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O malvado favorito

A geração composta por Ryan Giggs, David Beckham, Gary Neville, Paul Scholes além de outros —  e o lendário treinador Alex Ferguson são o eixo central da revolução que o Manchester United atravessou nos anos 1990, e que culminou no fantástico título da UEFA Champions League em 1999, conquistado nos acréscimos, contra o Bayern.

Nem o valor da talentosa geração de 1992 (Class of 92), muito menos o trabalho de Ferguson merecem ser diminuídos — longe disso. Mas, sob um olhar atento e frio, foi Cantona quem mudou o Manchester United de patamar. Não foram apenas seus gols. Foram também seus dribles e movimentos meio sem esforço, a voadora com as travas da chuteira sobre um torcedor xenófobo, o peito estufado e, claro, a gola virada pra cima.

Bad boy desde sempre

Cantona debutou aos 17 anos pelo Auxerre, em 1983. No ano seguinte, ele teve que servir ao exército e só retomou a carreira após a dispensa do serviço militar, tendo sido emprestado ao Martigues, na segunda divisão. Retornou ao Auxerre, quando assinou um contrato profissional com o clube em 1986.

Em 1987, Cantona começou a mostrar a que veio. Suas performances lhe renderam uma convocação para a seleção nacional com apenas 20 anos de idade. Foi logo depois disso que surgiram seus primeiros problemas disciplinares. O atacante deu um soco na cara de seu companheiro de clube, Bruno Martini. Apesar de ter conquistado o campeonato europeu sub-21 com a França, jogando pelo Auxerre, ele deu uma entrada criminosa em Michel Der Zakarian — o que resultou numa suspensão de três meses, logo reduzida para 60 dias. Ainda assim, foi contratado pelo Olympique Marseille, seu clube de coração e de sua cidade natal.

Depois de ficar de fora do elenco que disputaria a Euro’88, Cantona declarou publicamente que Henri Michel, técnico da seleção francesa, era “um saco de merda”. A ofensa acarretou numa suspensão do time nacional por tempo indeterminado.

Em janeiro de 1989, em amistoso contra o Torpedo Moscou, ele chutou uma bola contra a torcida e jogou a camisa no chão após ser substituído. O clube puniu o jogador com um mês de afastamento. Seus problemas levaram-no a ser emprestado por seis meses para o Bordeaux e logo para o Montpellier, por um ano de contrato. No novo clube, se envolveu em uma briga com seu colega de time, Jean-Claude Lemoult: Cantona arremessou sua chuteira no rosto de Lemoult. Mesmo com o apelo de um grupo de jogadores pela saída do atacante, jogadores como Valderrama e Laurent Blanc intermediaram a permanência do jogador.

Sua continuidade foi providencial para a conquista do título da Copa da França, o que levou o Marseille a querer contar com o jogador novamente. Apesar de ter contibuído na conquista do campeonato francês, o presidente do clube quis vendê-lo para o Nîmes na temporada seguinte. Em dezembro de 1991, Cantona atirou uma bola num árbitro por não concordar com suas decisões. A federação francesa aplicou uma sanção de um mês e encaminhou o processo para uma audiência, na qual Cantona chamou cada membro no comitê de idiota, o que levou a um aumento da punição para dois meses.

Em 16 de dezembro de 1991, Cantona, aos 25 anos, anunciou sua aposentadoria do futebol.

Após falhar na classificação da França para a Copa do Mundo de 1990, Henri Michel foi destituído do cargo, dando lugar ao ex-camisa 10 dos Bleus, Michel Platini — admirador confesso de Cantona. Platini disse que se Cantona estivesse jogando, seria convocado. Por isso, aconselhou que o jogador recomeçasse sua carreira na Inglaterra. Por fim, convencido por seu psicanalista, Cantona decidiu retornar ao futebol.

Quase ninguém quis Éric

Antes de deixar oficialmente o futebol francês, Cantona fez um período de testes no Sheffield Wednesday. O então treinador do clube, Trevor Francis, decidiu não contratar o jogador. Em novembro de 1991, Michel Platini recomendou a contratação de Cantona ao técnico do Liverpool, Graeme Souness, que preteriu o atacante para preservar a harmonia no vestiário do clube.

O Leeds United havia terminado a temporada 1990/91 na quarta colocação, apesar dos 22 gols de Lee Chapman. O artilheiro continuava a marcar gols na temporada seguinte, mas lhe faltava um parceiro que ajudasse o clube a voltar à glória. O último título inglês do Leeds havia sido em 1973/74 — o último nas mãos de Don Revie, arqui-inimigo de Brian Clough.

Quebra jejuns

Cantona estreou no Leeds em fevereiro de 1992 e marcou apenas três gols no que restava da temporada — mas foi fundamental na reta final, sobretudo nas assistências para o goleador Lee Chapman, que anotou 16 tentos na temporada 1991/92. O Leeds voltava a ser campeão inglês depois de 18 anos. O Manchester United ficou em segundo lugar e Ian Wright foi o artilheiro daquele campeonato com 29 gols, mesmo tendo jogado por dois clubes (Crystal Palace e Arsenal).

Com a seleção, se classificou para a Euro’92, mas a dupla de ataque com Jean-Pierre Papin não funcionou durante a competição. Os franceses foram eliminados sem vencer nenhum jogo, o que fez Michel Platini renunciar ao posto. Gerard Houllier assumiu a seleção francesa.

Na abertura da temporada 1992/93, Cantona marcou três vezes — ou como os ingleses chamam um hat-trick — na conquista da Charity Shield contra o campeão da FA Cup, Liverpool. Durante a liga, o francês fez mais três gols na vitória por 5 a 0, o que levou o treinador do Manchester United, Alex Ferguson, a fazer uma proposta pelo atacante após tentar contratar, sem sucesso, Matt Le Tissier e Alan Shearer do Southampton — este último acabou indo para o Blackburn —, e David Hirst, do Sheffield Wednesday.

Os Red Devils eram um gigante adormecido e tentavam reconquistar o topo do futebol britânico e voltar à elite europeia. O maior rival dos Diabos Vermelhos, o Liverpool, dominou o futebol inglês e europeu durante as décadas de 70 e 80. O time da cidade dos Beatles ganhou 11 títulos ingleses, quatro FA Cups, quatro Copas dos Campeões da Europa e duas Copas da UEFA desde o último título inglês do United em 1967. O Nottingham Forest — duas vezes — e até o Aston Villa venceram a Copa dos Campeões da Europa, enquanto os Red Devils, adormecidos, haviam conquistado apenas quatro Copas da Inglaterra.

Em novembro de 1992, o francês foi contratado pelo United por £ 1,2 milhão junto ao Leeds, no decorrer da primeira temporada da Premier League — que modernizaria toda a estrutura do futebol britânico. A campanha do Manchester United vinha sendo decepcionante até a chegada de Cantona. O clube tinha dificuldades na parte ofensiva e figurava em décimo lugar na tabela. Mas Éric mudou tudo.

A presença do francês deu uma significativa guinada no time. Se firmou no ataque ao lado de Mark Hughes enquanto Brian McClair foi recuado para o meio-campo. Após sua chegada, os Red Devils só perderam dois jogos e terminaram com o título depois de 26 anos sem conquistá-lo. No entanto, as polêmicas envolvendo o francês continuavam surgindo. Quando o United visitou o Leeds, Cantona cuspiu em um torcedor de seu antigo clube e foi multado £ 1 mil pela Football Association.

Em 1993, seu impacto no título do Manchester United e suas atuações lhe renderam uma Bola de Bronze, outorgada pela France Football, ficando atrás de Roberto Baggio e Dennis Bergkamp. O comportamento, no entanto, continuava o mesmo.

Já na temporada 1993/94, foi expulso na eliminação do United contra o Galatasaray pela UEFA Champions League e, pelo campeonato inglês, levou dois cartões vermelhos seguidos, o que acarretou em uma suspensão de cinco jogos.

Na seleção, os Bleus perderam em casa para a Bulgária por 2 a 1 — com gol de Cantona — e não se classificaram para a Copa do Mundo dos EUA. Uma boa geração com nomes como Blanc, Desailly, Petit, Deschamps, Ginola e Papin, mas que esbarrou na seleção que seria semifinalista nos EUA, comandada por Hristo Stoichkov. Aimé Jacquet assumiu a seleção e nomeou Cantona como capitão do time que disputaria a classificação para a Euro’96.

No entanto, com o United, ele terminou a temporada com 25 gols — em todas as competições — e conduziu o time ao segundo título da Premier League e ainda fez dois gols na vitória por 4 a 0 sobre o Chelsea na final da FA Cup. Sua ausência na Copa do Mundo o deixou fora da disputa da Bola de Ouro, mas foi eleito o melhor jogador da Inglaterra.

A temporada 1994/95 não foi diferente. Cantona já tinha 13 gols quando Andy Cole — artilheiro do campeonato na temporada anterior — desembarcou no clube. Sua chegada colocou o United como franco favorito para a conquista da Premier League.

A voadora

Em 25 de janeiro de 1995, em jogo contra o Crystal Palace, no Selhurst Park, após um chute pra frente de Schmeichel, goleiro do Manchester United, Cantona se enroscou com o zagueiro Richard Shaw, numa jogada em que o bandeirinha assinalou a falta. O juiz, Alan Wilkie, não hesitou e expulsou o atacante aos 11 minutos do segundo tempo. Ao caminhar para fora de campo, Cantona se vira para a arquibancada e salta com as travas da chuteira sobre um torcedor.

Ilustração: Osvaldo Casanova

Ilustração de Osvaldo Casanova

O torcedor, Matthew Simmons, de 21 anos — chamado de Hooligan por Cantona —, teria dito: “Volte pra porra do seu país, seu francês filho da puta!” A voadora rendeu uma punição inicial de seis meses, posteriormente estendida para nove, além das multas por parte da Football Association e do próprio clube.

A Premier League tinha sido instaurada dois anos e meio antes, como antídoto para o hooliganismo. Os estádios tiveram seus alambrados retirados e a torcida ficava logo atrás das placas de publicidade. Nunca iriam imaginar que um jogador invadisse a arquibancada para agredir um torcedor — ou hooligam, que seja. Mas Cantona o fez.

O francês chegou a cogitar abandonar o futebol por considerar injusta a impossibilidade de jogar em qualquer país. A FIFA tinha oficializado o seu afastamento do futebol, inclusive em partidas amistosas, no mundo todo. Naquela temporada, o Manchester United acabou perdendo a liga inglesa para o Blackburn.

Foi quando Cantona atuou no filme Happiness Is In The Field, uma comédia francesa, onde interpretou Lionel, um jogador de rugby.

O retorno

Após a punição, Cantona retornou no dia 1° de outubro de 1995, justamente contra o eterno rival, Liverpool. Ele deu um passe pra gol e fez o segundo, de pênalti, no empate por 2 a 2 em Old Trafford. O francês teve muita dificuldade para retomar o ritmo perdido durante o afastamento. O United conseguiu recuperar-se naquela temporada, chegando inclusive à final da FA Cup contra o arquirrival Liverpool.

O capitão do time, Steve Bruce, se lesionou e não pôde jogar a final. Cantona herdou a faixa de capitão. O gol do título foi dele, aos 41 minutos dos segundo tempo. Éric foi o primeiro jogador de fora do Reino Unido a levantar o caneco da competição mais antiga do mundo.

O Manchester United se tornou o primeiro clube a conquistar a dobradinha — o título da Copa e da Liga — duas vezes, ou como os ingleses chamam: The Double. E não foi coincidência isso ter acontecido exatamente na era Cantona. Mesmo após a suspensão, ele nunca mais foi convocado para seleção. Era o momento em que Zinedine Zidane emergia. Ginola e Papin também deixaram de ser convocados e nunca mais vestiram a camisa dos Bleus.

A temporada 1996/97 marcou a consistência que Cantona trouxe para Manchester. Foram quatro títulos da Premier League em cinco temporadas. Ele só não venceu na temporada em que foi suspenso. No final daquela temporada, com 30 anos, o francês decidiu se aposentar precocemente.

Em 2001, Cantona foi eleito pela revista oficial do clube, a Inside United, o melhor jogador da história do Manchester United, superando Bobby Charlton e George Best. Nos Red Devils, ganhou o título de King Eric.

“Cantona era uma combinação de Marlon Brando, Picasso e Morrissey. Era brilhante e, assim como eles, Éric sabia disso.”

Cantona sempre se beneficiou comercialmente de sua imagem rebelde e controversa. Sempre luziu chuteiras Nike, desde quando a fornecedora norte-americana começou a investir no futebol — e ela escolhia a dedos seus garotos-propaganda, como Romário e Ronaldo.

Em 1998, interpretou um embaixador francês no filme Elizabeth. A partir de então, passou a atuar e dirigir filmes, além de jogar Beach Soccer pela seleção francesa — e posteriormente, treiná-la — quando conquistou a Copa do Mundo de 2005. Em 2009, estrelou ele mesmo o longa-metragem Looking for Eric, filme indicado a Cannes. Desde então, suas aparições em filmes e documentários são cada vez mais comuns.

Sua imagem também foi usada pelo refundado New York Cosmos. Foi nomeado diretor de futebol — na verdade, um embaixador — da franquia norte-americana que precisava atrair interesse internacional, e logo pleitear uma vaga na Major League Soccer.

Em um curto artigo para o Joe.co.ukNooruddean Choudry definiu assim o francês: “Cantona era uma combinação de Marlon Brando, Picasso e Morrissey. Era brilhante e, assim como eles, Éric sabia disso.”

Em 2018, antes de um amistoso entre Brasil e Arábia Saudita em Riad, Cantona disse entender porque os brasileiros votariam em Bolsonaro, já que ninguém achava nada de errado em jogar num país de despreza os direitos humanos.

Na cerimônia de premiação da UEFA em 2019, Éric pegou todos de surpresa em seu discurso ao citar Shakespeare: “Como moscas para meninos travessos que somos para os deuses, eles nos matarão por esporte”.

Cantona é isso. Um rebelde, meio fanfarrão, talvez, que faz sempre cara de malvado e é, por isso tudo, o Malvado Favorito de muita gente.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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