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Tinga

O futebol consegue proporcionar as mesmas condições para negros e brancos como nenhuma outra área no Brasil. Algumas outras modalidades esportivas ficam restritas a alguma camada social, seja pelo investimento necessário pra se praticar, ou pela simples falta de prática na cultura brasileira.

Uma coisa é praticar a modalidade, no caso, o futebol. Não há nenhuma discriminação se negro ou branco, baixo ou alto, rápido ou lento. Jogar bem futebol é o essencial. Até aí. Mas exercer um cargo fora de campo que não seja de roupeiro, massagista ou preparador físico, já requer um degrau acima nessa análise.

A máxima de que no futebol brasileiro não há racismo por haver abundantes jogadores negros cai por terra quando não se observa, na mesma proporção, treinadores e dirigentes que não sejam brancos. Qual o momento que há essa triagem? Seriam os negros incapazes de adquirir conhecimento necessário para exercerem cargos de liderança? Evidentemente que não é a cor da pele que determina isso.

Há, no entanto, dois pontos e Tinga os apontou cirurgicamente: um se refere à existência de negros que nem sequer tentam alcançar determinados cargos por internalizarem que não são para si; outro se refere à sociedade — como um todo — que não estaria preparada para aceitar uma posição de liderança exercida por um negro. Tinga foi contratado no final de 2016 para ser gerente de futebol. Nenhum clube grande brasileiro tinha apostando em um negro até então.

O futebol faz parte da sociedade. Se há racismo nela, o futebol, obviamente, não ficaria imune. Tinga expôs seus pontos de vista. E, ao participar de um curso da CBF de Gestão no Futebol, no Rio de Janeiro, que ocorreu o encontro com a Corner. Ele chegou de manhã do aeroporto e foi diretamente ao hotel onde concedeu a entrevista. Mais tarde, logo após o almoço, iniciava o curso na sede da Confederação Brasileira de Futebol, na Barra da Tijuca

Com seus dreads volumosos ele marcava um estilo próprio e de destaque, o que não deixa de ser um posicionamento. Seu cabelo foi empecilho para uma oportunidade de trabalho. Quem não cortaria o cabelo pra assegurar um emprego? Tinga não cortou.

Ele se tornou um ícone da questão racial por uma declaração: trocaria seus títulos para que houvesse igualdade. Explicou que se referia não somente à igualdade racial, mas também à social e de gênero.

Você acha que o racismo aumentou ou só passou a ser mais noticiado?

Não é que tenha aumentado, mas devido às mudanças que ocorreram no mundo, como a internet, muitas coisas que se falavam nos anos 90, talvez, numa mesa de bar ou numa esquina com um amigo, hoje as pessoas escrevem. E isso se multiplica rápido, acaba ficando registrado. A mudança que eu vejo é essa, que tudo é feito pela internet e acaba aparecendo muito mais. Uma pessoa falando numa esquina é diferente de jogar uma coisa na internet pra milhões de pessoas. Não é que não existia e hoje existe. A mudança é essa. Não é somente sobre racismo, preconceito no geral. Como se ser diferente fosse algo que diminui as pessoas. E isso tem se expandido mais. É o que eu penso, não acho que seja a verdade absoluta. Essa questão da internet entrou nas nossas vidas e ninguém nos educou pra isso. Ninguém nos treinou pra que aquilo que você comentava numa esquina agora ficaria registrado e chegaria a milhares de pessoas. O ensino e a educação não se atualizaram.

Mas esse avanço tecnológico teve um impacto positivo ou negativo?

As duas coisas. Muitas pessoas inovaram e conseguiram coisas boas através disso, claro. Mas no caso dos comentários e preconceitos, é isso: a pessoa vai e fala. Mas eu sempre fui muito seguro de mim mesmo. Não por ter sido um atleta bem sucedido. Sempre soube das dificuldades de ser pobre, em primeiro lugar, e depois de ser negro. Nunca fiquei com medo de não conseguir, ou de não poder. Muitas vezes escutei ao longo da vida: “ah, o negro tem que fazer duas vezes mais pra chegar”. Isso é impossível. Tu fazer duas vezes mais com 100 anos de atraso. Correndo 100 anos atrás, em termos de ensino, de educação. Mas sempre acreditei no valor do ser humano.

Seu posicionamento contra o racismo te proporcionou algum tipo de perseguição? Você passou a receber mais ofensas raciais?

Veja bem, ​eu não tive posicionamento nenhum. Cada um tem a sua maneira de guerrear ou de buscar aquilo que é seu de direito. Acho que o Aranha fez muito bem. Eu não fiz nada.​ Simplesmente acabou o jogo no Peru, onde as pessoas gritavam macaco quando eu pegava na bola, e dei uma entrevista logo após o jogo falando que eu trocaria todos os meus títulos por igualdade racial e social. Foi a única coisa que eu fiz.

Depois eu passei a falar sobre o assunto quando me perguntavam. Não fui à delegacia, não falei mal dos peruanos. Foi a minha maneira. Uns deram parte, xingaram, cada um tem a sua maneira. Eu estou falando isso com muita tranqüilidade, mas o repórter me pegou três segundos após o fim do jogo, em uma derrota na estréia pela Libertadores. Me perguntou sobre isso e é natural que talvez eu fosse xingar todo mundo e desabafar. Talvez o que tenha surpreendido foi isso: falei que eu trocaria tudo que conquistei por igualdade. Se todos ganhassem o mesmo salário, por exemplo. Pra mim seria o mais justo. Nem estou falando só da cor da pele, estou falando de tudo. Por estar falando de igualdade, naturalmente vou enxergar isso a partir da dificuldade que eu enfrentei por conta do racismo, mas tenho que ser sincero como sempre fui a vida inteira. Eu dizer que aquilo que aconteceu no Peru vai me deixar com depressão, vai acabar com a minha vida, eu estaria mentindo. A coisa mais difícil que eu passei na minha vida nesse aspecto foi quando eu tinha 14 anos e vinha caminhando na rua e a pessoa atravessava pro outro lado achando que eu ia assaltá-la. Isso sim me machucava. Estar em campo e a pessoa me chamar de macaco… isso não é nada. Sempre achei isso uma falta de respeito. Mas isso sempre aconteceu. E nunca me machucou.

Você deu uma declaração defendendo a torcedora do Grêmio que insultou o Aranha, que ela não deveria sofrer sozinha as conseqüências.

Tem pessoas sérias de raça negra que acharam que ela tinha que sofrer sozinha. Pô, primeiro que é um ser humano. Está todo mundo no estádio xingando o Aranha. Acontece em todos os lugares. Aí você quer pegar uma pessoa e colocar todo o problema, que vem de muitos anos, como se ela [a torcedora do Grêmio] fosse a figura e imagem do preconceito. Fizeram isso com aquela menina. Poderia ser qualquer pessoa. Pedi pras pessoas terem cuidado em como conduzir. Só o fato de ter saído na mídia já deve ter sido um aprendizado pra ela sobre alguns valores. Mas ao ponto de dez carros de polícia buscarem a menina no dia que ela foi depor…. Às vezes o cara mata e não tem um carro de polícia pra prender. Ou a gente quer resolver as coisas ou quer dar resposta midiática e fazer promoção. Eu procuro a resolução. É uma falta de respeito, é horrível, é preconceito. Mas dizer que isso tira o meu sono, não tira. Mas eu sei que numa favela, onde o cara precisa muito de uma oportunidade, ela não é dada pela cor da pele ou até por ser de um bairro. Meu apelido é Tinga, por ser do bairro Restinga, que era considerado na época o mais violento, mais pobre. Eu sou do tempo que me perguntavam onde eu morava e eu falava baixo o nome do bairro, rapidinho. Hoje eu tenho orgulho de falar que sou de Restinga. Pude mudar meu nome, deixar de usar o Tinga, quando fui jogar fora. Mas quis que ficasse Tinga por representar meu bairro. Mas eu cresci com vergonha de falar que morava lá. Foi um bairro que foi formado assim, pegaram todos os negros pobres e jogaram pra lá.

Sua mãe disse que um negro teria que fazer o dobro pra conseguir as coisas. Você, em algum momento, chegou a acreditar realmente que a condição do negro era inferior e que era assim mesmo? Internalizou a questão e em algum momento teve um estalo, quis romper essa condição e encarar de igual pra igual as coisas?

Não é de igual pra igual. Mas eu não posso ficar por isso mesmo e me acovardar. Esse discurso de ter que trabalhar dobrado me estimulou sim, a me preparar e me qualificar mais. Sempre conto a história que tive uma base familiar exemplar. Minha mãe saía pra trabalhar o dia inteiro durante a semana e de sexta e sábado ia trabalhar de madrugada. Me pedia pra não fazer barulho pra ela descansar das sete às dez da noite, quando ela saía pra trabalhar no clube Teresópolis, onde tinha as festas, ela limpava lá. Quando dava sete da manhã, eu e minha irmã, a gente ia pra janela ver ela chegar cheia de sacola com um monte de alimento que a gente não tinha e que sobrava das festas, refrigerante e um monte de coisa gostosa. Desde pequeno eu cresci com isso aí. Aprendi que trabalhar era bom. Esse foi o recado que ela me deu. Casei cedo, a minha esposa era minha vizinha, teve a mesma base que tive. Às vezes as pessoas só falam, sem saber o que é. A minha esposa é loira e da Restinga. Era pobre como eu. Também tinha muitas dificuldades e vergonha de dizer que era de lá.

Você atuou em Portugal, Japão e Alemanha. Houve algum episódio racista contra você nesses países?

Essa coisa de olhar pro lado é muito nossa. Na Europa ninguém olha pro lado. Não querem saber como você se veste. Se você tem uma auto-estima baixa, você acha que não estão te olhando porque você é negro ou tem um cabelo ou roupa diferente. E se te olharem, você vai achar que é porque você negro. Tem um pouco da auto-estima de cada um.

As grandes entidades como CBF, UEFA e FIFA sempre se posicionam contra o racismo. Mas como você vê efetivamente a atuação dessas entidades?

Só olhar na prática. Vamos falar do nosso país e daquilo que eu conheço um pouco mais que é o futebol. ​Quantos presidentes de clubes negros nós temos? Treinadores? Gestores? Num país que mais de 50% da população é considerada negra. Aí você pega os jogadores, um monte de jogador negro. Mas nos cargos de liderança você não vê. Então é bonito botar placa de não ao racismo, mas e a oportunidade? Será que estamos preparados pra sermos liderados por um negro?​ Pra ele realmente dar as cartas? Ou, o fulano é bom, mas [só] até aqui. Tem que ver na prática. Essa é a forma. Dar o recado é fácil, botar slogan, mas e na prática? Em alguns lugares está acontecendo. Eu posso falar da minha vida. O Cruzeiro sim colocou na prática. Não só por me colocar como gestor. Não por eu ser negro, mas por ver capacidade em mim. O presidente não queria nem que eu saísse do clube. Mas eu disse que ia sair, estudar e voltar. E nos dois anos que eu estava estudando, encontrei um presidente de um clube e ele me perguntou o que eu achava de trabalhar com ele e tal. Eu até disse que ainda não era a hora, mas ele disse que era só eu cortar o cabelo e estava tudo ok. Por isso que não gosto de falar só da questão da cor da pele. Eu tinha qualidade pra trabalhar, mas tinha que cortar o cabelo. Então, você quer o meu conteúdo, o meu trabalho ou está preocupado com o meu visual? O Cruzeiro foi diferente. O presidente nunca falou nada sobre cortar um fio de cabelo. Eu só quero estar no futebol, na função que estou pela qualidade de meu trabalho. Se eu não ganhar, não apresentar resultados, pode me mandar embora. Eu vou pra casa, vou buscar outra coisa. Não é ter cota pra negro trabalhar no futebol, é deixar concorrer igual.

Um país que nunca teve um presidente negro, que vê Jair Bolsonaro crescer politicamente em pesquisas presidenciais, com discursos homofóbicos e de racismo reverso. Como você observa esses discursos?

Eu não acompanhei. Só escuto falar. Essa é uma das coisas também. A gente fala sobre qualquer coisa que ouviu falar sem ter conhecimento do assunto. Eu escuto dizer que fulano falou tal coisa, sem saber o tom ou timbre que ele falou, ou o contexto e já saio metralhando o cara ou defendendo. No caso do Bolsonaro, não tenho o que falar. Mas vejo que no mundo se abriu um caminho que as pessoas que falam o que pensam acabaram ganhando um status de salvador do mundo. Não estou falando do Bolsonaro pois não tenho conhecimento sobre o que ele fala. Isso é no geral. Mas falar que se pensa é egoísmo. Eu não tenho que pensar um pouco em quem vai escutar?

E quanto ao racismo reverso?

Falei das dificuldades que minha esposa também enfrentou. Mas se falarem que sofreu preconceito pela cor da pele ser branca, eu vou dizer que não. Mas de repente, dentro de algum contexto, dentro de alguma região específica, talvez possa haver. Pode entrar a opção sexual também.

Esse discurso de racismo reverso se dá a partir das cotas raciais, como você enxerga essa questão das cotas em universidades públicas?

Primeiro é preciso entender os porquês. Eu não vejo porque não ter cota. Eu explico a necessidade de cotas pelo atraso que os negros sofreram. ​Se alguém um dia pensou em criar as cotas raciais, foi porque entendia que havia um déficit. Ninguém ia pensar do nada sobre isso. Branco tem que ter cota? Mulher tem que ter cota? ​Enxergaram algum desequilíbrio. Quantas pessoas sabem realmente o porquê das cotas? Não sabem e são contra. Sou a favor​, mas como tudo no Brasil, é desorganizado. Meus filhos não precisam de cota, pois tenho condições de pagar ensino particular. Mas as pessoas não querem entender. Acham que não e pronto. Os negros saíram 100 anos atrás pra estudar. E tem que ter trabalho como qualquer outro e nas condições como todo mundo. Arrancar junto, e não arrancando atrás, já está bom.

Jürgen Klopp. Você atuou por duas temporadas sob o comando dele no Dortmund. Fale sobre essa experiência.

Ele que acabou com a minha carreira no Borussia. Assim, eu sou muito fã da Alemanha. Não só pelo futebol, mas por tudo que o país me apresentou. E o Klopp — estou falando de quem encerrou a minha carreira lá, quem falou pro pessoal não renovar o contrato comigo —, foi um cara que eu tenho uma história muito legal. Ele é muito espontâneo, ele é aquilo mesmo. Um cara que brinca, que ri, o que é uma coisa até diferente lá pro alemão. Ele acaba sendo um gestor de grupo legal por isso. Acredito que a maior qualidade que um treinador tem que ter é a gestão de grupo. Ele faz isso muito bem. Só que ao mesmo tempo ele grita, faz umas loucuras. Eu era o mais velho do time. Um dia acabou um amistoso e ele entrou gritando comigo pra caramba. Falei que ele não podia falar assim comigo. A gente ficou discutindo e o negócio ficou feio. Subimos pra sala do diretor. Ficou eu, ele e o Michael Zorc, o diretor de futebol que foi o capitão do time campeão mundial contra o Cruzeiro [em 1997]. E como a discussão subiu de nível — porque quando você está fora do país, você fala a linguagem do futebol —, aí chamaram o intérprete. O negócio foi subindo. E essa coisa de intérprete é muito complicada, pois eu passo pra ele e não sei como ele está repassando. Eu disse: “fala pra ele [Klopp] que eu não sou menino, pra ele não falar comigo como ele fala com os meninos aí, que eu não gosto do jeito que ele fala comigo. Toda vez que ele falar assim comigo, eu vou falar com ele também de igual pra igual”. Daí ele falou assim pra mim — e isso foi muito legal: “Fala pra ele que eu também não gosto do jeito que ele trabalha, e que no futebol é assim, tem que trabalhar com quem não gosta.” Isso quando faltava um tempo pra acabar meu contrato, sendo que era o primeiro ano dele e me deu moral, disse que eu era o líder dele. Fui um dos anos que mais joguei. Então ficou essa guerra, peguei uma seqüência no banco com ele. Passou uma semana e saiu no jornal que eu não ia ficar mais, que eu estava voltando pro Brasil, que ia ter um jogo de despedida. Estou indo no carro com o motorista, ele morava no mesmo bairro que eu, aparece ele atrás, ele tinha um Porsche conversível, estávamos indo pro treino, ele buzina, ele acena, faz assim [gesticula chamando], aí eu pensei: “Puta que pariu”. Pedi pro motorista, “deixa eu descer que vou com ele”. Entrei no carro, fomos pro treino junto e ele me perguntou se eu ia mesmo voltar pro Brasil, se eu tinha acertado isso. Então aquilo ali pra mim foi uma escolha de trabalho, que eu não ia ficar ali com ele, mas o tem o lado humano, a vida que segue. Ele ficou preocupado comigo, como eu ia ficar. E eu, com aquela coisa de brasileiro, de que se eu te digo não, eu sou teu inimigo, né? Vira pessoal. Aqui a gente não discute os processo, a gente discute as pessoas. Não me deu emprego lá, mesmo que eu não estivesse qualificado, já é porque não gostava de mim. Então foi muito interessante isso. A gente foi batendo papo, mas eu eu estava meio bloqueado. Que viagem esse cara, meu. Foi muito legal essa experiência.

Qual aprendizado você teve então? Esse tipo de relação profissional separada do pessoal, por exemplo, você aplica isso enquanto gestor?

Eu aprendi a separar, mas a gente tem que ver que muita coisa que acontece na Europa a gente não pode aplicar no Brasil, né? Não é todo mundo que vai entender que estou discutindo o processo e não a pessoa. Eu vejo esse erro sendo cometido pelas pessoas que vão estudar e voltam de lá querendo aplicar coisas aqui. Mas nós temos um outro tipo de povo e de cabeça. Aprendi muito com ele. Acho ele um baita profissional, dos melhores do mundo.

Tua relação com Grêmio, você começou lá e foi para o Inter. Como é isso?

O que eu tenho no Sul eu não sei quantos vão ter.​ Eu fui muito felizardo. Tive duas passagens no Grêmio, fui pro Japão, pro Botafogo e depois duas passagens pelo Inter. E fui campeão nos dois. Ando na rua e muitas pessoas falam que não acreditam que eu seja colorado. ​De tanto que me empenhei pelo Grêmio, as pessoas têm dúvida se eu sou colorado mesmo.​ Lógico que vai pegar um ou outro que é mais agressivo. Nesses anos todos, teve um dia que eu estava na padaria e um cara me olhando “brabo”. Ele disse que era uma brincadeira eu falar que era colorado. Aí eu disse que pô, o último grande título que o clube tinha vencido eu estava jogando. Desarmei ele.

O grito de gremista chamando os colorados de macaco é racista ou a rivalidade ameniza?

Eu não acredito que todo mundo que grite macaco grite especificamente por não gostar de negro. Não consigo acreditar. Até porque eu vejo um monte de negros gritando ali. Naquelas filmagens tinha um monte de negros gritando macaco. A origem pode ser racista — que os colorados eram os negros, os pobres, os macacos — e hoje se estendeu sem ninguém saber nem porquê.

Como foi a mudança de posição? Você começou como atacante e foi recuando até virar volante.

Eu agradeço muito ao Botafogo por isso, porque foi o Joel [Santana] que me colocou de volante. E depois quando eu peguei o Tite, falei pra ele que era volante. Ele tomou um susto. Aí começamos a trabalhar assim e cheguei até à Seleção jogando de volante. Mas foi o Joel.

A que se deve a escassez de treinadores negros no futebol brasileiro?

Na verdade, não é somente no futebol. As posições de liderança…a gente não está preparado. Uma coisa que eu sempre falo, que uma vez eu fui num congresso e um cara me perguntou qual era o percentual de negros no EUA. Eu não sabia responder. Como eu já tinha ido muito pra lá, pensei, “ah, deve ter uns 50%”. Ele me disse: “Não, tem 17%”, se não me engano. E aqui no Brasil tinha 52%. Aí, depois eu fui entender. Lá tem 17% mas um é presidente, a melhor apresentadora é negra — a Oprah [Winfrey] —, melhor música…sempre vai ter um negro entre os melhores. Então esses 17% conseguem estar em posições de destaque. Acabam aparentando ter uma presença maior na sociedade. Aqui é a maioria, mas estão escondidos. Parece que nós temos 17% de negros porque não somos representados. Mas tem duas coisas. Primeiro: os jogadores não se preocupam em se capacitar. E você não pode querer exercer um cargo de direção só porque jogou. Não. Todo mundo jogou, não vai ter espaço pra todo mundo. Mas se trata também de buscar e ter coragem. Pensar que não adianta, que não vão deixar chegar até uma posição mais alta. ​Se conformar que o presidente do Brasil, da CBF ou qualquer cargo não vai ser de um negro e nem se candidatar. ​Tem muito terrorismo nisso, de que não adianta, que não vai dar e você cresce com isso, que você nem se postula pra vaga. Tem isso também. Não gosto de ficar só colocando a culpa nos outros. Às vezes as janelas estão ali abertas e a gente nem quer passar por elas, pois já acredita que não vai dar. ​Mas estamos aí pra tentar mudar isso, estimular as pessoas a terem coragem.

Com relação à Primeira Liga, você enxerga um processo de ruptura através dessa iniciativa?

Primeira coisa que é preciso questionar é se quer se fazer um bem pro futebol ou uma queda de braço com uma entidade. Por outro lado, não havia uma cobrança para que se criasse algo pra fortalecer o futebol? Então, por que não abraçar? Antes queriam [uma mudança], mas aí reclamam que tem muito jogo. Aí não dá certo. Acho que o presidente da Primeira Liga não pode ser de nenhum clube. Pois ou o cara vai tentar beneficiar para o próprio clube ou vai até desfavorecer pra mostrar que não está fazendo nada pra ele mesmo. Nunca vai ser natural. Tem que ser um cara tipo o Leonardo pra presidir. Mas sei que só escolheram o Gilvan [de Pinho Tavares] como Presidente da Primeira Liga porque viram capacidade nele. Um cara íntegro. Mas ele é presidente do Cruzeiro e pode haver conflito de interesses. Mas tem que querer o melhor pro futebol, seja com a Primeira Liga ou não.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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