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Do outro lado da baía

Como a indústria da carne forjou o “terceiro grande” do Uruguai

O Uruguai é um terreno fértil para dicotomias, como se todos os âmbitos da vida do país tivessem somente duas visões opostas e nada mais. Desde os seus primórdios como nação independente [1828], Blancos [Partido Nacional] e Colorados [Partido Colorado] dominaram a vida política, alternando-se à frente do governo e impondo-se como os dois únicos donos do tabuleiro de xadrez que se tornou a disputa pelo poder nos lados da Banda Oriental, até a ascensão da Frente Ampla.

A pobreza do interior pouco desenvolvido contrasta com a importância da capital. Ao concentrar quase metade dos habitantes do país, Montevidéu se afirmou tal qual um oásis em meio à formação demográfica uruguaia e, ao longo do tempo, monopolizou as oportunidades, o crescimento, a indústria, a economia e a cultura.

Em um palco onde o antagonismo dá o tom às relações, Nacional e Peñarol se destacam como a síntese desse DNA bipolar no âmbito futebolístico. Suas cores colocam frente a frente [quase] duas metades de um país cuja história se confunde com a do jogo. Bolsos e Manyas ocupam o espaço dos clubes gigantes que, como tudo por esses cantos, parecem não poder passar de dois.

Durante meio século essa hegemonia foi desafiada, e o maior duelo do futebol uruguaio poderia ter virado uma tríade. Se dentro das fronteiras orientales ninguém discute que Tricolores e Carboneros são os maiores — não necessariamente nessa ordem —, também não há receio em afirmar a existência de uma cadeira cativa para um inquestionável “terceiro grande”.

Entre os anos 1920 e 1960, o Rampla Juniors Fútbol Club foi o time que chegou mais próximo de transformar essa realidade, mas ao mesmo tempo não conseguiu alcançar a popularidade nem se manter competitivo tal qual os dois desafiados. Curiosamente, seu apogeu e seu ocaso foram efeitos da mesma causa, daquilo que reconhecidamente os uruguaios produzem de melhor: a carne.

La Villa del Cerro: lar de imigrantes, da indústria da carne e dos “Friyis”

Em 1726, Montevidéu foi fundada na margem leste da baía homônima pelos espanhóis como parte da estratégia de ocupação na disputa pelo domínio da bacia do Prata contra os lusitanos. O marco inicial da urbanização veio a se tornar o bairro de Ciudad Vieja, intimamente ligado à atividade portuária — lar do Café Brasilero de Eduardo Galeano e do Teatro Solís — a partir do qual a cidade começou a se expandir em direção ao norte e ao leste.

Na contramão de onde florescia o município estava o Cerro de Montevidéu. Localizado na margem sudoeste da baía, o Cerro nada mais é, literalmente, do que um morro com formato semelhante ao de um cone — destaque paisagístico num país despido de grandes acidentes geográficos —, cujo ponto mais alto alcança os 135 metros de altura. Ali, não havia rastros de urbanização à época, a não ser uma fortaleza militar criada pelo reino da Espanha dois anos antes, em 1724, justamente para vigiar a navegação no Rio da Prata e manter a influência na região.

Em 1834, seis anos depois da independência do Uruguai, foi decretada a criação do povoado que deu origem à Villa del Cerro, independente da capital federal. Há de se dizer que o vilarejo foi inicialmente batizado como Villa Cosmópolis, por ser o destino principal das ondas de imigrantes que chegaram ao Uruguai entre a segunda metade do século XIX e a primeira do XX.

O que atraía a chegada desses colonos europeus a um lugar distante do centro da capital e sustentava o seu desenvolvimento era o trabalho nos saladeros, estabelecimentos em que a mão-de-obra — no início, predominantemente escrava, importada da África — atuava no duro trabalho de salgar a carne. O recurso era, àquela altura, a técnica disponível mais moderna para manter a conservação do alimento, o famoso charque [tasajo, no Uruguai]. Além disso, um decreto do presidente Manuel Oribe, de 1836 — cujo texto definia que os estabelecimentos dedicados à produção de charque deveriam ser fixados longe da zona urbana da capital e próximos a saídas fluviais —, contribuiu para que o Cerro e suas imediações, os quais preenchiam perfeitamente tais requisitos, afirmassem-se como o principal pólo industrial do Departamento de Montevidéu e, por conseqüência, do país.

A presença da indústria foi responsável por gerar e acelerar o desenvolvimento local, tornando-se o motor para o crescimento da população, da economia e da recente urbanização daquela zona. Além dos africanos escravizados, a região também absorvia de forma intensa os imigrantes europeus que chegavam a Montevidéu em busca de uma nova vida. Estima-se que 85% dos habitantes da Villa del Cerro fossem estrangeiros, e apenas 15% uruguaios, de acordo com dados referentes ao ano de 1852. Em 1867, o então presidente Venancio Flores apoiou a ideia de batizar as ruas da vila com nomes de cidades e países estrangeiros em razão do grande fluxo migratório absorvido pelo território.

Nas duas primeiras décadas do século XX, os antigos saladeros foram substituídos pelos frigoríficos. Estas estruturas se apresentavam como uma nova tecnologia e supriam a produção de carne congelada e enlatada, produto que começava a tomar o lugar do charque como o item número um da balança comercial uruguaia, acompanhando as mudanças que colocavam a Europa como o seu principal parceiro comercial, substituindo a América Latina. Em 1911, os saladeros cerrenses abateram 446.600 cabeças de gado contra 23.000 dos frigoríficos. Em 1912, foram 435.600 contra 69.000. No ano seguinte, 253.600 frente a 141.000 [1913 foi o primeiro ano em que a exportação de carne refrigerada ultrapassou a de charque no Uruguai]. Já em 1914, o início da Primeira Guerra Mundial foi decisivo para finalmente inverter o cenário: enquanto os saladeros sacrificaram 110.086 bovinos, os frigoríficos do Cerro mataram 280.000 cabeças de gado. O conflito internacional contribuiu para dobrar a produção uruguaia entre 1915 e 1918, especialmente pelo crescimento da demanda inglesa sobre o produto. A queda na produção do charque também se deu por causa da redução do preço do açúcar — à época principal commodity de Brasil e Cuba —, o que afetou negativamente suas economias e diminuiu o poder de compra destes que eram os maiores importadores da mercadoria até então.

Essa revolução tecnológica trouxe à região muitos investimentos de fora do país, oriundos especialmente dos Estados Unidos. Parte importante desse volumoso aporte financeiro vinha mais precisamente de empresas da cidade de Chicago: em 1916, a Companhia Swift adquiriu o Frigorífico Montevidéu, inaugurado quatro anos mais cedo; em 1917, um grupo de estancieiros uruguaios abriu o Frigorífico Artigas, que no ano seguinte seria vendido à Companhia Armour. Juntamente com o Frigorífico La Uruguaya (1904) — a partir de ’28, “Frigorífico Nacional” — , foram os três grandes estabelecimentos que transformaram a vida dos cerrenses.

O desenvolvimento da região fez com que a urbanização de Montevidéu crescesse em direção ao oeste e criasse comunicação viária entre as margens oriental e ocidental da baía, reduzindo o isolamento da nova zona em relação ao centro do município. No ano de 1913, a já Villa del Cerro deixa de ser um povoado, é incorporada à cidade e alçada à condição de bairro da capital.

Em paralelo, no dia 7 de janeiro de 1914 era fundado o Rampla Juniors Fútbol Club, que, ironicamente, não surgiu no lugar onde se consagrou. O clube nasceu no lado mais antigo da cidade, no extinto Café Trocadero — esquina das ruas Rampla Roosevelt e Solís —, no bairro Aduana, vizinho ao porto de Montevidéu. Por ali o clube ficou pelos primeiros cinco anos de existência, jogando em campos emprestados, nos bairros de Ciudad Vieja, Cordón, Aguada e Piedras Blancas.

Somente em 1919 os Rojiverdes cruzam a baía e se estabelecem na parte nova da cidade, lar da indústria mais importante do país. Começa então o crescimento fulminante do Rampla, que encontrou na Villa del Cerro uma série de componentes que impulsionaram o time à glória. Lá, arrebatou o coração dos habitantes que viviam da indústria cárnica, e estes se tornaram uma torcida fervorosa, transformando o clube no terceiro mais popular do país.

A relação entre time e torcida nasceu já muito intensa, comum a equipes estabelecidas em regiões humildes e de perfil operário, mas a simbiose foi reforçada pelo isolamento do Cerro em relação ao centro de Montevidéu. O desenvolvimento do bairro proporcionou a si mesmo e aos seus moradores uma considerável auto-suficiência em razão das fartas oportunidades de trabalho e lazer, o que permitia aos cerrenses viver sem sair dos seus limites. A chegada definitiva do Rampla era o ingrediente que faltava para reforçar o sentimento de pertencimento dos habitantes com a comunidade.

Seu primeiro estádio — ou campo — no novo endereço seria o de propriedade do Frigorífico Swift, em cujo gramado conquistaria, já nos idos de 1921, o primeiro acesso à divisão de elite do Campeonato Uruguaio, ainda na era amadora. Além disso, foi na mão-de-obra dos frigoríficos que o Rampla Juniors buscou alguns dos maiores jogadores da sua história. Primeiro goleiro campeão do mundo em 1930 pela Celeste Olímpica, Enrique Ballesteros foi motorista de trator do mesmo Swift nos anos em que trajou vermelho e verde [1926 – 1935] e atuou na conquista do primeiro e único título nacional do clube, em 1927, e nos vices de ‘28 e ‘32 [este último, o primeiro ano de profissionalismo no futebol uruguaio]. Essa relação rendeu aos seguidores e jogadores do Rampla Juniors o apelido de Friyis [“Frígis”] — em alusão a Fridges, “frigorífico” em inglês —, que perdurou até meados da década de 1960.

Ao todo, a pujança econômica do bairro impulsionada pelo lucrativo negócio da carne foi contemporânea também a outros três vice-campeonatos uruguaios [‘23, ‘40 e ‘64], a uma presença constante entre os postulantes ao título, além de outros troféus representativos, como a Copa Maracanã de 1950, realizada em celebração ao mundial vencido sobre o Brasil em julho daquele ano. A acanhada equipe da Rua Turquia e o Nacional são as duas únicas agremiações que cederam jogadores para os quatro mais importantes títulos do Uruguai no futebol: o bicampeonato olímpico de 1924 e 1928 e as Copas do Mundo de 1930 e 1950.

Desde a sua estréia na primeira divisão, em 1922, o Rampla Juniors se colocou entre os quatro primeiros por doze temporadas consecutivas, até 1936 [em 1925, 1926 e 1930 não houve campeonato uruguaio]. Esse período exitoso se deu justamente nos primeiros anos de investimento das companhias estadunidenses Swift e Armour no negócio da carne ao fim dos anos 1910, passando sem grandes sustos pela Grande Depressão de 1929, mas interrompido pela assinatura da Convenção de Ottawa, em 1932. O acordo, motivado pela crise profunda nos Estados Unidos, estabeleceu que a Inglaterra compraria carne de ex-colônias britânicas por um preço mais barato do que o praticado pelos uruguaios.

A indústria voltaria a viver seu auge na década de 1940, e o Rampla tornaria a figurar entre os mais bem colocados no campeonato nacional — apenas uma participação na segunda divisão, em 1944, manchou o período glorioso do clube. Na primeira metade dos anos 1950, o país ainda vivia seus dias de “Suíça das Américas”, os frigoríficos voltavam fortalecidos com o aumento das exportações em decorrência da Segunda Guerra Mundial e o velho Rampla acumulava cinco temporadas consecutivas conquistando o terceiro lugar na competição mais importante do país, de 1949 a 1953.

Daí em diante, iniciou a derrocada do clube e o fim do esplendor na economia do bairro. Em 1957, é formalizado o Mercado Comum Europeu — cujo protecionismo implicou queda nas exportações de carne charrúa —, e as companhias Swift e Armour retiram seus investimentos do Uruguai, afetando diretamente milhares de trabalhadores da Villa del Cerro. Em resposta ao problemas econômicos enfrentados pelo país, o governo propõe a revogação do Estado de Bem-Estar Social, implantado por José Batlle y Ordóñez no início do século, provocando greves operárias, contra a perda de direitos trabalhistas, que viraram rotina até o fim dos anos 1960.

Nesse período, os frigoríficos voltam a ser propriedade estatal e suas instalações são concedidas à EFCSA [Estabelecimento Frigorífico do Cerro Sociedade Anônima], uma cooperativa formada pelos trabalhadores em uma tentativa de manter o negócio, que já não tinha a mesma força de antes. Quem perdeu o trabalho na indústria precisou buscar emprego em outros lugares de Montevidéu, e, aos poucos, o Cerro foi se transformando em um bairro-dormitório.

Em 1964, o Rampla Juniors, que já sentia os reflexos da fragilidade econômica dos frigoríficos na qualidade do seu plantel, fez sua aparição derradeira em uma final de primeira divisão ao ser derrotado pelo Peñarol. Dois anos mais tarde, o Parque Nelson, que a partir de 1980 seria rebatizado como Estádio Olímpico, passou por reformas para substituir as antigas arquibancadas de madeira por novas de concreto. Os próprios torcedores do Rampla trabalharam quebrando — a marretadas — as rochas que havia no local para viabilizar a obra. Por causa do empenho, passaram a ser chamados por “Picapiedras”, como um sinal de que a força dos Friyis começava a ficar no passado.

El Clásico de la Villa e o combinado pela greve

Depois dos primeiros anos como um clube itinerante, a chegada à Villa del Cerro em 1919 foi o ponto de partida para a ascensão meteórica do clube: em 1921 consegue o acesso à primeira divisão, em 1922 conquista o terceiro lugar e em 1923 é vice-campeão uruguaio, mesmo ano em que inaugura seu estádio. Assim, o Rampla dava os primeiros passos como uma potência emergente e reinaria absoluto como único clube importante do bairro — que mais parecia uma cidade autônoma — não fosse o surgimento do seu clássico rival. Em 1º de dezembro de 1922, nasce o Club Atlético Cerro como iniciativa de alguns sócios de clubes menores da região, a fim de criar uma instituição “verdadeiramente cerrense”, já que o Rampla fora concebido do outro lado da cidade. Há quem diga também que a fundação do Cerro [clube] contou com o incentivo de dirigentes do Peñarol. Preocupados com o crescimento do Rampla Juniors, o surgimento de um rival obrigaria os Rojiverdes a dividir os torcedores em um “mercado” tão engajado. Estava criado assim o Clásico de la Villa, o segundo maior do Uruguai em importância e capacidade de mobilização, rivalidade superada somente por Peñarol vs Nacional.

Apesar das eternas diferenças, um episódio marcou a fusão de ambas as equipes em um dos momentos mais delicados da história do país. De 1967 a 1969, Montevidéu viveu tempos de conflitos de classe, quando as greves de trabalhadores eram freqüentes em resposta ao congelamento dos salários promovido pela República nos anos de austeridade — todo esse barulho culminaria mais tarde na implantação da ditadura militar em 1973 —. Em janeiro de 1969, um funcionário municipal foi morto em uma manifestação de empregados estatais. Em abril, iniciou-se uma greve de toda a indústria frigorífica, representando 14 mil trabalhadores, que só acabaria em setembro.

Em solidariedade aos grevistas e sindicalistas — provavelmente torcedores de Cerro ou Rampla, cujo trabalho ajudou a moldar a identidade da Villa del Cerro —, ambos os clubes organizaram amistosos a serem disputados entre a Seleção Uruguaia, que enfrentaria a Inglaterra campeã do mundo na semana seguinte no Centenário, e combinados formados por jogadores da dupla Rampa-Cerro. O dinheiro arrecadado pela bilheteria seria revertido aos grevistas.

No dia 3 de junho daquele ano, uma terça-feira, o Parque Federico Saroldi, casa do River Plate de Montevidéu, recebeu dois jogos. No primeiro, a equipe formada pelo ataque do Rampla e pela defesa do Cerro arrancou um empate em 2 a 2 com a seleção, que tinha Pablo Forlán em campo. Na partida de fundo, Pedro Rocha abriu o placar para a Celeste, derrotando por 3 a 1 a equipe que mesclava a defesa do Rampla com o ataque do Cerro.

A atitude, mais do que caridade, simbolizava a importância da indústria na vida dos clubes, especialmente na do decadente rubro-verde. Dali a um ano, em 1970, o “velho Rampla” sucumbiu às dificuldades e retornou à divisão de acesso, onde permaneceu por dez temporadas consecutivas. Ao mesmo tempo, o time, o bairro e o seu negócio seguiram destinos parecidos, saudosos das glórias do passado e orgulhosos das marcas que deixaram na história.

Jornalista graduado pela FACHA. Gaúcho que vive no Rio (mais um). “Goleira” é o conjunto de traves, “gol” é quando a bola entra. Tem uma queda pelo futebol cantado em castelhano e geralmente joga melhor quando ninguém está vendo. Amante de futebol, música, história, cinema, fotografia e apaixonado pelo jornalismo. Do pescoço pra baixo, tudo é canela.

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