentido de falar o que tem de errado. E, quando eu dei entrevista, não critiquei tudo… disse: “Para jogar uma Série A, precisam melhorar a estrutura”. E tem mesmo. Vai jogar com coisa antiga? E nem apontei tudo, ainda elogiei… mas, o que fizeram? Focaram só nessa parte… como se eu tivesse detonando a estrutura do clube. Mas eu só disse que precisava melhorar.

Cris, você voltou para o Santos em 2020, após quase dez anos da sua última passagem — que foi em 2011. Quando você deixou o clube, a instituição decidiu, poucos meses depois, anunciar o fim das “Sereias da Vila”. Agora, é uma nova realidade, o futebol feminino é uma obrigatoriedade exigida pela Conmebol e pela CBF. O que mudou daquela época pra hoje?

Tem toda a divulgação, que ajuda pra caramba. Em termos de estrutura, eles sempre procuraram dar desde aquela época. Quando eu disse que “voltei pra casa”, falei no sentido de que eles me entendem, me respeitam, me conhecem… e isso é muito importante! Não tem como estar em um ambiente de trabalho em que as pessoas não gostam de você. Voltei por toda história de carinho e respeito que tenho por eles. Mesmo que, no começo do ano, algumas jogadoras tenham saído… eles resolveram manter o Santos como sempre mantiveram.

Em 2011, o Santos preparou um conteúdo para o centenário que aconteceu em 2012: lançou um calendário de suas jogadoras utilizando “roupas de banho”.

A apresentação do calendário aconteceu durante um desfile de moda em que as jogadoras, inclusive você, Cristiane, apareceram apenas de biquíni. 

Essa ação foi vista — por muita parte da imprensa — como uma forma de “chamar atenção” para o Sereias da Vila, referindo-se a vocês como “gatas”, insinuando poses sensuais.

Nove anos depois, você pode falar como se sentiu a respeito disso? Acha que foi a melhor estratégia para chamar atenção pro time? Houve um desconforto da sua parte?

Na época, a gente não enxergou assim. Pelo contrário, ficávamos brincando uma com a cara da outra: “Ae, vai entrar no biquininho, hein?”… não vimos de uma maneira maldosa de que iam “usar” a gente, nosso corpo… não tínhamos a visão que temos hoje, depois criar uma maturidade, que dava pra divulgar de outro jeito. 

Mas, pra gente, foi legal. Vimos como uma oportunidade de guardar, de ter em casa. Todo mundo fez e ninguém enxergou de forma maldosa. Fazer um ensaio — para quem não fazia nada — já era alguma coisa. Obviamente, hoje eu não faria… porra… calendário de biquini?

É uma questão de entendimento, maturidade, desenvolvimento, crescimento. Quem nunca — há dez anos — não falou ou fez uma merda? Acho que não dá pra criticar. Somos humanos…

Falo isso porque hoje tem uma onda de “cancelamento” nas redes sociais. Você não nasce perfeito. E não vai morrer perfeito. Em algum momento, vai fazer algo que dê uma grande experiência… e não tem como crucificar uma pessoa por isso, o resto da vida dela. Você também vai errar. Talvez em casa, na roda do seu amigo, e não em uma rede social… mas não vai deixar de ser um erro. Vou vai morrer errando, não tem como. Não é um robô. É normal — só não é normal ficar a vida inteira escrevendo merda nas redes sociais. Tem gente que faz muito isso…

Cris, você está casada. Maior artilheira olímpica, mais uma pela frente… Copa América, Libertadores, Gol mais bonito na Copa de 2019, como é estar no mais alto? Você se sente no mais alto? Dá pra chegar mais?

Dá pra chegar mais, sim! Eu quero uma medalha! Cheguei perto em final de Olimpíada, final de Copa… agora eu quero ganhar. Não tenho Campeonato Paulista. As meninas ficam até me zoando: “eae, sem Paulista”… único que não ganhei ainda no Brasil. 

Em seu trabalho, você tem sempre que querer mais, buscar mais… não só ficar usando o “seu nome”. Eu sou a Cristiane, mas quero trabalhar e manter isso. Tenho meus recordes individuais — quando você disputa um campeonato, quer ser a melhor, quer ser a artilheira —, cheguei num ponto de reconhecimento que eu não tinha e a modalidade não tinha. Isso, pra mim, é muito importante… tudo que passei, todas as dificuldades, os preconceitos que eu escutei me trouxeram até aqui. Tento passar isso pras meninas. Você tem que se pôr em desafios, senão fica muito cômodo, né?

Faltou a bola de ouro? 

Sim. Mas não é uma coisa que eu não foco mais. Em 2008, era o único ano da minha carreira que eu merecia ter ganhado o título de melhor do mundo… quem acompanhou, sabe o que estou falando. Estou sendo sincera. Foi uma frustração muito grande na época, que eu deixei pra lá. Não se tornou mais foco.

Você não sabe qual critério é utilizado. Se é pelo campeonato, pelo ano, pela Seleção… teoricamente, deveria ser a melhor do ano a partir do que aconteceu nele. E ainda nem fiquei em segundo, sendo que eu tinha sido artilheira nas Olimpíadas, com cinco gols. Aí, colocaram a alemã Birgit Prinz, sendo que a Seleção dela ficou em terceiro lugar, a gente em segundo e os Estados Unidos ganharam. 

Mas você perdeu pra Marta… já conversaram sobre isso?

Não conversamos, mas acho que, no fundo, ela sabe. A gente sempre sabe o reconhecimento que a gente merece ou não. Aquele momento foi um auge… mais importante para mim do que, talvez, tenha sido para ela. Não tenho mágoas de que ela tenha recebido — ao contrário, ela fez o trabalho dela —, mas fiquei chateada pela maneira que aconteceu a premiação.

O meu gol de 2017 — que eu fiz no fim da Copa da França, em um jogo do PSG contra o Lyon — eles nem colocaram no Puskás. Fizeram uma campanha para UEFA, Fifa, olharem o gol e a resposta foi: “continue jogando que estamos acompanhado”. Deixei pra lá. Melhor conquistar coisas para modalidade que serão muito mais importantes.