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Der erste dunkelhäutige

Os primeiros jogadores negros na Alemanha

Rio de Janeiro, 13 de julho de 2014. A final da Copa do Mundo no Brasil colocava Argentina e Alemanha frente a frente. Após o 7 a 1, os alemães chegavam como favoritos e os argentinos como franco atiradores — depois de uma semifinal que mais pareceu uma partida de xadrez contra os holandeses, decidida só nos pênaltis.

A Alemanha propôs o jogo desde o início, mas foram argentinas as principais chances de gol em toda a partida. Higuaín recebeu duas bolas no início do primeiro tempo. Uma de presente, após recuo mal feito de Toni Kroos, quando ficou cara a cara com Manuel Neuer e chutou para fora precipitadamente. Na seguinte, um cruzamento em diagonal da direita de Ezequiel Lavezzi e Pipita cravou. Mas estava impedido, apesar da angulação da câmera e velocidade do lance terem deixado a sensação de gol legal para os telespectadores. O replay mostrava a posição adiantada.

Depois de receber um lançamento nas costas de Mats Hummels aos 39 minutos de jogo, Messi avançou com um toque de cabeça, chegou já meio sem ângulo diante de Neuer e teve que fintar para passar pelo goleiro alemão. Ele tocou por um lado e passou pelo outro, até que Jérôme Boateng apareceu e impediu a jogada, evitando o gol do argentino. Após o lance, o jogo se igualou. O time alemão criou mais espaços, mas não conseguiu definir suas jogadas e a final foi pra prorrogação.

Palacio recebeu uma bola cruzada aos 6 minutos do prolongamento, poderia ter definido após o domínio, quis encobrir o goleiro quando Boateng apareceu na cobertura novamente, evitando qualquer possibilidade de conversão, e, assim, a bola saia pela linha de fundo. No minuto 22, era a vez de Mario Götze receber um cruzamento, dominar e finalizar. Gol da Alemanha. Gol do título. Boateng foi o primeiro negro a ser campeão mundial pela Alemanha. Era também o primeiro negro nascido em território alemão a jogar uma final de Copa do Mundo. E sua origem ganesa era mais uma dentre várias daquela seleção: Mesut Özil é filho de turcos, Sami Khedira tem origens tunisianas, Shkodran Mustafi é filho de albaneses, além de Lukas Podolski e Miroslav Klose, de raízes polonesas.

Aus Ghana

[De Gana]

Bremen, 29 de maio de 2001. Alemanha recebia a Eslováquia em amistoso a um ano da Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão. Não era apenas mais um jogo. Era a estréia de Gerald Asamoah, nascido em Gana, na Seleção Alemã. Era também a primeira vez que um negro defenderia o país após a reunificação, com a queda do muro de Berlim.

Asamoah teve um debute dos sonhos por ter feito o gol que abriu o placar da vitória por 2 a 0 contra os eslovacos. “Eu agradeço a Deus pelo meu sonho ter se realizado. Isso mostra que eu tomei a decisão correta ao optar pela Alemanha. É uma honra defender essa Seleção”, disse o ganês que ainda disputou a Copa do Mundo de 2002, inclusive entrando aos 32 minutos do segundo tempo, no lugar de Jens Jeremies, na final contra o Brasil. Era o primeiro negro a disputar uma final de Copa do Mundo pela, até então, tricampeã Alemanha.

No entanto, antes de Asamoah, outros negros vestiram a camisa da ​Mannschaft​. O primeiro deles foi Erwin Kostedde em 1974. Mas, diferente de Asamoah, Kostedde nasceu na Alemanha, filho de um soldado afro-americano e uma alemã.

Nascido em Münster, Erwin Kostedde começou a jogar por um time de sua cidade natal, o Preussen Münster, que disputava a Regionalliga West, atuando entre 1965 e 1967. Em seguida, o atacante se transferiu para o Duisburg, onde passou uma temporada, desta vez na Bundesliga. Sua carreira engrenou quando foi — de maneira estranha — para a Bélgica jogar no Standard Liège: 3 temporadas e 43 gols em 52 jogos, entre 1968 e 1971.

Ao retornar ao futebol alemão para defender o Kickers Offenbach na Regionalliga Süd, o seu faro goleador se sobressaiu, marcando 35 gols em 44 jogos e ajudando seu time a ascender à Bundesliga no campeonato seguinte. Com o Offenbach na divisão de elite, na temporada 1972/73, foram 19 gols marcados em 29 partidas. Mas era o tempo de Gerd Müller — artilheiro dessa temporada com 36 gols —, Jupp Heynckes e Uli Hoeness, principais atacantes da Alemanha à época, que viria a ser campeã do mundo em 1974.

Die Uraufführung

[A estréia]

Gżira, 22 de dezembro de 1974. A Alemanha visitava Malta em outro amistoso. Com a aposentadoria da Mannschaft de Gerd Müller, abria-se caminho para Kostedde ser convocado. Ele iniciou o jogo como titular, que terminou com vitória alemã por 1 a 0. Depois dessa partida vieram mais duas convocações: derrota em Wembley para a Inglaterra por 2 a 0 e empate em Düsseldorf com a Grécia por 1 a 1. Até aí uma linda história de integração racial, porém a vida de Kostedde daria muitas voltas, como contou longos anos depois.

Em entrevista para o RevierSport em 2009, Kostedde relatou diversos aspectos da sua presença na seleção e nos times onde jogou. Ele lembrou da atmosfera nos estádios: “Com a seleção diante de 100 mil pessoas no estádio de Wembley foi inesquecível, ou também no Bieberer Berg em Offenbach”. O ex-atacante falou da rivalidade que mais presenciou: “A rivalidade entre Offenbach e Frankfurt é tão grande quanto Dortmund contra o Schalke, quatro semanas antes do derby começa o espetáculo”. Ele conta de um jogo contra Frankfurt fora de casa: “Era o jogo de volta. Quando entramos no Waldstadion a torcida gritava: dez viados e um crioulo!”.

”Eu percebia que os pais das outras crianças não gostavam quando me viam jogando com elas”, relatou Kostedde sobre sua infância. Quando pequeno, Erwin disse que não gostava de estudar: “Pra mim só existia o futebol. Tínhamos o time da escola e eu era o melhor. Isso foi fácil de ser percebido, mesmo aos 10 anos de idade. Eu não era um bom aluno, não queria aprender. Só em Geografia que eu era bom. Eu sempre quis sair do país, queria ir pros EUA, mas isso nunca aconteceu…”.

Seu início no Duisburg foi conturbado, ele mesmo lamenta os problemas que teve com o treinador e diz que poderia ter feito mais, que ficou devendo. Mas após assinar com o Allemania Aachen, durante a pré-temporada, um fato curioso e obscuro se deu: “Uma Mercedes parou do meu lado e quatro iugoslavos desceram e me perguntaram: ‘você é Erwin Kostedde?’, eu disse ‘sim!’, daí me disseram que eu poderia jogar no Standard Liège. Mesmo eu falando que já tinha assinado com o Allemania Aachen, eles disseram que eu poderia ganhar 80 mil marcos por ano lá”. Kostedde pegou seu passaporte e cruzou a fronteira naquela mesma noite rumo à Bélgica.

No Standar Liège, depois de títulos e artilharias, veio um convite para representar a Seleção Belga. “Eu fui requisitado, mas recusei por me sentir alemão e achar que deveria ser convocado pela seleção do meu país. Isso não foi bem aceito pelos belgas, havia muito ressentimento pela Segunda Guerra Mundial. Muitos me consideraram louco por acreditar que um negro vestiria a camisa da Alemanha”, contou.

Quando foi convocado por Helmut Schön, em 1974, Erwin percebeu que entrava pra História: “Se eu fosse branco, eu não seria o centro das atenções. Havia 22 jogadores em campo e somente eu com pele negra. Isso não foi uma benção, mas sim um fardo. Como negro, eu tinha que ser sempre melhor ou outro entraria no meu lugar. Aprendi rápido…”.

A carreira de Kostedde degringolou e ele começou a percorrer diversos clubes sem deixar sua marca goleadora. Acabou perdendo muito dinheiro ao investir em empresas de consultoria duvidosa, com negócios na Inglaterra e na Bélgica, como contou: “Eu achei que tivesse feito um investimento à prova de crise, infelizmente eu acreditei em amigos falsos. Perdi um milhão de marcos. Foi só dor de cabeça e todos sumiram”.

Mas o pior ainda estava por acontecer na vida de Kostedde: em 1990, ele foi acusado de roubar 190 mil marcos de um salão de jogos. Apesar de inocente, o ex-jogador passou seis meses atrás das grades. “Isso mudou a minha vida completamente. Eu sentei diante do julgamento e pensei no que era aquilo que estava acontecendo, parecia coisa de filme. Como eu poderia admitir a culpa de algo que nunca fiz? Podem te soltar, mas não podem te devolver a sua reputação. O pior foi o sofrimento da minha família em meio a isso tudo”, ressentiu.

Questionado se já havia superado aquele trauma, Kostedde desabafou: “Se o meu nome aparece, surge imediatamente o episódio de 1990. Mas e o jogador Erwin Kostedde que alcançou várias coisas, onde fica? Isso não tem nada a ver com o dinheiro que perdi, isso foi culpa minha. Mas não consigo conviver com a minha reputação ter sido destruída por uma negligência policial, da promotoria e da imprensa. Às vezes eu converso com a minha esposa Monique e me pergunto o que seria da minha vida se eu não tivesse sido jogador de futebol. Um trabalho no escritório, de manhã seria de casa pro escritório e do escritório pra casa de noite. Talvez isso teria sido melhor pra mim e pra minha família.”

A triste história de Kostedde marcou, no entanto, o início da inserção do negro na sociedade alemã, dada a visibilidade que uma convocação proporciona. Logo depois, Jimmy Hartiwig também foi chamado para a ​Mannschaft​. Aliás, ele compartilha a mesma história de Erwin Kostedde, cujo pai era um soldado americano enviado à Alemanha após o fim da Segunda Guerra Mundial. Hartiwig publicou dois livros sobre sua infância e o racismo que sofreu naquela época.​ ​Entretanto, antes desses dois, houve um jogador negro que foi o responsável por abrir espaço no futebol profissional germânico.

Der pionier

[O pioneiro]

Tratava-se de Guy Acolatse, um togolês que assinou, em 1963, com o St. Pauli — clube que carrega causas libertárias em seu DNA desde sempre. Essa contratação foi o primeiro grande ato do clube e a sua chegada a Hamburgo foi histórica. O meio campista havia estreado pela seleção togolesa aos 17 anos de idade e, aos 21, pôde escolher entre propostas da Bélgica, da França e da Alemanha. Como o técnico do St. Pauli, Otto Westphal, havia treinado a seleção de Togo, Acolatse aceitou então a chance de ser o camisa 10 do time.

Em entrevista à revista alemã AK, contou algumas questões que pra ele eram naturais e comparou com o que veio acontecer na história do futebol: “Eu era o único negro jogando na Alemanha. Se você joga mal, as pessoas vão resmungar. E elas gritavam: ‘Ei, Guy. Se você não fizer um gol eu vou te jogar uma banana, seu macaquinho!’. Você está jogando para os torcedores. Os jogadores de hoje parecem não saber lidar com isso. Eles se sentem insultados racialmente e choram. Não posso reclamar dos alemães. Eu vivi uma vida muito boa na Alemanha”, relatou em 2010.

“As pessoas vinham de outras cidades pra me ver jogar no St. Pauli. Elas nunca tinham visto um negro na vida.” Mas outro acontecimento marcou ainda mais a carreira de Acolatse: “Eu joguei contra o Franz Beckenbauer. Ele fez a sua estréia naquele jogo, eu simplesmente não posso esquecer disso”. O Bayern venceu por 6 a 1 e foi justamente Acolatse quem marcou o solitário gol do St. Pauli.

Sané vater

[Sané pai]

Existem jogadores que refletem infindáveis páginas da História em sua simples existência. É o caso de Leroy Sané. O alemão afro-descendente é o resultado direto da intervenção dos aliados no pós-guerra na Alemanha Ocidental e um retrato do que a sociedade alemã se tornou — um país muito mais cosmopolita, bem distante de ser composto por uma “raça” ariana pura, como proposto pelo regime nazista.

Leroy Sané jogava no Schalke 04 quando ganhou destaque no time e foi convocado pela seleção principal no final de 2015. Em julho do ano seguinte, se transferiu para o Manchester City de Pep Guardiola. O jogador é filho da ginasta Regina Weber, medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de 1984, e do ex-jogador Souleyman Sané.

Sané pai nasceu em Senegal, mas foi para a França aos quatro anos de idade com seus pais diplomatas. Lá iniciou sua carreira de jogador, e, aos 18 anos, poderia, por lei, servir o exército perto de sua casa, mas devido ao fato de estarem de férias, nem ele e nem seus pais puderam ser contactados. Isso resultou na ida de Sané para o serviço militar na Alemanha, na zona de ocupação militar francesa, que acontecia desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Souleyman Sané era um centroavante e começou na Bundesliga jogando pelo Freiburg, onde marcou mais de 50 gols em pouco mais de 100 jogos entre 1985 e 1988. Quando chegou à Alemanha, disse ter experimentado um racismo diferente: “Era um outro nível de racismo comparado ao que eu estava acostumado. Isso é verdade. Mas eu também tive boas experiências no início. Quando eu cheguei de Paris pelo serviço militar em Donaueschingen, eu joguei na Verbandsliga e o time me acolheu muito bem. Eu não falava nada de alemão e não conseguia me defender dos insultos racistas. Meus colegas de time sempre me diziam ‘Samy, não dê ouvidos a essas pessoas! Eles sabem que você é bom e querem te desestabilizar. Jogue seu jogo que nós vamos ganhar’”, contou à revista 11Freunde em 2011, muito antes de seu filho, Leroy, despontar no futebol.

Sané resolveu permanecer na Alemanha e construir um legado. Ele sabia que sua presença poderia causar algum incômodo, mas decidiu seguir e, olhando pra trás, percebeu o alicerce que deixou: “Eu era um dos primeiros negros nos campos de futebol da Alemanha. Eu tinha convicção de que poderia desenvolver um trabalho pioneiro. E mesmo podendo ganhar mais dinheiro na França, preferi ficar. Lutamos pela aceitação dos jogadores negros. Acho que jogadores e torcedores aprenderam a ser mais tolerantes.”

Já no final da década de 1980, muitos episódios de bananas atiradas em campo poderiam tê-lo feito voltar pra França. Ele falou sobre esse contraste: “Na França eu nunca passei por isso. Era perfeitamente normal para as pessoas que jogadores de diferentes cores de pele e culturas jogassem juntos. Metade dos times consistiam em imigrantes, com raízes africanas, árabes ou italianas. Os franceses estavam acostumados a esse aspecto multicultural dos times”.

Perguntado sobre a reação dos alemães quando viam um negro, Sané contou que percebia um certo medo: “Eles ficavam assustados. Havia poucos negros na Alemanha. Em algumas vilas, os habitantes só tinham visto negros pela TV. Pra essas pessoas, era um verdadeiro choque quando viam um africano. Eram exceções. Na Bundesliga, costumavam ser os craques dos times: Yeboah, Baffoe e outros poucos”.

Anthony Yeboah, Tony Baffoe e Souleyman Sané chegaram a escrever uma carta aos torcedores. Depois disso algumas organizações surgiram, alguns clubes começaram a lidar com o assunto. Sané confirma o episódio no qual Tony Baffoe teria respondido a um torcedor racista, em seu alemão fluente, dizendo que esse torcedor poderia trabalhar numa plantação dele: “Tony sempre foi assim. Ele falava alemão perfeitamente. Então, dá pra fazer isso naturalmente. Ele falava alemão melhor do que os alemães. Você consegue se expôr diante do racismo com ironia. Mas pra mim era difícil, havia uma barreira idiomática. Eu só conseguia calar os racistas com gols e bons jogos”.

Tony Baffoe disse que um africano tinha que fazer melhor do que um alemão. Questionado sobre essa afirmação, Sané disse que isso vale para estrangeiros em geral. Logo depois, lembrou-se de um episódio que envolvia Paul Steiner, integrante da Seleção Alemã campeã do mundo em 1990. Steiner insultou Sané, mas o africano resolveu perdoá-lo, passadas duas décadas do ocorrido.

Sulleyman Sané foi jogar na Áustria, no FC Tirol Innsbruck, e na Suíça, no FC Lausanne. Foi durante seu período nos Alpes que Leroy Sané nasceu. Entre um Sané e outro, vários negros se consolidaram no futebol alemão. Alguns vestiram a camisa da Mannschaft, outros fizeram toda a sua carreira no país.

Desde a chegada — principalmente — dos turcos, nas correntes migratórias no final dos anos de 1950 e início de 1960, período dos chamados Gastarbeiter [trabalhador imigrante em tradução livre], a Alemanha sofre lentamente mudanças na sua composição étnica. O reflexo direto deste processo pôde ser visto a partir dos plantéis da Seleção Alemã na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, e na Eurocopa de 2016, na França. Uma Alemanha cada vez menos pura, felizmente, já que se trata de um país marcado por uma história de intolerância e perseguição étnica.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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