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Marcos Eduardo Neves

Fotografias: Fernando Martinho

Em tempos de pandemia, uma entrevista nada usual para os padrões Corner, com os entrevistadores distantes do entrevistado: Marcos Eduardo Neves, que escreveu várias biografias, das quais três se destacam: Heleno de Freitas, Alex e Renato Gaúcho.

Mas, sem dúvida, Marcos Eduardo Neves se notabilizou pela obra em torno de Heleno de Freitas, um personagem único que merecia uma biografia à altura. Marcos Eduardo correspondeu. Jornalista que ainda busca um lugar diante das câmeras, mas que sobra quando o assunto é livro.

De quem você gostaria de fazer uma biografia que ainda não fez?

De todos os que eu tenho vontade de biografar, não necessariamente numa ordenação, eu colocaria o Edmundo, Paulo César Caju, Nei Conceição e o Almir Pernambuquinho. Não tem ordem, mas seriam esses quatro. Desde que eles me permitissem colocar o nome na capa do livro, ser uma obra de Marcos Eduardo Neves. Se o cara se desnudar a falar, deixar mostrar o fundo do poço para mostrar a reconstrução, aí beleza, eu assino. Senão, eu faria uma entrevista com o cara, mas eu não vou botar minha credibilidade na capa.

Só para não perder isso, você faria alguma autobiografia?

Sim, é um serviço de “ghost-writer”, um serviço profissional. Todos têm o direito de ter sua autobiografia. Então, por exemplo, se o Edir Macedo ou o Eurico Miranda me contratassem, é óbvio que eles não colocariam o lado ruim de suas histórias. O João Havelange tentou fazer comigo, eu coloquei o preço lá em cima para ver se ele desistia, acabou saindo, mas sem a minha assinatura, eu tirei o corpo fora. Então, todo mundo pode ser biografado, mas um empresário não sabe escrever, ele vai precisar contratar meus serviços, dar a entrevista e, em seguida, eu faço a autobiografia para ele. Mas eu entrarei no máximo como revisor no livro, quando aparecer meu nome.

“Como o Ruy Castro fala bem e vou usar a frase dele: ‘biografado bom é biografado morto’”

Aqui, no Brasil, quando alguém morre, vira santo. É mais fácil encontrar o podre do biografado vivo ou quando ele já faleceu?

Como o Ruy Castro fala bem, vou usar a frase dele: “biografado bom é biografado morto”. Primeiro, porque a história tem princípio, meio e fim. Você colocar o seu nome em biografia de gente viva é arriscado. E eu faço isso. A biografia por excelência é a de um morto. Porque pode levantar os podres, até contando com tranquilidade o que aconteceu, reveses que ele passou para depois se tornar relevante. E no biografado vivo é complicado. Alguns assuntos a pessoa não quer colocar, e assim o trabalho fica um pouco cerceado. Por isso, o morto é o melhor tipo de biografado, pois no túmulo ele não reclama, só a família dele.

Em relação ao Heleno, se você pegasse o final de carreira dele ainda vivo, o que teria sido mais difícil de contar?

O mais difícil, assim, eu acho que seria a parte da vida pessoal dele. A questão de ele ser um cara boêmio, mulherengo, que usava drogas. Com ele vivo, digamos que não estivesse nem no estágio terminal, indo pro hospício, sendo, um cara que usava algumas substâncias pesadas como lança perfume, éter, provavelmente não iria aceitar e ia dizer que não fazia isso. E ele morreu por conta de uma sífilis que é a aids do tempo dele. Então, eu teria de explicar que ele pegou essa sífilis por conta da vida promíscua, eu teria de sugerir que era um personagem sexual, noturno, mulherengo, coisa que eu fiz no livro do Renato Gaúcho. Enfim, o Heleno ia tentar me cercear nesses campos. Ele sendo o grande Heleno não iria querer falar sobre esses assuntos, mas no final da vida falaria sobre tudo isso.

O maior problema era mais a droga, a doença, do que ser mulherengo em si?

É, de certa forma, sim. Ele casou, teve um filho, a mulher era filha de diplomatas, uma menina que tinha estudado na Romênia, morado em Madri. Era da high Society, como o Heleno era também. Então, imagine ele casado, com a mulher grávida e eu contando tudo o que fazia na noite carioca. Não ia querer que eu contasse as aventuras sexuais dele, assim como Renato não ficava bem em mostrar tudo o que aconteceu na época de jogador. Então, eu entendo o lado dele de renegar o livro que escrevi sobre ele. A mesma coisa aconteceria com o Heleno.

Quem seria mais próximo do Heleno e como seria o Heleno jogando hoje?

Em relação a essa última pergunta, ele foi maior que o clube, e hoje em dia não existe mais essa possibilidade. Até existiu há pouco tempo, e eu escrevi sobre isso. Que foi o Alex, certa altura ele ficou maior que o técnico, maior que o grupo, e o presidente não o deixou ser maior que o clube. O Heleno era maior que o próprio Botafogo, o Armando Nogueira, quando sai do Acre, quer ver o Heleno jogar, e não o Botafogo. Assim, teria de se adequar, fazendo exames e, provavelmente, não teria o fim trágico, pois a doença seria removida pela raiz. Seria jogador de seleção brasileira, disputaria Copa do Mundo, coisa que ele não pôde, por causa das guerras, e brilharia com 22 e 26 anos. Em relação a quem se parecia em um passado recente, não tem. Assim, até tentei fazer um exercício e não posso falar que o Adriano se parece, mesmo interrompendo a carreira aos 29, 30 anos. Mas o Adriano não estudou no São Bento, não se formou em Direito e nem frequentava a high society. Aí, quer dizer, para você falar que é Heleno de Freitas, tem de falar que ele era mulherengo igual ao Renato Gaúcho, bonito como o Kaká, de boa família que nem o Sócrates, formado que nem o Tostão, elegante igual ao Falcão e irascível que nem o Edmundo. Enfim, você tem de fazer um pot-pourri para dizer quem é Heleno de Freitas. Por isso, não posso dizer o Adriano. Porque não tem vários dos atributos, um cara que entrava no cassino e as mulheres queriam olhar aquele homem lindo e os homens também, porque o Heleno era o ídolo deles. Aquele que fazia os gols nas tardes de domingo, acho difícil falar nesse sentido, acho um personagem sui generis e torço para encontrar alguém tão denso até o fim da minha vida para biografar.

“Quando ele é vendido para o Boca Juniors, contra a sua vontade, o Botafogo finalmente é campeão. Até porque só seria campeão sem ele”

No livro, há uma citação do Paulo Roberto Falcão que diz que o jogador morre duas vezes. A primeira é quando para de jogar. Dá pra dizer que o Heleno morreu mais algumas vezes? Pela maneira dele de ver o futebol, pela visão narcisista, egocêntrica. Quando ele volta ao Brasil não tem ninguém no aeroporto, ele sai e não está numa pré-lista de Copa. Quantas vezes Heleno morreu?

Você meio que já respondeu. E realmente, para o Heleno, eu acho que a primeira grande morte dele foi não poder disputar uma Copa do Mundo. Se você parar pra pensar, a última Copa antes dele foi a de 1938 e o artilheiro foi um brasileiro, Leônidas da Silva. E houve um grande hiato por conta da guerra, e, quando volta, o artilheiro é de novo um brasileiro, Ademir Menezes. Imagina, Heleno em 1942, com 22 anos, e em 1946 com 26. Poderia perder para Argentina, mas no mínimo seria artilheiro e hoje qualquer criança iria ser catequizada lendo o nome de Heleno de Freitas. Seria sua primeira morte e depois vem a morte de ter que sair do Botafogo. Hoje em dia é muito fácil, você sai de um clube, vai para o outro. Naquele tempo não era assim, e eu acredito que o Heleno era mais botafoguense do que profissional. Porque, quando ele era criança, o Botafogo era o time da moda e o sonho dele era jogar no clube. Então, quando ele é vendido para o Boca Juniors, contra a sua própria vontade, o Botafogo finalmente é campeão. Por ter sido campeão sem ele, acho que foi uma segunda morte. E a terceira morte é quando, aos 31 anos, ele joga aquele jogo derradeiro que foi a estreia dele no Maracanã e a despedida dele do futebol. Quando ele tava completamente louco e os irmãos estavam na arquibancada. A partida era América e São Cristóvão, ele foi expulso aos 35 do primeiro tempo por atitudes incorretas contra os próprios companheiros. Ele tava completamente louco e foi a terceira morte. A quarta foi a morte propriamente dita dele. No hospício, aos 39 anos. Mas, em compensação, um cara que morreu quatro vezes, tem livro, filme. Às vezes chega alguém e fala “você é o cara que escreveu livro do Heleno, nem Botafogo eu sou, mas gostei muito”. Assim, ele morreu quatro vezes, mas tem a vida eterna no mundo do futebol, por ele ser único.

“James Dean é dos anos 1950, ou seja, o Heleno antecipa uma moda. Já usava relógio Rolex, Ray Ban, isso nos anos 1940”

O apelido Gilda tinha tudo a ver em todos os sentidos, é brilhante. Quem mereceria o apelido Gilda. Até uma pessoa física, quem poderia ser essa outra persona do Heleno?

Se o Heleno fosse um pouco mais para frente, se fosse dos anos 1950 em vez dos anos 1940. Acho que chamariam ele de Marilyn, que era uma mulher linda, famosa, certamente milionária e altamente sexual. E a galera ia chamar ele assim, ia ser difícil pela língua, mas seria o apelido. Também poderia se chamar James Dean. Quase foi James Dean numa foto que ele tá numa moto, olhando para trás, de óculos escuros e aquela coisa muito James Dean. Só que tem o seguinte, o James Dean é dos anos 1950, ou seja, o Heleno antecipa uma moda. Já usava relógio Rolex, Ray Ban, isso nos anos 1940. Então, o Heleno antecipa o jeito de ser que o James Dean faz que seja universal, graças ao rock e ao cinema de Hollywood.

Foto: Reprodução

Ele seria o digital influencer de hoje e estaria na festa Gabriela Pugliesi?

Exatamente, acredito que sim. Ele ia entrar a hora que quisesse, não ia seguir ninguém no Instagram. Ia ter 10 milhões de seguidores e não seguiria ninguém. Na festa da Gabriela Pugliesi [RISOS]. O Heleno não teria o problema de dar a cara a tapa e fazer o que bem entendesse. Se ele quisesse sair na Covid, péssimo falar isso, mas ele parece até com o Bolsonaro nesse sentido. Ele é um cara que ninguém manda nele, faz o que ele quiser e sempre foi assim. Então, o Bolsonaro tem essa particularidade como Heleno.

Você relata no livro, de maneira rápida, a transferência do Heleno para a Colômbia. O time entra em contato com ele e o convence. Vem uma turma para assinar, foi rápido mesmo a transação dele para Colômbia? Tem mais alguma coisa que não está no livro? Sobre ir para uma liga que naquela época era pirata?

Isso é mais uma coisa que estávamos falando, ele largava o foda-se mesmo. O passe dele era do Vasco e ele queria ir para liga pirata, porque no Vasco teve a briga dele com o treinador, Flavio Costa. Enfim, já tava dando os primeiros sinais de loucura e vai para essa liga pirata. Na verdade, era um ninho de milhões de dólares da época. Praticamente aconteceu uma guerra civil pela morte de um ativista da esquerda. Para acalmar a população, foi feito aquilo do pão e circo. O governo decidiu abrir seus cofres e trouxe craques do mundo inteiro sem precisar do passe.

Tinha contrato ou era tudo de boca por ser pirata?

Não, era tudo de boca. Mas, se não pagasse o primeiro mês, você tirava o corpo fora e voltava. Di Stefano foi, todo mundo foi e ele é o grande Heleno de Freitas. Cara, ele viu que ali iria ganhar dinheiro e ali estava melhor do que no Vasco, provavelmente seria reserva na segunda temporada. Então, ele largou o foda-se e foi para lá. Isso era mais um problema da Colômbia que acabou se desfiliando da FIFA, não podendo disputar Copa do Mundo e nem eliminatória por conta dessa liga pirata. Até craques ingleses foram para Colômbia, era grana do governo. Então, não me surpreende o Heleno ter feito isso no patamar que ele tava de loucura e fim de carreira.

Tem alguma história do Heleno que faltou comprovar e que acabou ficando de fora? E tem alguma coisa que você se arrependa por não ter conseguido apurar?

Assim, do Heleno propriamente dito, não é que eu dei uma sorte. Como o Paulo Coelho fala, “quando você quer muito uma coisa, o universo inteiro conspira a seu favor”. No livro do Heleno, por ser um personagem difícil, por conta de ser de 50, 60 anos atrás. Eu tava com muita dificuldade de ter acesso ao prontuário médico e ver o dia-a-dia da mortificação do Heleno, dele virando aquele dejeto humano que ele se torna nas últimas páginas. Eu fui a Barbacena e o hospício tinha sido implodido, dando vez a um hotel. E o hotel não tinha nenhum arquivo disso. E dei uma a sorte, acredito que as coisas conspiram a favor. Me surge um repórter que tinha sido do Jornal do Brasil e tinha feito uma das últimas matérias antes de o hospício ser implodido. Ele se chama Teodomiro Braga, trabalha em Minas Gerais. E ele fala, “Marcos, tô vendo que você tá fazendo um trabalho sobre Heleno e tenho uma coisa que possa te interessar” e me apresentou as cópias do prontuário médico. Porque ele tinha ido antes de implodir e fez uma cópia, “cara, eu ia morrer com isso na gaveta”. E isso me serviu, não é só sorte, eu fui atrás. Então, assim foi um golpe do destino ao meu favor ter conseguido isso. Senão viraria um livro de futebol. Quanto aos outros biografados, o que eu posso dizer é que o Renato eu tentei, até os 45 do segundo tempo, que ele estivesse junto comigo na mesa do lançamento. Porque ele atrai um público gigantesco, eu limei certas coisas que eu sei do Renato, para que virasse um livro de futebol. Só que certas coisas da vida pessoal não tem como tirar. Por exemplo, se ele perdeu a Copa do Mundo para a vida noturna, eu tive de mostrar ao longo de páginas anteriores que aquilo foi a gota d’água. No caso do Alex, ele foi tão perfeito comigo, deu todas as entrevistas, respondeu tudo que eu quis, deu todos os acessos que eu precisava para fazer o livro. Mas ele guardou consigo uma informação que passou depois da publicação do livro. Porque ele não queria que eu me influenciasse por essa informação na montagem do material, já que pode ser uma fake news, mas acredito que não seja. Se eu descobrisse, o próprio bancaria, mas isso só fiquei sabendo depois do lançamento. Assim, se tiver uma edição nova, eu vou ter de colocar.

E qual seria essa informação que ele “escondeu”?

Uma das coisas mais importantes na história do Alex. Foi a não convocação dele para a Copa do Mundo de 2002. Ele perde o bonde da história ali, inclusive perde para o Kaká, que era um menino de 20 anos. Aí, depois que o livro ficou pronto, o Alex vem com uma informação que um dos jogadores deu para ele, não lembro quem. E disse o seguinte, o Felipão não queria levar o Romário, o Brasil inteiro clamava pela convocação dele, por conta do migué da primeira convocação, foi jogar pelo Vasco e o Felipão nunca mais o convocou. E ainda tinha o Ronaldo como incógnita até as vésperas, pelas lesões. E parece que teve uma conversa entre o Ricardo Teixeira e o Felipão, falando o seguinte: “Você não vai levar o Romário, tudo bem. Você pode levar o Ronaldo que é essa incógnita, mas também não irá levar seu queridinho, não”. Porque o Alex era o queridinho do Felipão, inclusive, teve um jogo contra o Corinthians que era o torneio Rio-São Paulo. O Alex tava de férias e o Felipão falou: “cara, se eu perder para o Corinthians eu vou ser demitido”. Aí o Alex, “cara, eu tô de férias, na praia, Florianopolis, esquece”. E o Felipão continuou: “cara, vem para esse jogo, chega no vestiário, não treina, joga e depois você tá liberado por quinze dias”. O Alex fez isso pelo Felipão, foi lá e 3 a 1 Palmeiras. Três gols dele. E o treinador disse “tem coisas que os amigos fazem que nunca vamos esquecer”. Por isso, acredito que o Felipão queria levar ele para Copa. Só que houve interferências de cima. Como eu não consegui chegar nessa informação, o livro foi para a vitrine, sem isso.

E como é esse trabalho, Marcos? Você usou o exemplo do Alex. Qual a dificuldade de apurar quando não tem fontes que confirmam aquilo?

Fazer uma biografia é lidar com um quebra-cabeça gigantesco, você ordena tudo aquilo e começa a montar. De vez em quando, você tem um capítulo, mas tá faltando uma peça. Aí, tem uma série de entrevistas para ver se o pessoal conhece aquelas peças. Porque se ele começar a falar coisas que já conheço, ele pode te passar uma super informação que pode não ser verdade. Ele entra com uma informação nova, pode ser a mola que esteja faltando ali, para ligar. Mesmo assim, você não pode confiar, porque pode ser inventado, mal contado. Então, pega essa mola e faz novas investigações para ver, se acha gente que bate. Você se depara com alguém que diz, “Heleno de Freitas teve um caso com Evita, quando jogou no Boca Juniors. Ela estava mal com Juan Domingo Perón, Heleno frequentava a Casa Rosada, por ser da high society, em Buenos Aires”. Ele pode ter tido um romance com Evita Perón. Cara, eu tive essa informação, fui para Buenos Aires e pesquisei. Eu rodei, olhei jornais… ninguém me provou que poderia ser verdade. E a informação era do Nelson Rodrigues, que era um excelente ficcionista. Enfim, eu jogo o que ele dizia e minha apuração dizendo que nada comprova. Assim, o público que lê sabe que o que eu não podia fazer é tirar essa informação vinda de alguém como o Nelson Rodrigues e que muita gente poderia me cobrar. Deixo para o público tirar a conclusão, o que pode ter tido, que pode ter roubado um beijo dela na porta do banheiro. Ele era o grande Heleno e ela a grande Evita. Assim, era factível, mas nada me comprovou.

A gente falou de Alex, ele foi muito solícito e é impressionante a quantidade de detalhes que entra da própria vida por inciativa dele. Se isso não foi de repente um fator que prejudicou na carreira dele, por ser um cara tão frontal, transparente… é algo difícil no universo do futebol.

Com certeza, porque aquilo que falamos há pouco sobre o caso do Felipão. Por que o Ricardo Teixeira vai dizer “você não leva o Romário, mas também não leva seu queridinho”? Isso foi nas vésperas da convocação de 2002. Porque, em 2000, volta-se dois anos, o Alex era capitão da Seleção olímpica, na qual os astros eram Alex e Ronaldinho Gaúcho. E, no livro, está bem explícito que tinha um chefe da delegação, era um turista. Perdia a hora, bebia pra cacete, os jogadores iam treinar e ficavam esperando o “turista” que estava de ressaca. Não conseguindo botar a gravata para todos irem treinar. Esse cara, ninguém sabe o nome dele, só chamavam de doutor chefe da delegação, acho que ele era presidente da Federação Paulista, está no livro e eu não estou lembrando direito. Mas o pessoal não sabia o nome dele, quando o time perdeu para Camarões, com eles tendo cinco jogadores em campo e o Brasil perdeu aquele jogo. Esse chefe da delegação apareceu lá para dar um sermão, dizendo: “porra, vocês são os jogadores mais bem pagos do mundo e dão esse vexame. Perdendo pra um time com três a menos”. Aí, o Alex, como capitão, levantou e falou assim: “O senhor fica calado, porque essa derrota aqui vai tirar muita gente da próxima Copa do Mundo, ninguém tá mais puto que a gente, porque sabemos nosso potencial. E o senhor não tem moral nenhuma para falar com a gente, não sabemos nem seu nome, ficava de ressaca, um turista!”. Tudo isso, na frente do Ricardo Teixeira. Então assim, isso é o Alex como diz a sua pergunta, super claro, honesto, transparente, falando o que qualquer jogador ali seguraria, com medo de uma represália, o que aconteceu em 2002, quando ele não foi para Copa.

“Alex também tinha condições. Ele participou 60, 70% dos jogos das eliminatórias. E era o cara da confiança do Felipão. E uma Copa do Mundo é para ter seus homens de confiança.”

Em 2002, o Brasil tinha poucas chances de ganhar, não era o favorito. Ter um cara desse é um perigo para CBF, naquele momento. Existia CPI e muita sujeira envolvida. Então, Alex era um risco para aquela seleção, pode afirmar isso?

O Alex não foi convocado, tudo bem. Mas, cara, teve três melhores do mundo convocados. Kaká, que viria a ser melhor do mundo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, o Alex seria o quarto. Então, três camisas 10 naquele time, eu acho que ele poderia ir, assim como Juninho Paulista e Ricardinho foram, o Alex também tinha condições. Ele participou 60, 70% dos jogos das eliminatórias. E era o cara da confiança do Felipão. E uma Copa do Mundo é para ter seus homens de confiança.

Como foi a sensação de acompanhar o Alex na Turquia? Como isso te impactou, se já esperava algo parecido, te surpreendeu?

A gente aqui no Brasil escuta muito da idolatria do Alex na Turquia. Costumo dizer que semelhante só exista entre Maradona e Napoli. Talvez, Maradona chegar em Nápoles pode acontecer o que eu vi na Turquia. A chegada dele no aeroporto, a torcida estava presente, tenho até um vídeo no YouTube. Fiz questão de gravar, eram centenas de pessoas, chorando, gritando e parecia que todo mundo estava esperando aquele líder, um messias. Aquele avatar que era o Alex. Uma cena de Beatles, como se eles chegassem em uma cidade para fazer um show, depois de o Alex ter abandonado o futebol, sendo ex-jogador do clube. O fanatismo vive até hoje, teve uma vez que fui à noite assistir um jogo do Fenerbahçe e eu percebi que os avós levavam seus netinhos pelas mãos até a estátua do Alex, em frente ao estádio. E ficavam olhando para aquilo e parecia que faziam uma oração. Sabe? Como “abençoe nossa partida de daqui a pouco”. E aí, eu nessa época, na hora que vi essas cenas, peguei o WhatsApp e perguntei para o Alex, eu estava sozinho na Turquia e ele no Brasil. “E aí, meu irmão, o que você tá fazendo”? E ele falou “cara, eu to aqui em um sambinha e churrasquinho em Curitiba.” “Pois é, tem gente rezando em frente sua estátua, pedindo benção.” São coisas absurdas, de ir no Gran Bazaar, único lugar público que o Alex não podia ir, você chega lá e mostra uma foto com Alex. Os caras dão 70% de desconto nos produtos. Uma coisa que até o Arnaldo César Coelho fez uma mala quando teve um Brasil e Turquia. O Galvão ficou tão impressionado com esse fanatismo dos turcos pelo Alex, que ficou três minutos da transmissão dizendo que o Arnaldo ia com a foto do Alex pedir desconto. E teve, brasileiro que chegou no hotel mais caro para pedir tipo uma lua de mel e quando descobriram que era brasileiro e de Curitiba, deram a suíte presidencial pelo mesmo preço dos quartos normais. São coisas assim, que não tem parâmetro aqui. Nenhum santista é fã do Pelé nesse ponto, nenhum flamenguista é fã do Zico nesse ponto. Então, assim, a coisa do Alex em Istambul é absolutamente fora do eixo e que não foi só o futebol dele que levou a isso. Porque ele não ganhou Liga do Campeões, foi três vezes campeão Turco em oito anos. Tudo bem, fez uma grande Champions, mas não foi o futebol propriamente dito. Foi uma série de valores que se identificaram com os turcos e faz dele hoje mais que uma celebridade, é uma personalidade para Turquia.

Voltando ao Heleno, com relação ao Gabriel García Márquez, você colocou no livro até diários colombianos pesquisados, e Gabriel dizia que Heleno redigia com os pés. E mais tarde, o Junior Barranquilla sentiu falta dele, porque ele era o réu oficial, culpado pelas derrotas. Teve alguém aqui no Brasil que registrou esses lados de Heleno e Gilda, como Gabriel García Márquez fazia?

O Nelson Rodrigues fez algumas boas crônicas, o Armando Nogueira, até o fim da vida dele, foi super fiel ao que viu. Mas, um escritor brasileiro que tenha feito textos tão literariamente fortes como Gabriel García Márquez, não. Então, de todos os grandes da literatura, numerando juntos com os brasileiros não chegam a ser o que simboliza um Gabo para o mundo da literatura. Então, acho que foi uma das coisas mais fortes que o Heleno teve de um figurão desses universais e eternos.

“Nenhum santista é fã do Pelé nesse ponto, nenhum flamenguista é fã do Zico nesse ponto. Então assim, a coisa do Alex em Istambul é absolutamente fora do eixo”

Voltando à questão do Alex e as outras biografias. O fato de ele ter te escalado, diferentemente do Renato, do Heleno e de outras personalidades do futebol, isso mexeu com você? O que isso muda, se tiver alguma coisa que mude, no fato de escrever um livro convidado pelo próprio biografado?

Na verdade, não foi só ele. Os únicos três livros que escrevi por vontade própria são: Renato Gaúcho, Heleno de Freitas e Nunes. Porque eu tinha uma dívida de escrever sobre algum personagem do meu time do coração. E como eu sou louco pelos polêmicos, eu decidir pegar aquele que é o menos letrado ou nada letrado. Mas é o mais polêmico de todo o time de 1981. Então, foram só esses três que fiz por vontade própria. Fiz também o livro “20 jogos eternos do Flamengo” por um convite. Assim, todos os outros eu fui contratado para fazer, e isso inclui o meu terceiro livro, a biografia do Roberto Medina. O Sergio Pugliesi era assessor do Rock in Rio e, de tanto ouvir as histórias do Medina nos jantares, ele falou: “cara, você precisa contar isso”, e ele me indicou. Na verdade, eu fico muito mais lisonjeado de o Ruy Castro ser o cara que me indica. Porque eu tive uma conversa com o Ruy quando eu lancei o Heleno em 2006, encontrei ele naquele ano. Foi um ano que ele lançou “Carmen”, sobre a Carmen Miranda, e ganhou o Jabuti pela pesquisa. E realmente é um livro muito maior que o meu sobre o Heleno, mais ou menos 500 páginas. Só que o Rui Castro, nesse papo, virou para mim, ali no hipódromo da Gávea, e falou: “Marcos, eu vi seu livro sobre o Heleno e quero falar uma coisa, parei com as biografias”. Já tenho alguém para dar o bastão. Ele poderia depois fazer outra biografia, mas desde Carmen ele nunca mais fez. Ele faz um bocado de recortes de época, mas, para biografia, ele não tem saúde, estômago para mergulhar na vida de determinada pessoa. Isso é o maior orgulho que eu tenho, de ter pego esse bastão do cara que me motivou a ser biógrafo. Assim, ele me indicou pra um livro sobre a Servenco, uma das maiores construtoras do Rio de Janeiro, indicou o Alex. Ele procurou o Ruy Castro, que não topou, mas me indicou. O livro do Nunes, também foi atráves do Ruy Castro, “o Nunes tá afim de ser biografado, topa?”. Eu disse na hora: “eu topo de graça, tô com essa dívida.” Então, ser elogiado pelo Ruy Castro é mais emocionante para mim. O Alex me procurou depois de ter procurado o Ruy. Eu sou mais do futebol e eu sou da faixa etária dele. Então, o resultado deve ter ficado até melhor para o Alex, que queria contar muito de futebol, e o Ruy Castro talvez não soubesse tantos detalhes para fazer esse livro.

Para alguém que absurdamente era chamado de “Alexotan”, como você também explica um cara ser chamado disso e se dar tão bem em um clube tão sanguíneo como o Fenerbahçe?

Acredito que seja uma questão além do futebol. Quando eu fui fechar o livro do Alex, eu fui chamado por um empresário milionário que queria dar um presente para ele. Qualquer presente que o cara desse para ele, o próprio teria condição de comprar. E ele perguntou para o próprio Alex, com todo dinheiro do mundo, “qual o presente que você desejaria ganhar?” E ele respondeu: uma biografia. Aí, ele disse que gostaria e que o escritor fosse o Ruy Castro, que negou e me indicou. Fui chamado para conversar e conhecer o Alex, mas eu queria um personagem polêmico, e ele não parecia ser assim. Eu tomei um choque quando eu vi que não tinha um polêmico desse jeito conhecido, mas tinha um sensato, com a língua solta, sem rabo preso. O fato de ele ser ídolo como é na Turquia não foi só pelo futebol, mas pelo posicionamento do lado político, familiar e de tudo que envolve. Quando eu fui para a conversa inicial com o Alex, fui sem muitas esperanças, mas eu ia falar que ele foi o melhor jogador do mundo em 2003 e tirar uma foto. Aquela excelência, não do Palmeiras, mas do Cruzeiro, que ele levou para Turquia. Então, eu entendo o quanto os turcos ficaram abobalhados com o talento dele a partir de 2004. O fato de ele ser tratado como um mito foi por conta de ter recebido propostas de outros centros como o alemão e ter decidido ficar. Já estava estabilizado e, em outros lugares, teria que matar um leão por dia.

Como foi a parte da experiência do Marcos Eduardo Neves fazendo o conteúdo do Fanáticos no Esporte Interativo?

Foi uma grande brincadeira, super divertido, eu precisava ter uma experiência e passagem pela televisão. Acredito que tenho mais a contribuir na televisão do que eu tive até hoje. Já fui comentarista da CNT, participei da produção do Fanáticos, fui em inúmeros programas de televisão, mas eu poderia ter uma vivência melhor e acredito que ainda terei. Assim, o Fanáticos foi uma brincadeira, me sentia uma criança. Abrindo figurinhas, tentando achar novidades e teve um momento de muita tensão na decisão do campeonato, quando uma enciclopédia do Flamengo me colocou na parede em relação a uma camisa e ele estava certo. Foi uma brincadeira que eu levei a sério, pois precisava entrar na televisão. Se tem um sonho que eu não estou completamente saciado é a televisão, na literatura e no jornalismo eu já sou presente.

Quais biografias você toparia fazer?

Uma que eu ia cobrar uma grana pro cara desistir é a do Neymar, essa eu já aviso [RISOS]. Esse eu não tenho o menor tesão de fazer, acho muito sem conteúdo. Agora, eu gostaria, se eu pudesse biografar, do Maradona. Embora, tenha trezentos livros na Argentina, ele tem algo Helênico e eu espero qual será o fim dele. Já que o Maradona é muito grande, eu escolheria o Ibrahimović, e, dos que pararam, Cantona e George Best. O Ibra seria maravilhoso, imagina cada capítulo, ia ser incrível.

Qual foi sua primeira lembrança de futebol?

A primeira lembrança de futebol, quando eu busco, foi em 1981, Flamengo e Botafogo. Meu pai, já falecido, era botafoguense fanático e me leva para o Maracanã. E falando “filho, esse é o maior estádio do mundo, Flamengo e Botafogo, você vai ver gol, a torcida comemorando”. Eu fui com ele na torcida do Botafogo e a partida acabou 0 a 0, não teve gol nos 90 minutos. A primeira lembrança que eu tenho é de ver a torcida do Flamengo vaiando pra caralho. Meu pai e todo mundo do Botafogo gritando: “cadê o campeão da Libertadores? Zero a zero!”. E eu revoltado que não teve a porra do gol. Para uma criança, não ter gol nos 90 minutos é como não ter gol a semana inteira. Eu tinha 5 para 6 anos, e meu pai foi tão mal nisso aí porque eram as quartas de finais do Brasileiro de 1981 e eram dois jogos, o primeiro foi 0 a 0 e o segundo foi 3 a 1, com um golaço do Mendonça. Se meu pai me levasse no outro jogo, teria gol pra caralho, o Botafogo ganhou do Flamengo e eu viraria Botafogo. Eu me identifiquei muito mais com aquela frustração da torcida do Flamengo do que com a alegria que meu pai achou que eu ia ter. E a segunda lembrança, fazer o Naranjito [mascote da Copa de 1982] nas ruas e também de quando o Waldir Peres tomou aquele frango. Uma criança de 6 para 7 anos, falei “caramba, só daqui a 4 anos”. A gente virou aquele jogo e começamos a ganhar de todo mundo. Também tenho a lembrança de Brasil e Itália.

O futebol entra na sua vida em 1981? É quando você começa a ter realmente interesse por futebol?

O interesse realmente eu comecei a ter quando eu tinha 9 anos, em 1985. Principalmente quando Zico faz aquela levantadinha no gol contra o Paraguai. Ele recebe do Leandro e ajeita com a direita e bate com ela mesmo. No Defensores Del Chaco e faz aquele gol. Eu, lembro de ter chegado na escola no dia seguinte e todo mundo tentava levantar uma bolinha de papel daquele jeito. E ninguém conseguia. Foi a primeira lembrança que eu tenho de um cara que a partir disso não parou mais com o futebol.

Você vira Flamengo neste momento?

Não, eu virei Flamengo lá atrás. No Flamengo e Botafogo de 1981.