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Dia de jogo é assim

A gente abre o olho e é a primeira coisa que vem na nossa cabeça: é dia de jogo importante do meu time. O coração sai do repouso e batuca mais forte, a gente cerra os punhos, sem saber muito bem por que, e sai da cama. Durante o banho, tá liberado narrar jogadas e gols imaginários da partida de logo mais. É permitido revisitar a escalação uma centena de vezes ou desenhar variações táticas no vidro do box – ou você acha que o Klopp não faz isso? Antes de sair de casa, a busca pela camisa certa, Aquela, pra jogar na mochila.

No trajeto até o trabalho, fone de ouvido para saber o que tão falando no rádio. Tal jogador ainda é dúvida? No celular, os amigos: vamos juntos pro jogo? Que horas? Nos encontramos no lugar de sempre? É bonita a efervescência dos apaixonados.

Chegando no serviço, a gente leva na boa a provocação da recepcionista que torce pro rival e cumprimenta efusivamente o segurança que torce pro nosso time. São pílulas do estádio se espalhando pelo cotidiano, cada centímetro quadrado da arquibancada ocupando as relações prosaicas: ah, o futebol e suas intimidades artificiais até não serem, nunca mais, artificiais. Entramos no escritório. Vazio. Perfeito para rever jogos memoráveis daquela mesma atmosfera: mata-mata, quarta-feira à noite, estádio lotado.

Daqui a pouco seremos nós ali, fardados com o uniforme que escolhemos antes de aprender a amarrar o cadarço ou dar o primeiro beijo. A primeira paixão, a primeira responsabilidade. A primeira sensação de pertencimento sem laço familiar. Nesses dias, tudo isso volta.

Hora do almoço. Saímos 11h55 para evitar a aglomeração nas catracas do prédio e chegar antes no quilo. Assim, dá pra escolher a mesa em frente à televisão e ver os programas esportivos. A TV estar no mudo não incomoda, embora a gente, como sempre, pergunte pra moça do caixa se pode aumentar o volume, mas ela, como sempre, nega. Tudo bem: existe beleza em ver 213 vezes o mesmo clipe de lances dos jogos anteriores, enquanto almoçamos uma feijoada e debatemos com clubismo porque sim.

Porque hoje à noite tem jogo importante do meu time e a ponderação pode ficar pra depois. Por 24 horas, está tacitamente autorizado falar os maiores absurdos. A graça está aí, porra! Quem seríamos se não pudéssemos desdenhar da realidade em nome de um arrebatamento pueril, que nos iguala e nos conforta? Pessoas sérias demais para a vida e para o futebol, acredito.

Caminhamos na calçada voltando pro escritório. Do outro lado da rua, vem vindo um rapaz com a camisa do nosso time. A gente grita o nome do nosso time e o cara também. Os dois vibram, cada um na sua calçada, e seguem a vida. É provável que a gente nunca mais se reencontre, mas não importa: naqueles segundos, nos reconhecemos. Aquele cara ama a mesma coisa que eu! “Esse é dos meus, dos nossos e hoje à noite a gente tá junto”. E sempre que esses encontros acontecem em dia de jogo grande, imediatamente voltamos para a época em que a gente ama sem entender. Quando a gente torce pro Time Do Nosso Pai – ou Da Nossa Mãe. Quando inauguramos esse lugar imenso dentro da gente: nos percebemos como apaixonados de longa data.

À tarde é aquela improdutividade brutal e disfarçada, até vermos, pela janela, os carros ligando os faróis ao entardecer. Começamos a elaborar o plano para ir embora mais cedo, que consiste em ficar na copa do escritório e evitar, assim, algum chamado do chefe. Caneta cai, fuga para o elevador.

Tira a camisa corporativa, põe a camisa mais importante do mundo. Foda-se o frio, a alma tá quente. Mesmo com o fone de ouvido ligado na rádio confirmando a escalação do banho, dá pra ouvir os rojões. Estamos perto do estádio e agora é uma multidão de camisas iguais à sua passando com bandeiras, buzinas e sonhos. Mulheres, crianças, malucos. Poetas. Soldados. Heróis.

A inconveniência bonita dos flanelinhas, a sedução discutível dos cambistas, a procedência duvidosa das camisetas expostas pelos ambulantes. Estamos em casa, aqui é o nosso lugar. Passamos por esse ruído visual correndo – precisamos encontrar os amigos – transformando a paisagem num borrão com as cores do nosso time. O cheiro é uma combinação de merda de cavalo, mijo de humano e churrasquinho de gato. Do jeito que tinha de ser e seria. O clarão dos refletores no céu é, ao mesmo tempo, farol e bússola. Encontramos os camaradas, damos abraços gritando o nome do time, arriscamos placares, cornetamos a escalação, falamos algumas bobagens e fazemos um brinde.

Daqui a pouco o jogo começa, mas não sem antes viver aquele momento que de tão emocionante sempre parece inédito: quando a gente vê o gramado emoldurado pelo cimento da parte interna do estádio.

E aí a gente senta na arquibancada, olha ao redor, olha pro céu e se sente bem. E percebe, por um milésimo de segundo, que, em dias assim, pouco importa se o nosso time vai ganhar ou perder. O valioso é viver a expectativa; desfrutar cada segundo que antecede a partida. A poesia está na esperança e na promessa de uma memória permanente.

Mais do que para o nosso time, passamos o dia todo torcendo para sermos felizes. Como bons torcedores.

2 Comments

  1. julianoortiz

    dezembro 22, 2021

    FODA-SE a educação e os @s (arrobas) que disfarçam os palavrões. CARALHO!
    QUE TEXTO REPRESENTATIVO, PORRA!

    ISSO É FUTEBOL. ISSO É A ESSÊNCIA DE SER TORCEDOR DE VERDADE, MUITO ALÉM DE QUALQUER RESULTADO OU TÍTULO.

    EIS O MELHOR FINAL PARA A CORNER #10. UM FINAL NOTA DEZ COM PESO DE UM CAMISA 10.
    LUCAS, PEGA A FAIXA E VAI PRO GRAMADO QUE O JOGO VAI COMEÇAR!

    PARABÉNS PELO BELÍSSIMO TEXTO (COM LETRAS GARRAFAIS, PORQUE ESTOU EM TRANSE ABSOLUTO, IMAGINANDO-SE EM UM BEIRA-RIO LOTADO!)

  2. julianoortiz

    dezembro 22, 2021

    …IMAGINANDO-ME EM UM BEIRA-RIO LOTADO!)

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