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From the Nordeste para o North East

Na cidade de Newcastle, com seus 289 mil habitantes no nordeste da Inglaterra, um cearense será um cult hero consagrado até o fim dos tempos. O Mirandinha — ou ‘Wor Mira’, como ele é conhecido por lá — foi para o Newcastle United em agosto de 1987, quando o time pagou £575 mil ao Palmeiras para contar com os seus serviços. E assim, Mirandinha se tornou o primeiro brasileiro a jogar na terra da rainha.

Sempre tem algo especial em ser o primeiro, em abrir um caminho para outros seguirem e ampliar os limites para a próxima geração. Ir primeiro é um ato ousado e, às vezes difícil, mas é, sem exceção, algo para ser lembrado. E é assim para Mirandinha, recordado não só pelo seu desempenho dentro das quatro linhas, mas também por sua alegria e pelas histórias engraçadas que lhe tornou tão popular na cidade. Para um torcedor do Newcastle, a chance de entrevistá-lo não poderia ser desperdiçada.

A estreia de Mirandinha pelo Newcastle foi contra o Norwich. O time que veste verde e amarelo leva o apelido — não por coincidência — de Canaries [Canarinhos]. O brasileiro foi trazido para substituir Peter Beardsley, que era o xodó da torcida, e o pessoal do Newcastle esperava muito dele. Mirandinha ganhou destaque numa partida pelo Brasil contra a Inglaterra, mais cedo no mesmo ano, marcando o seu único gol pela Seleção.

Os primeiros meses no nordeste da Inglaterra foram difíceis para o cara que nasceu e foi criado no calor abrasador do Ceará, onde o seu pai trabalhava como salineiro para sustentá-lo junto de seus sete irmãos. O inverno em Newcastle é brutal, tem uma frieza capaz de congelar a medula óssea. Ele nunca tinha jogado na neve antes e a comida era estranha. Também não falava inglês e demorou a se adaptar ao seu novo ambiente.

Depois de um tempo, as coisas começaram a aquecer e, para se adaptar, Mirandinha contou tanto com a ajuda do técnico Willie McFaul e, principalmente, do seu novo grande amigo, Paul Gascoigne, o “Gazza”, jogador inglês mais talentoso dessa geração.

Gazza assumiu a responsabilidade de ensinar inglês para o novo reforço do time. Além do sotaque fortíssimo do jovem Geordie, como são chamados os moradores de Newcastle, teve outro problema com esse acordo. Gazza, segundo o livro Jeffanory, do jornalista Jeff Stelling, era deliberadamente criativo com o ‘inglês’ que ele ensinava para o cearense, trocando palavras normais por palavrões e ofensas.

Uns dias depois de sua primeira aula de inglês, Mirandinha foi para a cantina do clube e pediu batatas fritas, usando sua nova língua. “Eu quero vaginas cabeludas, por favor.” Os funcionários da cozinha não ficaram muito contentes com o pedido.

Durante um jogo, algumas semanas depois, ‘Wor Mira’ fez uma falta dura na entrada da grande área. Não foi mal-intencionada, mas imediatamente o árbitro mostrou o cartão amarelo. Mirandinha se esforçou para lembrar as palavras que Gascoigne lhe ensinou para se desculpar. “Senhor Juiz,” disse ele, “vá se foder”.

Anos depois, Miradinha falou para o jornalista Roger Bennett, do ESPN FC que, “Gazza era um garoto engraçado. Tudo na vida era engraçado para ele, menos o futebol. Dentro das quatro linhas era o único lugar onde ele ficava sério. Até brigaria com você em campo, ele se importava muito.”

Depois das dificuldades do começo, a primeira temporada foi um sucesso para o Mirandinha. Newcastle acabou em oitavo lugar na tabela e o brasileiro foi o maior artilheiro do time, com 13 gols marcados em 31 partidas. Fez dois gols contra o próprio Manchester United no Old Trafford e virou ídolo da torcida por conta disso.

Essas histórias engraçadas e seus bons desempenhos dentro do campo ajudaram-no a se tornar muito popular entre os torcedores do Newcastle, e Mira também começou a gostar da sua nova cidade. Costumava ir com os companheiros para o pub depois dos treinos. Ele até chamou a sua filha de Sarah, por causa de Sarah Ferguson, então princesa do Reino Unido.

A segunda temporada, porém, foi difícil. No verão europeu de 1988, a diretoria do Newcastle vendeu Gascoigne para o Tottenham Hotspur e outros também partiram. Segundo Mirandinha, o elenco enfraqueceu muito. O Newcastle ficou nos últimos lugares da tabela nessa temporada inteira e acabou caindo para a segunda divisão.

Durante esse período, ele sofreu uma lesão no tendão de Aquiles e uma mudança de técnico não o ajudou muito. O novo treinador, Jim Smith, era da ‘old school’ e não confiava em jogadores habilidosos. Ele especialmente não gostava da propensão do Mirandinha de segurar a bola e chutar de todos ângulos e distâncias.

No final da temporada, Smith mandou o brasileiro de volta ao Palmeiras, falando que o Mirandinha “pode ir apodrecer na sua fazenda de porcos em São Paulo. ” Isso não tinha nada a ver com o apelido do Verdão, mas com rumores na imprensa inglesa de que o Mirandinha usou o dinheiro que ganhou em Newcastle para comprar uma fazenda no interior do estado paulista.

Apesar deste final inesperado na Inglaterra, de títulos brasileiros e quatro jogos pela Seleção, Mirandinha vê o período em Newcastle como a grande conquista da sua carreira. Ele abriu um caminho entre Brasil e Inglaterra que muitos jogadores o seguiram desde então e, mais significativamente, ele fora adorado pela torcida e ele a adorava de volta.

Pergunte para qualquer torcedor do Newcastle de certa idade e com certeza ele pode recitar a música que cantavam para o Mira na arquibancada. Mirandinha se lembra bem dessa canção e, inclusive, a cantou no encontro que se deu na sede da Sociedade Esportiva Sanjoanense, um clube da cidade de São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, onde mora junto de sua esposa e seu filho mais novo. Lá ele trabalha em projetos sociais que ensinam futebol para crianças do município.

O Sanjoanense foi o clube que lançou as carreiras do Bellini e Mauro Ramos, os dois primeiros capitães a erguer a ‘Taça Jules Rimet’ para o Brasil em 1958 e 1962, respectivamente. Existe uma estátua que comemora as conquistas deles lá. Parece um lugar mais do que adequado para falar com alguém que contribuiu — do seu próprio jeito — à história do futebol brasileiro no exterior, sendo pioneiro na ilha britânica.

Você nasceu numa cidade pequena, na divisa entre Ceará e Piauí. Como foi a infância?

Eu nasci em Fortaleza. Em um dos bairros mais humildes, mais pobres de Fortaleza que se chama Aerolândia. Depois, de onze para treze anos de idade, meu pai acabou mudando para o interior, para trabalhar, e nesta mudança aconteceu uma fatalidade. Ele acabou perdendo todos os documentos da família num barco que naufragou com ele, mas ele sobreviveu, graças a Deus. Por isso, eu acabei sendo registrado numa cidade chamada Chaval. Todo mundo acha que eu sou de Chaval, mas eu sou natural mesmo de Fortaleza. Meu pai era salineiro e éramos uma família de oito filhos. Foi muito difícil porque trabalho de salina, além de ser um salário muito baixo, metade do ano não trabalhava porque no período de chuva não produzia nada. Nesse período era muito difícil, ele tinha que praticamente viver de pescaria, comprando peixe na praia e vendendo para sobreviver. Os filhos tinham que ajudar. No meu caso fui trabalhar nos sinais, vendendo limão, vendendo uva, limpando vidro de carro para ajudar no sustento da família. Eu sou o segundo, então tinha que ajudar bastante; eu e meu irmão mais velho éramos quem trabalhava. Meu irmão trabalhava de carpinteiro, fazendo móveis para ajudar a minha família. Eu trabalhava mais nessa parte comercial, muita coisa que uma criança da classe pobre no nordeste faz para ajudar a família.

E o futebol? Quando e como começa? Conta como foi esse processo.

De onze para quinze anos jogava muita bola no meio da rua. E aí, com quinze para dezesseis, tive minha primeira oportunidade de jogar num time profissional chamado Maguari que, na época, era a terceira força no futebol cearense e tinha um trabalho muito bom nas categorias de base. Me destaquei muito rapidamente, mas em seguida, Maguari parou com futebol profissional. E aí eu fui levado com um treinador de base do Maguari para o Ceará. Só que lá no Ceará não fui muito feliz, fui mandado embora muito rapidamente. Mas não desisti. Busquei uma oportunidade no Fortaleza e também não fui muito feliz. Não esqueço meu primeiro jogo; foi no sub-17 ou sub-16, eu joguei com braço quebrado. Tinha quebrado o braço numa Sexta-feira Santa e fui para o jogo no domingo. Nesse jogo, fiz oito gols, ganhamos de 12 a 0. E aí na segunda-feira, tive que me encaminhar para o hospital e engessar o braço. Demorou um bom tempo para melhorar. Quando tirei o gesso e voltei, eles me mandaram embora, e até hoje não entendi o porquê. De verdade essa foi minha grande oportunidade porque com dezessete anos eu fui para o Ferroviário de Fortaleza. Ferroviário tinha tido uma safra muito boa de jogadores no sub-21 e aí joguei um campeonato cearense sub-21 com 17 anos e fui artilheiro do campeonato e campeão pelo Ferroviário, desbancando Ceará e Fortaleza.

Nesse campeonato fui visto pelas pessoas de Campinas, da Ponte Preta e Guarani, e fui para defender a Ponte Preta com 19 anos, para jogar no sub-21. Joguei três partidas no sub-21, fiz dois gols contra o Santos, fiz um contra São Paulo e dois contra Paulista de Jundiaí. E aí me levaram para o time principal porque tinha uma dificuldade com atacantes.

Por incrível que pareça, a seleção da Tunísia estava passando, preparando para a Copa na Argentina de 1978. Nessa oportunidade não tinha nenhum atacante para ir na reserva e o treinador do time principal me requisitou para ir. Entrei no jogo com 43 ou 44 do primeiro tempo porque o único atacante, que estava jogando, se machucou. Logo no começo do segundo tempo, Odirlei, o lateral esquerdo, que era muito bom jogador, bateu uma bola cruzada e o goleiro soltou. Eu só cheguei e botei para a rede. Ganhamos o jogo de 1 a 0 da seleção da Tunísia, e aí fui requisitado definitivamente para o time principal.

Surgiu um problema no final do ano, e fui embora para casa de férias e a Ponte Preta não me buscava, queriam que eu voltasse por conta própria e eu não concordava. Então fui ficando, fui ficando, e no começo de ’79, surgiu o Palmeiras de São João da Boa Vista. Eles foram para a Ponte Preta que informou que eu estava lá em Fortaleza e não queria voltar, e a Ponte Preta me liberou para o Palmeiras de São João e o Palmeiras me profissionalizou. Cheguei em abril de ’79.

Palmeiras jogava na segunda divisão de futebol paulista. Fui artilheiro do campeonato e fui para o Botafogo do Rio no começo de ’80, com 20 anos. Tudo aconteceu muito rápido e na época não era muito comum. Hoje em dia um jogador de 16 ou 17 imediatamente joga em cima. Na época, os clubes esperavam você estourar a idade de 21 anos para poder ser requisitado para o profissional.

E depois?

Fiquei dois anos e meio no Botafogo, jogando o Brasileiro e Campeonato Carioca. Fomos muito bem no Campeonato Brasileiro de ’81, tiramos o Flamengo nas quartas de final. Perdemos na semifinal para o São Paulo no Morumbi, ganhamos no Rio por 1 a 0 e perdemos o jogo de volta por 3 a 2. Não é uma partida que gosto muito de lembrar porque fomos muito roubados [risos]. Fizemos 2 a 0 no primeiro tempo muito rápido e o juiz arrumou um pênalti no fim do primeiro tempo. No segundo tempo foi um vexame; não tivemos como segurar e o São Paulo acabou virando o jogo, ganhando por 3 a 2. Tive a felicidade de fazer muitos gols no Campeonato Carioca também.

E aí, de repente, eu fui parar no Náutico de Recife, também na primeira divisão do Brasileiro. Muita gente achava que eu estava retornando para a minha terra, para o Ceará. De Botafogo, aí vem Náutico, a tendência é você ficar por ali. Mas foi ao contrário. Me motivei, passei a me preparar melhor, porque antes eu era um pouquinho da noite, aproveitando a juventude no Rio de Janeiro, mas em Recife resolvi dar a volta por cima. Tirando o Newcastle, que foi o meu grande time, fiz muito gols. Em ’83 [foi ’84] nós chegamos entre os oitos melhores do Brasil. Goleamos o Corinthians, ganhamos do Santos no Vila Belmiro, empatamos com o Vasco no Maracanã, goleamos o Goiás. Saímos contra Grêmio nas quartas de final, quando me lesionei durante o jogo em Porto Alegre.

Comecei a despertar a atenção dos grandes clubes do país de novo para me contratarem. E também fui convocado para a seleção sub-23 em ’83 para o Torneio Toulon na França. Fui artilheiro e nós fomos campeões, ganhando nos pênaltis contra Argentina na final. Ganhamos da França, tiramos a Alemanha. Foi um time muito bom com Júlio César que jogou no Juventus, com o goleiro Abelha, Luvanor do Goiás que depois jogou na Itália. Era um grande time.

Em 1984, ainda no Náutico, fui convocado de novo para o Pré-Olímpico dos jogos de Los Angeles. Mais uma vez fui artilheiro e fomos campeões.

Depois eu passei pela Portuguesa e tive uma passagem rápida no Cruzeiro. A Portuguesa me emprestou para o Cruzeiro por seis meses. Como não deu o negócio entre Portuguesa e Cruzeiro, o Palmeiras me contratou e foram anos muito bons.

Como você foi contratado pelo Newcastle?

Teve uma coisa que não existe no mundo de futebol. Você ser contratado por um time como Newcastle, ou qualquer outro grande inglês, sem ter nenhum empresário envolvido.

Tinha um grande amigo palmeirense, um garoto de 22 anos, chamado Umberto Silva. Ele foi estudar na Inglaterra no intercâmbio e foi morar na casa de uma pessoa que era próximo do Bev Walker. Ele era o empresário do Nigel Mansell [o piloto de Fórmula 1] e era muito próximo do Malcolm MacDonald, na época comentarista da BBC e uma grande legenda do Newcastle. O meu amigo começou a levar material sobre mim, como artigos do jornal, revistas, vídeos que ele fazia no cassete VHS, e foi introduzindo para o Bev Walker, quem começou a levar o material para o Malcolm MacDonald.

“Em ’87 fui convocado para minha primeira seleção principal, para a Stanley Rous Cup, lá na Inglaterra. Fiz o gol contra a Inglaterra no empate e fui escolhido o melhor em campo. E depois, num jogo contra a Escócia que ganhamos por 2 a 0, fui escolhido de novo o melhor em campo e foi quando Newcastle bateu o martelo e me contratou. Eles me viram de perto, né?”

Eles estavam me assistindo. O Malcolm MacDonald, Kevin Keegan, e nosso treinador na época Willie McFaul, que era um cara maravilhoso, muito bacana. Depois dos dois jogos, o Newcastle chegou e oficializou a contratação.

Minha transferência foi misteriosa. Eu fui convocado para os Jogos Pan-Americanos em Indianapolis e estava treinando com o grupo na Granja Comary, e eu tive que pedir uma dispensa de dois dias para ir fazer os exames médicos e assinar o pré-contrato. Eu saí do Rio numa quarta-feira, cheguei em Londres na quinta, fiz todos os exames médicos e tal, em Londres, assinei o contrato com o Newcastle, peguei o avião à noite, na sexta-feira. Eu desembarquei no Rio e ninguém sabia para onde eu tinha ido. Só o Palmeiras, o meu professor Carlos Alberto Silva e meu diretor de seleções, o Doutor Nabi Abi Chedid, quem me liberou, sabiam. E até hoje todo mundo fala e sabe que eu fui o primeiro brasileiro a jogar lá.

“Não fui apenas o primeiro brasileiro a jogar na Inglaterra, muita gente nem sabe disso: fui o único brasileiro a jogar com a camisa da liga inglesa. Todo ano lá, tinha a seleção da liga que jogava contra a seleção da liga da Irlanda, País de Gales ou Escócia. Fui convocado e joguei com todos aqueles monstros do futebol inglês.”

Um adendo. Não fui apenas o primeiro brasileiro a jogar na Inglaterra, muita gente nem sabe disso: fui o único brasileiro a jogar com a camisa da liga inglesa. Todo ano lá, tinha a seleção da liga que jogava contra a seleção da liga da Irlanda, País de Gales ou Escócia. Fui convocado e joguei com todos aqueles monstros do futebol inglês. Teve Peter Shilton, Gary Stevens, Stuart Pearce, Terry Butcher. Era a seleção inglesa, eu e “Ossie” Ardilles. Teve também John Barnes, Peter Beardsley, Gary Lineker. Jogamos contra a seleção da Irlanda em Dublin, e empatamos por 1 a 1.

Newcastle não apenas me deu a oportunidade de me tornar o primeiro brasileiro a jogar na Inglaterra, meu deu também a oportunidade de falar mais uma língua. Me deu muita vantagem. Quando o currículo chega e você fala inglês…

Hoje falo árabe também porque fiquei sete temporadas na Arábia Saudita [como técnico do Hajer Club], e japonês, se eu tiver que conversar, eu consigo, porque joguei três anos no Japão. Mas tudo isso proveniente do inglês. O inglês me proporcionou a oportunidade. Quando você tem o inglês fica tudo mais prático, né?

Seu primeiro jogo no Newcastle foi…

Foi contra o Norwich City. Very cold weather. Very, very cold. I’m sorry for this: fucking freezing [Muito frio. Muito, muito frio. Me desculpe por isso: frio pra caralho] [risos]… Mas foi fantástico. Atmosfera incrível.

Tem um vídeo no Youtube desse jogo…

Sim, vi. Tem umas jogadas do meio do campo. Arrisquei umas batidas de falta de meio de campo. Tudo assessorado pelo Gazza. O grande Gazza. A estreia foi muito bacana. Recebi um calor humano fantástico, dos jogadores, da torcida. Inclusive do Norwich por causa do verde-amarelo, o canarinho inglês. Depois Newcastle também criou um uniforme verde-amarelo em homenagem a minha estada, o terceiro uniforme. Com McEwan’s cerveja como patrocinador. Beer. [Mais risos] In England everything is beer. Lager, lager, lager. Pint, pint. [Na Inglaterra tudo é cerveja. Lager, lager, lager. Pint, pint.]

Naquele vídeo o Steve Bruce chega e te dá uma pancada. Você percebeu a diferença entre o jogo brasileiro e inglês logo de cara?

Sim, sim. É muito diferente. Aprendi muito com futebol inglês e melhorei muito depois da minha passagem pelo Newcastle. A parte técnica, a parte tática do jogo. Quando eu cheguei lá o futebol era ainda jogado [à inglesa]… a bola passava do meio do campo e virava cruzamento. Mas minha dupla de ataque foi eu e Paul Goddard, que tinha ido do West Ham, e a gente tinha muita dificuldade [por serem pequenos em relação aos zagueiros de época]. Mas nós ganhamos muito porque tínhamos o Gazza [Paul Gascoigne] que vinha de trás com a bola no chão, tínhamos o Neil McDonald, o lateral direito que jogava bem com a bola no chão, Kenny Wharton, um canhotinho que também jogava muito bem no meio campo. Jogadores técnicos. O Newcastle passou a jogar, em virtude da baixa estatura dos nossos atacantes, um pouco mais no chão. Willie [McFaul] trabalhava muito as jogadas no chão. Mais estilo brasileiro, francês ou espanhol.

Nesse jogo, Steve deu umas chegadas, mas depois a gente virou amigo. Ele foi para o Manchester United e nós jogamos contra um ao outro de novo. Fiz dois gols nele contra o Manchester em Old Trafford, é um jogo que eu lembro bem.

Foi um grande jogo, né? Todos os torcedores do Newcastle lembram disso até hoje.

Foi, mas o jogo que mais me emocionou no Newcastle foi contra o Liverpool, na casa deles, em Anfield Road.

Nós ganhamos o jogo de 1 a 0, com um gol de pênalti aos 47 do segundo tempo. No Boxing Day [26 dezembro], com Anfield lotado, todo vermelho. E frio, mas eu já estava bem adaptado.

Saiu pênalti aos 47 do segundo tempo e eu era o encarregado de bater. Na frente do Kop. Botei a bola na marca do pênalti, fui para bater e quando eu estava chegando na bola o Bruce Grobbelaar se jogou para a direita e eu só empurrei a bola no meio do gol e corri para a torcida do Liverpool. Eles não ficaram bravos; me aplaudiram. Uma das coisas que marcou a minha passagem é o carinho que o torcedor tem até mesmo pelo o adversário, desde que você esteja fazendo um bom jogo, se comportando bem, eles te aplaudem, isso é muito bonito. Isso é o que nós não temos no Brasil.

Tem menos respeito [aqui], vamos ser bem diretos. Infelizmente, o nosso torcedor, vai para o campo, e nem vê o jogo. Ele fica de costas para o jogo brigando e cantando musiquinha de terror.

Especialmente no norte da Inglaterra tem mais desse calor humano. Dá para fazer uma comparação entre o povo do noredeste da Inglaterra e o povo nordestino do Brasil?

Sim, tem uma grande semelhança. Porque o povo do norte da Inglaterra ele é mais amável, mais amigo, muito mais atencioso, principalmente com estrangeiros. Como o povo do nordeste do Brasil, é maravilhoso.

Quantas vezes a minha mãe abriu a porta da casa para pessoas que a gente nunca tinha visto para dar comida, ou para dar uma dormida. O nordeste é assim. Você já não encontra muito isso no sul ou no sudeste. É mais difícil esse tipo de calor humano.

Eu estive visitando o Newcastle e fui naquele jogo contra o Manchester City, 1 a 1, que o Newcastle estava para cair. Eu fui convidado pelo meu parceiro Lee Payne, que jogou comigo no Newcastle, e com ele a gente ficou.

Acabou que ele me convidou para abrir um restaurante brasileiro em Newcastle, Cabana, a primeira churrascaria em Newcastle. Lee entrou em contato com o Newcastle e eles me convidaram para ir num jogo. Só que eles me pegaram de surpresa. Fui para ver o jogo, mas cheguei lá e estava montado um esquema que eu ia passar em todas as salas dos patrocinadores para dar uma palavra. E depois no intervalo do jogo eles me levaram para o meio do campo para ser apresentado para a torcida. 55 mil pessoas cantando a minha musiquinha…

Pode cantá-la agora?

[Ele respira fundo] We’ve got Mirandinha, he’s not from Argentina. He’s from Brazil, he’s fucking brill [Nós temos Mirandinha, não é da Argentina. É do Brasil, é brilhante][risos]. Foi um momento ímpar na minha vida. Eu não recebi isso no meu país. Eles organizaram essa surpresa e me senti… As lágrimas vieram, sem dúvida.

No Brasil, infelizmente, a memória do dirigente, e do próprio torcedor, ela é muito curta. O futebol inglês é diferente. Eu tive a felicidade de comprovar isso no funeral do Jackie Milburn, que foi o maior atacante da história do Newcastle. Teve uma história que a linha de impedimento foi criada só para o Jackie Milburn, de tanto que ele fazia gols.

Quando ele morreu eu estava em Newcastle e parou tudo, parou a cidade. Ele foi velado na cidade dele lá, Morpeth, uma cidadezinha perto de Newcastle. E aí o corpo dele saiu de Morpeth e veio até o catedral de Newcastle, onde ele foi cremado. Da cidade dele até o catedral tinha gente da rua num lado e no outro, dando o último adeus para ele. Tem arquibancada dele agora, o Jackie Milburn Stand [no St. James’ Park]. Nós não treinamos, foi todo mundo para o catedral. E as cinzas dele foram jogadas pela família dentro do St. James’ Park, no gramado. A cidade parou literalmente. Você não vê esse tipo de homenagem para os ídolos no Brasil.

“Muita gente fala que corintiano é apaixonado, palmeirense é apaixonado, isso é balela. Nosso torcedor só está apaixonado quando o time está bem, disputando as primeiras posições e quando está ao contrário, eles abandonam, não vão em campo, estádio está vazio. Todas as vezes que o Newcastle brigou para não cair é quando eles mais têm público. É ao contrário. É uma fonte de orgulho e todo mundo sabe que Newcastle é assim. Eles têm o Newcastle não como clube, mas como religião.”

Foi difícil aprender inglês? Tem duas coisas em Newcastle, inglês e Geordie [inglês com o sotaque forte da cidade, quase um dialeto].

São duas línguas diferentes. Eu aprendi com uma certa rapidez por ter me dedicado muito. No meu primeiro ano eu tive intérprete. Quem ficou primeiro foi o Umberto Silva, meu amigo que me levou. Ficou três meses comigo. Depois o Newcastle me deu Jim Wallace, quem me ajudou muito também. Ele falava quatro ou cinco idiomas. Jimmy completou a primeira temporada comigo e nesse período Newcastle me deu uma professora de inglês, para mim e a minha família, e ela dava aulas três vezes por semana em casa. Uma portuguesa que trabalhava lá na faculdade. Me dediquei muito. Tirei tudo de português, de televisão, de música, de samba, e mergulhei de cabeça para o inglês.

Para a segunda temporada eu não tive mais intérprete, não tive mais ninguém. Foi quando aprendi muito. Eu ficava geralmente no mesmo quarto com Dave McCreery ou Michael O’Neill, que hoje é treinador da Irlanda do Norte, e eu ia até eles quando eu tinha dificuldades, e aí aprendi muito. Mergulhei de cabeça na cultura e foi como eu aprendi bastante. [O idioma] não foi o mais difícil. O mais difícil foi me adaptar com a alimentação. No início foi grave; não tinha feijão, não tinha arroz, e me senti perdido.

Tinha que comer batata todo dia?

Batata, batata, batata, cenoura, Cornflour [Maizena], brussels sprouts [couves-de-bruxelas]. Eu comecei, com a intimidade que eu comecei a ganhar com meu querido amigo Derek Wright, que era nosso physio [fisioterapeuta], comecei a entrar nas cozinhas dos hotéis e pedir arroz. Eles faziam o arroz da maneira deles, bem diferente da nossa, meio empapado. Então, comecei a comer arroz com bife, com porco. E aí começou que gente vinha atrás de mim. Na hora da comida eles também queriam meu arroz. A coisa começou a pegar e muitos deles aderiram e comiam arroz no dia do jogo, no pre-match meal [alimentação pré jogo].

Eu fazia também eventos em casa e levava eles para comer feijoada, fazia churrasco e a gente introduzia o arroz e feijão que começou a levar. Comecei também a buscar nas lojas indianas, a gente comprava muitas coisas lá.

Eu passei a comer bem, mas no final das contas eu deixei de lado feijão, aderi o roast beef and yorkshire pudding [carne assada com um tipo de massa cozida], que é maravilhoso. A gente saía sempre com a família no final de semana para comer nos pubs e fui me adaptando também. Hoje minha alimentação tem muito a ver com a alimentação que eu tive naquela época.

Depois daquele primeiro jogo contra o Norwich teve uma bela história. Geralmente a gente saía do estádio, parava numa casa de fish and chips e eles compravam comida para todo mundo no ônibus.

As coisas mudaram, né?

Não, é tudo saudável agora, e eles pegam o avião para ir nos jogos. O Derek [Wright] descia [do ônibus] e pegava uma caixa de comida e cada um recebia seu pedido tudo embaladinho. Quem queria peixe, quem queria frango. Estava demorando a chegar depois daquele primeiro jogo e eu estava mais ou menos na metade do ônibus. O Gazza chegou para mim e falou assim, ‘Mira, mira, come here’ [Mira, Mira, venha cá]. O Umberto traduziu para mim, e Gazza falou, “Mira, go to the gaffer, go to the boss and say: ‘Mr. Willie I am fucking starving’” [Mira, vá para o técnico, vá para o chefe e fale: Sr. Willie, estou morrendo de fome, porra]. E aprendi direitinho as poucas palavras e fui lá; Mr. Willie I am FUCKING starving. Ele falou, ‘Mira, what’s the problem?’ [Mira, qual é o problema?] E o ônibus inteiro caiu na gargalhada. Foi a primeira aula de inglês que o Gazza me deu.

E ele continuou dando mais aulas de inglês para você depois?

Nossa senhora, muitas, muitas. Só coisa errada. Só bad words. Bad words, bad words and more bad words [Só palavrões. Palavrões, palavrões e mais palavrões].

Gazza era meu parceiro. A gente estava sempre junto. Eu morava em Dunston Bank, um bairro de Newcastle, e ele morava um bairro para frente. Então, quase todo dia acabava o treino, eu ia para casa, daqui a pouco tocava campainha e aí estava Gazza querendo comer comida brasileira. Eu levei uma empregada baiana e ela fazia arroz, feijão, uma farofa típica baiana e bistecona de porco frita. Ele chegava em casa para comer, quase todo dia ele batia na porta para comer. Comia tudo, farofa, ele gostava muito quando tinha feijão preto, quase como feijoada, ele comia até passar mal.

A gente passou a fazer muitos eventos juntos. Inauguração de shoppings, inauguração de lanchonetes, a gente fazia charity [caridade] juntos, ia muito nos hospitais [para falar com as crianças doentes]. Sempre andei muito com ele e a gente criou uma amizade muito grande.

Vocês continuaram amigos?

A última vez eu fui, eu tentei localizá-lo, mas ele estava muito mal, estava internado. Ele teve um problema de hemorragia, estava perdendo muito sangue. Mas, graças a Deus, parece que ele deu uma melhorada agora.

Na época tinha histórias nos jornais que vocês brigavam e se odiavam.

Sim. Nós criamos uma rivalidade para ganhar publicidade dentro da mídia e para ir para restaurantes e essas coisas todas. Foi uma coisa que fizemos de propósito. E a gente passou a fazer muitas coisas juntas, mesmo não se gostando, como a gente falava. Foi muito bacana.

Quando estava para eu ir embora, ele deu de presente para a minha filha, que nasceu em Newcastle, uma cachorrinha, uma English springer spaniel. Era fêmea e ele queria botar seu nome de ‘Gazza’. Não, é fêmea Gazza, é menina [risos]. E ele falou ‘No, give the dog my name’ [Não, dê o meu nome para a cachorra]. Não, não, não, não, não Gazza. Então eu dei a cachorra o nome Belly [Barriga], em homenagem ao o parceiro dele, que dirigia para ele, o Fat Jim, quem a gente chamava de Fat Belly [Barrigudão].

A coisa que eu comia muito lá era truta. Eu ia pescar muito com Gazza, no mar. Salmão também. Gazza foi fantástico, foi muito, muito bom. Eu sinto saudades. Às vezes eu fico imaginando o que ele teve de oportunidade de vida. Ele chegou depois da Copa de ’90 na Itália e ele era mais famoso do que a princesa Diana. Mas ele perdeu tudo por causa da bebida, de más companhias, até drogas. Ele já tinha uma tendência, o pai dele era alcoólatra. Mas ele era um menino maravilhoso, muito bom de coração.

Lembro que uma vez fomos jogar em Londres e depois do jogo fomos para um boate. Lá tem a coisa de Page Three Girls, aquelas garotas que saem na página três dos jornais. Ele queria ficar com uma menina e a menina era uma Page Three Girls. Ele insistiu, insistiu e queria de qualquer jeito sair com a menina, mas a menina falou que não. No outro dia ela vendeu a história para The Sun ou The Daily Mirror. Saiu na primeira página: a menina de um lado apontando assim, e o Gazza, gordo, do outro lado, porque ele era gordinho, né? E falou assim: Who is this fat boy? [Quem é esse garoto gordo?] Ele fazia coisas que você nem imagina, mas de coração, era fantástico.

Ele seguiu a mesma linha do falecido George Best. Ele teve mais ou menos a mesmo trajetória. O talento e a vida fora do campo eram parecidos.

Ele era um dos melhores jogadores com quem você jogou?

Sim, ele era diferente. Ele pensava na frente de todo mundo.

Você esteve em Newcastle antes de assinar com o clube?

Nem fui a Newcastle antes, só para Londres. Eu assinei, voltei para o Brasil e depois fui para Newcastle para treinar uma semana antes do jogo contra o Norwich.

E o frio, foi difícil treinar?

Eu já passei frio aqui em São Paulo, fazia mais frio na época. Então, eu sabia mais ou menos como é, mas depois sempre faz calor. A coisa é diferente lá. Chegava no centro de treinamento e tinha aquela camada de gelo. Não via grama, só branco, tudo branquinho. Então a gente tinha que jogar naquele gelo. Tinha que esperar o sol sair, quando saía a grama aparecia.

Quando alguém dava uma entrada em você e nesse frio que faz lá, dói mais, né?

Nossa Senhora. Estava tão gelada. Todo mundo usa chuteira com trava de alumínio desse tamanho [estica mão para mostrar] e entra muito forte. E no frio dói muito mais.

Você se surpreendeu com a cultura de bebida e os pubs lá?

Nossa. Eu vi cada coisa… Às vezes a gente saía com alguns amigos em Newcastle. Ex-jogadores e os amigos deles. Tinha um amigo nosso quem era amigo do Jimmy Wallace, meu intérprete, e ele botava um pint lá no lado dele, começava tomar, quando tomava dois ou três dedos ele já pedia outro para colocar no lado para tomar depois. Ele tomava de vinte a trinta pints daquele.

Não só o inglês, o irlandês bebe muito também. O irlandês bebe muito Guinness. É fortíssima. O John Anderson [zagueiro irlandês], que jogava com a gente, chegava nos hotéis, véspera de jogo, foi para o bar do hotel e já estava tomando um pint de Guinness tomando. Na Inglaterra eles falam que a Guinness é muito nutritiva. Eles falam que tem muito nutriente e tomavam duas ou três daquelas na véspera do jogo para dormir.

O Willie McFaul te ajudou muito?

Willie me ajudou muito. Eu fiquei os dois primeiros jogos sem fazer gols e no terceiro jogo eu fiz um gol e ele estava meio desconfortável no cargo. Eu saí correndo, passando todo mundo, cheguei lá e dei um abraço nele. E saiu no jornal: This is for you, boss [Isso é para você, técnico]. Depois disso a nossa amizade ficou muito mais próxima. Você já tomou caipirinha?

Sim, claro!

Tenho uma história de caipirinha muito boa. O primeiro evento eu fiz lá na minha casa foi o aniversário do meu filho mais velho. Fiz feijoada e fiz muita caipirinha. Willie McFaul comeu tanta feijoada e tomou tanta caipirinha que à noite e ele não conseguiu levantar do sofá. A família dele foi embora e veio buscá-lo no dia seguinte.

A saída dele foi uma das causas da minha saída do Newcastle. Ele saiu no meia da segunda temporada. E aí eles trouxeram o Jim Smith quem era um louco, varrido, não tinha nada na cabeça. Era agressivo, batia, falava palavrão, xingava, achando que ia motivar a gente. Teve um jogo, Newcastle e Liverpool, e eu era titular do time. Nessa semana ele me deixou fora, nem treinando no time principal. Foi me deixando, me deixando. Chegou no dia do jogo, ele mudou tudo e me botou para jogar. Eu fiz um gol e bati uma bola na trave que ficou passando o ano inteiro na televisão. A bola bateu no poste esquerdo, passou atrás do Bruce Grobbelaar, bateu no poste direito e veio na mão dele. E depois do jogo ele foi falar que ele tinha usado como uma estratégia para me motivar. Coisa de doido. Como você vai ficar a semana inteira falando que não vou jogar e de uma hora para outra muda totalmente a ideia.

Ele tirou Gazza, vendeu Gazza para o Tottenham. Neil McDonald saiu e ele trouxe Kenny Sansom, Ray Ranson, Dave Beasant do Wimbledon e Andy Thorn, o zagueiro do Wimbledon; grande, gordo, lento, agressivo. E trouxe dois escoceses, John Hendrie and John Robertson. Isso matou nosso time, e foi quando caiu. Eu saí antes do fim da temporada e vim emprestado para o Palmeiras.

Foi quando eu cometi a grande besteira da minha carreira. Eu fiquei a segunda temporada toda trabalhando junto com o Sir John Hall [ex-dono do Newcastle], comprando as ações para ele assumir o clube. Quando eu vim emprestado para o Palmeiras ele comprou 51% das ações e assumiu. Depois eu tive a oportunidade de voltar. Ele fechou para me levar de volta; ele já tinha visto passagem, já tinha arrumado uma casa para mim. Só que eu estupidamente resolvi ficar Palmeiras no, que me convenceu a ficar para ter chance de disputar a Copa de ’90. Isso foi no final de ’89 e falei não vou, vou ficar no Brasil para ir para a Copa do Mundo.

Eu perdi a oportunidade, o John Hall me amava e queria me dar cinco anos de contrato. Eu estaria até hoje lá. Não teria vindo embora; de jeito nenhum. O John Hall, ele gostava tanto de mim que quando eu não ia jogar ele não ia ao estádio. Quando eu estive lá [cinco meses atrás], eu consegui o contato e ele veio para Newcastle só para me ver. Passamos a manhã toda, tomamos café, conversamos muito. Foi a grande burrada que eu fiz na minha carreira.

Voltei para o Palmeiras, fiz um monte de gols, chegou na convocação para a Copa da Itália e Lazaroni levou o Romário com pé quebrado. Eu era o substituto imediato do Romário. Ele foi aprovado para ser inscrito e não jogou nenhum jogo. Eu perdi a seleção e perdi o Newcastle. É uma das coisas no futebol que eu me arrependo de ter feito. Na verdade o ano de ’90 pro Palmeiras foi muito ruim, para o time inteiro e para mim também.

No final do ano Palmeiras me vendeu para Belenenses de Portugal, fiquei três meses, e Belenenses não tinha dinheiro para pagar meu salário ou para pagar o Palmeiras. Foi quando eu vim embora pro Corinthians.

É verdade que você trocou de caneleiras com o Gary Lineker?

Isso foi depois do jogo entre Brasil e Inglaterra. Acabou o jogo, ele abaixou a meia, e aí eu vi a caneleira dele com a foto dele e eu pedi para trocar. Eu fiquei muitos anos com essa caneleira. Era Sondico [a marca] e tinha a foto dele na frente.

E a camisa?

A camisa eu troquei com Tony Adams. O zagueiro. Era muito grande, muito forte e batia muito também.

Quais foram os “piores” zagueiros contra quem você jogou na Inglaterra? Os mais sujos e duros de passar.

Eu tive muito dificuldade de jogar contra o Tony Adams. [Mark] Radcliffe, do Everton. Ele não era muito alto, mas era muito rápido e marcava muito próximo. Eu gostava muito de sair para os lados de campo para receber com espaço, para driblar e começar jogadas. Com ele, quando eu saía, ele saía junto, os outros em vez de sair, retornavam e ficava mais fácil. Gary Pallister também marcava muito forte. O Steve Bruce. Teve um negão que jogava no Wimbledon com a bandagem na cabeça [Eric Young], era louco. O time do Wimbledon naquela época era muito maldoso. Era ele, Vinnie Jones, John Fashanu, o atacante que batia nos zagueiros. Era muito forte, difícil de jogar.

Você já esperava isso antes de chegar lá?

Sim. Já tinha conhecimento. Já tinha tido informações, vi na televisão.

Você tinha uma reputação na Inglaterra de ser um jogador fominha, de chutar de todo lugar e segurar a bola.

Na verdade essa fama de fominha começou no Brasil e espalhou pelo mundo inteiro. Quando eu cheguei no Japão, se eu chegava na linha de fundo e chutava para o gol, todo mundo falava ‘ei, Mirandinha, toca para trás’. Como eu era um jogador muito rápido, muitas vezes eu chegava na linha de fundo e não tinha como racionar. Estar em alta velocidade e ainda ter condição de olhar e ver quem está dentro da área [é muito difícil]. Muitas vezes, como eu era muito rápido, eu chegava sozinho. Então eu me aperfeiçoei em chutar da linha de fundo. Eu treinava isso.

Eu fiz inúmeros gols por isso, por ser decidido. Eu não tirava a responsabilidade de cima de mim para passar para o companheiro. Eu lembro um jogo, Brasil e Paraguai, no Pré-Olímpico do Equador eu fiz uma tabela com Mário, o jogador de Fluminense. Ele tocou a bola para a linha de fundo e eu cheguei, só estava eu, o gol e a bola. O goleiro estava no pé da trave, um palmo, mais ou menos, da trave e eu vi que a bola só ia entrar ali. Então eu bati e marquei entre o goleiro e a trave. Ninguém acreditava que eu fosse fazer o gol. Nem eu.

Eu treinava essa jogada. Quando eu chegava no bico da pequena área para a linha de fundo eu olhava o goleiro. Ele sempre fazia a mesma coisa, pensando que você vai cruzar. Ele já está assim [ele se joga um pouco para a imaginário canto oposto do gol] e eu batia aqui em cima e não dava nem chance. Eu fiz vários gols assim e depois do jogo, os outros falavam, ‘porra, Mirandinha, toca para trás’. Toca para trás nada [risos].

No dia seguinte ninguém vai falar de quem fez o passe, vai falar de quem botou a bola para a rede. Quantas vezes eu passava em campo, me arrastando, jogando mal, não fazendo nada, mas eu botei a bola na rede para o gol da vitória – melhor em campo.

Eu era predestinado. Eu vim para jogar futebol. O futebol eu usei como tábua de salvação. Eu era pobre, de família muito humilde, meu pai e minha mãe semianalfabetos, salineiros. Eu botei na minha cabeça que eu ia ser jogador de futebol para ajudar a minha família. Eu criei aquela coisa de ímpeto. Eu tinha que fazer o gol. Então, desde garoto eu saía trombando com todo mundo e ia para dentro do gol. Aprendi a conviver com isso.

Quando eu tocava para trás nem os meus próprios companheiros acreditavam. Eles achavam que eu tinha errado. Eu batia a bola muito direcionado, tinha muita precisão nos meus arremates. Quando eu estava dentro da área, eu sempre sabia onde estava o gol, mesmo se eu estava de costas para o gol.

Uma das coisas que eu aprendi com um dos grandes atacantes do futebol mundial, Vavá, campeão mundial com a seleção, o leão da Copa, e quem foi meu treinador quando tinha 17 anos, ele falou para mim assim: ‘Atacantes tem que ter três coisas: primeiro, não ter medo de errar; segundo, não tirar responsabilidade de si para passar para o companheiro; e terceiro, antever a ação do goleiro. ’

Isso quer dizer que onde eu estava dentro da área, antes do companheiro chutar, eu já fui para a segunda bola. Hoje você não vê. O goleiro solta e o cara está olhando para o céu, para a torcida e não está lá.

Qual outro jogador Brasileiro que também é assim ou faz a mesma coisa?

Fred, ele faz. Neymar também. Ele é um cara com um pouco do meu estilo, que vai reto para o gol. Ele dribla, mas eu não era jogador de drible, eu botava na frente e usava minha velocidade. Eu fazia 50 metros lançado em 5,8 segundos. . . Durante 5 ou 6 anos eu era o jogador mais rápido de futebol brasileiro. Eu ganhei isso nas praias do Ceará. Era muito difícil o zagueiro disputar corrida comigo. No tempo que ele pensou, ele já perdeu. Romário era assim, essa explosão de 5 metros já é bastante para fazer o gol.

O que eu quero passar para os meus jogadores é esse feeling e o timing. Você tem que antever os movimentos do goleiro, é quando você pode antecipar um arremate. Típico de atacante.

Quando você volta para o Ceará, para Fortaleza, como é sua recepção lá?

É muito boa. Eu tive a felicidade, depois de muitos anos fora do Ceará, só viajando, morando fora, indo para passear, de voltar lá em 2008. Assumi a Fortaleza, fui treinador e fui campeão. Depois eu saí de novo para o mundo árabe. Quando eu voltei, estava no início da obra da Arena Castelão para a Copa do Mundo e fui contratado para trabalhar na Copa. Fui embaixador da Copa no Ceará e fiquei três anos e meio dentro da Arena. Aí eu voltei a conviver verdadeiramente com o meu povo. Foi muito bacana. Eu não tenho rejeição em lugar nenhum. Sou um filho da terra.

Você se sente muito em casa aqui em São João também? Igualmente como você se sente em Fortaleza?

Sim, igualmente. Até, em determinados pontos, melhor aqui do que em Fortaleza. Mas essa passagem da Copa foi fantástica para mim porque eu tinha muita experiência em campo, depois fora de campo [como treinador], mas não tinha muito conhecimento desse lado administrativo do futebol. Eu recebi delegações do mundo inteiro. Eu que dava palestras e apresentações. 37 mil pessoas passaram no Castelão e isso me deu uma coisa especial.

Quais críticas você faz com relação aos estádios feitos para a Copa, especialmente no nordeste. Como você vê o legado?

A Arena Castelão, que é hoje o terceiro maior estádio do Brasil, ela foi construída de uma maneira que ficou clara que quando acabasse a Copa, seria usada bem. Foram investidos R$ 559 milhões para um estádio de 65 mil lugares, quando a Arena Amazônia, por exemplo, que tem 30, 35 mil lugares, custou R$ 900 e poucos milhões.

A Arena Castelão valeu muito mais a pena. Fortaleza tem público [para futebol], tem muitos eventos realizados lá dentro, tem os dois clubes. Você não pode falar a mesma coisa para esses estádios que foram construídos em estados que não têm futebol, não têm tradição. Em Manaus nem tem clube nem da Série C. A Arena em Brasília tem a mesma coisa. Lá só quando os grandes clubes vão que tem público.

Você também jogou no Japão…

Sim, três anos. No Bellmare e Shimizu S-Pulse. São clubes de Shimizu, perto do Monte Fuji e de Hiratsuka, mais perto de Tóquio. Foi muito diferente o estilo deles. Foi difícil para adaptar na questão de morar. Comida diferente, hábitos diferentes. Tudo diferente.

Muito terremoto. Quase todo dia. Vocês está aqui almoçando e a sala vem tremendo, daqui a pouco começa a balançar o lustre. A tensão é sempre constante. Está sempre preocupado. Tinha vários brasileiros lá nesse período. Tinha eu, Zico, Oscar, e outros estrangeiros como o Ramón Díaz. Gary Lineker que estavam lá, jogou no Toyota. Até o Arsène Wenger.

Você vê algum paralelo com do fluxo de brasileiros para a China com o que aconteceu no Japão nos anos 90?

Não tem muito a ver, não. Quando eu fui para o Japão, eles estavam mandando muitos jogadores para cá e levando uns garotos para lá, mas não gastando essas fortunas que os chineses estão gastando hoje. Eles queriam adquirir a mentalidade futebolista nossa. Eles estão levando jogadores veteranos que não vão acrescentar muita coisa. Futebol japonês levou jogadores que estavam querendo mostrar ainda seu trabalho e se entregaram. Os jogadores que vão pra China querem muito dinheiro, pouco treino, e muita mídia. A verdade é essa. Nós acrescentamos muito para o futebol japonês e se tornaram uma seleção muito mais forte.

Se te chamassem para ser o técnico do Newcastle, você iria?

Sem dúvida. Não pensaria duas vezes. Eu tive a oportunidade de ir para lá quando tinha o Bobby Robson. Eu fui fazer uma visita em Newcastle e ele me mostrou o estádio. Depois da visita, ele me convidou para trabalhar com a base. Naquele momento eu não podia porque eu estava com contrato na Arábia Saudita. Meu amigo Lee Payne está trabalhando para achar uma outra oportunidade para me levar lá também. Tenho esperança de voltar. Farei o curso da CBF ou, quem sabe, da FA [Federação Inglesa de Futebol].

Como você acabou sendo chamado Mirandinha? É um apelido estranho para alguém chamado Francisco.

É, meu nome é Francisco Ernani Lima da Silva. Quando eu cheguei para treinar no Maguari o treinador botou os dois times para fazer um jogo. No São Paulo já tinha um Mirandinha que fazia muitos gols e era muito rápido, jogou na seleção brasileira. E aí eu peguei uma bola no meio de campo e fui driblando todo mundo. Quando eu cheguei na frente do gol, a válvula de ar estava saindo da bola, e quando eu bati e a bola se chocou com a rede, ela estourou. Um garoto que estava jogando contra mim gritou para o treinador, ‘olha aí, Alexandre, um gol de Mirandinha!’ E depois ficou. Mirandinha, Mirandinha, Mirandinha. Francisco, se perguntar, ninguém sabe quem é.

Qual clássico é mais grandioso: o Clássico Rei [Fortaleza vs Ceará] ou o Tyne-Wear Derby [entre Newcastle e Sunderland]?

Fortaleza era um time modesto e Ceará sempre foi muito poderoso. Quando acabou Maguari, a primeira vez que acabou, todos os torcedores viraram Fortaleza e se tornou uma rivalidade muito grande. Eu tive a felicidade de jogar Clássico Rei como jogador e como treinador. Em ’91 fui campeão pelo Fortaleza. É uma coisa fantástica, a emoção dentro do campo é tremenda. Depois fui como treinador em 2009.

Comparando com Newcastle e Sunderland, a atmosfera é outra. Lá, como eu falei antes, é como religião. Lá em qualquer situação vai ser sempre aquela loucura. Existe uma coisa no nordeste que os torcedores do Ceará não vão quando Fortaleza é mandante e vice-versa, para não dar receita para o outro clube. É absurdo, você tem que ir para torcer para seu time, para apoiar seu time. Na Inglaterra a torcida se preocupa com o time dele, não se preocupa tanto com o Sunderland. Em Sunderland é a mesma coisa, ou Manchester ou Liverpool. No nordeste [do Brasil] as pessoas se preocupam demais com o que o outro clube está fazendo.

Pós-graduado em Políticas Públicas pela University College London. Trabalha como jornalista freelancer, escrevendo para Planet Football, i, e Forbes, entre outros. Gosta de escrever sobre o futebol no campo, mas também sobre as relações entre o jogo, sociedade e política.

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