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A cigarra e a formiga no duelo pelo argumento

O binômio Malofeev-Lobanovskyi no futebol soviético

Ataque contra defesa, atacante versus goleiro, vencer jogando mal ou perder jogando bem, atacar ou contra-atacar, se defender ou propor o jogo… O futebol é um esporte cercado por uma sucessão aparentemente infinita de duelos e dualidades que vão muito além do choque entre dois times. E muitos deles não terminam nem mesmo após o apito final. É o caso, por exemplo, das diferenças entre modelos de jogos impostos por treinadores — algo atualmente muito claro quando citamos os nomes de Pep Guardiola e José Mourinho.

Mas o Esporte Bretão também reflete, dentro ou fora de campo, embates puramente humanos. Na União Soviética dos anos 1970 e 80, dois treinadores ficaram simbolizados por transcender o duelo entre seus times e representar a clássica dicotomia entre razão e emoção.

De um lado o grande Valeriy Lobanovskiy, um personagem que solidificou o Dynamo de Kiev como a grande potência da União Soviética. Do outro, Eduard Malofeev: técnico que, em um único ano, mostrou que o futebol romântico — ou “sincero”, como ele preferia chamar —poderia render bons frutos até mesmo para o mais modesto dos times.

A Formiga Atômica de Kiev

Antes de integrar o elenco que, em 1961, levou o Dynamo de Kiev ao seu primeiro título soviético, Lobanovskiy já demonstrava aptidão e interesse por números e estatísticas: ainda no ensino médio, havia recebido até mesmo uma medalha de ouro pelo talento com a matemática e, depois, estudou engenharia de aquecimento. O progresso científico era uma das obsessões do governo comunista e Kiev era o coração da indústria de computação. Um prato cheio para aquele jogador ucraniano unir suas duas paixões: o futebol e a ciência.

Depois de encerrar a carreira nos gramados, Valeriy encontrou no especialista em bioenergética, Anatoliy Zelentsov, o braço direito ideal para lhe ajudar na implementação de um sistema complexo de treinamentos que possibilitasse os seus jogadores a pressionar os adversários durante os 90 minutos, sem que os atletas perdessem o fôlego. O novo método teve sucesso nas divisões inferiores com o Dnipro Dnipropetrovsk e, no final de 1973, Lobanovskiy acertava o seu retorno, desta vez como treinador, ao famoso Dynamo de Kiev.

Para Lobanovskiy, o talento individual jamais seria maior do que a solidez de uma equipe. E ele encontrou até mesmo uma explicação científica para justificar o seu pensamento: 22 elementos [jogadores], distribuídos em dois subsistemas [times], se movendo em uma área delimitada [gramado] e sujeitos a um número de restrições [regras]; no final das contas, o subsistema mais competente sairia vencedor. Entretanto, a importância dos jogadores dentro desta equação jamais seria maior do que as interações formadas entre estas peças do subsistema.

Com uma forma de jogo que poderia ser tão pragmática quanto encantadora [pelo caráter revolucionário do Futebol Total], ele transformou o time de Kiev na grande potência do futebol soviético. Afinal de contas, Lobanovskiy estava sempre a mudar a estratégia dependendo do adversário e tinha encantamento especial para os movimentos táticos feitos sem a bola. Um modelo de jogo que simbolizava perfeitamente o ethos que o regime comunista gostava de passar: a união de um grupo, aliada ao respeito pela autoridade, levava ao sucesso.

Mas enquanto colecionava títulos importantes com o Dynamo — entre campeonatos e copas soviéticas e até mesmo a extinta, porém famosa, Recopa Européia em 1975 —, começava a chamar atenção na Bielorrússia um treinador de personalidade absolutamente oposta [e nada autoritária] à frente de um outro Dínamo, o da cidade de Minsk.

A Cigarra de um show inesquecível

Eduard Malofeev fazia parte do plantel de jogadores soviéticos que defenderam a URSS na Copa do Mundo de 1966. Como treinador, era entusiasmado e romântico a ponto de classificar como “futebol sincero” o jogo de seu time. Se para Lobanovskiy um atleta ideal era “1% de talento e 99% de trabalho duro”, Malofeev tinha visão diferente: utilizava da psicologia para extrair o máximo do que seus comandados poderiam fazer para se expressar individualmente nos campos.

No final da década de 1970, o Dínamo Minsk treinado por Malofeev subiu como um foguete para se estabelecer como um dos times mais competitivos da liga soviética: em 1978 conseguiu o acesso e, no ano seguinte, surpreendeu a URSS ao terminar o campeonato na sexta posição. Mas a rivalidade entre as capitais de Ucrânia e Bielorrússia não se restringia apenas aos campos: era um duelo entre as abordagens de seus treinadores.

O estilo romântico de Malofeev era personalizado no grande craque do Dínamo Minsk, um gênio do meio-campo que foi parado apenas por um único adversário: o álcool. Aleksandr Prokopenko simbolizava como nenhum outro o povo de Minsk, e sua timidez só não era percebida quando se juntava aos torcedores do Dínamo para bebedeiras épicas que atravessavam a madrugada bielorrussa… ou enquanto criava obras de arte em forma de dribles e gols.

E foi exatamente de forma artística — de letra , após jogada construída na ponta-direita — que Prokopenko fez o gol que se tornaria o símbolo de um título tão improvável quanto inesperado. Justamente contra o Dynamo de Kiev. Mas, como o jogo foi na Bielorrússia e terminou empatado, Lobanovskiy acreditou ter conseguido um bom resultado. O desdém em relação à obra do artista é um testemunho do quão baixo na escala de importância o individualismo estava para Valeriy.

Meses depois, os excessos em bebidas minariam a carreira de Prokopenko. Entretanto, aquele ano de 1982 foi encantado para o Minsk: tudo o que Malofeev fazia dava certo. E ainda que Lobanovskiy tenha comemorado aquele empate, o castigo veio exatamente no somatório geral: apenas um ponto separou os times e evitou o tri consecutivo do Dynamo. Poucas vezes a capital bielorrussa comemorou tanto. Tanto para os torcedores do Minsk quanto para o próprio Malofeev, era um troféu que equivalia a todos os 13 levantados pelo poderoso time da Ucrânia.

Uma disputa que foi além

Para piorar a situação de Lobanovskiy, a sua equipe não conseguiu a classificação para a Euro 84. A derrota para Portugal, em Lisboa, veio graças a um único gol marcado pelos lusos, em um pênalti equivocado [já que a falta aconteceu fora da área]. Mas o agravante para o treinador ucraniano foi o comportamento pragmático de um time que entrou em campo com orientações voltadas para o empate. Não dava mais para continuar e o substituto para o cargo era óbvio. Afinal de contas, faltava um pouco mais de coração dentro aquele grupo mecanizado.

Mas também não foi o bastante. Ainda que Malofeev tenha conseguido classificar a União Soviética para a Copa do Mundo de 1986, o time era constantemente criticado e não apresentava um padrão claro. O mais impressionante, porém, é que a sua maior sombra passava a ser Valeriy Lobanovskiy! O duelo parecia destinado a não ter fim! Após o insucesso que foi a desclassificação para a Euro 84, o ucraniano voltou para o seu porto-seguro e, estimulado a melhorar algumas outras questões do seu trabalho, reencontrou um novo auge no Dynamo.

Enquanto Malofeev passava dificuldades com o selecionado, Lobanovskiy conquistou a Copa Soviética [1985], dois campeonatos nacionais [1985 e 1986] e voltou a reconquistar a Europa através da Recopa, em 1986. Naquele mesmo ano, o homem conhecido por deixar o talento individual em último lugar na escala de importância ainda viu, pela segunda vez até então na sua carreira, um jogador seu receber a Bola de Ouro: se em 1975 o escolhido foi Oleg Blokhin, naquele ano inesquecível quem a recebeu foi Igor Belanov.

Tanto sucesso de Valeriy, aliado à enorme desconfiança do trabalho de Malofeev, só poderia ter um resultado. E o empate sem gols contra a Finlândia, em pleno estádio Luzhniki, decretou a saída de um para o reingresso do outro. No segundo Mundial realizado em terras mexicanas, a União Soviética de Lobanovskiy fazia um bom papel até ser eliminada pela Bélgica nas oitavas-de-final: uma partida tão espetacular [pelo placar de 4 a 3] quanto controversa [pelos erros de arbitragem]. Em 1988, seria vice-campeão europeu com a URSS após uma grande campanha que só parou na Holanda de Marco van Basten.

Após a fragmentação da União Soviética, Lobanovskiy conquistou cinco vezes o incipiente Campeonato Ucraniano e ainda teve tempo de montar o seu terceiro e último grande esquadrão: em 1999, o seu Dynamo surpreendeu ao chegar nas semifinais da Champions League. E para mostrar que Valeriy, àquela altura já um senhor de idade, havia encontrado o equilíbrio para temperar o jogo de equipe com o brilho individual, o craque daquele time era ninguém menos do que Andriy Shevchenko.

Já o legado de Malofeev não chegou nem perto ao do antigo rival. O treinador russo passou por clubes de menor expressão e retornou algumas vezes para o Minsk, mas jamais conseguiu repetir o grande feito de 1982. Em outras palavras, não conseguiu ser mais do que alguém que inspira… e essa inspiração não foi eterna.

O legado de Lobanovskiy é imortal dentro do futebol, fruto de estudos imparáveis e reciclagens necessárias: algo quase palpável, tamanha a quantidade de informação que passou para outros treinadores. O de Malofeev é sensorial, como uma paixão avassaladora e rápida, mas de grande intensidade. Assim como no famoso conto sobre a Cigarra e a Formiga, aquele que ao longo do tempo trabalhou de maneira ferrenha conseguiu colher os frutos devidos… Mas será que um dia foi tão feliz quanto aquela Cigarra?

Jornalista formado na FACHA, acredita que o futebol, além de ser o melhor dos esportes, é palco para grandes lições sociológicas, históricas... e de vida. Árduo defensor de que 3 a 0 jamais será goleada, foi um goleiro promissor e hoje brinca de ser zagueiro esforçado.

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