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Dívida de gratidão

Não é nenhum exagero afirmar que os títulos olímpicos do Uruguai em 1924 e 1928 — louros máximos para o futebol da época — impulsionaram fortemente a candidatura do país para receber a primeira Copa do Mundo da história. Agora, é, sim, uma ingenuidade sem tamanho acreditar que os dois ouros em seqüência da Celeste tenham sido suficientemente importantes para que a primeira sede do Mundial fosse o segundo menor país da América do Sul, distante pelo menos dez mil quilômetros da Europa que penava no Entreguerras. Logo, os uruguaios não foram meros anfitriões do torneio, mas, sim, os grandes fiadores de um projeto de 25 anos que transformou o esporte e consolidou a FIFA como uma das entidades mais poderosas do planeta.

Fundada em 21 de maio de 1904, a Fédération Internationale de Football Association nasceu para desenvolver o futebol pelos quatro cantos do mundo com um objetivo claro em seu estatuto: ser a única entidade com direito a realizar um campeonato mundial de futebol. Apesar disso, a realidade era amarga em relação às ambições da recém nascida. No 2º Congresso da FIFA, em 1905, nenhuma das 12 nações filiadas até o fim daquele ano se dispôs formalmente a sediar o Mundial, o qual os dirigentes projetavam com empolgação já para 1906.

Sem respaldo dos países-membros, a idéia foi parar na gaveta. A modalidade continuou a fazer parte do programa olímpico, que vetava a participação de atletas profissionais. Além disso, o torneio organizado sob o guarda-chuva do Comitê Olímpico Internacional passava por cima da exclusividade reivindicada pela nova federação. Em 1914, a proposta de que o campeão olímpico de futebol fosse reconhecido também como campeão do mundo foi aprovada no congresso de Kristiania [Oslo a partir de 1924], capital da Noruega.

De fato, a alteração nunca foi posta em prática, já que a irrupção da Primeira Guerra Mundial ocasionou o cancelamento dos Jogos Olímpicos de Berlim [1916], e a decisão de unificar as conquistas foi revogada pouco antes dos Jogos da Antuérpia, em 1920. Em contrapartida, foi na mesma edição da Bélgica que a FIFA organizou pela primeira vez o futebol dentro das Olimpíadas. Esse, aliás, foi o ano em que Jules Rimet — já como presidente da FFF [Fédération Française de Football] — foi eleito também para assumir a direção da FIFA.

Após o restabelecimento da paz, restrições diplomáticas ainda eram obstáculos ao diálogo entre os países europeus, protagonistas da guerra. Vários deles foram irredutíveis, opondo-se a negociar e disputar torneios esportivos junto a nações das quais foram inimigos declarados por quatro anos. Houve casos mais extremos, semelhantes ao da Inglaterra, que renunciou à sua vaga nos mesmos Jogos da Antuérpia por não concordar com a participação de países que se mantiveram neutros no conflito, como Espanha — que viria a ser prata em 1920 — e Noruega.

Foi nesse contexto conturbado que começariam a se estabelecer as condições necessárias à realização da primeira Copa do Mundo. Em 1923, o Uruguai conquistaria sua quarta Copa América em sete edições disputadas, afirmando-se como a maior potência do continente, mas ainda assim faltava o reconhecimento fora do Novo Mundo. Naquele mesmo ano, a AUF garantiu sua condição de filiada à entidade máxima do futebol mundial, pré-requisito para a participação de qualquer país na disputa da modalidade a partir dos Jogos de 1920, primeira edição do evento em que o futebol passa a ser organizado inteiramente pela FIFA. Diz a história que Atilio Narancio, presidente da Asociación Uruguaya de Fútbol entre 1923 e 1925, teria hipotecado um bem para pagar a sua viagem até o 12º Congresso da FIFA, em Genebra.

Com a presença garantida nos Jogos da França, a Celeste despertou o fascínio dos parisienses, da imprensa e dos cartolas devido às sucessivas goleadas aplicadas à medida que avançava na sua primeira aparição no torneio — foram vinte gols marcados e apenas dois sofridos — em uma campanha invicta, coroada com um passeio de 3 a 0 sobre a Suíça na final de 1924. O ouro no peito dos charruas era uma ótima surpresa para Rimet: a apresentação e o título uruguaios apresentaram a possibilidade de uma nova configuração à organização geopolítica do futebol — que até então limitava seus grandes agentes à Europa — e colocaram a América do Sul no mapa do bola.

Assim, criavam-se as condições para que um novo mercado fosse incluído à lógica do jogo junto aos europeus que, sozinhos, apresentavam uma série de barreiras entre si para o crescimento do esporte em nível mundial.

Mais do que isso: o desempenho dos sul-americanos reavivou o desejo de concretizar a primeira Copa do Mundo no seu maior entusiasta. No livro Futebol — A Copa do Mundo, Rimet afirma que o triunfo dos uruguaios poderia “facilitar enormemente a realização, na América do Sul, do grande projeto com o qual sonhado desde 1905”. Ademais toda capacidade uruguaia dentro dos gramados, o que de fato proporcionou viabilidade ao plano da FIFA foi a entrada de um personagem decisivo para que 1930 fosse possível.

Já em 1925, Jules Rimet passava férias na cidade de Genebra quando, casualmente, deparou-se com Enrique Buero, um renomado diplomata uruguaio que à época era Ministro do Uruguai na Suíça [1923 a 1927]. Não por acaso, Buero se notabilizou pela grande capacidade de articulação responsável por garantir a associação dos uruguaios à FIFA em ‘23. Ali, os dois puderam conversar livremente sobre futebol. Nesse encontro acidental, Rimet menciona o intuito de tirar do papel a tão postergada Copa do Mundo de seleções, o que é muito bem recebido por Buero.

Nesta ocasião, o chanceler já teria se manifestado positivamente sobre um ponto crucial, considerado entrave para a execução da Copa: a disponibilidade de arcar com todos custos da organização de um evento desse porte. A partir daí, os dois manteriam uma relação vital para o sucesso do planejamento, que tinha no Uruguai não somente o aporte financeiro necessário para sustentar os gastos, mas como uma nação alheia às rivalidades continentais que faziam da Europa um mosaico complexo politicamente, como reflexo do clima bélico remanescente da Primeira Guerra.

O Congresso de Amsterdam, em 26 de maio, às vésperas do início dos Jogos de 1928, definiu que a primeira Copa do Mundo seria disputada em 1930, mas não o host. Suécia, Itália, Espanha, Holanda e Uruguai se candidataram a país-sede. Quinze dias depois, o bi charrua sobre a Argentina endossava a hegemonia uruguaia e a candidatura dos sul-americanos. O Congresso de Barcelona, em 1929, definiu formalmente que o país organizador seria o responsável por arcar com todos os gastos da competição, incluindo transporte, estadia e alimentação de todas as delegações — condição aceita pela AUF desde o papo de 1925 entre Rimet e Buero. Todos os europeus retiraram suas candidaturas, e o Uruguai foi eleito por aclamação a receber, enfim, o primeiro campeonato mundial de futebol.

Mas os mesmos que abdicaram em favor do Uruguai também iniciaram uma onda de boicotes ao torneio. O tempo de travessia do Atlântico até o sul da América somado aos dias de competição implicava a ausência dos craques nos principais times europeus por praticamente dois meses. Além disso, a viagem também faria com que os jogadores — na sua imensa maioria amadores — tivessem de faltar aos seus empregos, acarretando um prejuízo econômico sem tamanho tanto para as empresas como para os familiares dos atletas, que ficariam sem sustento.

Criava-se aí um novo problema, pois uma Copa do Mundo sem os europeus não teria o reconhecimento que Rimet desejava. Para que a competição não se tornasse um grande Pan-americano — com Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Estados Unidos, México, Paraguai, Peru e Uruguai —, a ação diplomática de Enrique Buero precisou entrar em cena novamente para garantir a presença de seleções européias, a fim de legitimar o caráter mundial do certame.

Para isso, Buero precisou redesenhar as propostas financeiras oferecidas a outros europeus de modo a persuadi-los a prestigiar o acontecimento. Como o Uruguai já tinha chegado ao seu limite orçamentário e não conseguia aumentar os valores para cobrir os pedidos, o diplomata propôs que as passagens de primeira classe nos transatlânticos na ida e na volta fossem substituídas por outras de segunda, sem abrir mão do conforto. O valor economizado nos bilhetes — que chegavam a 3.760 francos por pessoa — seriam somados ao montante pago como incentivo, cobrindo o que os jogadores deixariam de ganhar por faltar ao trabalho. A estratégia funcionou, e a Bélgica foi a primeira seleção européia a confirmar presença, já no dia 26 de abril de 1930 — a abertura do torneio estava marcada para 15 de julho. A França deu sinal verde um mês depois, em 19 de maio.

De outro lado, Rimet ganhou o apoio do Rei Carol II, da Romênia, que não apenas confirmou a participação de sua seleção, como também convocou um a um seus integrantes. Alguns desses convocados trabalhavam para uma companhia petrolífera inglesa, cujo gerente não os teria liberado para ir à Copa não fosse uma nova intervenção do monarca. Depois de intensas negociações sobre o adiantamento do dinheiro e o aumento do número de integrantes da delegação — de 17 para vinte —, a Iugoslávia foi a última equipe a assegurar a vaga.

Ao fim e ao cabo, franceses, belgas e romenos embarcaram no navio SS Conte Verde — que daria carona também aos cariocas da Seleção Brasileira — rumo à Copa. A Iugoslávia cruzaria o oceano a bordo do Florida de Marselha.

Confirmavam-se assim 13 participantes para a disputa, abaixo dos 16 esperados pela FIFA, mas o suficiente para que o plano finalmente ganhasse forma, o que nunca aconteceria sem os esforços conjuntos de Jules Rimet e , principalmente, do governo da República Oriental.

No dia 30 de julho, a Celeste Olímpica levantou a primeira Copa do Mundo no estádio Centenário, batizado em comemoração ao centésimo aniversário da Constituição de 1830, a primeira promulgada pelo Uruguai soberano e independente, tal qual a FIFA dali pra frente.

Jornalista graduado pela FACHA. Gaúcho que vive no Rio (mais um). “Goleira” é o conjunto de traves, “gol” é quando a bola entra. Tem uma queda pelo futebol cantado em castelhano e geralmente joga melhor quando ninguém está vendo. Amante de futebol, música, história, cinema, fotografia e apaixonado pelo jornalismo. Do pescoço pra baixo, tudo é canela.

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