Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Ariel Palacios

Residente em Buenos Aires desde os anos 1990. Seu sempre impecável figurino, da vestimenta ao corte de cabelo e barba suavemente por fazer, além de seu sotaque que lhe é peculiar são os temperos de um jornalista que faz um trabalho igualmente distinto.

A proposta inicial era gravar alguns depoimentos sobre a comunidade judaica na Argentina, mais precisamente em Buenos Aires, ilustrar como isso se reflete no futebol através do Club Atlético Atlanta do bairro de Villa Crespo, mas seria um desperdício não aproveitar para falar de política e futebol do país que Ariel reside há tanto tempo.

O encontro se deu em um Café no bairro de Recoleta na Avenida Puyerredón, muito perto de onde ele mora, um bairro de classe média-alta com urbanização muito semelhante à parisiense ou barcelonesa. Caminhar pela Recoleta é um passeio no tempo. Impossível não ficar estonteado com a “europeidade” do bairro nobre a cada esquina. Mas pequenos detalhes fazem lembrar que se trata de uma cidade do terceiro mundo, mas que surfou numa onda de tempos de esplendor no início do século XX.

O papo começa sobre o local de nascimento do jornalista cujo sotaque particular causa dúvidas em muitas pessoas.

Muita gente acha que você é argentino.

Nasci em Buenos Aires, mas primeiro “morei” em São Paulo, depois em Governador Valadares e por fim em Londrina. Mas Londrina é a minha cidade, morei lá dos nove aos 24 anos.

Então, você é brasileiro?

Sou brasileiro, como muitos que nasceram fora do Brasil: Clarice Lispector, Dom Pedro I, Vladimir Herzog…

“Siga el Baile”, o quanto essa expressão representa a cultura e o futebol da Argentina?

É uma música carnavalesca argentina, mais ou menos um candombe, que fala dessa festa permanente, mas no futebol, evidentemente, pros cartolas e políticos. A festa não é pra todos, nem pra torcedores ou pra maioria dos jogadores. Desde a gastança bestial que houve em 1978, com a realização da Copa do Mundo, cujo orçamento original era de US$ 70 milhões e terminou, depois, oficialmente, em US$ 700 milhões, a gente já tem uma idéia da farra que foi. Outro exemplo desse “Siga el Baile”, é a figura de Julio Grondona, um cartola empossado pelo Videla em 1979, e que só deixou o cargo em 2014, logo depois da Copa do Mundo, quando morreu, assim como ele dizia que ia ser. Inclusive, nos seus últimos anos, ficou muito fortalecido pelo governo da Cristina Kirchner, com uma série de benefícios a ele e ao seu entorno, com o programa de estatização das transmissões do futebol, o Fútbol Para Todos, que no discurso havia uma promessa de usar todo o dinheiro que o Estado arrecadaria com a publicidade nas transmissões para incentivar o esporte no país, sobretudo as modalidades olímpicas. Esse dinheiro nunca pôde ser destinado ao estado, no total, até a sua extinção, o gasto foi de mais de US$ 1,5 bilhão, sem nenhum retorno, o que superava os investimentos do Ministério da Cultura ou os custos no tratamento e no combate à AIDS. Então, o governo priorizou isso em vez de investir em outros setores. Isso aqui não é a Suécia, é terceiro mundo. Esse dinheiro faz falta. Como não conseguiu colocar publicidade privada no futebol, acabou colocando publicidade estatal. Ou seja, o Estado cobrava a si próprio, ou seja um dinheiro que ia embora, e isso é paradoxal, porque com a indústria do sexo, dos cassinos e com o futebol é impossível perder dinheiro, a não ser que você seja muito incompetente. Mas o dinheiro se esvaiu, foi pros cartolas, não pros clubes, pois continuam com grandes prejuízos e dívidas. Não houve uma melhoria nos estádios, no sistema de segurança, não houve combate aos Barra Bravas. O mesmo esquema de poder e corrupção que existia permaneceu e esse dinheiro desvaneceu sem nenhum investimento no resto dos esportes e áreas.

E como você observou a opinião pública com relação ao Fútbol para Todos? Pois o próprio Macri quando concorre à presidência, ele não diz que vai acabar com o programa. Ele fica em cima do muro, com medo de perder alguma popularidade.

Houve até muita cobrança sobre isso, pois ele não se pronunciava sobre o assunto. Como ele havia sido cartola, de 1995 até 2007, até acharam que tinha a ver com isso. Na realidade, o Macri começa o governo sem mexer no Fútbol para Todos. Houve uma mudança meses depois quando houve divergências entre clubes e governo porque queriam mais dinheiro e o Macri diz que não podia dar mais dinheiro e começaram a se mobilizar para buscar dinheiro privado, ou seja, quem pulou fora do programa foram os clubes e pro governo acabou sendo conveniente. Encontraram uma outra fonte de financiamento fora do Estado. Já não era uma prioridade, porque futebol sempre tem dividendos políticos interessantes, mas mesmo presidentes, com uma pose neo-liberal, acabam preferindo manter certo clientelismos e populismo que o esporte proporciona no terceiro mundo. Mas por outro lado, também é verdade que já na época prévia ao FpT, os torcedores argentinos acabavam assistindo de alguma forma, a TV a Cabo na Argentina é extremamente popular, e antigo. O cabeamento começou em meados dos anos 1980, e o percentual da população com acesso à TV fechada é altíssimo e, claro, com isso corrobora o fato de que um terço da população argentina está na Grande Buenos Aires, é mais fácil “cabear” um país assim do que o Brasil ou o México.

Macri saiu do futebol onde ele ganha essa projeção política. Se torna governador da Capital…

Perdão, te interrompendo, aqui não se mistura o fato dele ter sido presidente do Boca e que torcedores rivais não votem nele, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Na torcida do Boca há um percentual muito grande de peronistas e kirchneristas, então não se transfere o voto de torcedor pro campo político.

E mais curioso ainda, é que durante o governo dele na cidade, o que mais se desenvolve foi o transporte público: MetroBus [corredor de ônibus], BiciSendas [ciclofaixas] além de linhas novas de metrô. Justamente o que gerava muitas críticas ao Haddad em São Paulo, o atacavam de socialista por implementar ciclofaixas. E quem fez isso em Buenos Aires foi um “neo-liberal”.

É uma coisa engraçada. Buenos Aires é uma cidade historicamente complicada de se administrar. As pessoas reclamam muito aqui. Os portenhos têm vários esportes e um deles é reclamar. Aqui tudo é pior pra eles. “É o pior tráfico do planeta, a cidade mais corrupta do planeta”, e essas pessoas nem conhecem outras cidades pra dizer isso. Os argentinos passaram de achar, há meio século atrás, que eram do melhor país do mundo pra se auto-flagerarem. Neste caso, do transporte, é uma cidade fácil de se administrar, apesar dos governantes não terem sido grandes coisas. Mas eles herdaram uma infra-estrutura que começou a ser construída no início do século XX, e consegue sobreviver apesar dos políticos daqui. Mas o Macri fez duas obras que são muito interessantes. Uma delas é o MetroBus e a outra as BiciSendas. As duas surpreenderam. Era um paradoxo. Buenos Aires é uma cidade plana com paixão pelo ciclismo, não ao mesmo nível da Espanha ou da França, mas talvez é o país com maior interesse na modalidade da América Latina e, no entanto, ninguém andava de bicicleta, nem os ciclistas, exceto por questões esportivas. Um ciclista não ia de bicicleta pra faculdade, ele usava algum transporte público. Mas são daquelas coisas esquisitas que explico pro pessoal do Brasil, sim o Macri tem uma imagem neo-liberal, mas enquanto prefeito de Buenos Aires não privatizou nada e desde que é presidente não privatizou nada. Até, aliás, estatizaram duas ou três rodovias na província de Buenos Aires. Não dá pra comparar o Brasil com a Argentina nem pra comparar as direitas e as esquerdas de um país com o do outro.

E tem um outro personagem que faz o caminho inverso do Macri. Ele sai da política, do sindicalismo, e vai pro futebol: Hugo Moyano. Ele perdeu um pouco de protagonismo.

Ele foi, digamos assim, um dos sindicalistas mais combativos dos anos 1990, cresceu muito naquele período, pois foi quando o sistema ferroviário argentino encolheu de forma drástica e aí se expandiu o poder dos caminhoneiros. O Moyano soube articular muito bem, ele conseguiu absorver tudo que tivesse algum vínculo com caminhões, os garis, o pessoal do pedágio, tudo dentro do mesmo sindicato. Depois ele virou secretário geral da CGT, e havia já um certo desgaste com a figura dele, o tempo dele estava chegando. O Moyano é muito esperto, percebeu que tinha que fazer uma transição. Ele sai da área sindical e vai pra outra também muito lucrativa que é o futebol.

E ele consegue colocar o genro no comando da AFA [Chiqui Tapia é casado com a Paola Moyano, filha do ex-líder sindical]. Com a morte do Grondona, que por sua vez se associou aos militares durante o regime, passando por quem tivesse no poder, Menem e Cristina Kirchner…

Quando não se associava, como era o caso do Alfonsín, o Alfonsín temia mexer com o futebol. Havia um medo, pois o Grondona tinha uma grande vínculo com a FIFA. Mesmo aqueles que evitaram alguma relação com o Grondona, sempre temeram qualquer interferência no futebol com ficar de fora de alguma Copa, pois o Grondona teria o respaldo da FIFA.

Na Argentina há uma frase que diz “com o petróleo não se brinca”, mas com o futebol também não se brinca…

É como se fosse uma área sacrossanta. As pessoas tem medo de mexer com o futebol. O melhor exemplo disso, é com a Guerra das Malvinas em 1982, quando houve uma onda anti-britânica. Monumentos que faziam referência à Inglaterra ou a ingleses foram apedrejados, escolas inglesas foram atacadas. Lugares tradicionais como Farmácia Franco-Inglesa e o Bar Británico, tiveram que trocar o nome rapidamente, a farmácia tirou o “Inglesa” e ficou como “La Franco”, o Bar Británico, com mais pressa ainda, apagou a primeira sílaba e virou Bar Tánico, até que anos depois voltou ao nome original. Mas não se mexeu nos nomes dos times de futebol com nomes ingleses. River Plate, Banfield, Chaco For Ever, Newell’s Old Boys, enfim, é como se fosse outra esfera, não fizesse parte deste universo. A fúria anti-britânica não se direcionou contra os times que tinha, ostensivamente, nomes ingleses. Se direcionou contra a Inglaterra. O Uruguai que sempre foi o grande rival durante seis décadas e depois o Brasil era o rival, mas a Inglaterra passou a ocupar esse espaço no imaginário coletivo argentino. Tanto que os gols mais recordados da torcida argentina não são gols nem contra o Brasil nem contra o Uruguai, são os dois gols de Maradona contra a Inglaterra na Copa de 1986 no México.

Falando agora do vácuo de poder que a morte do Grondona gera, quando parecia que não dava pra ficar pior, mas sem ele as coisas pioraram.

Deve ter acontecido a mesma coisa quando Al Capone foi preso. Deve ter havido brigas entre os outros mafiosos em Chicago que disputavam o poder. Ou quando morre um narco-traficante em alguma favela e que outros brigam pra ocupar aquele espaço. Mais ainda porque o Grondona tinha linha direta com a FIFA, ele era o Vice-Presidente. Quando desaparece a figura desse mega-gângster o pessoal ficou perdido como baratas tontas. Tinha tudo pra se começar do zero e fazer as coisas direito, mas não, porque todo o segundo escalão continuava sendo um bando de mafiosos. Caiu o grande chefão e apareceu uma feudalização de mafiosos no lugar dele.

No retorno político de Cristina Kirchner, ela usou o Fútbol para Todos no seu discurso?

Não vi nenhuma referência. Ela se concentrou na pobreza, no desemprego, na inflação, na crise econômica em si.

Voltando à AFA, parecia que por fim tinham encontrado um treinador, com exceção do Sabella que durou pouco, mas o Sampaoli parecia ser um cara destinado a dar certo no futebol argentino por ser herdeiro da escola do Bielsa. E mesmo com o Grondona que dava uma “estabilidade” ao seu estilo à instituição, dentro de campo há muito tempo que a Argentina não tinha um técnico propostas de jogo desde Pekerman, passando por Basile, Checho Batista, Maradona…

Talvez o melhor nome fosse o do Bielsa, mas não sei se funcionaria. Não sei se ele se adaptaria num esquema tão bagunçado como o da AFA. Ele precisa ter as suas vontades sempre satisfeitas. O caso do Sampaoli é interessante, é um cara que começou a carreira sem nenhum contato com o futebol argentino. Foi técnico no Peru, no Chile a na Espanha. É uma figura que poderia ter funcionado. Parecia ter encontrado uma fórmula para driblar a distância entre seleção e jogadores pois todos jogam na Europa.

O Sampaoli é um cara que conseguiu furar uma resistência muito comum na Argentina, que tem a ver com o Piazzola e Messi, que primeiro ganhou reconhecimento fora do país pra depois ser reconhecido dentro…

O próprio [Jorge Luís] Borges, era respeitado dentro da intelectualidade, mas só se tornou popular na Argentina quando foi publicado na França. O próprio Gardel, até fez sucesso aqui, mas quando ele começou a fazer seus tours artísticos pela Europa e EUA, ele começou a ser desprezado. E só depois da morte ele retomou o prestígio, e o Gardel só teve o mega-sucesso na Argentina, depois de explodir fora.

O sucesso fora da Argentina não é bem visto aqui?

Exato, por incrível que pareça. As pessoas que fazem sucesso lá fora num primeiro momento são encaradas assim como alguém soberbo. Há grandes figuras do mundo artístico e científico que não são conhecidos.

Por falar em “lá fora”, a Argentina recebeu muitos imigrantes judeus.

Isso, a Argentina tem a maior comunidade judaica da América Latina. Uma das maiores do mundo. É difícil calcular o tamanho dessa comunidade, eles mesmos dizem que é difícil saber porque estão os freqüentadores das sinagogas, das escolas judaicas e, já desde os anos 1920, essa população é, na verdade, laica. Não são só os ortodoxos, com as suas vestimentas características, isso você vê bastante na rua, mas a imensa maioria não é ortodoxa, 90% da comunidade judaica argentina é laica. São várias gerações de laicos que mantém tradições gastronômicas, do humor, algumas palavras do ídiche, um idioma fenomenal que infelizmente sumiu do planeta todo. As estimativas mais baixas falam em 250 mil judeus e as mais altas em 600 mil, até porque houve muita mistura de judeus com não-judeus. Como definir se é ou não? O humor argentino tem muita influência do humor judaico, tem muitas figuras das ciências e das artes. É uma cultura muito influente na sociedade argentina desde o início do século XX. Mas também é, por outro lado, o país que mais recebeu criminosos de guerra nazistas, que nos anos 1930, tinha o maior partido nazista fora da Alemanha, fizeram comícios e lotaram o Luna Park [uma famosa casa de shows] em duas ocasiões, uma delas para celebrar o Anschluss. O exército argentino era ultra-anti-semita. Há ainda pequenos grupos neo-nazistas e a gente vê isso tudo a questão do Chacarita e do Atlanta. O Atlanta é um clube uma forte presença judaica na sua torcida e o Chacarita é a contra-posição [futebolística] e o fato é que nos jogos entre eles, os cânticos anti-semitas eram muito freqüentes.

A AFA chegou a proibir esses cânticos…

Mas como acontece no mundo inteiro, qualquer discriminação tende-se a dizer que “a paixão esportiva isso, a rivalidade aquilo”, então, xingar alguém dentro de um estádio está tudo bem e xingar a mesma pessoa na frente de um banco é um absurdo! Dar um soco dentro de uma biblioteca pública é um horror, mas matar dentro do estádio “é fruto da paixão futebolística, é preciso entender”, não, é crime! Há uma tendência a ser muito condescendente com tudo que acontece com delitos e discriminações dentro do ambiente do futebol. Há leis, mas as punições nunca são muito pesadas. A própria FIFA quando aplica sanções por questões racistas ou homofóbicas, quando você vê as multas são US$ 20 mil… O que é isso pra um grande time? Nada! Não há punição exemplar de um ato racista, xenófobo, homofóbico. São punições leves que as torcidas não dão bola.

Na Argentina houve aqueles terríveis atentados contra a embaixada de Israel e AMIA. Quais outros episódios de perseguição aos judeus aconteceram na Argentina?

Sim, houve em três momentos. Se a gente pega a porcentagem de pessoas torturadas e desaparecidas, a proporção de membros da comunidade judaica com relação ao restante da sociedade argentina é imensa. Proporcionalmente tinha algo muito estranho. E há depoimentos que as torturas eram piores com os integrantes da comunidade judaica do que com o restante dos civis. Também houve violações a túmulos de judeus e há um caso que nunca foi muito detalhado que só foi possível com alguma revisão histórica, que foi um Pogrom em Buenos Aires em 1917 ou 1918, dentro de um contexto de protestos sindicais, como aconteceu em várias partes do mundo. Houve uma colaboração da polícia em Blitzes na região da Balvanera, conhecida como Once e no bairro de Villa Crespo onde se concentra muita gente da comunidade judaica. Houve muitas pessoas mortas e é um assunto meio tabu, mas existem relatórios da embaixada americana contando o que havia acontecido aqui em Buenos Aires que era uma metrópole da época, era a terceira cidade no mundo nos anos 1930 em produção cinematográfica em ídiche depois de Varsóvia e Nova Iorque e também a terceira em publicação de jornais e periódicos em ídiche, atrás de Varsóvia e Nova Iorque. Chegou a ter três jornais diários em ídiche, era impressionante.

Falando em extremos, como é ser correspondente num mundo no qual noticiar algo ruim na Venezuela, você é tachado de fascista e se você criticar o Macri, você é chamado de comunista? E além disso, você gasta bastante energia no Twitter onde reside muito dessa polarização.

O caso é que se eu tivesse outra profissão, se eu fosse açougueiro, talvez eu não tivesse uma conta no Twitter. Mas como eu sou jornalista, parte dos leitores, ouvintes ou telespectadores estão lá. Tenho que começar a usar o Instagram, aliás, pois são nichos de mercado e do futuro. É interessante também pra estar instantaneamente antenado, profissionalmente é bom. Você consegue ver as tendências, as coisas legais ou as loucuras sobre as quais as pessoas estão comentando. Talvez se eu fosse psicólogo eu me divertiria mais no Twitter.

O mundo está num momento de extremos, mas na Argentina não apareceu nenhum louco de extrema-direita.

Não, mas tampouco de extrema-esquerda. É um país que a esquerda tradicional foi dinamitada pelo peronismo que é algo que oscila entre a centro-direita e a centro-esquerda, com toques de populismo, que incorpora setores da direita e da esquerda. Tem de tudo. Perón era um admirador de Mussolini, declaradamente. Não era exatamente um democrata, era amigo do Stroessner.

E as redes sociais têm jogado um papel importante nessas polarizações?

Sim, o Twitter menos, mas o Facebook muito. As correntes de WhatsApp mais ainda. A tia-avó recebe manda pro sobrinho que estão chegando treze navios com dois milhões de refugiados. Mas peraí, então em cada navio entraria 180 mil pessoas. Mas acreditam nisso.

Como você chama cada lado?

A direita-sertaneja e a esquerda-caviar. Mas eu sinto que são minoria, pelo menos no Twitter. E eu bloqueio as pessoas permanentemente. Eu tenho uma série de regras, por racismo, homofobia, misoginia, xenófobas, xingamentos… Já me tacharam de comunista, de fascista, de satânico pelos fanáticos religiosos. Mas os grosseiros gritam mais mas são minoria. E essas pessoas sequer são de direita ou de esquerda. Essas pessoas que sentem saudade do regime militar brasileiro e se dizem neo-liberais. Mas peraí, o governo militar estatizou muito. A ditadura militar brasileira apoiou os regimes comunistas de Angola e Moçambique, as pessoas não sabem o que fazer. Quando dizem que Maduro é um representante do socialismo, levando à sério o que é a direita e a esquerda na Europa, tem que lembrar que a esquerda européia é a favor do aborto, do casamento gay, e o Maduro é categoricamente contra o casamento homo-afetivo, anti-abortista e usa um palavreado religioso, não é laico. Aí, ficam de novo sem saber o que dizer. E quando digo que ele tem muitos pontos em comum com a direita, e não estou dizendo que ele seja de direita, pois ele é um reacionário, e ser reacionário não é um privilégio de algum ponto da direita somente, ele pode estar em qualquer lado do espectro ideológico. E as pessoas usam a palavra fascismo e comunismo pra qualquer coisa. Macri é fascista, dizem. Fascismo implica em mobilização de massas e em militarismo. O Macri não faz nenhuma das duas coisas. Maduro é comunista. Depois de 18 anos da “Revolução Bolivariana”, a maior parte da economia venezuelana está em mãos privadas. Se isso é comunismo, o pessoal está indo bem devagar. A Revolução Soviética sim, em meses estatizou tudo. É como o PT no Brasil, não fez a reforma agrária, não estatizou praticamente nada, ao contrário, privatizou, quem mais lucrou foram os bancos e a “pejotização”, durante o período do PT, expandiu a doidado. Só as empregadas domésticas tiveram algum avanço trabalhista. São tempos esquizofrênicos.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

Deixe seu comentário