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Dossiê Ajax

As origens e a trajetória de um clube destinado a revolucionar o jogo e a si mesmo ao longo das décadas

Admirar a história do Ajax é algo até comum entre os amantes do futebol. Comum e justificável: talvez não haja outro dos grandes clubes do mundo que tenha tão arraigada uma ideia do que é o jogar futebol — ideia forte a ponto de influenciar outras agremiações afora.

Mas essa ideia teve uma história. Teve influenciadores e influenciados. Teve brigas fratricidas dentro dela. E, até hoje, como se fosse sua sina, o clube de Amsterdã, situado entre as estações de trem Bijlmer Arena e Strandsvliet, segue em discussões. Segue doutrinando jovens em De Toekomst (“O futuro”, em holandês), sua afamada escola de formação de jogadores. Segue tentando pensar como fazer pulsar a ideia do “totaalvoetbal”, aliando-a aos títulos que são necessários para se fazer respeitar no mundo atual. 

De Vaders

(Os Pais)

Mesmo antes do futebol se tornar profissional na Holanda, em 1956, o Ajax já era um clube vitorioso no país, com oito títulos neerlandeses. E tinha, no banco de reservas, um homem a simbolizar esses momentos vitoriosos. Num ambiente amador, o técnico inglês Jack Reynolds (1881-1962) trouxe uma mentalidade firme como o futebol nacional não conhecia. 

Sucessor de John Kirwan, o primeiro técnico da história do clube de Amsterdã, Jack foi pioneiro ao implantar o sistema de dois treinos. Sob ele, os jogadores ajacieden treinavam pela manhã e à tarde. Mais: Reynolds exigia esforço especial nos atividades físicas, além de disciplina exemplar dos comandados nos trabalhos. Mais ainda: partiu do britânico a iniciativa de estender esses ideais à base do clube. Tudo para aumentar a resistência do Ajax em campo.

Talvez por isso, Reynolds tenha tido importância tão grande na primeira fase da história do Ajax. Lá, ultrapassou as duas guerras mundiais. Primeiro, treinando entre 1915 e 1925; depois, retornando para uma passagem entre 1928 e 1940; mais para frente, um último momento entre 1945 e 1947. Foi o treinador dos sete primeiros títulos que o Ajax conseguiu no Campeonato Holandês. Enfim: deixou partes de uma ideia.

As outras vieram de outro inglês, que chegou a Amsterdã em 1959. Victor Frederick “Vic” Buckingham (1915-1995) cultuava um estilo ofensivo de jogo. Exemplificado, por sinal, no título holandês que o Ajax conquistou em 1959/60. Vindos para o clube a pedido de Buckingham, os irmãos atacantes Cees e Henk Groot simbolizaram isso: escalados na frente, foram responsáveis por grande parte de uma profusão de gols — Henk Groot foi o artilheiro da liga na temporada, com 37 gols.

Por problemas particulares, Buckingham voltou à Inglaterra já em 1961, para treinar o Sheffield Wednesday pelos três anos seguintes. Depois, retornou ao Ajax. Não obteve sucesso, mas seguiu consolidando a mentalidade do ataque acima de tudo. Nem ligava para táticas. Naquela malograda temporada 1964/65, não raro, sua preleção se resumia a dizer aos jogadores do Ajax: “Divirtam-se.”

Seu sucessor elevaria as duas qualidades, a força física pedida por Jack Reynolds e a busca do gol pedida por Buckingham. Acrescentaria a elas disciplina. E ajudaria a fama do Ajax a atravessar Amsterdã e se espalhar pelo mundo.

Aperfeiçoando a “Geração Cruijff”

Marinus Jacobus Hendricus Michels (1928-2005), ou simplesmente Rinus Michels, tinha experiência apenas em clubes amadores quando sucedeu a Vic Buckingham no Ajax em 1965. Ele tinha suas capacidades no futebol: como atacante, só atuara pelo clube de Amsterdã, entre 1945 e 1958, e até jogara uma partida pela seleção holandesa. Ainda assim, era uma incógnita num momento difícil do clube.

Para sua sorte, ele encontrou ícones do clube sob seu comando. Sjaak “Paco” Swart, Piet Keizer, Theo van Duivenbode, Tonnie Pronk, Klaas Nuninga e, acima de todos, Johan Cruijff, desde jovem um jogador que sabia o que fazer e como fazer. Tanto que não aceitava as ordens de Michels naturalmente, embora tivesse respeito paternal por ele dentro e fora de campo.

Bastou para começar a formar um time ofensivo, que já levou o título holandês em 1965/66, após seis anos de jejum. E a equipe fez mais: apresentou-se ao resto da Europa com um 5 a 1 no Liverpool, na ida das oitavas de final da Copa dos Campeões 1966/67 — feito incrível para um clube holandês que só merecera risos de Bil Shankly em declarações antes do jogo.

Aos poucos, novos jogadores foram surgindo: Ruud Krol, Wim Suurbier, Barry Hulshoff… e o clube chegou pela primeira vez a uma final de Copa dos Campeões, na temporada 1968/69. A goleada sofrida para o AC Milan (4 a 1) ligou o alerta: o Ajax era um time excelente, mas ainda faltava algo para ir além. Aí Rinus Michels mostrou como perseguiria um time capaz de cumprir o que ele desejava. Sem piedade, dispensou gente com história no Ajax: o goleiro Gert Bals e o lateral Van Duivenbode foram exemplos. Tudo porque Michels os considerou inadequados para o que desejava.

Seu desejo: um time capaz de ser ofensivo em campo. Todos correndo a quantidade certa para cobrir o posicionamento do companheiro que avançasse, tornando a equipe naturalmente adiantada. Todos munidos de sabedoria tática capaz de fazê-los decidir a melhor jogada sozinhos. Todos aptos a dar o passe na medida certa para o companheiro: nem rápido demais que ele não alcançasse, nem curto demais que retardasse o ataque. Todos prontos para fazer um pouco de tudo. O chamado “totaalvoetbal”, o futebol total.

Para auxiliar Michels, alguns novos nomes vieram de De Toekomst (Johan Neeskens, Gerrie Mühren, Arie Haan), uns chegaram (Heinz Stuy, Horst Blankenburg) e outros se reajustaram (o sérvio Velibor Vasović, por exemplo, começaria a construir o jogo, usando sua habilidade desde a defesa).

Bastou. O Ajax conquistaria a dupla coroa holandesa (copa e campeonato) em 1969/70. E, enfim, chegaria ao ápice europeu, com a Copa dos Campeões da temporada 1970/71.

O fim repentino do auge

Depois do título europeu, Rinus Michels tomou o caminho do Barcelona (curiosamente, sucedendo a Vic Buckingham, como já fizera no Ajax). Para seu lugar chegava o romeno Stefan Kovacs. Naquele jeito tão bem resolvido de se entender o futebol — um jeito aparentemente simples —, Kovacs enxergou algo que já causava fricções entre Michels e os jogadores: a disciplina não precisava ser tão rígida diante de atletas que sabiam se comportar em campo.

Com menos controle fora de campo, o Ajax se viu livre para dominar ainda mais a Holanda: novamente campeão da liga e da copa, em 1971/72. Na mesma temporada, conseguiu a tríplice coroa, ganhando a Copa dos Campeões com uma atuação antológica contra a Internazionale, considerada a quintessência do que foi o futebol total. Ainda foi campeão mundial interclubes. E, em 1972/73, alcançou o tricampeonato europeu. O Ajax tomava a Europa de assalto. 

Mas tudo aquilo acabou após a saída de Stefan Kovacs em 1973. Tão logo chegou ao Ajax, George Knobel propôs uma eleição para escolher o capitão do time — posto antes privativo de Johan Cruijff. Outro nome ganhou. A eleição fora ofensiva demais para alguém acostumado a fazer as coisas do seu jeito, como era o caso do “Número 14”, que decidiu: era hora de fazer companhia a Rinus Michels no Barcelona.

Ali a magia se quebrou. Pouco a pouco, os destaques daqueles três anos foram saindo: Swart encerrou a carreira após o tri europeu; Piet Keizer seguiu pelo mesmo caminho ainda em 1974; Neeskens rumou para o Barcelona e Arie Haan para o Anderlecht; Johnny Rep tomou o caminho da França (Bastia). O esquadrão estava acabado.

O Ajax até fez campanhas decentes nos anos seguintes, como a chegada às semifinais da Copa dos Campeões de 1979/80. Mas o que fora visto no começo da década de 1970 parecia uma memória cada vez mais afastada Até Johan Cruijff voltar.

O retorno de Cruijff

Após o primeiro fim da carreira e a perda de muito dinheiro em maus investimentos, como o negócio de criação de porcos em Barcelona, Johan Cruijff se viu forçado a voltar a jogar para tentar recuperar uma parte do prejuízo. Passagem pela NASL norte-americana — Los Angeles Aztecs e Washington Diplomats —, um amistoso pelo New York Cosmos, outra partida amigável pelo Milan, um momento esquecível no Levante espanhol…mas ele parecia à procura de algo maior. Como o Ajax, após ver o AZ sendo campeão holandês em 1980/81.

A espera acabou justamente naquela temporada: no fim de 1980, Cruijff voltou ao clube. Inicialmente, fora dos campos, apenas como consultor técnico do treinador Leo Beenhakker. E bastou um episódio para mostrar como sua sabedoria ainda era notável. Na 14ª rodada do Campeonato Holandês, em 30 de novembro de 1980, o Twente vencia por 3 a 1 já no primeiro tempo. Cruijff via o jogo das tribunas do De Meer, o icônico estádio do Ajax. Com a desvantagem, decidiu descer e ficar ao lado de Leo Beenhakker no banco de reservas, orientando o time mais até do que o próprio técnico. Placar final: 5 a 3 para o time da capital.

O tempo passou, Cruijff circulou mais…e voltou ao Ajax no fim de 1981. Daquela vez, para jogar. E seria ele, dentro de campo, a reger uma nova geração que vinha de De Toekomst: Wim Kieft, Frank Rijkaard, Gerald Vanenburg e o pupilo mais querido de Johan, Marco van Basten. Com esses jovens comandados, o Ajax foi bicampeão holandês em 1982 e 1983.

Após uma briga que o levou ao exílio no arquirrival Feyenoord, durante a temporada 1983/84 (com títulos no campeonato e na copa holandeses), Cruijff voltou ao grande de Amsterdã. Para começar, enfim, a carreira de treinador. Trouxe de volta alguns cânones do futebol total, embora os tempos fossem diferentes. Reabilitou o goleiro que iniciava jogadas e até saía da área, fazendo de Stanley Menzo seu titular. Promoveu mais talentos: Frank Verlaat, Dennis Bergkamp, Bryan Roy. Fez de Marco van Basten seu destaque em campo. E defendeu a ofensividade acima de tudo.

Deu mais ou menos certo. Mais, porque o Ajax voltou a ser campeão num torneio europeu, a Recopa Europeia (Taça dos Clubes Vencedores de Taças), na temporada 1986/87. Menos, porque o PSV dominou as ações no futebol dos Países Baixos, despontando para o tetracampeonato da Eredivisie entre 1985 e 1988. 

Passado um tempo, a diretoria entrou em rota de colisão com Cruijff, que foi demitido em janeiro de 1988, e deixou o Ajax para não voltar mais, estabelecendo-se de vez em (e no) Barcelona, seu porto seguro fora da Holanda.

Até porque, no Ajax, haveria um desafeto de Cruijff fazendo história também.

A resposta de Van Gaal

Desde 1986, quando encerrara a carreira de atacante (mediano), Alloysius Paulus Maria van Gaal vinha trabalhando como auxiliar técnico no Ajax. Começou a dinamizar seu trabalho quando foi o escudeiro de Leo Beenhakker, entre 1989 e 1991, percorrendo os clubes menores do futebol dos Países Baixos em busca de jogadores de talento — como o goleiro Edwin van der Sar, vindo do amador VV Noordwijk em 1990.

Quando Beenhakker tomou o caminho do Real Madrid, em 1991, Van Gaal estava pronto para se tornar o técnico em Amsterdã. Ali, não só colocaria em prática suas ideias de futebol, mas também, seu ar professoral e sério, forjado nas aulas de educação física que deu a crianças em escolas, quando mais jovem, simultaneamente à carreira nos campos.

Teria uma geração inteira à espera de seus ensinamentos e treinamentos: os irmãos Frank e Ronald de Boer, Michael Reiziger, Clarence Seedorf, Edgar Davids, Jari Litmanen, Marc Overmars (vindo do Willem II), Finidi George (contratado ao Sharks, da Nigéria, seu país natal) e Patrick Kluivert. Todos sustentados pelo peso dos veteranos Danny Blind e Frank Rijkaard, calejado de outras batalhas e que voltara a Amsterdã em 1993. Van Gaal pôde colocar em prática um estilo que era ofensivo quando e se necessário, mas que não hesitava em apenas manter a posse de bola para ter uma vantagem.

Querer abdicar de buscar o gol a todo custo fez daquele Ajax de Van Gaal um time olhado de soslaio pelos que gostavam do Ajax de Rinus Michels e Johan Cruijff. A começar pelo próprio camisa 14, seu desafeto pessoal; continuando pelas diferenças de estádio. Se o Ajax dos anos 1970 parecia muito mais acessível aos torcedores no velho De Meer, desde 1934 a casa ajacied, aquele time da década de 1990 inauguraria a cosmopolita Amsterdã Arena (hoje, Johan Cruijff Arena) em 1996. Não importava: no futebol holandês, o Ajax se restabeleceu, começando com o título da Copa da UEFA de 1992.

Só a partir de 1993/94 viria o apogeu, com a conquista do título holandês. Em 1994/95, sim, o Ajax impressionou o mundo: campeão holandês invicto (ficaria sem perder entre 8 de março de 1995 e 14 de janeiro de 1996), campeão europeu pela quarta vez, campeão mundial, finalista da Liga dos Campeões em 1995/96 e semifinalista em 1996/97: todos eles deixaram o Ajax entre 1995 e 1997. Neste último ano, inclusive, o próprio Van Gaal rumou para Barcelona. Em 1999, os irmãos De Boer seguiram o mesmo caminho. Litmanen foi para o Liverpool. Van der Sar, para a Juventus. E Danny Blind encerrou a carreira. 

De novo, o Ajax e seu estilo submergiam. Daquela vez, a reaparição demoraria mais e seria mais custosa. Mas renderia prazeres grandes.

A retomada, Bosz, Ten Hag e a dúvida

“Este não é mais o Ajax.” Assim Johan Cruijff intitulava sua coluna no diário “De Telegraaf” em 20 de setembro de 2010. Era uma lamentação pela atuação dos Ajacieden em sua estreia na Liga dos Campeões, no dia 15 de setembro, contra o Real Madrid. O Ajax sofrera apenas 2 a 0, mas atuara de modo tão amedrontado, tão encurralado na própria defesa, que uma goleada não teria sido surpresa no Santiago Bernabéu.

Porém, não era só uma lamentação. Era uma exortação de Cruijff por mudanças no clube que o tornara alguém no futebol mundial. E ele não só escreveu, mas reapareceu no ambiente do clube. Passou a pedir que ex-colegas, como Barry Hulshoff, atuassem mais firmemente no Conselho Deliberativo do Ajax. Teve a seu lado parceiros de primeira hora, como Dennis Bergkamp e Wim Jonk, na intenção de fazer os jogadores das categorias de base voltarem a ser mais aproveitados na equipe principal.

Não era a primeira vez que Cruijff tentava sacudir um Ajax que perdera terreno ao longo daqueles anos, vendo o PSV campeoníssimo na Eredivisie, sem muito destaque na maior competição da Europa, vitimado pelas mudanças do futebol, afundado em más contratações. Anos antes, em 2007, convidado pelo presidente do clube, Uri Coronel, ele organizara um processo de reestruturação das categorias de base, tendo o pupilo Marco van Basten como treinador da equipe principal. Antes de engrenar, o projeto acabou: insatisfeito com tentativas de interferência, Cruijff desistiu daquilo tudo ainda no começo. Em 2010, ele tomaria a frente — e não deixaria alguém interferir.

A chamada “Fluwelen Revolutie” (“Revolução de Veludo”, em português) teve sua primeira consequência, no campo, com a troca de técnicos: de Martin Jol, estranho ao ambiente do clube, para Frank de Boer, que conhecia o Ajax como a palma de sua mão. E os frutos daquela mudança já vieram na temporada 2010/11: após sete anos, o clube voltou a celebrar um título no Campeonato Holandês. Sob De Boer, muitos jovens tiveram sua primeira chance no time principal. E o clube restabeleceu o domínio na Holanda nos anos subsequentes: chegou ao tetracampeonato holandês, feito não alcançado nem na década de 1970 nem na de 1990.

De qualquer forma, aquela reestruturação, aquela importância dada aos nomes vindos de De Toekomst, tinha seu limite. Ele se dava nas competições europeias, nas quais o Ajax seguia com papel periférico — quando não sofria eliminações vexaminosas. E o trabalho de Frank de Boer teve seu ponto de exaustão na perda do título neerlandês de 2015/16, na última rodada, para o PSV. Foi demitido.

Ali já começou a tomar a frente um velho conhecido, dessa vez fora dos campos: Marc Overmars, diretor de futebol, que prezava pela importância histórica de De Toekomst na formação de times estelares do Ajax. Mas que sabia: no futebol atual, sem grandes contratações, não se vai muito longe. Amparado por outro nome que migrara do campo para o escritório — Edwin van der Sar, diretor-geral do clube —, Overmars encampou a contratação de Peter Bosz para treinar a equipe e de nomes como Hakim Ziyech e David Neres, por valores maiores do que habitualmente o Ajax gastava, para qualificar tecnicamente a equipe.

Valeu em 2016/17: com um estilo ofensivo, o Ajax voltou às luzes da ribalta no continente, chegando à final da Liga Europa. Perdeu para o Manchester United, mas deixara boa impressão. Totalmente apagada por nova briga fratricida. 

De um lado, Dennis Bergkamp, diretor das categorias de base, defendia que o Ajax deveria ser revelador de jogadores e nada mais. Do outro, Marc Overmars, ressaltava que a base deveria ser mesclada com contratações importantes e pontuais — tendo Peter Bosz como aliado implícito. Num primeiro momento, Bergkamp ganhou: Bosz deixou o Ajax e Marcel Keizer, treinador do time B, foi promovido.

Mas o início da temporada 2017/18 virou o jogo interno. Por vários problemas — incluindo a trágica parada cardiorrespiratória que deixou em estado vegetativo Abdelhak “Appie” Nouri, um dos nomes mais esperados da base —, o maior de Amsterdã fazia uma primeira metade de temporada turbulenta. Uma das consequências foi a eliminação na Copa da Holanda no fim de 2017. Bastou: Overmars decidiu dar o golpe final, demitindo Marcel Keizer para tentar aplacar a crise. Dennis Bergkamp saiu junto.

Ato contínuo, o sucessor no comando foi um técnico que fazia sucesso no Utrecht, após passagem de alguns anos na equipe B do Bayern de Munique trabalhando próximo a Josep “Pep” Guardiola: Erik ten Hag, que chegou em janeiro de 2018. Não para salvar aquela temporada perdida, mas para estruturar as bases do que viria. Das contratações, a diretoria se encarregou. Trouxe o sérvio Dusan Tadic, que jogava no Southampton, da Inglaterra, e tinha respaldo no clube, e repatriou Daley Blind, velho conhecido, nascido e criado em De Toekomst. Um claro sinal de força.

Sinal confirmado com a excelente — e inesperada — campanha na Liga dos Campeões de 2018/19. Aquela temporada vinha sendo inconstante, o time perdera para os rivais PSV e Feyenoord no Campeonato Holandês, além de não apresentar ainda uma formação tática definida. Ela só foi consolidada quando Tadic trocou o meio pelo ataque. Nomes como Frenkie de Jong, Matthijs de Ligt e Donny van de Beek cresceram de produção. E as vitórias contra Real Madrid (oitavas de final) e Juventus (quartas de final) deram coloração renovada à tradição que o Ajax sempre teve.

O fim da história rendeu uma dor eterna no coração dos ajacieden: o gol de Lucas Moura, no último minuto dos acréscimos, virando uma partida que estava 2 a 0 para 3 a 2 e evitando o avanço à final da Liga dos Campeões. Tudo, muitos disseram, pelo apego do Ajax à sua tradição: sempre buscar o gol. Mas aquela bela jornada valera a pena.

Passado o alarido prazeroso de 2018/19, o clube da Johan Cruijff Arena voltou às dificuldades: já foram duas Ligas dos Campeões sem passar da fase de grupos. O que torna mais difícil o equilíbrio entre manter os jogadores surgidos no clube e as compras ambiciosas, como Antony, Sébastien Haller e o repatriado Davy Klaassen. É a dúvida do momento para o Ajax: tentar saltos mais ambiciosos ou manter sempre os pés fincados em sua tradição?

Pelo menos, por enquanto, a tradição ainda ganha em Amsterdã.