Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Die photo van Euro

A controvérsia de uma fotografia logo após a Eurocopa de 1996

Thierry Baudet — autor do livro ​“Indispensáveis fronteiras, por que o supranacionalismo e o multiculturalismo estão destruindo a democracia​” — defende que a Holanda deixe a União Européia. Fundador do partido ​Forum voor Democratie ​[Fórum pela Democracia], Baudet ficou conhecido também por seu euroceticismo bem aflorado e se opôs abertamente à imigração africana na Europa. Tal oposição remete diretamente ao Suriname, Curaçao, além de toda a presença holandesa na África e Ásia. Há como imaginar um time da Holanda sem um Gullit, Rijkaard, Seedorf ou Davids?

Uma fotografia tirada logo após a Seleção Holandesa ser eliminada pela França na Eurocopa de 1996 retratava um suposto racismo no elenco. Eram três mesas e os negros daquele time — Clarence Seedorf, Patrick Kluivert, Michael Reiziger e Winston Bogarde —, estavam sentados juntos em uma só ao fundo da imagem. O treinador à época, Guus Hiddink, aparecia no centro da foto, visivelmente irritado com o clique. A imprensa — de maneira sensacionalista ou não — repercutiu a derrota de outra maneira a partir do registro fotográfico, afinal, após o 0 a 0 em 120 minutos, o jogo foi para as penalidades e Seedorf perdeu o quarto pênalti da série que eliminou os holandeses. Certamente havia uma amizade entre os jogadores que iniciaram suas carreiras na mesma época no Ajax, além de uma proximidade cultural por serem todos oriundos do Suriname, fosse por nascência, no caso de Davids e Seedorf, ou por serem filhos de surinameses como Kluivert, Reiziger e Bogarde. No entanto, o episódio deixou acesa uma dúvida: se uma sociedade considerada liberal como a holandesa seria capaz de promover uma segregação racial em plenos anos 90.

Thierry Baudet concorreu às eleições presidenciais na Holanda em 2017, vencidas pelo candidato à reeleição, o liberal Mark Rutte, que obteve 21,3% dos votos, derrotando também o ultradireitista — conhecido como Trump holandês — Geert Wilders, com 13,1% do pleito. Thierry ficou em último naquela corrida, atingindo 1,8% dos votantes. Porém, ao se somar os votos dos dois candidatos que priorizaram um discurso xenófobo, a diferença para o primeiro colocado diminui, deixando o sinal de alerta ligado.

As eleições holandesas confirmaram uma tendência mundial. O discurso de ultra direita ganhou espaço, sobretudo em 2016, quando o Brexit — a saída do Reino Unido da União Européia — venceu o referendo realizado junto a cidadãos britânicos, dando início a um processo político, social e econômico bem complexo. As leis migratórias do Reino Unido e Irlanda já obedeciam a uma política própria, distinguindo-se dos países membros da Área Schengen, que exclui a necessidade de controle de passaporte nas suas fronteiras.

Outro episódio que causou impacto — negativo — em todo o mundo foi a vitória de Donald Trump nas eleições americanas. A tendência se dá por um fator: o discurso xenófobo. Todos esses candidatos, sejam eles eleitos ou derrotados, e até mesmo o ​referendum​ que acarretou no Brexit, surgem em um momento de grave crise econômica mundial e, claro, social. Não é coincidência que o Nazismo e o Fascismo tenham ascendido politicamente após a Grande Depressão, em decorrência da quebra da bolsa de Nova Iorque, no dia que ficou conhecido como ​Black Tuesday [Terça-feira Negra]​.

A Terça-feira Negra foi o marco inicial de uma crise econômica que assolou os EUA — conseqüentemente o mundo todo — e durou 12 anos. Foi exatamente neste período que o discurso ultra-nacionalista aflorou no mundo e permitiu que ninguém menos que Adolf Hitler chegasse ao poder na Alemanha.

A Lei de Godwin aqui não se aplica. Segundo a teoria de Mike Godwin, à medida que cresce uma discussão, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou o nazismo aproxima-se de um, demonstrando a falta de argumentos. Mas não é o caso, obviamente. A relação entre crise econômica e ultra-nacionalismo não deixa o futebol imune, espelhando a sociedade em que vivemos.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

Deixe seu comentário