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Enosis

Durante sete anos o futebol foi mais um elemento de união entre a Grécia e o Chipre. As tensões políticas entre gregos e turcos na pequena ilha do Mediterrâneo chegou aos campos de futebol quando uma polêmica decisão permitiu aos campeões cipriotas tornarem-se parte da liga grega. A Enosis — sonhada por políticos — só foi real dentro das quatro linhas.

A última invasão

Em 20 de julho de 1974, o exército turco invadiu o norte do Chipre. Há largos anos que se temia uma jogada militar por parte de Ancara. As tensões políticas eram anteriores ao século XX numa ilha que tinha sido ocupada pelos otomanos quase quinhentos anos antes. Turcos e gregos disputaram no século XX a supremacia sobre a ilha baseando os seus argumentos no mesmo pressuposto étnico. Os cipriotas eram, na realidade, um misto de ambas as culturas. Ao norte da ilha vivia uma maioria turca; no resto, uma população próxima à Grécia. A divisão era inevitável.

A formação oficial do país foi apenas um projeto teórico condenado a não funcionar quando se tratasse de dividir politicamente as rédeas do estado. Desde cedo os turcos se sentiram parte discriminada. No futebol também. Em 1955, os clubes formados dentro da comunidade turca abandonaram a liga e formaram uma federação própria, que só a Turquia reconheceu, para jogar entre si. Era outro mundo.

A resposta dos cipriotas, já como um estado independente e reconhecido em nível internacional, foi transformar o sonho de Enosis – união entre a Grécia e o Chipre – em realidade. Com bolas, chuteiras e relvados. O primeiro passo foi dado em 1966, com os acordos assinados entre as federações helênica e cipriota. Desprezando ainda mais a minoria turca ao norte, ambos organismos concordaram num modelo original e histórico.

Enosis, uma liga Pan-Helênica

O conceito da Enosis na liga grega e cipriota era único no mundo. No final de uma temporada regular, o campeão do Chipre era incorporado à liga grega. Durante a temporada, disputaria os jogos exclusivamente com equipes helênicas – apesar de participar nas provas europeias como campeão do Chipre – e se conseguisse evitar ser rebaixado, permanecia na competição. A ele juntar-se-ia o novo campeão cipriota, e assim de forma sucessiva. Se a equipe do Chipre ficasse em último lugar da liga helênica, era substituída pelo novo campeão do país e voltaria a disputar exclusivamente a sua liga natal na temporada seguinte.

Um modelo mais político que desportivo, confuso para muitos, mas que permitiu, durante sete anos, ao campeão do Chipre, procurar também transformar-se em campeão de toda a Grécia. Algo similar ao que sucedeu nos anos 30 quando o Rapid de Viena, da anexada Áustria, se proclamou campeão da Alemanha. A diferença é que o Chipre permanecia, aos olhos de todos, uma nação independente. Só os gregos (e os turcos) continuavam a opinar o contrário.

A experiência arrancou na temporada 1966-67. O Olympiakos Nicosia venceu a liga cipriota com os mesmos pontos (mas melhor goal-average) que o Anorthosis Famagusta e carimbou assim o passaporte para disputar a liga grega da temporada seguinte. A experiência foi uma desilusão e os cipriotas acabaram no penúltimo lugar e foram rebaixados. As diferenças competitivas entre equipes da Grécia e do Chipre eram evidentes.

O sucessor do Olympiakos, o AE Limassol, fez pior e na temporada seguinte: terminou em último lugar. Nos quatro anos seguintes, os protagonistas foram mudando, mas os resultados não. O Olympiakos Nicosia voltou a repetir o título cipriota e a eliminação na liga grega, resultados que o AE Limassol e o AC Omonia não foram capazes de melhorar. Politicamente, o projecto poderia ser um sucesso de reivindicação política mas, desportivamente, não estava a contribuir particularmente para o desenvolvimento da liga do Chipre: anualmente perdia o seu campeão, que era recorrentemente ultrapassado pelas equipes mais débeis do futebol grego. Em 1973 a situação alterou-se.

O APOEL, campeão pela primeira vez em nove anos, mostrou ser a primeira equipe do Chipre à altura do desafio. Orientados pelo iugoslavo Panos Markovic, os cipriotas realizaram uma temporada memorável para os padrões da época, terminando a temporada a apenas três pontos do sétimo lugar. Eram os primeiros cipriotas que logravam manter a categoria graças a uma goleada por 5-1 contra o Panserraikos. Na temporada seguinte, seriam acompanhados pelo Omonia, de novo campeão cipriota, antecipando a primeira vez que dois clubes do Chipre tomariam parte na Enosis futebolística. Uma realidade que nunca chegou a acontecer.

Dois estados, uma ilha

O golpe de estado patrocinado por Atenas, que substituiu o governante cipriota no poder, Makarios III, por um homem de confiança da Junta Militar grega foi a gota que transbordou o copo. A invasão militar turca abriu o precedente militar que os gregos esperavam para poder reclamar a sua parte dos despojos, mas a resposta da comunidade internacional foi o silêncio.

A falta de acordo impediu a Grécia de tomar controle da metade sul da ilha que se manteve, portanto, um estado independente. A norte, uma zona de bloqueio, habitada maioritariamente por população de origem turca, foi ocupada pelo exército de Istambul. Criou-se imediatamente um novo estado – a República Turca do Chipre do Norte – que até hoje não foi reconhecida por nenhum outro estado.

Durante anos as populações turcas e cipriotas-gregas que viviam nas zonas ocupadas pelo inimigo foram-se movendo, criando uma nova paisagem social e humana na ilha. A linha de bloqueio das Nações Unidas impediu mais conflitos armados mas, até hoje, não conseguiu resolver a situação política. E o futebol do país ressentiu-se definitivamente.

O fim da Junta Militar grega, como consequência da frustrada anexação cipriota e das revoltas populares no país, acabou com o sonho da Enosis. Face a essa realidade, o futebol seguiu o exemplo dos políticos e o projeto da liga Pan-Helênica foi cancelado. O APOEL e o Omonia, que tinham a inscrição preparada para a temporada de 1974-75 foram vetados pela federação grega e forçados a voltar ao seu campeonato base.

As equipes da zona norte da ilha, ocupada pelos turcos, ora caíam sobre a sua jurisdição, ora eram forçadas a mudar de lugar.

Como exemplo, o mítico clube Anorthosis Famagusta que joga em Lárnaca. Famagusta é a capital do estado controlado pela facção turca, mas o clube era formado exclusivamente por cipriotas-gregos. Preferiram mudar de cidade em conjunto a permanecer na zona norte. Como esse, houve vários casos de clubes que não resistiram ao tempo e à falta de raizes em novas cidades ao sul.

Resta imaginar que as sucessivas reuniões entre as duas federações que existem na ilha mediterrânea possam abrir o caminho para solucionar um problema de quase meio século. Os clubes ao norte, impedidos de jogar contra qualquer rival, e os clubes ao sul, alguns deles afastados da sua origem histórica, serão seguramente os primeiros a agradecer uma nova abordagem. O sonho da Enosis, esse, ficou enterrado no tempo!

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.

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