Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Djalminha

Djalma Feitosa Dias como ele é

Uma espécie em extinção em seu habitat natural. Relaxado, à vontade, sem nenhuma formalidade, como ele mesmo quis. “Vamos fazer aqui mesmo”, Djalminha preferiu falar com a Corner no Rei do Caranguejo, em Barra de Guaratiba, onde tomava sua cerveja com amigos de longa data. Um refúgio na zona oeste do Rio de Janeiro, a mais de 20 quilômetros do Barra Shopping e distante de qualquer badalação.

Sem camisa, de bermuda e chinelo, Djalma estava sentado na mesa ao lado de Alex Ribeiro, um ex-jogador sem grande trajetória como a de seu amigo. Mas se Djalminha é filho de ninguém menos que Djalma Dias, Alex é filho de um renomado sambista, Roberto Ribeiro, e faziam um “ensaio” de um samba escrito por Djalminha e sonorizado no banjo pelo companheiro de longa data.

Ambiente alegre, calor não tão infernal do verão carioca, numa localidade afastada da urbanização, uma roça com cerveja, samba e simplicidade caracterizada nas cadeiras plásticas e mesas de madeira. Ali, todos eram iguais, como muitas vezes gostaria de ser a maioria dos jogadores. Daquele jeito, sem formalidades ou bajulações, sem autógrafos, sem selfies, com muitas histórias, piadas e provocações entre amigos.

A tua relação com o teu pai, o fato de terem o mesmo nome, ajudou, atrapalhou?

Na verdade, futebolisticamente, eu não me lembro dele jogando profissionalmente, ele parou em 1973 e eu nasci em 1970. Mas é a minha referência maior. Quando as pessoas me perguntam, o meu ídolo, é o meu pai. Era meu amigo, um cara que me cobrou muito e nunca exigiu que eu fosse jogador de futebol. A obrigação era estudar. Futebol era algo que eu gostava muito, um dom que eu tinha. Eu fui sozinho pro futebol, me viram jogando pelada na rua, fui pro futsal, e meu pai só começou a me acompanhar um ano depois. Ele foi fundamental na minha vida, uma pena que eu o tenha perdido cedo. Eu estou dando essa entrevista e gostaria que ele estivesse sabendo que essa é a verdade. Foi uma referência principalmente como pessoa muito mais do que como atleta.

Ele queria que você fosse o que?

Ele queria que eu estudasse. Se eu não estudasse ele não deixava eu jogar futebol. Como eu amava futebol, estudava. Era assim. Ele me cobrava no estudo e não pra que eu fosse alguma coisa.

Seu pai era primo de Carlos Alberto Torres. Não era muito talento pra poucas Copas do Mundo?

Inclusive o Alexandre Torres, que foi um excelente jogador e poderia ter uma Copa. Eu acho que sim, mas são coisas que acontecem. Carlos Alberto jogou só a de 1970. Meu pai não jogou nenhuma, eu não joguei nenhuma, mas enfim… Mas sim, ter quatro jogadores nesse nível numa mesma família é difícil. São poucos os casos de pais e filhos que sejam grandes jogadores.

Seu pai ficou quase sete meses sem jogar no Palmeiras antes de ir pro Galo, tinha a questão do passe. Ele ter passado por isso, te fez mais feroz para brigar pelos teus direitos?

Me fez mais forte sim. Eu sempre fui um cara como todos sabem de personalidade forte. E é muito bom tocar nesse assunto. A questão da lei do passe é muito conhecida pela Afonsinho de quem meu pai era muito amigo e eu também sou, ele foi sempre muito presente nas nossas vidas. Mas foi meu pai que começou essa briga de ficar sete meses parado brigando pelo direito de jogar. Assim, eu já nasci com essa visão de que os dirigentes não são bonzinhos. Não pensam no atleta como ser humano, é só sugar, sugar, e quando não serve mais não te respeitam, te execram. Não respeitam que você queira mudar de local de trabalho. Não aceitaram que meu pai quis ir pro Santos naquela época e teve que ficar sete meses parado, ir pro Atlético Mineiro emprestado pra depois poder ir pro Santos. Interromperam sete meses de uma carreira. Não é fácil ficar tanto tempo sem jogar. Eu levei muito isso pra mim. Você tem que buscar o seu espaço e pensar só em si na sua profissão, porque se você depender de um clube ou de dirigente, você está ferrado.

“Eu não tenho nenhuma mágoa com o Zagallo, foi o primeiro técnico a me convocar pra Seleção, mas a minha mãe com certeza tem!”

Seu pai era titular com João Saldanha nas eliminatórias da Copa de 1970, mas não foi convocado pelo Zagallo pro Mundial. Existia alguma mágoa? Ele falava disso?

Nunca falei sobre isso com o meu pai. Mas se perguntar pra minha mãe, ela tem, pois em 1998 era o Zagallo também e eu não fui. Eu não tenho nenhuma mágoa com o Zagallo, foi o primeiro técnico a me convocar pra Seleção, mas a minha mãe com certeza tem! Ele não levou meu pai em 1970, ele foi titular em todos os jogos das eliminatórias e não foi pra Copa. As pessoas se lembram muito mais que eu fiquei de fora da Copa de 2002, mas em 1998 eu estava bem melhor em todos os aspectos do que em 2002, e o Zagallo não me levou. Mas sinceramente, eu não tenho nenhuma mágoa. Minha mãe tem, com certeza.

Você não foi pra Copa de 2002, por conta da cabeçada no Irureta..

Há controvérsias…

Então, fale sobre isso. Você teria ido no lugar no Kaká, que era um garoto daquela geração. Ou melhor, o Kaká foi no teu lugar…

Sendo bem claro. Felipão foi ver um jogo. Barcelona e La Coruña no Camp Nou e tinha um da Champions League logo depois. Eu estava jogando todos os jogos do campeonato espanhol e às vezes não era titular na Champions. Esse jogo em Barcelona, o Irureta não me coloca pra jogar. Eu fiquei louco, porque eu sabia que o Felipão estava lá, era uma oportunidade maravilhosa. Mas nós saímos pra jantar depois do jogo, ele falou: “Djalma, tu tem 31 anos, eu conheço o teu futebol, você não precisa me mostrar nada.” Eu ainda perguntei a ele se eu saísse em dezembro, se ele achava que ia ser melhor, ele disse que não precisava. Eu forçaria a minha saída, porque eu tinha uma proposta do Lyon, pra poder jogar até a Copa, pra estar jogando. Ele disse que não precisava. E aconteceu a confusão com o treinador que eu realmente não gostava há muito tempo. Se ele quisesse realmente me convocar, me convocaria, só que ele tinha muita pressão na época em função do Romário, que ele disse que não convocou por indisciplina e quando acontece meu episódio na Espanha, o caso explode nos jornais aqui no Brasil. Como eu não seria titular, que contava comigo pra quando os jogos estivessem difíceis, pra entrar e mudar o jogo. Havia essa conversa. Ele não me convocou, eu não tenho mágoa nenhuma, ele não tinha nenhuma obrigação em me convocar. Mas se ele quisesse, ele teria me convocado. Basicamente é isso.

O Alex falou algo muito parecido na Corner #5…

Sem querer te cortar, mas parece que com o Alex havia uma promessa de convocação. O que é completamente diferente do meu caso. Ele disse que contava comigo que eu estava nos planos, mas nunca me prometeu que ia me levar. E uma vez, a gente conversando lá no Resenha [ESPN], o Marcelinho Paraíba disse que o Felipão também prometeu que ia levar ele. Aí eu falei, o Felipão usou muito bem a gente, porque a gente treinava só pensando na Copa. Deixou todo mundo confiante e na hora ele escolheu quem levaria.

Essa escolha, inclusive, se deu por outros aspectos e nem tão táticos. Tanto que quando o Emerson é cortado quem entra no lugar é o Ricardinho e não você ou o Alex…

O Ricardinho nem era da mesma posição que o Emerson…

Teria então a ver com o teu temperamento?

Não, tanto que o Alex não foi. E eu já estava mais maduro. Na Seleção, eu estava muito mais agregador do que reivindicando meu lugar pra jogar. Eu queria ir pra Copa. Eu sabia que essa era a última. Eu não teria outra chance, eu não queria confusão.

Você acaba não indo pra Copa e vai emprestado pro Austria Viena. Como você foi parar lá?

Simples e rasteiro: A cabeçada [no Irureta] é nas vésperas de terminar a Liga. Logo antes da Copa. Eu já não estava sendo titular do La Coruña. Faltando quatro dias pro encerramento da janela, o meu representante me liga, e diz que apareceu uma proposta da Áustria. Financeiramente pra mim foi a melhor que eu tive na vida. O melhor contrato que eu fiz. Pensei: “vou lá ganhar um dinheiro. Já estou com 32 anos, vou peitar o presidente, porque aqui eu não estou jogando.” Se eu estivesse jogando, podia chegar a mesma proposta que eu não sairia. Mas como eu não ia jogar, eu fui no presidente e falei: “quero ir embora.”

Pra resumir, eu estava no show do Julio Iglesias com a minha ex-mulher e o meu representante me liga, fala da proposta, eu digo: “que Áustria!? Não!” Ele diz que o dinheiro era muito bom. Ele diz quanto era, e dava o dobro do que eu ganhava no La Coruña. Falei com a minha ex-mulher e ela disse “vamos!”. O Show do Julio Iglesias foi na quinta-feira. Na sexta, o cara da Áustria queria ouvir da minha voz que eu realmente queria. Meu representante em Luxemburgo colocou um telefone pra ouvir o outro. Ele queria ouvir a minha voz. No sábado encerrava as inscrições. O Marcelo, meu representante, me liga na sexta e diz que não tinha vôo de Luxemburgo pra Corunha, o cara da Áustria tinha o vôo dele, mas não ia adiantar nada, o meu presidente [Augusto Lendoiro] não falava alemão, nem inglês. Tinha que ter o Marcelo pra intermediar. Falei pra ele se virar, alugar um jato, ele alugou e chegou no sábado e falei queria ir na reunião. Se eu não estivesse presente, o presidente não ia me emprestar. A concentração do time era às 22h. Eu cheguei às 20h e à meia noite fechava a janela. Falei pro presidente que queria ir embora porque eu não ia jogar com aquele treinador, que se eu fosse jogar eu não ia querer sair. Expliquei que a proposta era boa papapá… Ele me perguntou: “mas como vou conseguir um jogador como você agora?”, eu respondi: “sou reserva, você consegue qualquer um, eu já dei uma cabeçada no técnico, está arriscado eu dar outra”, já ameaçando o presidente. Levantei e falei pra ele não prejudicar a minha família porque eu vou ganhar mais dinheiro [Djalma levanta gesticula como se estivesse apontando o dedo na cara do presidente Lendoiro]. Ele ficou louco, pediu pra eu ir pra concentração, tinha jogo domingo. Estava lá, querendo que saísse essa transação. Era um ano, eu tinha mais três de contrato com o La Coruña, a proposta era pra ficar um ano e se eu jogasse 75% dos jogos, eu ficaria mais dois anos lá, eles me comprariam. Eles pagaram 500 mil euros pelo meu empréstimo e eu com 31 anos, eles ainda quiseram dinheiro. Quando deu 23h30, me ligam e me perguntam qual número eu queria jogar. Eu falei: “Qualquer número, irmão!”, já peguei minha roupa, saí da concentração e parti pra Áustria.

E qual número você acabou jogando?

Com a 30.

Muito do estilo do futebol brasileiro tem a ver com o antigo futebol austríaco. Você vai jogar no berço do futebol estilístico, mas você acaba tendo um técnico que também reclama do seu individualismo.

Quem foi o técnico que reclamou?

Christoph Daum.

Quem mandou contratar ele? Ele reclamou do meu individualismo?

Reclamou, a imprensa portuguesa noticiou.

O que acontece, lá foi horrível. Você piora jogando com jogador ruim. Lá eu me sentia na obrigação de fazer mais. Por isso eu era mais individualista.

Tem aquela frase de que time ruim enterra craque e time bom consagra perna de pau. É isso?

É claro! Óbvio. Quando cheguei era outro treinador. Era maravilhoso, o Walter Schachner. Foi um grande jogador de lá. Ele era muito gente boa e um ótimo treinador. Só que o chefão lá quando me contratou, eu avisei pra ele, com esse time nós não vamos. Aqui na Áustria até dá, vamos ganhar tudo, mas pra jogar a fase de grupos da Champions, não vamos conseguir passar da fase prévia. Terminamos o campeonato com mais de 20 pontos na frente do segundo, ganhamos a copa de lá, ganhamos tudo. Mas eu sabia que não dava [pra disputar a Champions League]. Ainda demos o azar de cair pro Porto [na segunda fase da Copa da UEFA 2002/03, o Porto viria a ser campeão daquela edição com Mourinho como técnico]. Eles tinham um time 50 vezes melhor que o nosso. Primeiro jogo, o Porto ficou parado sem atacar a gente. Tentamos, tentamos e o Porto foi lá e fez 1 a 0 em Viena. Lá, em Portugal, perdemos de 2 a 0. Ou seja, eu avisei.

Mas voltando ao louco do Daum, que e um bom treinador mas e maluco, tem uma filosofia meio louca, uns treinamentos loucos e me encheu o saco. A gente estava 10 pontos a frente e ele chegava no domingo, marcava o treino às sete da manhã e ficava falando por duas horas, falava que o time jogou mal. Eu perdi a paciência. Quando veio o inverno eu desanimei geral. Quando eu cheguei e vi aquele clima maravilhoso, uma cidade maravilhosa, no verão…

Fala de Viena.

Cidade espetacular, as pessoas nem tanto, são distantes…

Mas isso é bom pra você como jogador, de poder andar na rua…

Sim, eu gostava disso, nunca me reconheciam em lugar nenhum.

Em Corunha, você tinha essa liberdade?

Como a gente ganhava, não nos incomodavam, lá era paixão e eu sou apaixonado por aquele lugar. Mas voltando ao Daum, ficava cheio de coisa e eu me sentia na obrigação de fazer mais pelo time. Eu não fui só pelo dinheiro. Tanto que um dia eu enchi o saco, porque eu fui à Espanha e perdi o vôo de volta, eles me chamaram pra conversar, pra me dar um puxão de orelha, nisso eu nem quis saber, falei pra rescindir meu contrato. “Mas falta um jogo pra acabar o campeonato e você vai perder os prêmios”, eu disse que não queria prêmio, não queria nada. Rescinde agora! E o treino era em outro lugar, tinha que ir no clube pra poder rescindir, o Marcelo, meu representante está puto comigo até hoje porque ele deixou pra ganhar as comissões dele só no final, quando eu fosse contratado em definitivo. Vai me chamar a atenção porque eu perdi um vôo? Deu uma merda lá no aeroporto, eu perdi o cartão de embarque, mas já estava na área de embarque, já estava na porta, e quiseram me chamar a atenção. Então rescinde! Assinei a rescisão, não recebi prêmio, dei tchau e peguei um vôo pra Espanha na mesma hora. Meus filhos precisavam terminar o colégio e eu voltei antes. Assim, não tinha mais tesão de ficar lá, num campeonato fraco, ruim, e pro objetivo deles, eu até abracei a idéia, mas teria que contratar mais jogadores.

Aí você volta pra Espanha, com o Irureta ainda, como foi isso?

Irureta nunca foi o problema pra mim. Foi o treinador com quem eu mais tempo trabalhei na vida.

“Irureta achava que eu e o Valerón não poderíamos jogar juntos.”

Teve uma notícia da Folha na época, dizendo que o Irureta tinha te perdoado.

Me perdoar de que? O que acontece, na Áustria eu joguei e ainda me sentia competitivo, por isso que abandonei e quis voltar pra Espanha. Não me arrependo de nada. Mas eu poderia ficar “roubando” lá mais dois aninhos, ia ser campeão. Eu sabia que a parada na Espanha ia ser difícil, não que o Irureta não gostasse de mim, mas ele achava que eu e o Valerón não poderíamos jogar juntos. Mas aí eu optei pela qualidade de vida. Não vou me acomodar também, vou lutar pela posição. Mas eu tinha um problema com a Receita Federal de lá. Embargaram tudo meu. E foi por culpa do clube, não minha. O clube não pagou meu imposto quando eu fui pra Áustria. O presidente do La Coruña até me ajudou, pois se ele me pagasse ia ficar retido. O presidente disse que ia resolver e como eu tinha muita moral lá, o Irureta teve que me engolir, digamos.

Então era um problema, apesar de você dizer que não era.

Sim, porque ele sabia que eu ia querer jogar, eu ia arrumar confusão pra jogar. Eu no treino não dava bola pra ninguém, treinava como um louco, queria jogar. Eu tinha muita moral, o time nunca tinha sido campeão e foi campeão comigo jogando. O Valerón nunca foi campeão. Os caras me amam. Eu tinha muito prestígio no clube. Como eles não resolveram a questão do meu imposto, eu esperei o time chegar nas quartas de final da Champions pra entrar na justiça contra o clube. Se eu entrasse na justiça só depois que eu saísse, nunca mais ia receber. Quando bateu na justiça a juíza já deu o parecer favorável pra mim. Eu terminei o campeonato e tinha mais um ano de contrato. Pedi pro presidente me deixar livre.

Você consegue imaginar como seria o Djalminha jogador no mundo com redes sociais?

Estava fodido! Seria complicado. Eu não sou dessa geração. É diferente. Mas eu ia conseguir me mover, mas aquele Djalminha teria muitos problemas. Mas isso aqui [aponta pra mesa com o copo de cerveja na mão], esses caras são meus amigos de longa data. Minha vida sempre foi essa. Chegava de férias e pro bar com eles, pra resenha, minha vida é essa. Tomar a minha cerveja sempre foi sagrada. Eu ia me dar mal, não ia ficar trancado em casa fazendo festinha, eu gosto da rua, de estar em contato com os outros.

Você tem idéia de quanto você corria em campo??

Eu sempre estive bem fisicamente. Mas jamais colocaria um negócio daquilo no peito. Ia me rebelar com isso.

Riquelme já disse algo semelhante. Ele questionou essa aferição. Pois aquilo não mede se o cara correu errado. Só mede a distância.

Ia me incomodar, qualquer coisa no meu corpo ia me incomodar. E segundo, que em vez de marcar o quanto eu corro, marca o que eu faço. Sendo bem sincero. Não vou dar nomes. Jogadores que ainda jogam me disseram que prejudica o rendimento, porque não deixa você pensar. Tem horas que você tem que ficar parado, que por intuição, você percebe que a bola vai chegar naquele lugar. Mas você não pode mais ficar parado, porque vão ver que você não correu. Quantas vezes eu nem precisei ir marcar o volante contrário, pois eu sabia que ele era ruim, que ele ia perder sozinho, hoje eu teria que ir lá, correr à toa, e isso prejudica o jogo. Mas pra peitar, tem que ser bom. Quem erra mais passe no Barcelona? Messi. Então tira ele, porque ele é quem erra mais passes. Eu não tenho a menor idéia do quanto eu corria, nem me preocupava com isso. Em todos os clubes que eu joguei, eu nunca estive abaixo dos oito melhores fisicamente em qualquer aspecto.

Então, você não usaria aquele medidor? Se você tivesse vinte anos a menos e ainda jogasse.

Obrigado, eu usaria, se estivessem me pagando dez milhões, jogaria até de óculos. Mas não concordaria. Quando você é bom, você faz o que você quer em campo. O Messi faz o que ele quer. Mas quando não, tem que seguir o baile. Quando você é acima da média você impõe as tuas “regras”.

Você falou da influência do seu pai na sua formação como indivíduo, mas fala da tua formação como jogador. Você jogou futsal até que idade?

Até os 14 anos.

Dali você vai pro Flamengo e faz o infantil, juvenil, júnior e profissional…

Nenhum treinador me cobrou mais do que meu pai. Eu fazia quatro gols no futsal e ele dizia que foi uma merda. Eu: “uma merda? O jogo foi 5 a 0 e eu fiz quatro!” O papo era reto, ele disse que eu tinha perdido três gols e poderia ter feito sete. Era assim. Minha mãe pedia pra ele não cobrar tanto. Eu ficava puto.

Teu pai te ajudou em como bater na bola, em como proteger a bola, onde você acha que se desenvolveu mais? No futsal? Teve algum técnico que te estimulou mais?

Meu pai me levava pra Quinta da Boa Vista e a gente ficava batendo bola. Passe longo, passe curto. Ele não errava, era muito bom tecnicamente e eu não podia errar. A gente ia só nós dois. Entrava no carro e ia pra lá. Foi o que me doutrinou.

E posicionamento, ele corrigia?

Não, nisso não, mais tecnicamente mesmo. Ele era zagueiro, nisso ele não interferiu.

No Flamengo, no campo, foi a melhor base que eu poderia ter tido. Graças a Deus peguei uma época ali que era um Flamengo de verdade.

Peladas, futsal, campo. Onde você aprendeu mais?

No Flamengo, no campo, foi a melhor base que eu poderia ter tido. Graças a Deus peguei uma época ali que era um Flamengo de verdade. Tinha o Projeto Soma, né? Que era pros moleques franzinos. Eu, Marquinhos, Marcelinho, Fabinho, Paulo Nunes. Tudo Projeto Soma. Tinha o Luis Antônio, mas ele já era forte, não precisava. Nem ele nem o Rogério [Lourenço], que aliás, a gente dizia: “não é possível, tu é gato”, e pode ver, hoje ele está muito mais acabado que a gente. Eu era o melhor, mas era franzino.

“O quão bem você vive que importa, não o quanto você vive”

Citação em latim de Séneca, escritor e advogado do Império Romano

No time campeão brasileiro de 1992, você joga muito pouco. Nélio e Paulo Nunes eram titulares. Marcelinho jogava bastante também e o Rogério era o substituto imediato na zaga.

Eu começo o campeonato de titular, na ponta esquerda, porque o Nélio estava na Seleção. Aí joga com aquele meio de campo: Uidemar, Júnior e Zinho; Paulo Nunes, Gaúcho e eu. Mas ali não dava pra mim. Não era a minha. E o Carlinhos honestamente me diz, que não ia dar pra eu jogar enquanto o Júnior estivesse jogando. Eu não conseguia correr igual ao Zinho. Não dava pra jogar Uidemar, Júnior e eu. Eu ia entrar um jogo ou outro, ele foi muito honesto, eu me revoltei com ele, mas depois fiquei apaixonado por ele.

Você se revoltou com o Carlinhos?

Sim, me revoltei porque ele me falou a verdade que eu não queria ouvir. Fiquei puto, eu queria jogar, eu sabia que eu tinha potencial. E quando eu fui mandado embora do Flamengo e vou pro Guarani, quem era o técnico do Guarani? Carlinhos! Eu estou subindo pra sala do presidente e ele fala com essas palavras: “Presidente, dá tudo pra esse aí que ele é o cara”. Não é que eu não gostava dele, mas a verdade dói. E o Maestro [Júnior] na época estava jogando pra caramba, não tinha jeito.

Ainda sobre essa geração, houve um 7 a 1, num Flamengo e Corinthians na Copinha de 1990. O que você errou nesse jogo? Sabe quantos gols você fez?

Fiz cinco.

E os outros dois gols?

Participei de ambos. Mas eu não me lembro desse jogo muito bem não. Mas aquele time era fantástico, nosso sonho era jogar pelo Flamengo, a gente cresceu vendo o Zico. Mas pra mim não deu certo. Fui o primeiro dessa geração a sair.

O Flamengo de 1981 e aquele de 1992, ou o time de 1999, campeão da Mercosul tinham sempre uma base formada no clube. Já o Fla de 2019 só tinha o Reinier na reserva. Pra você, os tempos mudaram? Como você vê isso? O que você sente pelo clube?

Eu não fiquei com nenhuma raiva do Flamengo, eu fiquei com raiva das pessoas. Eu falei que nunca mais jogaria no clube. Depois, até pensei, se me fizessem uma proposta, mas não aconteceu. Eu gosto do Flamengo e esse time [de 2019] joga pra caramba. Flamengo é Flamengo. Claro que tem aquela história, de que craque o Flamengo faz em casa, mas pô, esse time eu desfrutei muito, como torcedor pra mim é o máximo, não me importa que não tenha ninguém da base. Se tiver, lógico, melhor.

Você chega no Guarani e está o Carlinhos como técnico. Além disso, tinha Luizão e Amoroso. Como foi essa passagem pelo Bugre?

Mas jogamos pouco tempo juntos. Eu cheguei e o Amoroso tinha metido 40 gols no aspirante e o treinador era o Levir Culpi. Eu tive muita influência e pedi pro Levir subir o moleque. Antes de começar o Brasileiro, o Levir caiu e veio o Carlos Alberto Silva. Eu jogo o primeiro jogo contra o Cruzeiro, faço dois gols, Amoroso me dá o passe pra um. Joguei mais uns dois ou três jogos e fui pro Japão nesse brasileiro que ele foi destaque. Se eu não tivesse ido embora, ia ser difícil, jogar nós três, eles arrebentaram, fizeram aquela dupla maravilhosa. Fiquei seis meses no Japão e volto em 1995, quando fizeram aquela música “não é mole não, é Amoroso, Djalminha e Luizão”, só que ele jogou uns poucos jogos e sentiu o joelho e teve que operar. Com o Luizão eu joguei bastante, mas com o Amoroso joguei pouco.

Você vai pro Palmeiras e joga naquele time de 1996…

O melhor time que eu joguei na minha vida como profissional.

Luxemburgo, como foi ele como técnico? Fala-se que ele ficou ultrapassado?

Maior injustiça. Eu não tenho uma relação além de amizade com o Vanderlei. Mas é um cara que ganhou tudo, dos poucos que eu aprendi alguma coisa no futebol. Fiquei feliz por ele voltar pro Palmeiras em 2020. Ele sabe muito de futebol.

Ele não perdeu um pouco o foco?

Aí eu não sei. Não trabalhei com ele depois. Mas falar que ele não sabe de futebol, isso não existe. Foi o único treinador [que eu tive] que preparava uma jogada no treino e saía tudo exatamente como ele queria e fazíamos o gol. Ele dizia que um ia fazer isso o outro aquilo, vai acontecer isso e gol. E não foi uma vez. Foram várias. Os outros [técnicos] falavam que íamos jogar assim ou assado, mas só ele dava o caminho das pedras. Ele estava na vanguarda naquela época. Foi o primeiro a mostrar tudo no computador, qual tinha que ser a movimentação do lateral esquerdo quando o lateral direito estava com a bola. Perdeu a bola, o outro lateral tinha que fechar, tudo lá [na tela do computador], eu sempre tive uma boa leitura de jogo e acontecia tudo no campo! Pode perguntar pra todos que trabalharam com ele se é mentira.

Os jogadores da tua época se preocupavam com tática? Porque jogadores de sub 20 pra baixo estão falando termos de jogadores de educação física.

Estão falando. Mas se eles entendem eu não sei. Se você me ensinar a falar sobre um assunto, eu vou aprender, mas não vou entender necessariamente. Os jogadores de hoje sabem falar de tática, mas entender é outra coisa. Sabe o que eu fazia? Falava pros meus companheiros em campo, você vai pra lá, você vem pra cá. O que tem de tática nisso? Linguagem de campo. Eu mandava o cara tomar naquele lugar, falava pra ele não passar dali.

E como você fez isso na Áustria e no Japão?

Eu xingava de tudo quanto era nome o tempo inteiro. Mas no Japão, o Rivelino xingava mais do que eu, aí eu só ria. Eu entendia muito ele. Tentar explicar pra um cara que não tem qualidade e ele não entender é muito complicado. Por isso que eu nunca pensei em ser treinador, porque eu acho que não ia ter paciência. Eu vou chamar o cara de burro e não pode fazer isso.

Como isso te influenciou na tomada de decisão pra parar de jogar?

Influenciou porque eu senti que não tinha mais o mesmo rendimento. Eu me cobrava muito e não conseguia mais resolver sozinho as coisas que eu costumava resolver. A cabeça funciona, mas o corpo não é mais o mesmo. Eu tinha certeza que se eu voltasse pro Brasil, a cobrança ia ser pelo Djalminha que eles viram e isso ia me incomodar.

E o pior, pois você jogou num time que todo mundo via aqui no Brasil, primeiro foi o Bebeto, depois o Rivaldo, todos viam aquele La Coruña mas sem tanta exposição, só os principais jogos. Logo, iam querer aquele melhor Djalminha.

Exato. E o que me ajudou muito, foi o fato do meu pai ter sido jogador. Eu vi todo o processo. Ele parou, na época não se ganhava tanto, mas eu sempre tive uma vida boa. Ele parou em 1973, eu nasci em 1970. Mas eu percebi que as coisas iam caindo de padrão. Eu guardei isso na minha cabeça. Eu tinha que parar com uma cabeça boa. Porque muito jogador se fode por isso, por não saber fazer outra coisa e não aceita parar. Eu admiro quem joga até os quarenta. Nada contra. Opção de cada um.

O jogador não se prepara pra parar?

É igual a morte. A gente tem medo da morte, mas sabe que vai morrer.

Mas e a falta de assédio, imprensa atrás?

Esse é o bobo. O cara que precisa disso é bobão. Vocês me ligaram, falaram da capa, legal, mas se eu desse uma louca hoje, eu furava, não estou preocupado com isso.

E o Showbol? Tem a ver com isso?

Ali é prazer máximo. Você não faz idéia do que é o teu ídolo te agradecer por você ajudar a encher a geladeira dele. Você não tem noção do que é isso. Retribuir à minha classe, os ex-atletas. E era um prazer porque eu estava em alto nível ali. Eu tenho vontade de jogar, mas não volto. Não dá mais. Eu vou fazer 50 anos. Não posso fazer feio.

Maurinho, ex-lateral, o Mauro Fonseca, certa vez confessou que ele jogava o Showbol por conta da adrenalina da competição. Existe isso? É viciante?

Eu sou assim, mas a minha competição passou a ser no futevôlei. Quando eu comecei o Showbol, era só com jogadores da minha geração de 1970, só tomamos porrada. Eu comecei a pegar um aqui outro ali pra competir. Cheguei no posto de gasolina um dia e o frentista veio me cobrar que tinha perdido no Showbol. Não, cobrança de novo, não! Armei um time bom e ganhamos tudo. Ninguém gosta de perder.

”Eu morro se não tiver [adrenalina]. Consegui no futevôlei, já estou no surfe.”

Essa é a questão, da abstinência da adrenalina.

Eu morro se não tiver. Consegui no futevôlei, já estou no surfe, no pôquer, qualquer parada. Isso pra mim é vida. Ficar tenso é muito bom.

Tem um outro lado, você falou da ajuda financeira pros ex-jogadores mas…

Tem a qualidade de vida. Eu sempre falo com a galera. O cara pára de jogar, fica gordão, enfarta e morre. Aí o cara se cuida mais.

Tem um passo além, alcoolismo ou qualquer outro vício pra suprir a abstinência, o Showbol ajuda?

Olha, não tem tanto poder, pois o Showbol dura um mês, três vezes por ano, não dura um ano. Não dá pra mudar um ser humano. Se ele observar que ali ele consegue ganhar um trocado, ele vai se cuidar, mas ele não vai conseguir só por causa disso. Mas quando o cara deixa de ter a competição, pra ele se viciar em alguma coisa é mole. Álcool ou qualquer droga. A pessoa fica perdida, ela precisa encontrar outras coisas. Eu encontrei rapidinho no Showbol. Tive sorte. Parei de jogar e já comecei com o Showbol.

Antes da entrevista começar, você estava cantando um samba que exalta a negritude. Como era o preconceito na sua época como jogador. Você sofreu com isso na Europa?

Na Áustria, mas eu já era mais velho, eu pensava “você que é ruim, não sou eu”. Me coloquei numa posição superior. Eu sempre tive uma cabeça bem aberta em relação a isso. Mas nós [aponta pra André Ribeiro] somos privilegiados. Nunca passamos dificuldades, meu pai no futebol e o pai dele no samba deram essa vida pra gente, aí é mole. Mas aqueles que sofreram mesmo, o buraco é bem mais embaixo. A minha irmã quis denunciar um porteiro uma vez, eu falei pra ela deixar pra lá, que ela tinha que ser superior àquilo ali. Ela ia pra delegacia. A pessoa sente quando alguém olha torto. Eu disse que ele era pequeno, pra ela não denunciar. Mas essa música aí surgiu porque num dia que eu conheço o Seu Jorge, ele me deu uma idéia muito boa, porque eu me preocupo com isso, com nós que somos negros. Essas coisas de cota, legal, mas você vê, quem está preso é negro, quem está morrendo pela polícia é negro. Aí o Seu Jorge chega pra mim, e eu que queria conhecer o cara, e ele fica falando por dez minutos só disso, e isso entrou na minha cabeça. Não sou compositor. Só escrevi uma música. Aí fiz essa outra. Nós que temos uma posição, temos que fazer algo. Mas eu disse que não podia fazer sozinho. Na música diz, “tem um gaúcho que é bruxo”, tem o Ronaldinho, tem o Xande de Pilares, aí vira um movimento. Um sozinho, fica enfraquecido.

Seu jeito de jogar irritava o adversário.

Ali eu quero que ele tenha raiva de mim. Essa era a idéia. Se ele está com raiva eu estou fazendo o certo. É competição. Mas ali tem regra. Ele não pode me matar, naquela regra eu sou melhor que ele. Eu vou driblar, ele vai me bater? Cartão vermelho.

E pra ser técnico, você acha que o negro é encorajado pra estar nessa posição?

Encorajado? Irmão, qual treinador que é negão? Outro dia, um jornalista disse que pro Marcão ser técnico do Fluminense não servia, que pra ser interino estava bom. Ele não percebe que isso é preconceito. Com que base ele afirma isso? Onde ele conversou com o Marcão sobre futebol? O que ele conhece do Marcão como técnico? É porque é negro. Andrade foi campeão brasileiro e não arrumou mais emprego. Jayme de Almeida… Se eu sou campeão brasileiro como treinador, eu estou empregado pra vida inteira, porque eu vou falar isso todo dia, eu ia peitar. Júnior Baiano é meu brother, teve uma pequena chance e já desanimou porque tem preconceito sim.

Em cargos de gerência teve o Roque Júnior na Ferroviária e o Tinga no Cruzeiro.

Mas o Tinga é fenômeno. O que ele fez? “Não vou ficar mais”, ninguém mandou ele embora. Ele sentiu que não tinha ambiente e ele não precisa daquilo. Ele pode fazer isso. Ele é um negro que gosta de verdade, de personalidade, que não vai se sujeitar àquilo. Se um dia eu for treinador, vou impor condições, se não forem respeitadas, eu vou embora, porque eu tenho condição de peitar. Quando você precisa, você tem que fazer o que você não quer, pra ganhar o teu salário, aí é foda. Eu nem gosto muito de falar disso, eu gosto de fazer.

Por falar em técnico, você falou dos seus problemas com o Irureta no Deportivo, mas você chega bem antes, ainda no Super Depor. Esse “projeto” começou com Bebeto, Mauro Silva e Donato, depois chega o Rivaldo e você na seqüência. Teve outro jogo que você jogou com o Rivaldo.

Só na Teresa Herrera!

Nessa Teresa Herrera, vocês enfrentam o Vasco que foi campeão brasileiro naquele ano e ganham de 4 a 0 com todo mundo em campo, Edmundo, Evair, Felipe… Como era esse time que enfrentava de igual pra igual Barcelona ou Real Madrid?

Sim, eu tinha mais medo de jogar no San Mamés contra o Athletic do que contra o Real Madrid no Bernabéu ou o Barcelona no Camp Nou. Muitas vezes o campo estava ruim, era um jogo mais aguerrido. Era pior, faziam mais medo. Eu adorava jogar no Bernabéu porque eles atacavam e não se preocupavam tanto com a gente. Davam espaço e o nosso time era bom. Agora, jogar contra um time que vai marcar o tempo todo e te dar pancada é bem mais difícil.

“Era de igual pra igual. Podia vir quem viesse. Em seis anos que fiquei lá, eu nunca perdi pro Barcelona ou pro Real Madrid jogando em Corunha.”

Como era enfrentar os grandes? O time mudava sua formação quando ia enfrentar Barça ou Madrid?

No meu primeiro ano, a nossa equipe era inferior. Tínhamos que nos defender bem e buscar o resultado num contra-ataque. Em 1998, nossa equipe melhorou. Já tínhamos que nos preocupar menos com se defender. Mas em 1999, a gente estava muito mais forte. A gente dificilmente levava gol e tinha o Makaay que foi fundamental, ele era muito bom pra fazer gol. Tinha fama de preguiçoso, mas fazia gol, resolvia nossos problemas. Pessoal encrencava com ele no treino e eu falava pra deixar ele na dele porque quando eu enfiava a bola, ele guardava. Era eu e o Fran metendo bola pra ele e ele fazendo gol. E depois de ser campeão, contrataram mais gente, aí era de igual pra igual. Podia vir quem viesse. Em seis anos que fiquei lá, eu nunca perdi pro Barcelona ou pro Real Madrid jogando em Corunha. Perdemos uma vez, mas eu considero que não perdi porque eu estava no banco. Até entrei no jogo e o Ronaldinho acabou com o jogo. Foi 3 a 2, com três dele. Entrei só no segundo tempo, nem conto.

E a rivalidade com o Celta?

Cara, acho que joguei um jogo só lá, ou dois. Eu sempre estava suspenso. Eu sou o recordista de cartões vermelhos do Deportivo. Eu gosto de bater récordes.

A força desse Depor era impressionante. Na Champions de 2000/01, na fase de grupos, jogo de volta, contra o Milan no San Siro, o jogo estava zero a zero. Pênalti pro La Coruña. Você bate.

Quando o Capdevilla sofreu aquele pênalti, eu já peguei a bola e ele veio me dizer pra não dar a cavadinha. Que não o quê! Eu vi o goleiro, o Rossi, grandão, ele ia pular com certeza. Nem duvidei. Tchau. O treinador nunca falou nada comigo. Eu nunca perdi um pênalti, pô. Ele não gostava, mas nunca me pediu pra não bater daquele jeito. O Vanderlei já. Mas eu bati tranquilão, foi moleza, colocar a bolinha ali na marca…

Djalma, desculpe te interromper, mas era contra o Milan no San Siro pela Champions League, como assim moleza?

Difícil é fazer um gol de fora da área. Agora, eu coloco a bola na marca do pênalti, o gol está ali, eu olho e posso chutar em qualquer lugar sem ninguém do meu lado. Difícil é fazer um de cabeça naquela defesa com o Maldini… Agora, pênalti? Fácil, já era.

Quem você odiava quando te marcava?

Makélélé. E no Brasil, o Amaral. Eles não faziam falta, ficavam te mordendo, você driblava, eles vinham de novo. Quando o cara te dá uma porrada é mole, você dribla e é falta. Esses dois eram incansáveis. O Makélélé desde a época do Celta e o Amaral quando eu jogava contra ele no Brasil.

No Brasil te faziam muita marcação individual?

Foi um dos motivos que me fez querer ir embora. Aqui estava ficando difícil. Colocar um cara pra correr atrás de você o jogo inteiro é muito desgastante, tem que se movimentar pra receber uma bola. Cheguei na Espanha e lá eu não era ninguém no início. Deitava e rolava. Depois começaram a apertar mais.

Mas teve um cara que atrapalhou mais a tua carreira.

Quem?

Renato Gaúcho.

Não! Ele foi quem mais ajudou a minha carreira!

Pois é, conta aquele episódio e o peso do que aconteceu na tua saída do Flamengo.

O motivo foi exatamente esse. Fla-Flu no Caio Martins, fizemos 2 a 0, dois gols do Renato. Fluminense teve um jogador expulso. E eles começaram: 2 a 1, 2 a 2 e, faltando cinco minutos pra acabar, 3 a 2, viraram o jogo com um a menos. Todo mundo puto com aquela virada. Chutam uma bola lá pra frente, eu disputo com o Lira no alto, perdi, normal, perdia todas. Nunca ganhei uma bola de cabeça, ele nem tinha o direito de reclamar, só porque perdi aquela? Ele começou a gritar comigo, eu respondi, me chamou de moleque e eu fui pra cima. Brigamos. Entramos no vestiário e ele começa a falar que “essa molecada é muito abusada” e eu já estava no chuveiro, ouvi no banho, e respondi “foda é aturar esses velhos que não servem pra nada, esses velhos mortos, que a diretoria encobre”, enfim. Ficou nisso. No dia seguinte, cancelaram o treino, chamaram ele às 9h e eu às 10h. Não sei se ele teve influência nisso. Mas nem conversaram comigo, já chegaram falando que iam rescindir o meu contrato. Eu acho que eles esperavam outra reação minha. Mas eu falei “está bem”. Eu sozinho, sem empresário, nem tinha empresário. Eu tinha 22 anos. Aí eu perguntei se o passe era meu. Quando eu disse isso, mudaram o semblante, e disseram que eu tinha direito a falar. Falar o que? Não tinha nada pra falar. Perguntei de novo se o passe era meu, disseram que não era bem assim. Eu saí, peguei tudo meu, minhas chuteiras, tudo. Fui embora. Nunca mais voltei ao Flamengo. Aí, o Carlos Alberto Torres, que até passei grande parte da infância junto com eles, mas era uma pessoa mais distante, quando ele soube o que aconteceu, ele foi comigo lá no clube e todo mundo tremeu quando ele chegou. Ele disse que tinham que pagar tudo que me deviam e disseram pra marcar uma reunião. Marcamos. Isaías Tinoco, que foi quem me deu a notícia da rescisão do contrato, Edmundo Santos Silva, ele era do financeiro, eu e Carlos Alberto Torres na reunião. Eles vieram dizer que tinham mudado de idéia, que iam me aplicar uma suspensão. O Carlos Alberto já disse que estava tudo errado. Nisso me emprestaram, pagaram o que me deviam, fui embora e nunca mais voltei.

E isso foi bom pra sua carreira? Você sai da zona de conforto?

Foi a melhor coisa! Esse é o outro lado da moeda. Eu morava no Rio, meu pai já era falecido, mas eu morava com a minha mãe, no Leblon, tinha carro, moto, playboyzinho. Gostava de festa, não era tão profissional. No primeiro dia que eu cheguei em Campinas, chorei pra caralho, no hotel, pensei, “porra, vou morar aqui agora”, mas em compensação quando fui assinar meu contrato e vi o dinheiro que eu podia ganhar com futebol, eu fiquei sem sair nem uma vez. Fiquei seis meses focado. Explodi, ganhei bola de prata. No outro ano, quando termina o campeonato brasileiro, primeiro jogo do campeonato paulista contra o Santos na Vila Belmiro. O presidente me amava e eu voltava de carro com ele e não com o time de ônibus. Eu falei pra ele que queria que me comprassem. Seu Beto Zini. Ele não acreditou. No dia seguinte fomos pro Rio. Meu passe estava estipulado em 750 mil dólares, ele chegou e ofereceu 500 mil dólares. O Flamengo estava numa crise, aceitou. Mas não quiseram me pagar os 15% que eu tinha direito. O Zini disse que eu podia assinar, que ele ia pagar a minha parte. Eu, com raiva do Flamengo, disse “no senhor eu confio, neles não!”, na cara deles. Saímos da Gávea, ele falou pra eu ficar uns dias no Rio.

E com o Renato, você se resolveu com ele?

É meu cliente no futevôlei! Ele não tem culpa de nada. Quem manda no clube é o dirigente. Não foi o Renato. Normal, coisa de bola. Na época, no início ficou um clima ruim entre eu e ele. Mas no final daquele ano, teve uma pelada na praia, e ele já veio falar comigo. A gente se dava muito bem, foi uma coisa de campo. No futebol a gente briga muito. Já briguei com um monte de companheiros, isso é normal. Faz parte.

Você vê futebol?

No Brasil, vejo o Flamengo. Nem Barcelona me seduz, Manchester City, nada. Me amarro em ver o Liverpool, hoje, em 2020 é o time que eu mais gosto de ver jogar. Já gostei de ver o Barça, mas não mais.

A maioria dos campeonatos ficaram muito previsíveis. Itália, Alemanha, França e Espanha já tem claramente um ou dois favoritos.

Mas se ninguém quiser se superar também, se aposenta. Quando eu cheguei na Espanha, fizeram piada. Eu disse assim: “Cheguei aqui pra ser campeão.” A imprensa ridicularizou. O time tinha sido vice e contratou Luizão, Flavio Conceição e eu. Eu falei mesmo, “vim pra ser campeão”. Eu me lembro num jogo que eu foi o primeiro pênalti que eu perdi na vida, La Coruña e Mérida, com o Navarro Motoya no gol. Estava 0 a 0 e na seqüência eles fizeram o gol, no segundo tempo já. Eu comecei a querer resolver tudo sozinho, foi o pior jogo da minha vida, só fiz merda. Acabou o jogo, eu fui lá e falei: “hoje o La Corunã perdeu por minha culpa, mas eu tenho certeza que vai ganhar muitos jogos por minha causa também”.

Quando um jogador qualificado sente que não está num dia bom, ele resolve tocar pro lado ou quer arriscar mais?

Eu morro atirando. Não vou me acanhar, porque ali eu me garanto. Jogando eu vou até morrer porque eu sei que sou bom. Pra um jogador de futebol, e acho que na vida, é mais importante ele ter personalidade do que ele ser bom. Você tem que se impor. Você tem que peitar. Se você der mole, as oportunidades somem porque você foi devagar. Eu cheguei pro presidente e pedi que ele me comprasse. Eu era o melhor do time. De repente, se eu não tivesse pedido, ele não me compraria, porque ia passar mais seis meses, eu arrebentei de novo, e o Flamengo falar “não vendo mais”, entendeu? Meti 18 gols pelo Guarani, ganhei a Bola de Prata. Pedi quase assim: “por favor me compra”.

“No intervalo, o médico me perguntou se eu tinha sentido alguma coisa. Eu falei pra ele: ‘Doutor, parei de jogar futebol’, assim mesmo. Ele não acreditou”

E no final da sua carreira você vai parar no México.

Eu rescindi com o La Coruña, vim pro Brasil, com a intenção de parar até. Recebo a proposta, fui lá, gostei da estrutura do clube, da cidade. Era um pouco mais do que eu ganhava no La Coruña, mas nem era o dinheiro que pesava. E lá, eu ia competir, pois o futebol mexicano é competitivo. Jogar no Azteca, enfim, mas as coisas não aconteceram. Eu treinei dois meses e me machuco na semana que ia começar o campeonato. Lesão muscular, num treino ridículo desses preparadores físicos idiotas. Parei, voltei a jogar, senti de novo. Três vezes a mesma coxa. Nessa minha volta, eu fico no banco. O treinador me coloca no jogo e eu faço um gol.

Aí teve um jogo no Azteca, o Ruggeri era o técnico, me colocou faltando quinze minutos. Eu fiz umas graças, estávamos ganhando o jogo. Ele vai na coletiva e diz que o importante é ganhar e não jogar bonito. Na segunda-feira, o presidente mandou ele embora, “No América tem que ganhar e jogar bonito”, ele disse. Eu tinha contrato de um ano, tinha um jogo contra o PUMAS e o Piojo López tinha sido contratado nessa semana. Estréia dele, primeiro tempo, 3 a 0 pros caras no Azteca. Vinte e poucos minutos já estava 3 a 0, e o treinador colocou dois jogadores pra aquecer. Eu dentro de mim pensei: “vai ser a primeira vez que vou ser substituído no primeiro tempo”. Eu estava uma merda, o time todo mal, eu tava no bolo. Ele tirou o Piojo López e o lateral esquerdo. Me livrei, mas com uns 40 minutos eu senti a coxa no mesmo lugar. Fiquei aqueles cinco minutos disfarçando, eu não podia pedir pra sair, fiquei fingindo. Mas no vestiário, o médico me perguntou se eu tinha sentido alguma coisa. Eu falei pra ele: “Doutor, parei de jogar futebol”, assim mesmo. Ele não acreditou, disse que eu voltaria a jogar em quinze dias, eu repeti: “você não está entendendo, eu parei de jogar futebol”. Tirei a minha camisa, meu short, fui pro chuveiro, saí, minha família estava no estádio. Fomos almoçar, o jogo era meio-dia, aí falei pra minha ex-mulher “parei de jogar”, ela me chamou de louco, eu falei que tinha acabado. À noite tinha um churrasco na casa do lateral-esquerdo que tinha sido substituído, e os gols foram todos nas costas dele, eu fui lá, falei com a rapaziada e fiz o anúncio pra eles, mas deixei claro que ia parar mesmo, que não estava saindo porque o time estava mal, que todo mundo tinha a carreira pela frente. O presidente não queria me dar a liberação, com medo de eu ir jogar em outro clube. Mas ele me pediu a indicação de um jogador como eu. Eu indiquei o Felipe, ele estava voando no Flamengo, eles conversaram mas não teve acerto.

Após a entrevista, o samba comeu solto com Djalma e seu amigo, Alex Ribeiro.

Deixe seu comentário