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Dick Kerr’s Ladies

Primeiro jogo internacional entre times femininos,
em 1920, entre o Femina Sport Club, da França,
e o Dick Kerr’s Ladies, da Inglaterra
(Foto: Getty Images)

O sufragismo no futebol

Enquanto os homens combatiam na longa frente de batalha nas Ardenas, as mulheres inglesas desafiavam velhos preconceitos e enchiam as fábricas para preparar munições, protestavam nas ruas para reclamar o direito ao voto e subiam aos gramados para jogar futebol. A história das Dick Kerr’s Ladies espelha bem uma etapa fundamental na afirmação social do papel da mulher. E, além disso, a qualidade impressionante de uma equipe que ficou para a posteridade.

Não há muitos times na história que possam se gabar de ter um registro tão avassalador. De 752 encontros oficiais disputados, 703 foram ganhos, 33 empatados e apenas 16 perdidos. Números suficientes para garantir um lugar na história do futebol a não ser que o nome do time seja, em vez de Real Madrid ou Manchester United, algo muito menos conhecido aos olhos de todos. Algo como Dick Kerr’s Ladies.

Aquela que é a maior equipe da história do futebol feminino é, também, o mais perfeito sinal de como os tempos tinham mudado quando o mundo decidiu entrar em guerra, em 1914, e como essa mudança não foi socialmente aceita por várias gerações. O sucesso do projeto orientado pelo astuto Alfred Frankland durou menos de uma década, mas agitou de tal forma a consciência social que acabou por contribuir mais para o movimento sufragista do que muitas das manifestações organizadas nas cidades inglesas do início dos anos 20.

O seu grande sucesso se deveu à forma como era capaz de vencer facilmente a esmagadora maioria das equipas masculinas que se atravessavam no seu caminho. De tal forma que, incapazes de as derrotar em campo, os clubes forçaram a Football Association a proibir o futebol feminino durante meio século. Tinham encontrado a cor do medo.

De fabricar armas a criar sonhos

O nascimento da Dick Kerr’s Ladies é apenas um espelho de como era a Inglaterra do período entre 1914 e 1918. Enquanto os homens tinham partido para a Flandres, para combater, as mulheres abandonaram definitivamente os campos e os lares e os substituíram nas fábricas, sobretudo na produção de armamento. Uma dessas fábricas, sediada em Preston, no Lancashire, e chefiada por dois empresários escoceses, William Dick e John Kerr, era precisamente conhecida pela imensa quantidade de mulheres que empregava, muitas delas menores de idade. Um dia, para levantar a moral, depois de uma semana em que as notícias do fronte tinham trazido informações de mais mortes, os dirigentes da fábrica decidiram organizar um jogo de futebol entre os homens que tinham ficado e as mulheres. Elas ganharam. Facilmente.

Desde a janela do seu escritório de administrador, Alfred Frankland gostou do que viu. Apaixonado pelo jogo, ex-jogador amador, viu potencial em algumas das jogadoras e propôs à diretoria a criação de um time com o nome da fábrica para organizar jogos de caráter solidário, para arrecadar dinheiro para os feridos do esforço de guerra. Era uma boa jogada de marketing e o projeto seguiu em frente. O nome da equipe, Dick Kerr’s Ladies, nasceu no ato, e, para completar o time, Frankland convenceu algumas jovens da região a aceitarem um emprego na fábrica, recebendo prêmios especiais em caso de vitória. No Boxing Day de 1917, o gestor alugou o campo do Preston North End — clube que tinha sido campeão inglês no final do século anterior — por 20 libras. Dez mil pessoas assistiram ao jogo contra uma equipe de outra fábrica. Inevitavelmente, a Dick Kerr’s saiu vencedora. A receita do jogo foi de 200 libras, doadas ao hospital local, e a iniciativa tornou-se uma rotina. Por mais de um ano, a equipe venceu todos os rivais que encontrou. Treinadas por Frankland, que recrutou para trabalhar consigo Bob Holmes, capitão dos “Invincibles” do Preston anos antes, o time demonstrou ser capaz de jogar futebol como os melhores. Com os seus chapéus de banho para proteger o cabelo, uniforme branco e preto listrado e uma atitude descrita à época como perfeitamente masculina, tornaram-se um grande caso de sucesso midiático da época.

50 mil torcedores nas arquibancadas

O público se apaixonou pela história e Frankland decidiu dar um passo mais longe, desafiando o mais célebre time de futebol feminino francês para uma série de duelos em jogos beneficentes, primeiro na Inglaterra e depois na França. O futebol feminino tinha tido mais expressão do lado de lá do Canal da Mancha, e, para os ingleses, ver mulheres num gramado era uma atração surpreendente, particularmente porque demonstravam não estar muito longe dos seus colegas masculinos.

A equipe francesa chegou à Inglaterra sob uma grande expectativa, mas perdeu os quatro primeiros jogos de forma categórica. Em Londres, para encerrar a excursão, as gaulesas aplicaram a mesma dureza das inglesas e venceram por 2 a 1, mas, quando estas foram até as terras francesas para devolver a cortesia, a sua superioridade tornou-se evidente. Eram a melhor equipa feminina do momento e, sem rivais à altura, começaram a desafiar equipes masculinas. E ganhar.

Frankland era o técnico, conhecido entre as jogadoras como “Pop”, mas as estrelas estavam no campo. Destacavam-se, sobretudo, as figuras de Alice Kell, a espantosa capitã do time, e Lily Parr, goleadora de ofício com apenas 15 anos, e uma das primeiras atletas da história a se assumir publicamente como lésbica, décadas antes de a homossexualidade ser legalizada na Inglaterra. Eram conhecidas do grande público, responsáveis diretas por bilheterias que superavam as 50 mil pessoas em cada jogo que disputavam e, sem saberem, tornaram-se parte da consciência sufragista da época, que defendia a igualdade de direitos para as mulheres. Publicamente, nunca tomaram uma posição política, ao contrário de Emily Pankhurst ou Emily Davinson, mas cada triunfo e cada capa de jornal eram mais vitórias para o movimento.

O medo dos clubes diante do futebol feminino

Em 1922, ninguém parecia ser capaz de derrotar as jogadoras de Frankland, fossem homens ou mulheres. O seu registo era impressionante, e os velhos clubes começaram a temer pelo seu próprio futuro e fizeram uma queixa à Football Association, declarando que a popularidade das Dick Kerr’s Ladies estava provocando perdas financeiras e um dano moral ao futebol inglês que podia ser fatal. Os diretores da federação entenderam a mensagem e, depois de uma reunião em Londres, declararam publicamente que o futebol feminino era inadequado socialmente, que as mulheres não tinham lugar num campo de futebol e que qualquer clube que cedesse as suas instalações para a disputa de jogos com times compostos por mulheres seria banido da FA.

A situação manteve-se por 50 longos anos e significou um duro golpe às aspirações do futebol feminino inglês. Mas não foi o fim da aventura das Dick Kerr’s. Conscientes do seu poder midiático, Frankland agendou uma excursão pelos Estados Unidos, onde o futebol começava a ganhar certa popularidade. Durante vários meses, o time viajou pelo país, defrontando quase sempre times masculinos e vencendo a esmagadora maioria dos jogos. Em Hollywood, cogitou-se fazer um filme sobre Lilly Parr e o seu poderoso pé esquerdo. Em Nova Iorque, foram recebidas como heroínas pelas sufragistas e, quando voltaram à Inglaterra, tinham um registro de jogos ganhos que nenhuma equipe profissional podia sequer aspirar. Mas também tinham encontrado um último e decisivo obstáculo.

A empresa Dick Kerr’s havia sido vendida — a produção de armamento já não era uma prioridade — e Frankland foi demitido. Muitas das jogadoras continuaram na nova fábrica, rebatizada como English Electric, disputando amistosos, porém, sem expressão pública. Algumas tentaram a sorte na França, onde a legislação era mais permissiva, contudo, sem grande sucesso. O clube continuou a existir, mudando de nome para Preston End em 1927, mas a popularidade nunca mais voltou a ser a mesma e o tempo acabou por engolir a sua memória, transformando-a quase num “fait-divers” para curiosos.

Uma era de igualdade

A realidade, porém, era bem distinta. De forma quase inconsciente, o sucesso esportivo e midiático das Dick Kerr’s foi uma das armas sociais mais importantes para as sufragistas inglesas e demonstrou publicamente o medo que o futebol masculino tinha, nesta era pré-comercial, de que o sucesso do jogo entre as mulheres pudesse dividir as atenções de quem sempre teve os holofotes voltados só para si.

O talento das jogadoras do time deixou claro, para a época, que o futebol estava longe de ser exclusivamente um jogo de homens e que, quem sabe, se a FA não tivesse resistido à pressão dos clubes, o futebol feminino estaria no mesmo plano social, midiático e técnico que o futebol masculino, como acontece em outros esportes. Uma pergunta para a qual nunca teremos resposta. Apenas a lembrança de que houve um dia em que as pessoas preferiam ver jogar uma equipe composta só por mulheres ao invés de ver um Liverpool versus Manchester United.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.