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Juan Pablo Sorin

Como jogava bola. Todo mundo queria tê-lo no time. Vinha de trás, corria e atacava. A cabeleira, que remonta a seu gosto pelo rock’n’roll clássico, se destacava tanto quanto seu futebol. Desde que o treinador José Pekerman deu-lhe a braçadeira de capitão da Argentina sub-20 em 1995, ele já era visto como um jogador capaz de desempenhar diferentes funções, além exercer uma liderança natural em campo. Onze anos após o título mundial sub-20, Pekerman voltou a escolher Juan Pablo Sorin como seu capitão — dessa vez, para o time principal que disputaria a Copa de 2006, na Alemanha. Mas o ex-jogador se distingue também pela forma de falar — não pelo sotaque, mas por se expressar tão claramente numa língua diferente da sua nativa.

Na rua Gavilán n° 2.151, ele estaciona o carro e desce com um cabide que sustenta um paletó e uma camisa. O estádio do clube onde tudo começou para aquele Juampi dos anos 90 foi o cenário do encontro que rendeu esta entrevista regada a muito mate — bem amargo, sem açúcar — num brando inverno portenho.

Conhecido como La Paternal, o estádio do Argentinos Juniors leva o nome oficial de Diego Armando Maradona. Foi no Bicho — simpático apelido dado ao clube —, em 1994, que Sorin deu os primeiros passos de sua trajetória profissional, que seguiu dos campos para o jornalismo.

Já fazia um tempo que Sorin não passava por lá. Logo na entrada, enquanto atravessava uma espécie de memorial do Semillero Del Mundo [em tradução livre, “Sementeiros do Mundo”], olhava e comentava com entusiasmo cada uma das imagens dos jogadores revelados ali, naquele mesmo clube.

Já com a água quente e a erva no mate, era hora de subir para o campo. O prognóstico de chuva se desfez com a chegada do sol naquela tarde. Enquanto se vestia ali mesmo no banco de reservas, Sorin olha para a câmera e pergunta: “Que lente é essa?”, dando início a uma breve conversa sobre as possibilidades do equipamento.

Depois de passar pelo recém-reformado vestiário do time da casa, ele sobe até a arquibancada e serve um pouco mais de água quente em seu mate, relembrando alguns shows de rock a que costumava assistir quando ainda vivia na Argentina.

Você já se imaginou lotando um estádio de futebol como músico em vez de jogador de futebol?

Não. Eu sempre curti muito jogar em estádios lotados e já pude fazê-lo em estádios maravilhosos. Mas também já fui ver shows em vários deles. O que mais mexeu comigo foi, talvez, o do Los Redonditos de Ricota, no Parque Patrícios, estádio do Huracán, em 1994. Também fui vê-los no Cilindro de Avellaneda — casa do Racing — e em outros locais em Córdoba e Tandil. Mas, logo quando eles tocaram no Monumental de Nuñez, eu já não estava mais no River. Jogava pelo Cruzeiro, estava concentrado e escutei o show inteiro pelo telefone. Sempre curti muito a música, mas nunca me imaginei tocando e jamais quis ser uma estrela do rock. Ainda mais com uma esposa que canta [Sol Alac]. Graças à carreira dela, aproveito para curtir um pouco o clima do backstage.

Costuma freqüentar shows no meio da galera atualmente?

Eu nunca deixei de ir. O mais bacana é ter realizado um sonho, que era ser jogador de futebol. Ser profissional, viver num monte de países, vestir a camisa da minha seleção, que é um orgulho enorme. Mas nunca deixei de fazer as coisas que sempre gostei de fazer. Não é por ser uma pessoa pública que eu deixarei de ir a um show de rock — isso, não! Eu curto a sensação de ir no meio da galera, mas às vezes acontece de ganhar um ingresso VIP ou camarote e eu curto do mesmo jeito. A vida tem muitas fases, mas nunca devemos nos afastar de nós mesmos.

Você jogou com Germán Burgos [ex-goleiro do River], que chegou a conciliar a carreira de jogador com a de músico. Apesar da companhia dele, você sentia algum estranhamento por ter um gosto musical tão distinto da maioria dos seus companheiros?

Cada pessoa tem seus gostos e prazeres e eu nunca me incomodei com isso. Tive a sorte de ter uma família que me apoiou e me proporcionou educação. Quando você entra num vestiário, começa a compartilhar mundos e universos diferentes. Acho que, tão interessante quanto a vida daquele que leu muito, é a vida daquele que viveu muitas coisas. Eu sempre gostei muito do ambiente de vestiário por poder interagir com meus amigos e companheiros que são diferentes uns dos outros, mas também nunca escondi meu jeito de ser. Quando eu queria ler, eu lia e compartilhava esse hábito com muitos jogadores que também gostavam de ler. Eu ouvia rock, mas também ouvia tango. Na seleção argentina sub-20, eu escutava com o Gustavo Lombardi — que foi meu parceiro no River também — os grandes sucessos do Polaco Goyeneche, um grande tangueiro argentino. E, com o Mono Burgos, eu não tinha carro e ele se oferecia para me levar pra Ezeiza [CT da seleção]. Sempre ouvíamos coisas diferentes. Eu até escolhia o som algumas vezes, mas ele não deixava muito [risos]. Depois a vida nos reuniu novamente no River e comecei a apresentar para ele alguns escritores meio malucos — tipo Bukowski — e ele ficou louco. Ele também me apresentou algumas bandas muito legais. Sobre a banda dele, eu gostava do som, mas implicava com as letras, de brincadeira. E, claro, é uma felicidade ter um amigo que conseguiu conciliar as duas coisas: ser jogador profissional e roqueiro. A história dele é muito bacana porque ele é uma pessoa fofa, né? O Mono é muito foda. É um cara que colocava pra cima qualquer vestiário ou concentração. E como auxiliar do Cholo [Simeone] está fazendo um trabalho muito bom no Atlético de Madrid.

Juan Pablo Sorin (Fernando Martinho/Corner)

Você esteve na TV Alterosa, de Minas Gerais, antes da ESPN. Mas o que aconteceu antes disso?

Sim, estive na TV Alterosa, mas sempre me mantive escrevendo, em contato com a comunicação. Mesmo antes de ir para o Brasil, eu fazia o Tubo de Ensayo, escrevia para o Página 12 e para um caderno jovem chamado No! — era uma brincadeira com um caderno do Clarín que se chamava Sí!. Eu escrevia uma vez por mês e o tema era livre. Minha participação no jornal durou cerca de um ano e, no programa de rádio, foram quatro. Foi então que eu fui para o Brasil. Depois voltei a ter relações com outro meio de comunicação na época da Media Punta**. A história da Media Punta é bem interessante, pois tentavam fazer coisas diferentes. Eu escrevia porque eles queriam um jogador que estivesse em atividade e foi justamente na época em que eu jogava no Villarreal.

** Revista independente espanhola que era distribuída gratuitamente nos estádios.

Você se aposenta no Cruzeiro e, pouco tempo depois, começa na TV Alterosa…

Sim, mas antes eu vim para a Argentina. Passei o ano de 2010 aqui. Minha filha tinha apenas um ano e tirei o tempo para ficar com a família. Mas sempre mantive a residência no Brasil e voltamos para lá depois. Foi então que surgiu a possibilidade de fazer um programa diário comigo, como ídolo do Cruzeiro, o Marques, ídolo do Atlético-MG, e o Jaeci Carvalho, que faz um estilo mais polêmico — uma figura. Começamos a fazer e foi, como eu sempre brinco, um “mestrado” em televisão. Eu já tinha feito algumas coisas, mas nunca um programa. E como não detínhamos direitos de transmissão, tínhamos que inventar um monte de coisas: num dia, um quiz e, no outro, um painel tático, por exemplo.

Juan Pablo Sorin (Fernando Martinho/Corner)

Foi aí que você pegou gosto pela TV?

Peguei o gosto. Fiz seis meses direto. Em 2011, a ESPN me convidou para comentar a participação do River Plate na segunda divisão argentina. Comecei a escrever para o Hoje em Dia, mas já tinha escrito para o Estado de Minas. Também comecei a escrever um blog para a So Foot, uma revista francesa que é muito legal — assim como a Media Punta, tem outro visual. São bem alternativos e profundos. Têm muito a ver com o que a Corner faz. Na ESPN, eu comentava os jogos do River, mas sempre produzia alguma coisa para o intervalo. Minha intenção era passar para o espectador do Brasil a história do River, os ídolos e alguns acontecimentos históricos. Eu mandava as histórias para os produtores e eles gostavam. Comecei a ter um relacionamento maior e passei a participar de algumas edições do Bate Bola. Acho que estavam me testando, né? [risos] Depois comecei a fazer jogos da Champions. É uma construção de carreira como comunicador, comentarista, entrevistador, bem parecido com meu jeito de jogar: era lateral, mas chegava como centroavante, sempre me preparando muito. Acho que esse é o segredo.

E como foi a experiência de comentar os jogos do River na segunda divisão, com a participação de jogadores menos conhecidos?

Eu sempre conheci bastante o Ascenso***. Futebol não é só a primeira divisão. Quando era mais novo, gostava de ir a jogos do Ascenso. Até porque tinha amigos que jogavam no Almagro e no Los Andes. Sempre que eu podia, dava uma escapadinha e prestigiava as partidas. Ainda mais quando você já está num certo patamar e sabe que a vida é muito mais dura nessa categoria. E a relação do torcedor com esses times é de uma fidelidade muito legal. Com o Argentinos Juniors, treinávamos num estádio que pertencia ao Lamadrid, que é da última divisão — naquela época, uma espécie de Série D argentina. Logo ao lado fica o presídio de Villa Devoto. Convivíamos com um gramado muito ruim ao lado de uma penitenciária.

***Termo que alude às divisões menores do futebol argentino

Sua forma de comunicar é baseada em alguma referência ou você tenta imprimir um estilo próprio?

Meu estilo é bem próprio e tem muito a ver com disciplina. Eu me preparo muito para cada jogo, entrevista ou programa. Procuro tentar passar algo diferente do habitual. Não é só sentar e falar o que vem na cabeça — o que também é legal —, mas tento agregar valor. Meu estilo traz visão e, fundamentalmente, muita emoção. Posso, às vezes, não dizer a palavra certa no lugar perfeito, mas acho muito legal poder transmitir a emoção que eu sinto quando vejo uma partida de futebol, como acontece desde que sou criança. É natural! Ainda mais depois de ter passado por tantas experiências como jogador de futebol: Copa do Mundo, capitão da seleção argentina e jogar em vários países.

Tenho vivido o reconhecimento de pessoas que são referência tanto da crônica esportiva como do mundo do entretenimento, coisa que me surpreende e agrada profundamente. Como quando o Faustão me disse: “É incrível, cara! Em apenas dois anos você conseguiu 80% do reconhecimento que a maioria busca conseguir ao longo de uma carreira inteira.” Faço público meu agradecimento a ele por esse comentário. Assim como o Serginho Groisman— que eu amo, como já falei — e tem mais de 15 anos de sucesso na Globo. As palavras dele são sempre estimulantes e de reconhecimento total. Ele brinca e me chama de “o poeta do futebol”. Também agradeço a ele e a todos que me dão o carinho para me superar dia a dia.

Mas é claro que influências existem. Assisto futebol desde sempre. Um dos dias mais felizes da minha vida foi um sábado em que passaram quatro jogos consecutivos e eu consegui assistir a todos eles. Primeiro foi um jogo da Bundesliga, aí fui jogar, voltei e tinha partida pelo Mundial de Clubes, acho. À noite, tinha um jogo da Argentina e outro de que não me lembro agora. Eu estava em casa e me perguntaram se eu não ia sair. Eu disse: “Vou sair depois!” Mas tenho como referência o Quique Wolf, que começou a fazer algo diferente na TV aberta e acabou indo para a ESPN argentina. Na Espanha, o Michael Robinson [ex-jogador inglês que defendeu a seleção irlandesa e se estabeleceu na Espanha depois de se aposentar no Osasuna], que produz o Informe Robinson e também comenta jogos. Outro cara que me marcou foi o Victor Hugo Morales [narrador uruguaio estabelecido na Argentina]. Também há repórteres e produções que me marcaram, como o Fútbol de Primera, aqui da Argentina, na época do “monopólio” [risos], mas as produções eram incríveis.

Fazia tempo que a ESPN não contava com ex-jogadores, mas você parece ter quebrado esse tabu. Como aconteceu?

Foi um processo que ninguém sabia ao certo como ia funcionar. Mas eu sou uma pessoa muito determinada, e trabalhar como comunicador sempre foi um objetivo. Mas nada é de graça, muito menos sendo argentino nesta terra querida. A rivalidade existe, assim como a admiração mútua. E eu me dediquei a fundo. A ESPN já havia tentado com ex-jogadores e, salvo algumas exceções, não tinha dado muito certo. Quando me abriram o espaço, me restou somente demonstrar o porquê de eu estar ali. Eu me senti numa posição de suma responsabilidade. Como me foi dito pela diretoria da ESPN: “Você é a causa da reabertura de espaço para ex-jogadores neste canal.” Isso aconteceu a partir da minha dedicação, da noção do Ibope, do jeito como tratei os conteúdos, minhas criações, as portas abertas pelo meu nome e minha trajetória na Europa, com figuras do futebol internacional. O espaço agora estava aberto a novos nomes: Zé Elías, Alex, Raí, Rincón e tantos outros companheiros. Fico muito feliz em poder compartilhar isso com eles.

Para mim, o futebol é uma fonte inesgotável de conhecimento. Falamos das séries B, C, D (o Ascenso, na Argentina), do futebol latino, das ligas européias, das torcidas… Há tanto, mas tanto para entender e desfrutar. Lugares e emoções que conheço, vivo e curto profundamente. O futebol me inspira e eu sempre quero me superar. Antes como jogador, hoje como comunicador.

Nesse processo, o canal me permitiu crescer, desenvolver, provar. Acreditaram em mim e sou muito grato. Sempre serei. Como com todos aqueles que confiaram ao longo da minha carreira. Hoje eu faço o Resenha, numa parceria entre a ESPN e minha produtora, a Elis Ltda.

Como você reage ao surgimento de fan pages no facebook como a “Pitacos Epetaculares de Sorin”?

Encaro com muito bom humor e até agradeço, afinal, acho que marco uma tendência, de alguma forma. Quando posto alguma coisa no Twitter ou Instagram, eu mesmo brinco e escrevo #epetacular ou #fantático. Eu tento alimentar meu vocabulário diariamente, mas meu sotaque é assim e cria algo distinto com o espectador, com o cara que gosta de ouvir alguma coisa diferente de alguém que jogou, enfim, vejo como algo natural. Não se pode comprar uma sintonia com o público que está do outro lado. Ou funciona ou não. No meu caso está funcionando de um jeito tão bacana que me faz ser muito agradecido. Acho que sou o único ex-jogador estrangeiro comentando futebol no Brasil. Por isso agradeço muito a quem está do outro lado, mandando um comentário, uma crítica ou criando uma página [risos].

Quais treinadores lhe ensinaram mais durante sua carreira de jogador?

Foram vários. Dos melhores que eu tive, sem dúvida o Marcelo Bielsa. Ele me mostrou meus erros e virtudes e melhorou muito meu futebol. Aprendi muito.

Ele era muito detalhista?

Muitíssimo detalhista. Planejava muito cada treinamento. Dava a eles muita intensidade e sempre com uma filosofia de querer revolucionar o futebol. E acho que ele conseguiu, de fato. Uma revolução não se faz somente com títulos. Se faz deixando um legado. Que o treinador campeão da Copa América [Jorge Sampaoli] e o próprio Guardiola tenham aprendido tanto com ele, mostra que ele foi um revolucionário.

Depois vieram outros casos, mas foram diferentes, como o José Pekerman, que foi meu treinador na época das seleções juvenis. Ele me colocou para jogar numa posição em que eu nunca tinha jogado, nem aqui no Argentinos Juniors. Joguei de zagueiro e fui campeão do mundo da Sub-20 naquela posição. Jogávamos com uma linha de quatro. Éramos: Lombardi, Pena, eu e Domínguez. Ele queria que eu jogasse na zaga porque precisava que alguém que organizasse a defesa. Ele me perguntou se eu achava que eu conseguiria e eu respondi que sim, mesmo sem jamais ter atuado no setor antes. Treinamos e as coisas foram acontecendo. Foi com a camisa 6, que acabei voltando a usar como lateral no Brasil. Na vida, é preciso ser valente. Tem que arriscar. Eu poderia ter perdido minha posição de lateral. Mas além de zagueiro eu também era capitão, tinha esse plus.

E, por último, quem me marcou foi o próprio Felipão. Até porque começamos batendo de frente antes de ele assumir a Seleção e ser campeão da Copa do Mundo. Ele queria um lateral típico brasileiro, que saísse driblando. E eu disse para ele que não driblava, que era de chegar sem a bola, como elemento-surpresa, que chega quando ninguém espera. Mas ele queria que eu fizesse o mano a mano e fosse pra cima com a bola. A gente ganhou a Copa do Brasil com o Marco Aurélio como treinador e eu não fiz nenhum gol. Foi com o Felipão que eu marquei meu primeiro gol [o da vitória] contra o Guarani, driblando dois e chutando cruzado lá no Brinco de Ouro. E olha como são as coisas: ele me falando pra driblar e eu falando que talvez não fosse meu estilo, mas eu confiei nele e ele confiou em mim, que eu poderia ser um lateral moderno, pois eu fechava muito bem, e os outros laterais não fechavam. Ele começa a me colocar como exemplo de como um lateral devia fechar. E termino sendo capitão do time dele — um capitão estrangeiro de um treinador que veio a ser o técnico da Seleção Brasileira. Depois disso, passamos a ter um relacionamento muito bacana no vestiário.

Você acha que ele resgatou aquele Juampi que queria jogar na frente e fazer gols quando começava a carreira no Parque?

Sim, dois outros treinadores do Club Parque: o Ramón e o Yiyo. Tinha um atacante que era muito bom. Ele se chamava Martin Tortoriello e, lamentavelmente, não chegou a ser profissional. Mas ele driblava com as duas pernas, chutava de letra, era impressionante. Eu jogava num time bem pequeno — El Alba — e era atacante pela esquerda. Eram cinco na linha: dois zagueiros, um no meio e dois na frente. Depois disso, fui jogar no [Club] Parque. Comecei como reserva do atacante pela esquerda. Um dia, o Ramón veio falar comigo que eu teria mais chances jogando atrás. Eu meio que chorei, não queria jogar na zaga, queria fazer gols. Entrei num jogo, ainda como reserva, fiz um gol, depois fiz outro, mas, no segundo gol, levei um tostão do goleiro adversário. A regra permitia sair e voltar. Eu saí e, quando voltei, voltei como defensor pela esquerda. A partir daí nunca mais saí daquela posição. Ganhei a vaga. Quando passamos do mirim pra jogar no infantil com 11 na linha, eu já subi como lateral esquerdo. Mas eu nunca perdi a essência de atacar e de fazer gols. Fiz minha carreira como lateral esquerdo, mas sempre jogando na área do rival.

E o Felipão incentivou isso?

Ele incentivou, mas me pegou justo em minha época com o Bielsa na seleção Argentina. Lá, nós jogávamos no 3-4-3, comigo no meio pela esquerda. Eu fazia uma posição que me permitia ser — como o Bielsa chamava — o 9-bis, ou seja, um segundo centroavante, pois eu chegava na área pra definir quando ninguém esperava. Foi um momento genial, pois aprendi muito com os dois, tanto tática quanto tecnicamente.

Qual é a sensação de ver o River voltar a um Mundial de Clubes poucos anos depois do pior momento do clube?

Fiquei muito feliz em ver o River jogar como River. Isso se deve a uma coerência de gestão, e quem devolveu ao clube a identidade perdida de um time ofensivo foram o Enzo Francescoli — que entende de futebol e conhece a história do clube — e o treinador Marcelo Gallardo. O River voltou a ser um time faminto, que pressiona o rival, que precisa ser protagonista, que ataca com os laterais, que não tem medo, que ousa, que arrisca. E isso tem muito a ver com a mentalidade e a preparação que o próprio Gallardo teve. Ele jogou na França, teve uma experiência nos EUA, foi para o Uruguai. Ele resgatou jogadores que estavam descartados pelo clube, caso do Sánchez e do Rojas. Ele e sua comissão foram muito detalhistas na preparação. Mais que um time, hoje eles têm um elenco que aposta num futebol bonito e ofensivo e isso tem que ser aplaudido. Por isso voltou a ser o melhor das Américas!

Apesar da sua forte relação com o River, você se diz torcedor do Argentinos. Mas, numa carta aberta, você se pergunta se voltaria a ser tão feliz como foi após a conquista da Sul-Minas (2002), quando você marcou de trivela o gol do título do Cruzeiro. Se você montasse uma lista com os clubes onde você jogou, em que lugar você colocaria o clube mineiro?

É difícil. Quando se fala em felicidade, começa aqui no Argentinos, jogando num campo de terra e me sentindo muito feliz, como quando estreei contra o San Lorenzo, em 1994. Eu não joguei tanto no Argentinos, mas eu devo minha carreira a esse clube. Fiz todas as categorias de base aqui. Eu era jogador do Argentinos quando fui campeão mundial, como capitão, com a Sub-20. Fui muito feliz no River, porque era um time fantástico, onde eu me divertia muito jogando e ganhamos praticamente tudo. De outra maneira, também fui muito feliz no Cruzeiro. Mas aí já tem a ver com o fato de ser estrangeiro, de ter que conquistar uma torcida, ainda mais com toda a rivalidade entre Brasil e Argentina. Então é difícil fazer uma lista. Até por me lembrar de outros clubes onde eu fui muito feliz também, como é o caso do Paris Saint-Germain e do Villarreal. Aliás, foi o único time pequeno que eu escolhi jogar — tirando o Argentinos Juniors, que, embora seja considerado pequeno, já ganhou a Libertadores. Apostei alto. Fui para o Villarreal arriscando.

Eu colocaria como felicidades diferentes. Não dá pra fazer um ranking. Mas basicamente, seria Argentinos Juniors, pelo começo; o River, pela explosão e por ter jogado nesse time que era quase total; o Cruzeiro, pela questão da idolatria. É incrível ser considerado o melhor lateral da história do River e do Cruzeiro. No River estavam Francescoli e Ortega. Ou seja, os ídolos eram os que jogavam na frente, como é o normal. É muito especial ser lateral e ídolo como fui no Cruzeiro, ainda mais sendo argentino. Claro que tem a ver com a entrega, com a raça, e também por jogar de um jeito diferente. Enfim, são felicidades diferentes. E teve também a minha passagem pelo PSG, pelo fato de eu não ter perdido nenhuma partida. Ou seja, como um cara joga uma temporada inteira e nunca perde? Além de ter feito um gol no clássico contra o Olympique Marseille — e tem isso, eu fiz um gol no Boca quando jogava no River também; fiz pelo Cruzeiro no Atlético-MG; não fiz pela Lazio porque lá eu não joguei; quase fiz pelo Barça contra o Real Madrid, mas o Hierro tirou e o Luis Enrique fez o gol —, sei que acrescentei coisas além do meu futebol ou de um gol importante. Eu ajudei a unir um grupo que estava dividido e conseguimos ser campeões da Copa da França e vice-campeões do campeonato francês, porque o técnico bósnio, Halilhodžić, foi muito burro [gargalhadas]. No Villarreal, quase chegamos numa final de Champions, e é uma loucura quando você pensa: “Villarreal numa final de Champions League?” Nossa eliminação não foi pelo pênalti que o Riquelme perdeu, mas sim pelas oportunidades que não aproveitamos naquele jogo contra o Arsenal.

Se o jogo fosse num estádio com um campo maior vocês teriam vencido…

Ah, não sei. Era muito gostoso jogar no Madrigal. A gente fazia uma pressão.

Embora fosse um clube de menor expressão, aquele era um time que contava com jogadores talentosos…

É, foi um time que marcou uma geração. Todo mundo fala desse time. Foi como o Deportivo La Coruña dos anos 90. E aquele Villareal ficou marcado porque jogava bonito. Ninguém apostava nele e começamos a crescer de repente. Eliminamos o Manchester United na fase de grupos, depois o Rangers, a Internazionale e, quando estávamos quase chegando na final, caímos — mas com a cabeça muito erguida.

Você fala de Paris com um carinho especial para quem ficou apenas por uma temporada. De onde vem tamanha afinidade com a cidade, considerando que você passou mais tempo em outros clubes?

Ainda como jogador do Cruzeiro, fui jogar pela Argentina um amistoso contra a Itália, em Roma. Saí de Divinópolis num jatinho até o Rio de Janeiro e, de lá, fui para a Itália. Essas coisas do futebol… Saí de Divinópolis para jogar contra a Itália no Estádio Olímpico de Roma. Jogamos bem e ganhamos por 2 a 1. Minha volta era via Paris. Saio de Roma para o aeroporto Charles de Gaulle e chego correndo e suado para fazer o check-in, quando fui informado de que o embarque já estava fechado. Sem conhecer nada da cidade nem falar nada de francês, pensei: “E agora?” Daí liguei para o Pocchettino [Mauricio Pochettino, atual treinador do Tottenham], que voltava do jogo em outro vôo, estava por perto e pediu que eu o esperasse. Consegui trocar a passagem, mas o embarque seria só à noite. Ele veio me buscar e me levou para dar uma volta. No caminho, já na cidade de Paris — minha primeira vez lá —, no final de uma tarde de inverno, as luzes começavam a ser acesas e nevava um pouco. Parecia um filme. Depois de alguns mates, voltei para o aeroporto e quase perdi o vôo outra vez. Em meu primeiro contato com a cidade, fiquei deslumbrado.

Quando saí do Barcelona, quase fechei com o Portsmouth. Mas, na verdade, era uma ponte para ir para o Chelsea. Fiquei interessado, pois havia um time grande por trás — eu ficaria uma temporada lá e depois iria para o Chelsea. Mas, durante a negociação, houve uma alteração do contrato e isso gerou problemas com meu representante — foi a última vez que eu tive alguém com uma procuração. Eu estava em Londres, ainda no aeroporto de Heathrow, e me liga um cara do PSG dizendo que o clube estava interessado, justamente quando a questão do Portsmouth estava caindo. A única dúvida dele era sobre um boato de que eu tinha um problema no joelho. Eu me assustei porque, até então, jamais havia tido nenhum problema no joelho. Mas ele veio falar da proposta. Eu segurei e disse: “Peraí, não vamos falar de negociação agora. Deixa eu terminar um assunto que tenho aqui. Nunca fiz isso, mas, como você está colocando em dúvida a minha condição física, eu vou e faço todos os exames médicos, depois a gente conversa.” A negociação com o Portsmouth caiu, viajei de Londres para Paris e fiz todos os exames. Era um mistério, ninguém sabia de nada e, ainda por cima, era o último dia da janela de transferências. Eu ainda pertencia ao Cruzeiro, pois houve aquele problema com a quebra da Lazio. Conseguimos fechar a negociação e, às 23h30, chegou o fax do Cruzeiro — naquele tempo era via fax ainda — e pronto: virei jogador do PSG.

Então aquela tarde em Paris acabou influenciando nessa decisão…

Sim, claro. A liga inglesa era mais atraente, mas eu sempre quis jogar na França, desde pequeno. Até porque um dos meus grandes ídolos como jogador sempre foi o Platini, mesmo que ele tenha destruído o meu Argentinos em 1985, na final da Intercontinental. Eu o achava um craque. Chegando lá, começou uma história de amor. Até hoje os torcedores se lembram daquele maluco de cabelo comprido que só ficou uma temporada e nunca perdeu. Por isso me chamam de bonheur [felicidade]. Eles sabem que eu queria ficar e eles também queriam que eu ficasse, mas o treinador Vahid Halilhodžić não quis.

E agora São Paulo. Outra metrópole.

Sou novato lá. Adoro capitais do mundo, cidades cosmopolitas. Tenho saudades de Minas porque foram anos muitos legais. Mas em São Paulo acontecem muitas coisas. Até pela questão dos meios de comunicação. Em Minas, a TV era regional e em São Paulo é nacional. E a cidade é linda, estou gostando muito — suas texturas, suas diferenças e misturas, os grafites, bares e movimentações. Mas sou muito novato, não saio tanto. Gosto de cidades onde acontecem muitas coisas, muitos teatros, shows, onde minha filha tenha muitas opções, onde minha mulher também possa crescer muito como cantora, e a gente já fez um círculo de amizades bacanas.

O Argentinos Juniors já foi conhecido como o Semillero del Mundo pela quantidade de jogadores de alto nível revelados por lá: você, Redondo, Cambiasso, Riquelme e até mesmo o Maradona. No entanto, já faz algum tempo que o clube não revela ninguém. A que você atribui essa perda de protagonismo do time nas categorias de base?

Começa pelo Club Social Parque, um clube de bairro de Baby Fútbol [equivalente às categorias fraldinha e mirim, no Brasil]. O Argentinos Juniors era a ponte direta de quem saía do Parque. A maioria saía do Baby direto para o clube. Existem várias ligas de Baby Fútbol, mas, quando eu jogava, o Parque foi expulso porque ganhávamos sempre. Ninguém queria jogar se nós jogássemos e tivemos que jogar o torneio da minha estréia usando outro nome — acho que era Santa Rita ou algo assim. Tanto o Yiyo quanto o Ramón trabalhavam muito a técnica do jogador. Eles faziam você chutar com as duas pernas. O Ramón sabia aplicar a teoria na prática, e ensinava a se colocar de costas contra a linha, e não ao contrário, senão a bola sairia. Ele exigia muito nessa questão técnica e você ia crescendo, aprendendo e querendo ganhar, porque esse sentimento era muito forte no Parque. Mas o mais importante era que eles formavam. Você ganhava, mas era uma conseqüência desse jogo bem jogado. O pior que você poderia fazer no Parque era chegar no fundo e chutar. Não! Tinha que cruzar para trás, senão ia tomar uma dura. Eu já era capitão naquela época do Parque. E por que eu volto até o Parque? Porque ele deixou de ser essa ponte direta quando o Boca Juniors o comprou, e o Argentinos, imediatamente, deixou de formar jogadores como fazia antigamente. Durante muito tempo, o Argentinos perdeu sua identidade. Começou a se preocupar mais em querer ganhar os campeonatos do que percorrer o verdadeiro estilo do Argentino Juniors. Alguns treinadores que passaram pelo time profissional não tinham nada a ver com a história do clube. Mas acho que dá pra voltar. Sou otimista com algumas pessoas que estão trabalhando na base do clube. Mas dói no coração porque, historicamente, o clube foi formador de jogadores e, se você me perguntar qual foi um dos melhores times que eu vi jogar, eu vou responder que foi o Argentinos Juniors de 1985. Um time que jogava tiki-tiki taka-taka. Uma mistura da experiência de jogadores trazidos de fora com outros formados no próprio clube, jogando um futebol espetacular. Foi tão especial que era o segundo time de muita gente que torcia para o River ou para o Boca naquela época. Foi campeão da Libertadores e perdeu a Taça Intercontinental nos pênaltis, mas foi uma das melhores partidas de futebol da história, aquela contra a Juventus de Platini e Laudrup, em Tóquio.

Outro lugar que já não produz jogadores como antes é o Brasil. Como você encara a escassez de talentos no futebol brasileiro?

Acho que há uma desvirtuação do significado de categorias de base — do que significa realmente formar, não um atleta, mas uma pessoa. Não apenas os fundamentos técnicos, mas também os táticos. E também falta ensinar como lidar com o que pode acontecer com a sua vida, não apenas dentro de campo, mas fora dele. E o mundo dos treinadores da base ficou tão cruel que se perderem três ou quatro jogos são demitidos. Eu acho que é o momento de mudar a história. Se você quer um treinador vencedor para a base do seu time, é possível que você tenha mais troféus, mas quantos jogadores você terá formado?

Alguns clubes até revelam, como o Santos, o São Paulo, o Cruzeiro, o Sport, o Fluminense e outros tantos. Mas eu acho que poderia melhorar, e muito. Os torcedores não conseguem ver os jogadores formados no clube, pois os dirigentes precisam vendê-los para pagar a conta dos erros cometidos por eles próprios. Você vende um atleta de 17 ou 18 anos e o torcedor nem sabe quem é. E assim um país perde sua identidade na formação de jogadores e no seu campeonato. Aí você se pergunta por que vai tão pouca gente aos estádios no Brasil. Por vários fatores, mas tem tudo a ver com a formação. Tomara que o Gérson não seja vendido com dez ou vinte jogos pelo Fluminense [já está praticamente vendido]. Tomara que o Alisson consiga brilhar ainda mais e também em campeonatos continentais, assim como o próprio Gabriel, do Santos. O Sport é um caminho a seguir: montou um time com jogadores descartados pelo mercado e recuperados pelo clube, misturando com meninos que surgem das categorias de base, e isso mostra que as promessas podem render esportivamente e não apenas financeiramente.

Por último, o que você tem escutado?

Eu sou muito clássico. Há bandas que me acompanham sempre. Depende muito do momento também. AC/DC, Bob Marley, The Doors, sempre ouço. Joaquin Sabina… Quando estou aqui na Argentina ouço muito rock argentino: Los Redondos, Divididos, Los Piojos, enfim, bandas que fui ver muitas vezes ao vivo.

Conhece o Ciro, vocalista de Los Piojos? Porque ele é um músico que sempre aborda o futebol e você, enquanto ex-jogador, sempre fala muito de rock.

Sim, sim, já nos encontramos várias vezes. Estive recentemente em Mendoza e escutava Eddie Vedder lá no meio das montanhas, estava perfeito. E, claro, estou escutando a Sol Alac que está com as suas novas produções que estão muito boas!

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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