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Abel Neto

Abel Neto é exceção e também a regra. Principal repórter negro da cobertura esportiva no Brasil, o jornalista nasceu já com os pés fincados no futebol. É filho do ex-jogador de futebol Abel Verônico da Silva Filho, que começou a carreira no América Futebol Clube, do Rio de Janeiro, e, nos anos de 1960, foi para o Santos jogar ao lado de Pelé. Apenas isso: jogar ao lado do maior jogador da história do futebol brasileiro.

A mãe, dona Vera Lúcia Oscar Alves da Silva, militante negra, feminista e que voltou aos estudos apenas depois dos quatro filhos criados, para se formar em jornalismo, foi quem abriu os olhos de Abel Neto para o racismo brasileiro. “Ela é muito engajada. Participa do movimento negro, participa de partido político, de igreja. [O racismo] Sempre foi assunto em casa.”

A forma de militar de Abel é bastante direta: dar aos jovens negros um rosto no jornalismo esportivo para eles se inspirarem, acreditarem que é possível. “Minha maneira de agir é o meu trabalho”, comenta. Foi dessa maneira que surgiu a ideia de mandar o já tradicional “beijo do negão” aos telespectadores do Globo Esporte. O cumprimento, abertamente inspirado no apresentador Jô Soares, tem surtido o efeito desejado. “Ouço muito: ‘Abel, eu, a minha mãe e meu pai — pessoas negras — ficamos muito felizes quando te vemos na TV’”. É a questão da representatividade, palavra que tem dominado as redes sociais nos últimos anos. Mas, no fundo, Abel queria mesmo que as coisas não fossem mais assim. “Duvido que algum branco pare o Pedro Bial e fale assim: ‘Nossa, você nos representa, eu e minha família, por sermos brancos ficamos muito felizes quando a gente te vê’“, compara.

Abel teve em seus ídolos, de pele negra como a sua, um norte para fugir dos espaços que a segregação racial brasileira reserva para os descendentes de africanos. No escrete de Abel só craque é escalado: Bob Marley, Miles Davis, Pelé, Michael Jordan, Martin Luther King, Almir Guineto, Paulinho da Viola, Spike Lee, Nelson Mandela. “Os exemplos são muito importantes. Independente da raça”.

Em 2006, Abel realizou o sonho de participar da cobertura de uma Copa do Mundo. Foi à Alemanha com Mauro Naves, Tino Marcos, Pedro Bassan, Fátima Bernardes, Galvão Bueno, Cléber Machado. Vieram depois as Copas da África do Sul e Brasil (2010 e 2014), também os Jogos Olímpicos de Pequim e Londres (2008 e 2012) e Copas América de Futebol. Golaço atrás de golaço.

Antes do jornalismo, Abel foi professor de inglês por mais de oito anos em escolas e cursos pré-universitários. Depois começou no jornalismo na retransmissora da Globo em Santos e foi convidado para integrar o time paulistano na cobertura esportiva em 2000. Desde então, esteve na maior vitrine do jornalismo esportivo televisivo. Não é pouco para quem está praticamente sozinho na área. A cobrança, ainda que velada, é bastante maior para quem nasceu com a pele escura.

“Isso não é oficial, mas tenho certeza absoluta, não só no jornalismo. Em qualquer área, um médico negro, um jornalista, um policial, um prefeito, um arquiteto, com relação aos negros, e também em relação às mulheres, seja ela negra ou branca — se for negra sofre mais ainda —, pela discriminação de gênero, então imagino o quanto deve ser difícil pra elas, se pra gente já é. Os negros são mais visados”, explica.

Para o bate papo de quase duas horas com a Corner, Abel escolheu o Parque do Povo, na zona sul de São Paulo. É lá onde ele costuma correr, caminhar, mas também serve de cenário para passeios com os filhos. “Costumo vir aqui fazer exercícios, pra correr, já vim aqui pedalar, caminhar. Já vim aqui com os meus filhos e com a minha esposa também. Um parque é sempre um lugar agradável, né? Cenário bonito, com verde e próximo a minha casa — em se tratando de São Paulo. Aqui dá pra vir de carro, dá pra vir de trem, tem estação próxima. É tranqüilo, olha aí a tranqüilidade [crianças passando]”.

Respondeu com gentileza e cortesia às perguntas e emocionou-se ao lembrar as ofensas que sofreu quando criança, mas também sobre como é difícil ter a empatia de pessoas de pele mais clara. O melhor da conversa você acompanha nas próximas linhas:

O futebol entrou na sua vida muito cedo, e parece óbvio olhando pra trás, você ter se inserido como jornalista esportivo. Seu pai era jogador e sua mãe jornalista.

Meu pai é carioca, começou no América do Rio. Ele fez a base no Fluminense. Ele é de Raiz da Serra, ao lado de Pau Grande, que é famoso por ser a terra de Garrincha. Depois ele veio pro Santos em 1965. Ficou até 1971, por aí. Meus pais vivem até hoje em Santos. Eu e minha irmã mais velha nascemos em Santos. Só a minha irmã e meu irmão, que são gêmeos, e mais novos, nasceram no México, meu pai jogou lá [no Atlas, entre 1972 e 1976]. Eu realmente nasci respirando futebol. A minha mãe ser jornalista, na verdade, foi depois de mim. Ela foi terminar os estudos depois de já ter tido os quatro filhos. Se formou em 2012, mais ou menos.

Então você que deu esse impulso a ela?

Pode ser. Ela é muito engajada. Politicamente ela participa de movimento negro, é filiada a partido político, de igreja. Talvez isso tenha influenciado de alguma forma. Nunca conversei com ela se eu realmente influenciei, mas acredito que sim.

E quanto a ela te influenciar com relação ao movimento negro?

Isso sempre foi assunto em casa. É natural. Eu não sou engajado como a minha mãe. Ela é filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), é católica, participou de movimentos sociais, é feminista também. Não sei como ela arruma tempo pra tanta coisa. Eu nunca participei ativamente de nenhum movimento. O meu movimento sou eu, minha maneira de agir, o meu trabalho. As pessoas me perguntam — assim como vocês me chamaram pra entrevista — se eu vou falar, lutar pelos meus direitos, reclamar, dialogar.

Por falar no seu berço, seu pai compartilhou vestiário com ninguém menos que Pelé. O maior jogador da história do futebol brasileiro, porém, sempre foi criticado por suas posturas em relação ao racismo. Como você avalia o posicionamento de Pelé sobre o tema? [Ele sempre afirmou que isso deveria ser deixado de lado, dar de ombros, assim como no caso das manifestações de 2013].

Eu respeito. Eu posso dar como exemplo o que acontecia na minha casa. Minha mãe é filiada, participa, vai em reuniões, em passeatas. Eu nunca fui. Ela respeita e nunca me recriminou por isso. Eu não vou recriminar o Pelé, cada um age de um jeito. Se ele achou por bem não se posicionar e não falar, de qualquer maneira ele é um ícone do futebol, é motivo de orgulho pros brasileiros. Não gostaria de julgá-lo pela forma dele de agir em relação a isso. Eu tenho a minha maneira de agir e não vejo problema.

Os atletas americanos sempre se posicionaram mais abertamente. O brasileiro parece que muitas vezes reluta em assumir. Por que você acha que isso acontece? Medo?

Os americanos sempre se posicionaram mais. Não acredito nem que sejam só os atletas. Acho que o modo de pensar e de ver o preconceito e o racismo é totalmente diferente. Lá tem racismo e aqui também. Aqui é mais velado. Lá o movimento negro pelos direitos civis, desde os anos 60, sempre foi mais forte. Mudanças aconteceram, é mais comum ver uma classe média e alta mais representada, há mais médicos, advogados, jornalistas, arquitetos e até o presidente da república. Os negros são a minoria da população e mesmo assim você vê uma representatividade muito grande. Talvez a maneira de pensar, de refletir, de enfrentar os problemas seja diferente por isso. Se for pensar, lá atrás, em Malcom X, Martin Luther King, os caras já lutavam. Eles já provocavam um engajamento, já lideravam movimentos muito fortes. Isso é muito antigo e acaba influenciando nos esportistas. Até com relação ao Donald Trump, eu lembro de ter visto o próprio LeBron James e outros jogadores de basquete e de futebol americano se posicionando nas redes sociais ou dando entrevista. Realmente é diferente. Aqui no Brasil são poucos os que têm coragem de falar, como acho que aconteceu com o Aranha, com o Tinga. Aqui há muita gente que acredita que não há racismo, que a gente vive numa democracia racial e isso tanto por parte de brancos quanto de negros. Eu discordo totalmente disso, ainda faltam muitas oportunidades. Só estou aqui como jornalista, trabalhando numa grande emissora, porque eu tive a oportunidade de estudar. A maioria não tem. Nos EUA é diferente, há mais oportunidade. Começou, por exemplo, com o sistema de cotas, que muita gente aqui é contra. Negros acham que é um favor: “Ah, eu não preciso de favor”. Eu não acho que seja um favor, o próprio nome diz, é uma reparação por tudo o que aconteceu, por toda a história.

Visualmente os negros começaram a ter mais orgulho de sua negritude. Os cabelos passaram a ficar mais marcados. Houve uma época em que os cortes eram feitos pra disfarçar o cabelo, raspando, ou até alisando. Nos anos 70 também houve isso. Você acha que é um avanço?

Se formos lembrar os anos 70, me lembro do Capitão do Tri, o Carlos Alberto Torres usava o Black Power, o próprio Vanderlei Luxemburgo também, o Toninho que jogou na Copa de 78. O lance de raspar eu não sei se é pra esconder. Me lembro de uma época na NBA, mesmo com o todo o engajamento e pensamento político dos norte-americanos, muitos deles raspavam, como o próprio Michael Jordan. Cantores de Hip Hop também usavam [cabelo raspado]. Pode ser que algumas pessoas queiram esconder os traços, mas pode ser uma questão de moda. Tem o Willian, o Marcelo, que usam esse cabelo. Tem as tranças, como o Keno, o Arouca, que acho que desde quando começou no Fluminense já usava assim. Não tem como esconder, cada raça tem a sua característica. Além do cabelo, tem as feições do nariz, do lábio. Você não vai conseguir mudar.

Quais são seus ídolos negros no futebol e fora dele? Como eles foram capazes de mudar sua vida?

Bob Marley! Já tive banda. Toquei contra-baixo, já estudei saxofone, já fui vocalista de uma banda de reggae em Santos. Miles Davies, o próprio Pelé, Michael Jordan, Martin Luther King, Malcom X, Almir Guineto, Paulinho da Viola, Milton Gonçalves, Taís Araújo, Lázaro Ramos, Ruth de Souza, Zezé Motta, Heraldo Pereira com quem já tive o prazer de trabalhar junto e é meu amigo — estive com ele na África do Sul. Nelson Madela, Spike Lee — um monstro, fera demais! E meu pai.

Você se via como um discriminado? E de alguma forma esses exemplos que você deu, dava uma força pra pensar que é possível “chegar lá”?

Os exemplos são fundamentais pra qualquer pessoa, independentemente da raça. Me lembro uma vez, não sei se é verdade, ouvi dizer que aqueles desenhos, aqueles seriados japoneses — inclusive eu assistia alguns quando eu era pequeno — foram criados pras crianças japonesas terem super-heróis também nacionais e não só os ocidentais, americanos. Pra mim isso mostra bem essa questão. Eu mesmo sou um exemplo, eu sou muito parado nas ruas por pessoas que me vêem na TV, que gostam de mim, apreciam o meu trabalho e várias vezes me dizem: “Nossa, Abel, eu, a minha mãe e meu pai — pessoas negras — ficamos muito felizes quando te vemos na TV. Você nos representa. Você nos dá orgulho.” Isso me traz, de certa forma, muita alegria, porque eu vejo que através do meu trabalho eu ajudo pessoas negras a terem orgulho e a pensarem que um dia elas podem também ter sucesso nas suas vidas ou profissões. Ao mesmo tempo, não que me entristece, mas eu gostaria que isso acabasse, que um dia um jornalista negro trabalhando numa TV Globo fosse uma coisa comum. Tenho certeza de que ninguém chega pro Willian Bonner ou pro Pedro Bial, que algum branco os pára e fala a mesma coisa. Devem pedir uma selfie ou um autógrafo porque branco na TV ou num grande cargo é a coisa mais comum. Então, por um lado, obviamente é um reconhecimento do meu trabalho — independentemente de raça, pois muitos brancos também me param. Ao mesmo tempo, torço pra que um dia haja a representatividade daquilo que existe nesse país e nessa sociedade na qual, certamente, mais de 50% da população é negra, mestiça, ou parda — não sei se isso existe. Já saí da pergunta, né?

Não, a próxima era justamente por você estar na maior emissora do Brasil como um dos principais repórteres da Globo, se isso acabaria influenciando de alguma forma. Porque dá uma sensação de que há mais negros no jornalismo, lógico que longe da proporção.

Está bem longe, é muito pouco. Os próprios estrangeiros — artistas, músicos — já vi comentando: “Cadê essa gente que eu vejo nas ruas?”. É muito importante não só estar na TV, mas entrar num hospital e ver mais médicos, engenheiros, professores, advogados, até um presidente da república ou ministros. O que acontece com o negro desde pequeno é que de certa forma ele é “massacrado”, forçado a acreditar, de várias maneiras, que é incapaz, inferior, que não tem a mesma inteligência dos outros, não pode ser bonito, que a cor da sua pele não é legal, que o cabelo crespo não é legal — o cabelo é chamado de cabelo ruim. Eu, o Heraldo Pereira, a Glória Maria — já há tantos anos, talvez tenha sido a primeira —, a Dulcinéia Novaes está há muito tempo na TV do Paraná, o Herivelto Oliveira, são tão poucos [jornalistas de TV] que eu sei. Está crescendo, tem a Maju Coutinho, mas está começando. Isso é reflexo, talvez, de mais negros indo à faculdade, estudando jornalismo, e, com isso, mais oportunidades são dadas.

Você já conversou com alguns colegas, com a Maju ou outros negros, sobre o que representa estar na Globo?

Não especificamente. Claro, se eu pegar meu instagram agora, vou te mostrar uma foto que postei uma vez, e fui eu que produzi a foto, estava eu, a Maju, a Camila. Era uma forma de mostrar que estávamos felizes de estar ali representando e os comentários da foto, foram todos nesse sentido, de representatividade. Nunca conversamos exatamente sobre isso, mas de certa forma a gente sabe. A gente tem a noção da importância que tem pra nós, pra população e pra comunidade negra haver esse tipo de identificação. Pessoas [negras] trabalhando num grande cargo, numa grande empresa, e a gente sabe a força que a imagem tem, que a televisão tem, que os meios de comunicação têm.

Você sente que, enquanto negro, tem o direito de errar menos do que se fosse branco?

Isso não é oficial, mas tenho certeza absoluta, não só no jornalismo. Em qualquer área, um médico negro, um jornalista, um policial, um prefeito, um arquiteto, com relação aos negros, e também em relação às mulheres, seja ela negra ou branca —se for negra sofre mais ainda —, pela discriminação de gênero, então, imagino o quanto deve ser difícil pra elas, se pra gente já é. Os negros são mais visados. Então, pra gente é tudo mais difícil. Isso não é oficial, nunca ninguém me falou, não está escrito em contrato nenhum. Mas é mais difícil. Eu já estou há 20 anos na Globo, as pessoas gostam do meu trabalho, talvez por ser negro acabo aparecendo mais por ter poucos. Não quer dizer que um branco quando erra não vai ser cobrado. Todos são cobrados num mundo competitivo como do jornalismo, mas sinto que no nosso caso a cobrança é maior. Pelo menos eu sinto isso.

Você já falou um pouco sobre, mas as cotas raciais, pra você, podem ajustar um desnível social entre negros e brancos?

Não sei se vai resolver, mas vai ajudar. Isso já está provado, aconteceu nos EUA. As pessoas precisam de chances e a maior parte da população negra não tem acesso à oportunidade de estudar. Se não tiver acesso às boas escolas e às universidades, nunca vai conseguir chegar a uma dessas profissões que a gente comentou. Estudando já é difícil pra todo mundo, se você não tem acesso… A escravidão acabou entre aspas, não foram dadas as oportunidades. As pessoas foram jogadas e as conseqüências estão aí. Eu não vejo como favor nenhum, eu vejo mesmo como um processo de reparação. A pessoa que tiver acesso a uma boa universidade, a uma boa escola, através do sistema de cotas, ela não tem que se achar culpada e ela vai ter que lutar também, vai ter que estudar, vai ter que se esforçar, porque senão também não vai conseguir nada. Você entra lá numa boa faculdade e não se esforça, não estuda, depois se forma e não continua se especializando, não rala, não vai conseguir nada. Vai ter que ralar do mesmo jeito. Eu sou a favor.

Algum episódio que te marcou na sua infância e juventude?

Minha infância e adolescência estão marcadas. Brincava na rua com os amigos em Santos, e [ouvia] vários apelidos, várias ofensas: Macaco, Pixe… Muita gente, amigos da rua se referindo à você de uma forma pejorativa, por ser negro. “Negro sujo, negro filho da puta, seu lixo….”. Um episódio que me marcou muito: eu devia ter uns 9 ou 10 anos de idade, e um vizinho, amigo da gente jogar bola, era do time da rua que a gente fazia joguinho contra. Uma vez estava uma molecada toda reunida e ele chegou pra mim e falou: “Vem cá, você acha que alguma garota vai olhar pra você e te dar bola com essa sua cara preta horrorosa?” A molecada em volta começou a dar risada e tal, eu me sinto péssimo, mais de 35 anos depois. Aquilo me criou um ódio, uma coisa ruim dentro. Até mesmo essa pessoa, que era meu amigo, eu nunca mais tive a mesma amizade com ele. Depois ele acabou falecendo num acidente de moto, ainda jovem, infelizmente. Mas eu sempre tive muita coisa na escola, porque sempre estudei em escola de elite, de classe média pra cima. Era o único negro da minha classe e um dos pouquíssimos negros da escola. Se havia dois mil alunos, devia ter cinco negros na escola inteira. Sempre tinham brincadeiras, o que hoje chamam de bullying, talvez tivesse outro nome, mas era a mesma coisa. Com a polícia já houve alguns casos marcantes. Uma vez, nos anos 90, eu fui passar o carnaval no Rio de Janeiro. Estava eu e mais três amigos em Ipanema e a gente foi tirar dinheiro num caixa rápido, daqueles que ficam do lado de fora, e não dentro do banco. De bermuda, sem camisa, de chinelo, cidade de praia, né? Um deles estava com problema com a senha. De repente começou uma gritaria. “Pára, mão pra cima! Mão pra cima!”. Eram vários policiais com aquelas metralhadores apontando pra gente, eu olhei pra trás e perguntei o que estava acontecendo e [ouvi] “cala a boca, mão pra cima!”. Apontando na nossa cabeça, pediram documento, perguntaram o que estávamos fazendo ali — aquela abordagem policial. Explicamos que estávamos de carro, pediram pra abrir o carro, reviraram o carro inteiro, não tinha nada, e aí eu perguntei por que tudo aquilo. Ele disse que uma senhora viu a gente e achou a atitude suspeita, mas que estava tudo certo. Outra vez foi já em São Paulo, no início dos anos 2000, quando eu morava na Praça da Árvore. Tinha ido a uma festa com a minha esposa, estava voltando com ela pra casa de carro, cruzando a Avenida Indianópolis, e de repente o carro da polícia estava atrás. Achei que queria passar, mas ele parou já apontando a arma, desceram correndo uns dois ou três policiais, berrando. Minha esposa se assustou e eu não sabia o que fazer. Um pela frente o outro pelo lado apontando [a arma], numa rua escura, passou um monte de coisa na minha cabeça: vão me metralhar, vão me matar e ninguém vai nem ver ou saber. Eu sei que minha esposa começou a gritar “calma, é meu marido, não somos bandidos, somos casados”. Eu já trabalhava na Globo, deve ter sido entre 2001 e 2003. Sei que um dos caras olha pra mim e pergunta se eu não era aquele cara, jornalista da Globo. Eu disse que era. Foi tudo muito rápido, mas pra mim foi uma eternidade: eu estava tentando achar o documento, minha esposa gritando, eles apontando a arma, eu com medo deles atirarem e de uma hora pra outra o policial pergunta se eu não era jornalista da Globo. E eu tremendo de medo. Então ele falou pra eu ficar tranqüilo que estava tudo certo, mas eu disse que fazia questão, se queria ver meu documento. Ele disse que não precisava mais, que já tinha me reconhecido. E perguntei, por que tudo isso, fiz a mesma pergunta. Ele disse que meu carro tinha uma batidinha atrás e era igual a um carro que não sei o que, sempre o mesmo papo que já ouvi várias vezes, suspeito, parecido com um que foi roubado, alguma coisa assim. Eu não estava com uma Ferrari. Meu carro era um Palio Weekend, não era um carrão, mas na época, não sei, pra alguma pessoas, eles vêem um negro num carro desses e já é suficiente. Negro dirigindo um carro mais ou menos já vira suspeito. Converso com uns amigos meus brancos, que dizem que já levaram batida da polícia. Claro, todo mundo leva. Mas coincidentemente com os negros acontece muito mais. Às vezes a pessoa não fala nada, mas só a maneira como ela te olha — já aconteceu comigo, de você entrar numa loja de carro e você já sente o tratamento. A minha esposa é branca, converso com ela e ela acha que sou muito encanado, que não é bem assim, que eu exagero. Talvez por passarmos por isso desde cedo, a gente fique mais sensível e às vezes até exagere. Como eu acho que a minha mãe exagera em algumas coisas de feminismo. Eu entendo a minha esposa, mas eu falo que eles [brancos] nunca vão entender. Eu faço uma comparação, um homem não tem idéia do que é a dor do parto, uma cólica menstrual. Então falo isso pra minha esposa, que a dor e a tristeza de você ser discriminado por causa da cor da sua pele é só quem sente que pode falar. Ninguém mais. Eu mesmo já parei pra pensar, que estava chato demais, que gostaria de levar a vida como outras pessoas. Já fiz terapia. Mas nunca vão entender se não passam por isso, ser discriminado, ser xingado, tratado como um ser inferior por causa da cor da pele, do cabelo. Como eu nunca vou saber qual é a dor de um parto. Só as mulheres sabem. Já superei muito, sofro bem menos do que sofri, a terapia me ajudou. Mas é muito difícil. Uma criança negra olhar e não vê nenhuma pessoa igual a ela [em posição de destaque]…por que que os japoneses fizeram aquilo com os seriados? Você tem que ter exemplos [Abel começa a chorar]. Os homossexuais têm que ter esses exemplos, por ter uma opção sexual e muita gente não aceitar, mas poder ser feliz assim. Senão você só leva porrada. As pessoas só vão te diminuindo. Chega uma hora que as pessoas ficam até com vergonha [com a voz bem apertada de choro], por isso, do nada, eu resolvi falar e uso até hoje, e termino o Globoesporte com “um beijo do negão!”. De uma certa forma o Jô Soares me influenciou. O gordo também é discriminado, é tratado como feio. Mesmo com isso de [moda] Plus Size, ainda é visto como ruim. E aí vem um cara intelectual, um grande artista, um diretor de teatro, um cara como o Jô Soares, e mostra com o papo que ele não tinha vergonha. Sempre achei aquilo legal. E muita gente tem vergonha de me chamar de negro, pois acha que está ofendendo. Outra coisa que não é legal e ouvi várias vezes, que eu não sou negro ou que sou negro mas que sou diferente: “Ah, você é um negro de alma branca”. Por outro lado, eu tenho grandes amigos que me chamam de Negão, carinhosamente. A palavra negro ou negão, pode ser usada pejorativamente, como já fui chamado de negro de merda. Vi no “Beijo do negão” uma forma de mostrar que não tenho vergonha nenhuma. Acabou ficando uma marca que muita gente gosta. Em resumo, sou negão, não tem problema nenhum.

No futebol, saindo do jornalismo, são raríssimos os casos de treinadores negros, mesmo com a abundância de ex-jogadores de raça negra ou parda. A que você atribui esse desequilíbrio “estatístico”?

No estádio já tive problema várias vezes, acontece até hoje. O estádio é um retrato da sociedade. O racismo está na Europa — não é só no Brasil —, semana passada o Muntari saiu no meio do jogo. Acontece na Rússia, Itália, América do Sul, Espanha, aconteceu com o Aranha, Tinga, Arouca, acontece em todos os lugares. O estádio de futebol é um lugar onde as pessoas acham que podem fazer o que quiserem. Acham que ali não tem lei. Se a gente quebrar esse parque aqui, vai aparecer alguém e se bobear a gente é preso ou vai precisar pagar pelo o que a gente fez. No estádio, o cara quebra tudo e o clube paga. Então as pessoas acham que podem xingar, podem cuspir, pode chamar repórter de vagabundo, juiz de preto filha da puta quando ele erra — se for branco é [só] filha da puta. Felizmente na maior parte dos lugares que eu vou sou tratado com carinho, pelo meu trabalho. As pessoas pedem para tirar foto, pedem autógrafo, elogiam. Mas em muitos lugares eu sou xingado, com xingamentos racistas ou às vezes não. Às vezes é “seu paulista de merda, vai falar de time de São Paulo”. É o bairrismo. E o racismo entra no meio, pois está em todos os lugares. No estádio de futebol o racismo está de uma forma mais agressiva porque as pessoas estão em bando e então se acham no direito de fazer o que quiserem. Te chamar de macaco, de isso e de aquilo. Acontece muito em estádios de várias partes do país. Aconteceu comigo em Caxias do Sul, em Porto Alegre, em Curitiba, mas já aconteceu também em São Paulo, Santos, vários lugares. Estádio não é um universo paralelo.

Você viveu o episódio Grafite/Desábato de perto e fez a cobertura da delegacia. Você achou exagerada a prisão? Qual a sua visão sobre esse caso e outros semelhantes?

É difícil falar porque aí já entra num universo dos jogadores, que não é o meu, de jornalista, apesar de trabalhar com futebol. Eu não acho legal os caras se xingarem com ofensas racistas. Não sei como é o meio — mais ou menos, porque meu pai me disse, ele jogou no Santos, que era quase uma seleção africana. O Pepe brinca que era quase o único branco. Santos jogava muito pela América do Sul e sempre teve muito racismo. Gritavam “Macaquitos de Brasil” quando o Santos enfrentou o Boca na final da Libertadores. Eu já ouvi muitos jogadores negros dizendo que isso é normal, que o que acontece no campo morre no campo. É uma coisa antiga, tão enraizada que não sei como os jogadores negros lidam com isso. Muitos começam a reclamar e começam a não gostar. Outro dia o Felipe Melo reclamou. Teve um jogador [Manoel, do Atlético Paranaense] que reclamou uma vez quando o Antônio Carlos [Zago] fez o gesto [indicando a cor da pele]… Todo mundo vê como um exagero. Por quê? E até eu no dia fiquei assustado. Já viu alguém ser preso por racismo, independentemente de ser num campo de futebol? Eu nunca vi. Por racismo? Nunca vi. Quando o cara é pego em flagrante, chega na delegacia e vira injúria e difamação e ele vai embora. Não é enquadrado como racismo, crime inafiançável. Ali realmente foi inusitado, num campo de futebol onde os próprios jogadores negros desde a época em que meu pai jogava, muitos já davam isso como comum, se xingam e depois se abraçam. Como você vai provar? Teve televisão e leitura labial. Foi uma coisa chocante para todo mundo. Só passaram a usar cinto de segurança — em todo o lugar do mundo — não foi só pela segurança e sim porque se não usar você é multado. Mais por medo das punições do que pelas consequências. No racismo é na mesma forma. Talvez tenha sido exagerada a forma como foi, a hora, no campo. Passei a madrugada lá onde ele ficou preso. Foi um caso que marcou muito porque além dele ser preso em flagrante e ter ido para a delegacia, foi num jogo de futebol que estava sendo televisionado ao vivo, na maior TV do país, num jogo de grande rivalidade. A impunidade é até com assassinatos, aqui e nos EUA. Eu comentei sobre o Spike Lee, Do the right thing, Faça a coisa certa, retratando uma série de protestos que aconteceu em Los Angeles por causa de espancamento e morte de um negro por parte de um policial, algo que continua acontecendo nos EUA e no Brasil. Os números mostram. O Caco Barcellos escreveu o livro Rota 66, ali ele prova com números que a maior parte dos assassinatos pela polícia são de negros dentro de qualquer camada e muitos deles nem tinham ficha na polícia, eram estudantes. Não sei dizer se foi certo, mas marcou [o episódio Grafite/Desábato]. Quando eu tinha minha banda de Reggae, tocávamos muitos covers e tínhamos umas músicas próprias. A gente chegou a gravar um disco e eu escrevi a letra de uma delas. O nome da música era 7716. É o número da lei do racismo, e o refrão dizia: “7716, você já funcionou alguma vez? Acho que não, por quê?” O que eu pensei quando escrevi foi que a lei existe, mas alguma vez alguém foi punido por racismo?

Também pela Libertadores, em 2017, no jogo entre Peñarol e Palmeiras, Felipe Melo saiu de campo reclamando ter sido chamado de macaco. Mas ele atribuiu a problemas da esposa de quem o insultou, dizendo que a mulher do uruguaio gostava de negão.

Tirando a parte da torcida, falando do meio do futebol, mesmo sem estar dentro, eu não vivo o que acontece num vestiário, o máximo que eu faço é ir aos treinos e aos jogos fazer a cobertura, que é um meio muito machista, muito racista. A impressão que tenho é que todos estão acomodados com isso. Incluo jornalistas, a mídia, a sociedade. Se a sociedade é machista, o futebol também o é. Eu vejo isso com as meninas, fico mal quando vejo uma repórter ser xingada de puta. Sobre negros serem mais cobrados, eu acho que as mulheres também são. Eu vi isso com as bandeirinhas, as poucas que tiveram. A Ana Paula errou um impedimento num jogo do Botafogo e foi um massacre enorme. Eu acompanho um jogo de futebol há muitos anos e todos jogos tem cinqüenta erros do bandeirinha, quando uma mulher errou um impedimento, caiu um mundo em cima dela. Ela é muito mais cobrada. Tem as exceções, Arouca, Aranha, Tinga, Felipe Melo de certa forma, com um atropelo ou outro, mas tocou no assunto, o Muntari, o Dani Alves que achei legal pra caramba. Ele pegou a banana, foi espontâneo. Mas sinto que muitos jogadores negros ficam nessa, se xingam e depois do jogo estão jantando juntos, acham que é normal. Eu ainda tento entender como que é isso. Talvez eu não consiga por não ser jogador, não estar no campo.

Marco Antonio Rodrigues disse Bem, Amigos! que o futebol “quase não é racista”. Ele foi endossado ao vivo por todos que ali participavam. Sem dissonância nenhuma. Porém, só você era negro naquela bancada. A falta de negros no jornalismo esportivo tem esse poder de transformar problemas reais em mentiras?

Ele é um dos caras que mais admiro, tenho amizade com ele. Não sei o que ele quis dizer. Respeito a opinião dele, sou fã dele como comentarista, não vai mudar o que eu sinto por ele, mas as pessoas têm opiniões diferentes. Acho que o racismo e o machismo estão em todos os lugares, por fazer parte da sociedade. O futebol aceita todo mundo, a maior parte dos jogadores é de negros. Por outro lado, não há técnicos negros.

Exato, são raríssimos os casos de treinadores negros, mesmo com a abundância de ex-jogadores de raça negra ou parda. A que você atribui esse desequilíbrio “estatístico”?

Não sei responder. Mas acho que existem poucos ex-jogadores, brancos inclusive, que se tornam dirigentes também, por exemplo. Não estou afirmando que não há tantos técnicos [negros] por racismo. Mas por que há tanto jogador negro e tão pouco técnico? Essa discussão já existiu nos EUA, se for ver NBA, em quase todos os times a negrada é a maioria. E de técnicos, qual a porcentagem? E de dirigentes? Tem algo estranho, eu não sei o motivo. No futebol também. E o que tem de técnico negro? Teve o Cristóvão [Borges], teve o Andrade, esses exemplos talvez mostrem alguma coisa. Eu não estou aqui dizendo que o Andrade não continuou por ser negro, não sei dizer. Vários brancos também tentaram, foram até campeões e não foram adiante. Mas o Andrade teve pouca oportunidade. No Brasil ainda tem uns que geram dúvidas se são negros. Carlos Alberto Torres, era negro ou não? Pra mim era. Mas muita gente diz que não. Já o Vanderlei Luxemburgo, eu posso dizer que é, pois já tem uns traços, uma mistura. Essa discussão é profunda e longa. Converso muito isso com a minha mãe. Meus filhos, por exemplo, a mãe deles é branca, até brinco que é um bolinho frappé, sabe aquela mistura? [Risos] Eles podem dizer que são mulatos, são negros ou que são brancos. Minha mãe foi a primeira pessoa que me disse que a pessoa pode se assumir como quiser, é um direito dela. Mas algum dia, de alguma forma, mesmo que a pessoa não se diga negra, ela vai ser discriminada pela porção negra, mesmo não sendo tão negro. Eu me emocionei aqui pois eu sofri muito e sofro até hoje. Não sou psicólogo, mas talvez quem não se diz negro, quando sofre isso vai ter um choque maior do que eu tenho. Entendeu o conflito que vai criar no cara? Uma vez Ronaldo Fenômeno — acho que foi ele — disse que não se considerava negro, que se considerava branco. Mas quando for jogar um Brasil e Argentina, os caras vão chamá-lo de macaco. Quando for jogar um Real Madrid e Zaragoza, a torcida do Zaragoza vai imitar macaco, como imitou pro Dani Alves, Roberto Carlos. Não precisa ser o Eto’o, não precisa ser o Abel Neto, pode ser o Carlos Alberto Torres, mais clarinho. Nos EUA, o mais positivo é que não há margem pra dúvida, o cara se assume e com orgulho, sem vergonha nenhuma. Às vezes, a pessoa não quer [assumir ser negro] pois é mais confortável dizer que não é, por achar que vai sofrer menos, mas vai sofrer do mesmo jeito. Não interessa se o pai é branco e a mãe é negra, o outro identifica como negro: “é preto também!” Entendeu?. Sempre me preocupei com o que dizer e como criar meus filhos, tentamos mostrar que eles têm que ter orgulho do pai que é negro e da mãe que é branca, que todo mundo é igual.

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