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El papelito

Quando muitos continuam a insistir no espírito de loteria para as decisões por pênaltis, o papelzinho utilizado por Jens Lehmann para travar os disparos da seleção argentina no Mundial de 2006 permite relembrar a importância da ciência e do treino para equilibrar um duelo aparentemente desigual.

Um papel suado, com a tinta a desaparecer progressivamente, travou as aspirações de um país. Cada vez que Lehmann tirava a folha da sua meia esquerda, o rosto do cobrador mudava. Mas o que ele estaria lendo?

Durante a transmissão ao vivo na TV, ninguém percebeu que o goleiro da seleção da Alemanha consultava um papel antes de defender cada disparo. Mas no estádio, vários torcedores e jornalistas viram como o seu ritual parecia dar frutos. Em quatro disparos dos argentinos, nenhuma vez sequer Lehmann falhou o lado certo. E em duas delas, com a precisão suficiente, travou a esquadra albiceleste e abriu caminho à passagem para as semifinais dos germânicos no seu Mundial. Era a conseqüência de um enorme trabalho de pesquisa e análise, desenvolvido pelo staff técnico alemão.

Andreas Köpke, ex arqueiro e o treinador de goleiros, tinha compilado uma lista de vídeos com todos os pênaltis apontados pelos eventuais rivais da seleção alemã nos dois anos anteriores ao Mundial. Quando a Alemanha superou a fase de grupos, Lehmann começou a treinar especificamente a defesa de penalidades. Sabendo sempre o que o esperava. Contra a Suécia, nas oitavas-de-final, não foi necessário recorrer ao arquivo. Mas à medida que o jogo com a Argentina seguia para a prorrogação, parecia evidente que Lehmann seria testado. Mais do que ele, todo o sistema de preparação do staff de Jürgen Klinsmann.

A ciência e a estatística fazem parte do treino dos guarda-metas há vários anos. Apesar disso, tanto a imprensa esportiva como alguns profissionais, procuram relegar para o segundo plano a crescente importância do estudo estatístico dos rivais. Em algo tão concreto e decisivo como os pênaltis, esse trabalho é ainda mais necessário. Os goleiros partem em desvantagem e têm de procurar reequilibrar a balança. Conhecer as tendências de execução do seu rival é a única maneira de o conseguirem. Em 1988, numa era onde ainda não existia a internet, os vídeos do YouTube ou a transmissão diária de dezenas de jogos de todo o mundo, Hans van Breukeleen tornou-se o primeiro arqueiro a utilizar a estatística a seu favor.

Nas vésperas da final da Taça dos Campeões Europeus contra o SL Benfica, o holandês conseguiu recolher uma base de dados satisfatória sobre a tendência de disparo dos eventuais cobradores encarnados. O jogo seguiu para pênaltis, van Breukeleen revelou-se decisivo e o PSV Eindhoven venceu o troféu. Um mês depois, em Munique, o guardião impediu que o soviético Igor Belanov devolvesse emoção aos minutos decisivos da final da Eurocopa. Travando o remate do jogador do Dynamo Kiev, depois de tê-lo estudado avidamente, o guardião conseguiu completar o seu memorável ano graças ao seu trabalho de pesquisa. Uma decisão que abriu um precedente. De forma pública ou camuflada, vários guarda-redes foram seguindo o seu exemplo. Mas nenhum caso se tornou tão simbólico como o de Lehmann naquela tarde de Junho em Berlim.

Köpke tinha preparado a lista. Lehmann guardou na meia, suada, com algumas palavras perdidas no tempo. Alguns dos jogadores da lista já nem sequer estavam em campo. Quando Julio Cruz apareceu para apontar o primeiro remate, o goleiro do Arsenal consultou o papel e atirou-se para o lugar certo. Mas a bola foi com demasiada força para ser defendida. O resultado estava igualado. Depois foi a vez do central Roberto Ayala ter de enganar Lehmann. No papel borrado o seu nome aparecia destacado, com o número da camisa, caso o goleiro se esquecesse de quem era quem. Lehmann leu e atirou-se quase antes da bola sair da chuteira do argentino e acabaria defendendo. Köpke celebrava com o punho no ar. Ele também tinha defendido aquela grande penalidade.

Enquanto os alemães encontravam sempre a forma ideal de bater Leo Franco, o disparo de Maxi Rodríguez esteve a centímetros de ser defendido por um Lehmann que voltou a adivinhar o local onde a bola foi adormecer. Com o golo de Borowski, o guardião sabia que tinha a decisão nas mãos. Mas o nome de Cambiasso não estava na folha. Era suplente, tinha poucas probabilidades de jogar e Köpke não se incomodou em inclui-lo na lista. Mas depois de tantas horas a ver vídeos, a memória de Lehmann reativou e o estilo do meio-campista argentino surgiu no momento certo. O alemão mergulhou para o lado certo e defendeu a cobrança. No vestiário, em plena euforia, decidiu guardar a folha de papel. Meses depois leiloou-a para uma instituição de solidariedade por mais de 1 milhão de euros. A ciência tinha aberto as portas da presença alemã nas semifinais e Jens Lehmann, desta vez, queria que essa recordação ficasse para a posteridade.

Antes de “el papelito”

O inesquecível Submarino Amarillo do Villarreal, chegou surpreendentemente à semifinal. Surpreendeu porque o clube nunca teve nenhuma relevância sequer dentro da Espanha, apesar de um projeto esportivo muito consistente à época que pôde montar um plantel forte, capaz de duelar com os dois gigantes espanhóis e deixar clubes tradicionais como Atlético de Madrid e Athletic Bilbao à sua sombra.

O Villarreal reuniu jogadores do calibre de Gonzalo Rodríguez, Rodolfo Arruabarrena, Juan Pablo Sorin, Alessio Tacchinardi, Marcos Senna, Santi Cazorla, José Mari, Diego Forlán e, claro, Juan Román Riquelme. Um time que mesclava experiência com juventude sem prescindir de talento sob o comando do chileno Manuel Pellegrini.

Após eliminar o Everton nos playoffs, na fase de grupos o time da “Comunitat Valencià” encarou Lille, Benfica e Manchester United, passando às oitavas de final em primeiro lugar o que lhe permitiu enfrentar um time “menos complicado”, o Rangers da Escócia. Dois empates com os escoceses, 2 a 2 no Ibrox Stadium e 1 a 1 em El Madrigal, deram as espanhóis a vaga nas quartas graças ao gol qualificado. Vinha a Internazionale e esse duelo merece uma capítulo à parte. Uma carnificina no segundo jogo, uma batalha característica dos velhos tempos de Copa Libertadores, ambos os elencos eram recheados de sul-americanos, o que permitiu que rivalidades e tretas antigas viessem à tona. Mas novamente com o gol feito fora de casa, na derrota por 2 a 1 no San Siro, garantiu ao Villarreal a classificação épica às semifinais, após a vitória em casa por 1 a 0 com gol de Arruabarrena.

Na semifinal, o adversário era o Arsenal, que ainda exalava um cheiro daquele espetacular time de 2004, que ficou conhecido como “The Invincibles’. Em Londres, no velho e charmoso Highbury, 1 a 0 pros Gunners. Não teve gol fora. E em Villarreal um empate por zero a zero que poderia ter sido diferente, não fosse o pênalti perdido por Riquelme, ou melhor, defendido por ele mesmo, Jens Lehmann, que pode até ser considerado o melhor goleiro do mundo de 2006, dados os feitos decisivos do arqueiro alemão.

Seu time não foi campeão da Champions League, nem da Premier League, sequer da FA Cup ou da Copa da Liga Inglesa e nem a sua seleção foi campeã do mundo. Mas o papelzinho de Lehmann ficou entalado na garganta dos argentinos naquele ano.

Riquelme não pôde se vingar. O camisa 10 da Argentina foi substituído por Cambiasso, um dos jogadores que falharam naquela partida das quartas-de-final contra a Alemanha de Lehmann e do maldito papelito.

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