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Do Kasımpaşa para Ancara

A relação do premiê turco com o futebol

Dos primeiros passos da infância ao poder, o futebol foi peça-chave na trajetória do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan. O homem que um dia dedicou seu suor aos campos passou a ser tratado como um ditador de mãos de ferro por seus opositores e críticos na vida política. Fortalecido após a tentativa de golpe militar sofrida em julho de 2016, Erdoğan seguiu com considerável apoio popular e ainda tinha no futebol um importante termômetro, afinal, é deste esporte que surgiam importantes aliados, ao mesmo tempo em que apareciam as mais destacadas reações.

A bola, o limão e o simit

Nascido em 26 de fevereiro de 1954, em Istambul, Erdoğan passou parte de sua infância em Rezi, cidade costeira às margens do Mar Negro. Antes de descobrir sua predileção pelo poder, ajudava sua família como muitos garotos já fizeram: vendendo limonada. Além do suco, comercializava também o simit, um tradicional pão turco de forma redonda, coberto por gergelim. Nas horas vagas de trabalho e estudo, ele se divertia jogando futebol. Um chute na bola aqui e outro acolá, e logo o menino passou a levar a sério o esporte. Entre 1969 e 1982, atuou como jogador semi-profissional, inclusive vestindo a camisa do Kasımpaşa, clube que já foi um dos temores das principais equipes do país. Foi através dele que Erdoğan chamou a atenção do Fenerbahçe, time do coração do futuro político, mas seu pai impediu a transferência. Ou era estudo, ou era a bola. Ainda assim, o fato de ter sido um jogador de futebol é motivo de grande orgulho para Erdoğan. Em seu antigo site oficial, inclusive, era destacada a vida esportiva do então primeiro-ministro turco como fator preponderante para a aquisição de disciplina e espírito de equipe. Um ano antes de pendurar as chuteiras, se formou em Ciências Econômicas e Comerciais na Universidade de Marmara, local em que começou a participar ativamente da política. Foi nessa época também que casou com Emine Gülbaran, mãe de seus quatro filhos.

Sua carreira na política definitivamente começou quando foi eleito presidente de um departamento de jovens do Millî Selamet Partisi [Partido da Salvação Nacional, em tradução livre], um partido político islâmico que teve suas atividades encerradas após o golpe de 1980. Durante o governo militar, Erdoğan trabalhou na área contábil e administrativa do setor privado. Durante a faculdade, conheceu Necmettin Erbakan — que foi o primeiro ministro no biênio 96/97, obrigado a deixar o cargo por pressão dos militares. Erbakan serviu como um mentor do jovem estudante e aspirante ao poder. Após o fim daquele governo militar, em 1984, foi criado o Refah Partisi [Partido do Bem-Estar Social] e Erdoğan foi escolhido como líder distrital de Beyoğlu, bairro de Istambul. Aos poucos, foi conquistando a confiança dos membros do partido e, em consequência, elevando sua popularidade e alcançando cargos mais importantes. Dez anos depois de entrar de cabeça na política, Erdoğan enfim sentia o gosto do poder. Em 1994, foi eleito o primeiro prefeito islâmico de Istambul, fato que lhe trouxe problemas três anos depois, ao ler um poema do poeta otomano Ziya Gökalp durante um pronunciamento, considerado um atentado à laicidade do estado e aos valores seculares de Mustafa Kemal Atatürk, o homem que fundou a Turquia. Com isso, Erdoğan teve de renunciar ao cargo de prefeito e foi condenado à prisão, cumprindo pena entre os meses de março e julho de 1999, além de ver o partido do qual era filiado ser extinto. Talvez a obsessão de Erdoğan pelo judiciário, e também pela censura, tenha nascido após esse episódio.

Ser e não ser Europa

Por Jessica Miranda

Şişli, Istambul, nove de dezembro de 1999. Ali Sami Yen Stadyumu. Emre Belözoğlu estava sozinho no meio de campo, apenas observado, de longe, por três jogadores do Bologna, quando fez o lançamento para o fundo da pequena área e o ponta Ümit Davala emendou um chute fraco, cruzado, sem esperar a bola cair, selando a classificação do Galatasaray para as oitavas-de-finais da Copa da UEFA daquela temporada, dado o placar agregado de 3 a 2 ante os italianos. Três dias depois do jogo, a Turquia era oficialmente reconhecida como candidata à entrada na União Européia.

A implementação do modelo da Champions League, a partir da temporada de 1992/93, acarretou mudanças estruturais nas outras competições européias. Quando o torneio máximo passou a contar não somente com clubes campeões nacionais, grande parte da relevância da já desprestigiada Copa da UEFA foi perdida, agravando também o desinteresse pela Recopa, ao ponto desta ser extinta após o título da Lazio em 1998/99 — oficialmente uma fusão com a competição secundária da instituição.

Ampliou-se ainda mais o número de classificados para a fase de grupos da UCL: ao todo, 32 times divididos em oito grupos, nos quais os terceiros colocados de cada um se classificavam para as fases eliminatórias da Copa da UEFA. E foi justamente por este atalho que Galatasaray e Arsenal disputaram, em Copenhague, o título da edição 1999/00.

A capital da Dinamarca também está conectada à história turca de outra maneira. Visando a se adequar aos Critérios de Copenhague — requisitos primordiais para ser um membro da União Européia —, Erdoğan, por exemplo, expandiu a economia do país e ajudou a abolir a pena de morte, em 2004. No entanto, depois da tentativa de golpe de estado, em 2016, o presidente da Turquia, ignorando a vontade do Parlamento e levando em conta o resultado de um referendo, pretende sancionar, sozinho, a volta desta pena capital, a partir de 2019, o que mataria a candidatura turca.

Mas antes da equipe de Fatih Terim disputar o título com os Gunners, outro time inglês cruzou o caminho dos Leões: o Leeds, nas semifinais. No jogo de ida, vitória turca por 2 a 0, com um empate na Inglaterra por 2 a 2. Mas reportar o ocorrido em campo é supérfluo: Christopher Loftus e Kevin Speight morreram esfaqueados um dia antes da partida em Istambul, em confronto entre torcedores.

Na segunda temporada da série de documentários inglesa The Real Football Factories, de 2006, conduzida pelo ator Danny Dyer — que atuou no filme Violência máxima —, no primeiro episódio, sobre a Turquia, o apresentador se mostra muito impressionado com a naturalidade que facas são usadas pelos hooligans locais. Uma arma acessível que qualquer um pode ter, os jovens torcedores portam suas facas e, quando há conflitos entre torcidas, os resultados são sempre fatais.

Anos se passaram e ainda é incerto sobre qual lado dera início àquela briga generalizada, no meio da principal praça da cidade. Relatos de testemunhas, em entrevista ao The Independent, em 2000, afirmam que a polícia local não só fez pouco caso para impedir o conflito, como também ajudou a bater nos ingleses, em uma espécie de acerto de contas da Tríplice Aliança com a Tríplice Entente — no último ano do século XX —, entre os costumes orientais e ocidentais. “Aqui não é Leeds. Quando você briga na Turquia, a honra de um homem significa que geralmente alguém será morto”, resumiu uma das testemunhas.

Antes da disputa do título, houve conflitos nas ruas de Copenhague entre torcedores do Arsenal e Galatasaray, novamente com facas, resultando em quatro feridos e mais de cinqüenta presos, de acordo com o The Guardian. Pode-se tentar compreender a origem destes tristes acontecimentos a partir do relato de Bill Bufford, no livro Entre Vândalos: “[…] poucas pessoas surgiram para apontar o fato de que a classe média operária não existe mais. Isso, por si só, não seria particularmente significativo — afinal de contas, a Inglaterra não é o primeiro país tecnologicamente avançado a assistir ao desaparecimento de sua classe operária; poder-se-ia argumentar que é um dos últimos —, exceto que ninguém está admitindo que nenhuma coisa deixou de existir. […] Trata-se, no entanto, de apenas um estilo. Nada de substantivo existe ali [nos vândalos]; não há nada a que pertencer, embora seja ainda possível, suponho, pertencer a uma expressão — a classe trabalhadora —, uma figura de linguagem cuja função é reforçar determinados hábitos sociais, determinado modo de falar, e que obscurece o fato de que a única coisa oculta por trás dela é uma sociedade suburbana altamente postiça, desprovida de cultura e sofisticação e vivendo unicamente para seus maneirismos: um código inflado de virilidade, um patriotismo exacerbado e constrangedor, um nacionalismo violento e uma profusão de hábitos antissociais falidos. Essa geração entediada, vazia e decadente, consiste em nada mais do que aquilo que aparenta ser. Trata-se de uma cultura jovem desprovida de mistério, tão exangüe que se utiliza de violência para despertar a si própria. Aferroa a si própria para que possa sentir alguma coisa; queima a própria carne para que esta exale algum odor”.

Não houve gols no Parken Stadium, em Copenhague, e o troféu da Copa da UEFA de 1999/00 foi decidido nos pênaltis. Šuker parou na trave direita e Vieira, no travessão de Taffarel. Popescu fez como seus companheiros e converteu a quarta e derradeira cobrança, trazendo o título inédito para o time de jogadores excepcionais, como Şükür e Hagi. O craque romeno foi expulso no tempo extra.

Em 2002, Ali Ümit Demir acabou condenado a 15 anos de prisão pelas mortes de Loftus e Speight. A punição exclusiva a Demir pelos homicídios — ainda não cumprida devido a recursos — continua a ser alvo de protestos e revoltas.

Até 2017, o país intercontinental não foi aceito no bloco, apesar das concessões do governo nacional. Tampouco houve outra conquista de título europeu por clubes turcos, mesmo com investimentos maciços na contratação de estrelas como Drogba, Sneijder e van Persie, culminando no aumento de suas dívidas, ao ponto de sofrerem sanções da UEFA — como o Beşiktaş, em 2012, e o Galatasaray, em 2016.

Da Europa para o mundo

Por Wladimir de Castro Rodrigues Dias

Antes de 2002, as Estrelas Crescentes só haviam disputado o Mundial de 1954. Diante disso, não há debate que diminua o peso e o valor do terceiro lugar conquistado no Japão e na Coréia do Sul. É bom que se diga, no entanto, que não são só os bons resultados que eternizaram aquela equipe, mas também dois ídolos que proporcionaram toda a magia vivida entre maio e junho daquele ano.

Sobre marcas de guerra, defesas e uma decepção

As longas madeixas, o estilo peculiar e arrojado com o qual exerceu seu ofício, e o desempenho brilhante na Copa do Mundo de 2002, renderam ao goleiro Rüştü Reçber cadeira cativa no rol dos “heróis cult” da história do futebol. Tal categoria é importante, porque une jogadores brilhantes com a bola nos pés e verdadeiros fracassos, mentes privilegiadas e atletas persistentes. Toda trajetória que tem algo a contar certamente é apta a integrar tal relação. O goleiro turco não poderia ficar de fora.

Não se discute o que Rüştü fez naquele Mundial, os milagres que operou lhe renderam lugar na seleção montada com os melhores do torneio. O principal, contudo, é perceber que não foram apenas suas habilidades como goleiro que o colocaram em evidência. O camisa 1 era diferente. Habitualmente, pintava no rosto marcas de guerra — em sua versão dos fatos, para diminuir a influência dos holofotes dos estádios em sua visão, mas para muitos simplesmente para parecer mais ameaçador aos atacantes adversários. O que é mito e o que é realidade pouco importa.

Fatih Terim e Şenol Güneş foram fundamentais na carreira do goleiro. Terim disse a ele quando jovem: “você será o melhor goleiro turco de todos os tempos”, de acordo com o site oficial da UEFA, em matéria publicada em 2005. Por outro lado, Şenol Güneş, que foi goleiro do Trabzonspor por 15 anos, definiu Rüstü como o arqueiro do time durante todo o tempo que treinou a Seleção Turca, ou seja, durante a mais gloriosa época do futebol do país.

No entanto, a carreira de Rüştü não foi um conto de fadas, ainda que em determinado momento apontasse nesse sentido. Um dos melhores do mundo em 2002, foi contratado pelo Barcelona em 2003, naquele que foi o primeiro negócio do então presidente do clube catalão, Joan Laporta [antes esteve perto de firmar pelo Arsenal, para a sucessão de David Seaman]. Sua missão, todavia, não era fácil. Desde a saída de Andoni Zubizarreta para o Valencia, os Culés não contavam com um goleiro de confiança.

O turco não conseguiu suprir a necessidade da equipe, engrossando uma lista de fracassos que já contava com Roberto Bonano, Ruud Hesp e Vítor Baía. No entanto, outra polêmica ganharia os jornais: Frank Rijkaard teria dispensado Rüştü pelo fato de o jogador não falar espanhol, conforme ele mesmo relatou ao Sky Sports, em 2003: “não é normal ser reserva porque você não fala espanhol […] essa foi a justificativa que o treinador me deu para dar a titularidade a Valdés”.

O ídolo das Estrelas Crescentes jogou apenas sete partidas pelo Barça. Cometeu falhas, teve problemas físicos e, na temporada seguinte, voltou à Turquia, retomando sua trajetória no Fenerbahçe, que começara em 1994 e se prolongou até 2007. Naquele ano, diante da concorrência de Volkan Demirel, Rüstü se mudou para o rival Beşiktaş, clube em que encerrou a carreira.

Embora não tenha tido uma trajetória linear de sucessos, Rüştü Reçber jamais será esquecido. Um pouco pelo jeitão e pela excentricidade, também por ser o jogador que mais vezes representou seu país, e muito pelo tamanho dos feitos que o ajudou a alcançar. “Antes de nossa geração vir, os resultados eram ruins. Fomos o grupo de jogadores que mudou o destino e a sorte do futebol turco e esse é um sentimento maravilhoso”, refletiu o goleiro já aposentado, em entrevista concedida ao site da FIFA, em 2013.

Representante do povo dentro e fora das quatro linhas

Na ponta aposta do time turco, atuou o outro ícone de 2002: o artilheiro Hakan Şükür. Se a trajetória de Rüştü é intrinsecamente ligada aos rivais Fenerbahçe e Beşiktaş, a do capitão daquela vitoriosa equipe o é em relação ao Galatasaray.

O Touro do Bósforo, como era conhecido, foi um goleador implacável. Segundo maior artilheiro do clube de Istambul, com 290 gols, e também ocupante do segundo lugar de maior número de aparições [535]; vice-líder no ranking de partidas pela Seleção Turca [112] e maior artilheiro da equipe, com 51 tentos, é um dos maiores nomes de todos os tempos da nação.

Curiosamente, naquele Mundial, Şükür foi às redes apenas uma vez, na partida contra a Coréia do Sul, que valeu o terceiro lugar aos turcos. Porém, aquele não foi um gol qualquer, ganhou lugar na história por ter sido o mais rápido das Copas do Mundo, anotado aos 10,8 segundos de partida.

Também é interessante notar que todas as vezes em que o atacante embarcou em aventuras a outros países, fracassou. Foi assim no Torino, na Internazionale, no Parma e no Blackburn Rovers. O clube da sua vida foi mesmo o Galatasaray, que, por duas vezes, o recebeu de braços abertos após suas empreitadas erráticas em outras nações. Dono de recordes históricos e membro fundamental da mais emblemática das seleções turcas, tendo sido o capitão daquela equipe, tinha opiniões fortes.

Em 2003, definiu bem do que se trata o esporte bretão em seu país, em relato ao site da UEFA: “na Turquia, o futebol é como uma religião e não é fácil obter sucesso sob tanta pressão emocional”.

Após sua aposentadoria dos gramados, Şükür foi comentarista esportivo, ingressando, em 2011, na política. Inicialmente alinhado ao partido do então Primeiro Ministro da Turquia Erdoğan, quando foi eleito deputado.

Tudo correu tranquilamente até 2013, quando Erdoğan rompeu relações com Fethullah Gülen, teólogo turco exilado nos Estados Unidos, que, segundo ele, seria líder de um movimento que tenta tomar o poder na Turquia. Na visão do mandatário, o estudioso teria sido a mente por trás da tentativa de golpe de estado de 2016.

Şükür, declaradamente apoiador de Gülen, deixou o partido, tornou-se independente e passou a conviver com problemas a partir de então. Na época, criticou decisões do governo que ordenaram o fechamento de escolas ligadas ao movimento do teólogo. Pouco depois, o ídolo nacional foi levado a julgamento por ter, supostamente, insultado Erdoğan em seu Twitter e acabou optando por deixar o país. Ainda em 2016, voltou a ser acusado, desta vez de ter participado do tal golpe, e voltou a ter sua prisão decretada.

Sob a máscara de defensor da democracia, Erdoğan conseguiu afastar do país um ídolo nacional. O certo é que governantes vêm e vão, histórias ficam e 2002 está marcado na eternidade.

A ascensão política

Por Yuri Casari

Em 2001, Erdoğan fundou o Adalet ve Kalkınma Partisi [Partido da Justiça e Desenvolvimento], contando com o apoio de Abdullah Gül, presidente do país entre 2007 e 2014. Um ano depois de sua criação, o partido conquistou dois terços das cadeiras no parlamento, mas Erdoğan ainda estava banido da política. Dessa maneira, Abdullah Gül assumiu o cargo de primeiro ministro. Ainda naquele ano, o resultado das eleições foi cancelado devido a irregularidades e um novo pleito foi convocado para 2003, quando, ironicamente, graças a uma mudança da legislação realizada pelo Partido Republicano do Povo (CHP), Erdoğan se tornou elegível e ganhou de bandeja o tão sonhado cargo de primeiro ministro, trazendo estabilidade ao país, e se tornando o mais carismático e controverso líder turco desde o secularista Atatürk. Avanços na economia e na infraestrutura, além de sua retórica forte, o colocam com boa imagem frente à sociedade, mas suas ações de repressão, que incluem prisões até por críticas ao governo na internet, o transformaram em um ditador democraticamente eleito.

Com a facilidade que tinha em dominar os diversos setores da sociedade, Erdoğan também tentava influenciar o futebol. Em 2012, em meio a um escândalo de manipulação de resultados que envolviam 16 equipes, entre elas o gigante Fenerbahçe, o então primeiro ministro tentou, tanto em discussões no parlamento quanto na Federação Turca, o perdão para Aziz Yıldırım, presidente do Fener, e para os outros 92 envolvidos. Se não conseguiu livrar Yıldırım da condenação, Erdoğan ao menos livrou o Fenerbahçe e as outras equipes do rebaixamento, causando a renúncia de três dirigentes do alto escalão da TFF, incluindo um cunhado de Erdoğan, Göksel Gümüşdağ, que também é presidente do İstanbul Başakşehir FK, que se tornou uma força emergente do futebol turco nos anos 2010 — também pairam dúvidas sobre possível relação promíscua entre clube e federação. O premier defendeu a decisão afirmando que “punir instituições em vez de indivíduos iria penalizar milhões de fãs que colocam seus corações nestas instituições”. O Fener foi inocentado das acusações, mas ainda assim foi excluído da edição 2011/12 da Champions League, com o Trabzonspor, vice-campeão nacional da temporada anterior, assumindo a vaga. A mistura de futebol e política, naturalmente, não é inédita na Turquia. Na década de 40, Recep Peker utilizou a presidência do Beşiktaş como um trampolim para o cargo de primeiro ministro, assim como Şükrü Saraçoğlu, que dividiu seu tempo entre o poder no país e no Fenerbahçe, clube que presidiu por 16 anos.

Os protestos de 2013

Em maio de 2013, os planos presidenciais de demolição de um parque urbano no distrito de Beyoğlu para a reconstrução de um quartel histórico dos tempos do Império Otomano desencadeou uma série de protestos contra o regime de Erdoğan. Iniciado por algumas dezenas de ambientalistas, a ocupação do Parque Taksim Gezi ganhou apoio popular após a desproporcional repressão policial e levou mais de 2,5 milhões de pessoas às ruas de Istambul e também de outras cidades pelo país.

Naquele momento, Erdoğan viu uma de suas maiores paixões se virar contra si. Torcedor assumido do Fenerbahçe, o líder turco teve de engolir a união de torcedores do Fener com o Çarsi, torcida organizada do Beşiktaş, intimamente ligada à esquerda anarquista e seguidora dos preceitos de Atatürk. Assim, resolveu então “virar a casaca”. Quando jovem, Erdoğan atuou pelo clube do Kasımpaşa, do bairro em que nasceu e onde iniciou sua carreira pública. Os torcedores do Kasımpaşa mostraram apoio com cânticos como “Everywhere is Tayyip, Erdoğan everywhere” [“Em todos os lugares Tayyip, em todos os lugares Erdoğan”].

Quatro meses após a eleição presidencial de Erdoğan, 35 torcedores do Beşiktaş foram julgados e condenados à prisão por conspiração. Durante o julgamento, um grupo protestou puxando cânticos do estádio em apoio aos presos. Na época, grupos de direitos humanos tentaram intervir no caso, pois consideraram que as evidências — mensagens de texto e ligações interceptadas com críticas ao governo — eram “frágeis e absurdas”. No mesmo período, foi definido como obrigatório para os clubes que disputam a Süperlig usarem o Passolig, um sistema eletrônico de compra de ingressos que exige o cadastramento prévio dos torcedores. Curiosamente, o Aktif Bank, banco responsável por todas as operações do programa, é de propriedade da Çalık Holding, empresa em que o genro de Erdoğan, Berat Albayrak, atua como CEO. Além de aumentar o preço dos ingressos, a medida também foi considerada pelos torcedores como meramente repressiva, o que gerou impacto imediato. A média de público, de 12 mil pessoas, caiu na temporada 2014/15 para 8 mil, e segue em declínio três temporadas após o início do funcionamento do Passolig.

O golpe

A Turquia é um país com um longo histórico de golpes — e tentativas. Um golpe aconteceu um em 1997, e 19 anos depois, na noite de 15 de julho de 2016, houve outra tentativa, quando forças militares se rebelaram contra o governo de Erdoğan, acusado de islamizar o país. Em pouco mais de três horas, confrontos entre as forças leais ao regime e as forças rebeldes deixaram cerca de 260 mortos entre civis e militares. Pouco depois das 3h da madrugada, já no dia 16, Erdoğan retorna a Istambul triunfante, recebido por uma multidão e anunciando ter mantido o controle do país, além de acusar Fethullah Gülen, influente líder islâmico e ex-aliado de Erdoğan, como líder da conspiração. A motivação e os líderes do golpe continuaram desconhecidos, inclusive gerando uma resposta de Gülen, que, em entrevista ao The New York Times, em 2016, negou participação no ato, sugerindo que o golpe teria sido realizado pelo próprio governo de Erdoğan, como forma de justificar qualquer repressão posterior.

Após recuperar o poder, Erdoğan partiu para o contra-ataque perseguindo membros do exército, da política, da imprensa, e, claro, do futebol. Sem maiores explicações, no dia 16 de março de 2016, 94 pessoas foram demitidas da Federação Turca de Futebol. “Nossa federação considera necessário despedir 94 pessoas, incluindo árbitros e assistentes, observadores regionais e nacionais e membros do Conselho Provincial de Arbitragem”, dizia o comunicado publicado no site da entidade. Até mesmo o ídolo Hakan Şükür, maior goleador da seleção nacional e também do Campeonato Turco, teve sua prisão decretada, apenas por ser um ávido crítico do líder, do qual também já foi apoiador.

Entre o sim e o não

Erdoğan e seu partido, o AKP, resolveram, por meios legais, aumentar ainda mais o poder que já tinham em mãos. Em 2017, foi proposto um referendo popular para a alteração de 18 emendas da Constituição Turca, que incluíam a mudança do sistema parlamentarista, vigente desde a instituição da República da Turquia, em 1923, para o sistema presidencialista, a abolição do cargo de Primeiro-Ministro, e mudanças nos critérios de escolha de juízes à mais alta corte do país, que ficaria a cargo do presidente. Embora polêmica, a medida, assim como a própria figura de Erdoğan, é muito popular no país, talvez na mesma proporção com que é rejeitado. Por isso, na hora de conseguir o apoio da maioria dos turcos, mais uma vez o futebol voltou a se tornar peça importante na vida política de Erdoğan. Amigo dos principais atletas turcos, não foi difícil ter o respaldo de estrelas como Arda Turan, Burak Yılmaz e Fatih Terim. Não foram poucas as declarações à imprensa, comunicados e até postagens nas redes sociais — especialmente por Turan, atleta do Barcelona em 2016 e seguido por mais de seis milhões de pessoas no Instagram — em que diziam “sim” para Erdoğan.

O apoio para Erdoğan durante seu mandato também veio de clubes de futebol, como o Sakaryaspor, que durante uma partida da quarta divisão permitiu que seus jogadores entrassem com uma faixa com os dizeres “o mundo é maior do que cinco: Tayyip Erdoğan para presidente”, em referência aos cinco países com poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas, afinal, umas das bandeiras de Erdoğan é a reforma deste conselho. A federação turca fez vista grossa para manifestações como essa, mas não seguiu o mesmo critério com o Diyarbakir BB, que mudou de nome, mesmo sem a aprovação da federação, para Amedspor [Diyarbakir é considerada a capital do Curdistão turco, e é chamada de Amed, no idioma curdo]. O clube foi punido por sua torcida entoar cantos ideológicos em um jogo contra o Bursaspor, pela Copa da Turquia. O surpreendente Amedspor, da terceira divisão, passou de fase e teve de jogar com portões fechados diante do Fenerbahçe. Mas a punição surtiu efeito contrário. Os jogadores do Amedspor entraram com uma faixa que dizia “não deixem as crianças morrerem, deixem elas virem ao estádio”, em referência aos constantes confrontos entre turcos e curdos na região. Além disso, após a saída de bola ter sido dada pelo Fener, o time local seguiu parado por um minuto em sinal de protesto. É o contraponto do uso político do futebol pelo presidente turco.

O legado Erdoğan

Detestado pelas torcidas dos três grandes de Istambul, não foi de se espantar que nesta cidade — assim como em Esmirna e na capital Ancara, as maiores do país —, o “não” a Erdoğan tenha saído vitorioso. Porém, no interior e nas muitas cidades governistas, o “sim” levou a melhor, totalizando 51% dos votos no país. Mesmo com a contestação da oposição, que apontava fraudes no processo eleitoral, é impossível negar que Erdoğan saiu ainda mais fortalecido para as eleições seguintes, que acontecem em 2019. E ele, que soma 14 anos à frente do poder na Turquia, tanto no cargo de primeiro-ministro como de presidente, sai como franco favorito, participando do pleito como se fosse a primeira vez, e, com a possibilidade de uma nova reeleição, pode projetar outros 12 anos de liderança.

Se para os governistas a manutenção deste plano de poder traz segurança à Turquia, para os oposicionistas é a instituição legal do autoritarismo, que dentro do futebol já se mostrou nas pequenas coisas. Em março de 2017, ao Hurriyet Daily News, Erdoğan deixou um recado: “o hooliganismo em breve será parte do passado, no futebol turco, e também na política. À medida que a qualidade da política melhorou, nossa nação eliminou aqueles que acreditam em obter poder através de manipulação, trapaças, golpes, ameaças, políticas destrutivas e sem eleições”, que em meio ao seu delírio de poder, permanece irredutível em relação à candidatura da Turquia como país-sede de uma Olimpíada e como sede da Eurocopa de 2024.

Desde 2007, foram investidos pelo governo $ 3,4 bilhões de dólares na construção ou reforma de pelo menos 25 estádios espalhados pelo país, além de possuir outros 11 projetos de novas praças esportivas. A Turquia está no topo da lista de países europeus com mais projetos no período, à frente de países como Polônia, sede da Eurocopa 2012, e Rússia, sede da Copa das Confederações de 2017 e da Copa do Mundo de 2018. Mais do que quantidade, a qualidade destes projetos também é indispensável. Em votação anual realizada pelo site stadium database, para eleger o melhor estádio do mundo, quatro dos finalistas eram turcos, e a Vodafone Arena, do Besiktas, foi a grande vencedora. Está claro que o futebol não é apenas a paixão do presidente turco, mas também parte indissociável da política de governo de Erdoğan.

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