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Eintracht Braunschweig, os pioneiros dos patrocínios

Antes de o mundo do futebol ter entendido o potencial comercial dos patrocínios, um time se antecipou e desafiou as convenções da época. O histórico Eintracht Braunschweig, o mais sui generis campeão nacional alemão, tornou-se, em 1973, a primeira equipe a utilizar um uniforme com patrocinador. Anteciparam em quase uma década a definitiva chegada do marketing ao futebol.

O fantasma do profissionalismo

A História está cheia de paradoxos, e a do futebol não podia ser diferente. O futebol alemão permaneceu, até aos anos 60, agarrado a uma ideia impraticável de semiprofissionalismo que ameaçou as próprias bases do sucesso do título mundial alcançado em 1954 na Suíça. Os diretores da federação de futebol da República Federal da Alemanha consideravam que era imoral utilizar o esporte como forma de enriquecimento. Durante uma década, baniram do jogo todos os atletas que recebessem um salário por jogar (a maioria dos jogadores utilizava trabalhos encobertos, organizados pelos clubes), e quando vários jogadores começaram a emigrar para as ligas italianas e espanhola, estes foram impedidos de representar a seleção. Em 1963, finalmente, todos se puseram de acordo e nasceu a Bundesliga.

Foi a última grande liga do futebol europeu a aparecer no calendário e esta permitiu um acelerado desenvolvimento dos clubes, agora livres de constrangimentos financeiros. Uma década depois de a competição ter se iniciado, a mesma federação que não queria permitir um futebol assumidamente profissional aceitou desafiar todas as convenções mundiais e permitir algo que parecia, a princípio, uma imensa extravagância: o patrocínio em um uniforme de uma das suas equipes.

A cerveja da discórdia

O que hoje parece ser uma realidade mais do que habitual, necessária até, em 1973 era uma heresia. Nenhum clube utilizava sequer o logotipo da marca que fabricava o uniforme, quanto mais o logo ou o nome de uma empresa alheia.

Em 1973, o clube alemão Eintracht Braunschweig estava passando por alguns problemas financeiros. A história do clube do norte alemão é também um espelho de como evoluiu o jogo no país. Foi um dos membros fundadores da federação, um clube altamente respeitado nas primeiras duas décadas do século XX, mas que foi desaparecendo do radar pouco a pouco. Depois da II Guerra Mundial, voltou a desempenhar um papel importante na reformulação do futebol na nova RFA e não surpreendeu ninguém que, em 1963, fosse um dos dezesseis clubes convidados para a primeira edição da Bundesliga.

Quatro anos depois, contra todos os prognósticos, o Eintracht Braunschweig era campeão. Até hoje, é o mais surpreendente dos vencedores da competição. Era um time praticamente sem jogadores internacionais, extremamente defensivo, capaz de conceder apenas 27 golos em 34 jogos disputados, um recorde que se manteve até ao final da década de 80. Um título que não voltou a se repetir e, nos anos seguintes, o Eintracht foi caindo na tabela de classificação e os problemas financeiros aumentaram. Foi então que o presidente do clube, Hans Jancker, aceitou a proposta da cervejeira Jägermeister para patrocinar o clube. 

O nome Jägermeister começou, primeiramente, a aparecer em setores do estádio do clube até que a federação alemã aprovou finalmente a utilização do logotipo da empresa na camisa do clube. Em 24 de março, num dos últimos jogos da temporada, frente ao Schalke 04, o Eintracht Braunschweig tornou-se no primeiro time da história a subir ao gramado com um patrocinador estampado. O negócio tinha rendido 10 mil marcos aos cofres do clube e a parceria entre a empresa e o Eintracht se manteve até 1988. Durante esse período, por diversas vezes, o clube abordou a federação para mudar o nome oficialmente para Eintracht Jägermeister, mas os pedidos foram recusados. Era ir longe demais.

Uma moda que veio para ficar

A decisão do clube alemão foi um choque naquela época. Inicialmente, os demais clubes pensaram tratar-se apenas de uma moda passageira e muitos foram os torcedores que boicotaram os jogos do time como forma de protesto. Durante quase uma década a situação se manteve igual. 

Na Inglaterra, em 1978, o Liverpool tornou-se o primeiro clube a seguir o exemplo alemão ao assinar um contrato com a empresa Hitachi. Em resposta, o Arsenal fez o mesmo com uma companhia rival, a JVC, e, nos dois anos seguintes, a maioria dos clubes ingleses havia adotado a nova moda. A utilização de patrocínios se estendeu rapidamente ao resto do continente e, em meados da década de 80, todos os grandes clubes europeus já tinham contratos publicitários nas camisas. A era da inocência havia acabado. Os números podiam estar muito longe do que se pratica atualmente, mas a tendência era inevitável.

À medida que o histórico clube do norte da Alemanha começava a sua particular via crucis pelas divisões secundárias, o mundo abraçava a sua pioneira inovação e levava o futebol para o coração de uma nova etapa, na qual o dinheiro, mais do que nunca, passou a ser o grande elemento diferenciador.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.