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Quando a glória finalmente chegou

A Holanda conquistou a Euro de 1988 contra a União Soviética. No entanto, a vitória anterior, contra a Alemanha, foi o desafogo de uma nação.

Várias seleções têm, em sua história, uma vitória que as desafogam. Um triunfo altamente importante para lhes provar que as derrotas não são definitivas, que as coisas podem melhorar, que nem sempre elas são os times humilhados e sem esperança que foram um dia. Para o Brasil, a vitória contra a Suécia na final da Copa de 1958; para a França, provavelmente, os 3 a 0 sobre o Brasil na decisão do mundial de 1998;  a decisão da Euro de 2008 é o marco inicial da melhor fase da história da seleção da Espanha. 

Pois bem: a Holanda já teve uma dessas vitórias. Precisamente, contra a Alemanha, na semifinal da Euro de 1988, em 21 de junho. Um dia em que se libertou dos traumas, em que venceu um grande adversário, em que livrou-se das risadas de que sempre foi alvo – e de que voltaria a ser depois. Mais do que isso: um dia em que venceu um adversário figadal, alguém que sempre a sobrepujara, o seu maior e mais cruel algoz. Até em campos geopolíticos, já que as tropas alemãs mataram cerca de 250 mil pessoas e dizimaram o país, numa ocupação de cinco anos, durante a Segunda Guerra Mundial. 

Só pela declaração do ex-jogador Willem van Hanegem à época, nota-se como a mágoa holandesa em relação à Alemanha era gigante, mais do que hoje em dia: “Eu os odeio. Eles mataram minha família. Meu pai, minha irmã, dois dos meus irmãos. Toda vez que eu enfrentava a Alemanha, ficava cheio de raiva.” Talvez por isso a Holanda tenha ficado longos minutos apenas tocando a bola durante a final da Copa de 1974: não era para manter a posse, mas para impor certa humilhação aos algozes. 

E talvez por isso a Holanda tenha sofrido tanto com o revés. Batizada como “a mãe de todas as derrotas”, ela tornou-se uma espécie de marco negativo para os holandeses. Algo que representava para eles o que o 22 de novembro de 1963, dia do assassinato de John F. Kennedy, representa para os norte-americanos. Ou, para os brasileiros, o 31 de março de 1964. Ou o 25 de abril de 1984, quando a Emenda Dante de Oliveira ficou a 22 votos de ser aprovada, frustrando o pedido pelo retorno das eleições diretas para presidente. Ou até o 1º de maio de 1994 em que Ayrton Senna morreu. Enfim, cabe o clichê: aquele tipo de data em que todo mundo se lembra do que estava fazendo durante o fato. 

E o revés que dera o segundo título mundial aos alemães insistia em doer, insistia em latejar nos holandeses. A ponto dos próprios germânicos ficarem sem compreender a razão de tanta raiva nos jogos entre as duas seleções desde a Copa de 1974. Por exemplo: durante a Eurocopa de 1980, no duelo que terminou em 3 a 2 para o Nationalelf, Huub Stevens, defensor holandês, brigou com o goleiro Harald Schumacher, enquanto René van de Kerkhof deu um soco no olho de Bernd Schuster. Tal sentimento gerou críticas de Karl-Heinz Rummenigge: “É uma pena e uma vergonha que eles usem o futebol como válvula de escape para o ódio em relação à Segunda Guerra Mundial.” 

Mas só entrar com o coração na ponta da chuteira, só entrar com sede de vingança, não seria suficiente contra a Alemanha que disputava aquela Eurocopa de 1988. Até por jogar em casa, a equipe treinada por Franz Beckenbauer era a grande favorita ao título. E a base deste time trazia boa parte do elenco que se sagraria tricampeão mundial em 1990: Lothar Matthäus coordenava as ações no meio-campo; Jürgen Klinsmann pedia passagem no ataque; Andreas Brehme comandava a defesa. Além deles, havia gente que não estaria na Copa do Mundo, mas fazia boa Eurocopa, como o zagueiro Matthias Herget e o meio-campista Wolfgang Rolff. 

Nervosismo no começo 

A motivação até exagerada atrapalhou a Holanda no primeiro tempo. A Oranje pressionou mais em chutes de fora da área, mas não conseguia se aproximar do gol alemão, defendido por Eike Immel. A Alemanha trazia perigo, ancorada nas boas atuações de Herget, que chegava de surpresa, como líbero que era, e Matthäus, dono do meio-campo. No segundo tempo, a Oranje cresceu em campo. Lesionado no fim da primeira etapa, Herget teve de dar lugar a Hans Pflügler, que não entrou bem, enfraquecendo o miolo de zaga. Além do mais, na esquerda, Gullit fazia o que queria de Uli Borowka. 

Ainda assim, faltava calma. O lance que mais exemplificou o estado de nervos do time holandês ocorreu já na etapa final: a certa altura, Matthäus ficou no gramado, alegando falta, próxima à área holandesa. O árbitro romeno Ioan Igna nada marcou, e o jogo seguiu. Enquanto o camisa 8 alemão seguia caído, Van Breukelen saiu da área e vociferou perto do adversário: “Eu quero que você se f***!” O goleiro, aliás, era o símbolo da tensão holandesa no jogo: gritava com o árbitro, peitava quem quer que fosse alemão e tentasse cavar alguma falta (levaria até amarelo, posteriormente).

É de se impressionar que Van Breukelen tenha apenas batido palmas, ironicamente, aos seis minutos do segundo tempo, quando Klinsmann caiu ao ser acossado por Rijkaard, e Ioan Igna assinalou a penalidade máxima. Matthäus, que não tinha muito a ver com a história, bateu no canto esquerdo. O goleiro acertou e quase defendeu, mas a Alemanha estava na frente. 

A Oranje voltou para o jogo 

Pouco depois, derrubado por Berry van Aerle, Rudi Völler ficou caído no chão por mais tempo do que o esperado. Alguns adversários foram cobrá-lo, e Van Aerle puxou de leve o cabelo do atacante. Pronto: Völler quis discussão, ficou por mais tempo no chão, contorcendo-se, e a confusão ocupou uns cinco minutos de jogo. 

Aquilo foi o ponto da virada. A Holanda precisaria apresentar mais calma, se não quisesse cair mais uma vez para os alemães. Assim, o time passou a usar mais passes em profundidade, embora não tivesse abdicado jamais de arriscar chutes de fora da área. Enfim, num lançamento, Van Basten recebeu, na entrada da área, pela direita. Por baixo, Köhler tentou tirar a bola pela linha de fundo, com um carrinho despretensioso. Van Basten caiu. E Ioan Igna (numa arbitragem ruim, diga-se de passagem) deu o pênalti, aos 29 minutos do segundo tempo. Ronald Koeman bateu e fez: 1 a 1. Dois pênaltis, dois gols, um empate, como naquela final de 1974. 

Embora a partida não estivesse sendo boa tecnicamente, tinha a tensão indispensável aos grandes clássicos, aquele suspense que faz o ambiente irrespirável em campo e fora dele. Ao mesmo tempo em que a partida parecia se encaminhar para a prorrogação, a impressão era de que algo ainda poderia acontecer. E aconteceu. 

No final, a revanche sonhada pela Holanda 

Quarenta e quatro minutos do segundo tempo. Uma jogada inofensiva começou no meio-campo. Ronald Koeman fez menção de passar a Gullit. Mas o camisa 10 foi para a esquerda, levando consigo a marcação de Borowka e Matthäus. O meio ficou livre para Koeman lançar em profundidade. Jan Wouters recebeu a bola, e quase imediatamente lançou para Van Basten. Perseguido por Köhler, o atacante deu um toque sutil de carrinho. Suficiente para tirar a bola do alcance de Immel, que se esticou todo para defendê-la. Inútil. 2 a 1. 

“Ja! Ja, Marco van Basten! 2-1! (…) Volksparkstadion is van Oranje!” (“Sim! Sim, Marco van Basten! 2 a 1! O Volksparkstadion é da Laranja!”), narrou Evert ten Napel, o locutor da NOS, a emissora holandesa de televisão que transmitia o jogo. Naquele momento, a audiência do jogo já batia os 5,8 milhões de telespectadores em território holandês. Enquanto Van Basten marcava o gol da virada, a audiência atingiu picos de 8,7 milhões de pessoas acompanhando na Holanda. Sem contar os 109 países para os quais a Eurocopa era transmitida. 

Após um fim de jogo mais frenético, com a Alemanha tentando marcar um gol no abafa, Ioan Igna apitou o término do jogo em Hamburgo. Explosão no banco de reservas, com Rinus Michels abraçado pelos auxiliares. Explosão na torcida, que fazia mais barulho do que a maioria alemã. Explosão entre os jogadores, que comemoravam como se já tivessem ganhado a Eurocopa. Gullit iniciou as festividades, abraçando o treinador e puxando um trem formado pelos que estiveram em campo. Van Breukelen bradava: “Esperava por isso havia catorze anos. Antes do jogo, lembrei de mim mesmo, ao assistir à final de 1974, adolescente, e isso aumentou minha raiva. Estou feliz por dar este presente às antigas gerações, a quem viveu a guerra.” 

Não importa que outras partidas tenham vindo, nem que a Alemanha tenha ganhado em outras ocasiões, até mais importantes. O trauma de 1974 estava encerrado com a vitória em 1988. “Finalmente a vingança!”, estampou o diário “De Telegraaf” em sua capa, no dia seguinte. Era hora de comemorar. E a Holanda celebrou. Algumas vezes, baixando o nível: enquanto deixava o campo, Ronald Koeman usou a camisa alemã ganha em troca com Olaf Thon como se fosse um pedaço de papel higiênico, fingindo limpar as nádegas. Muito criticado pela falta de educação, Koeman desculpou-se rapidamente com o país e com Thon, e não ficaram mágoas. 

Mas ficou a alegria. Em todo o país, as pessoas saíram às ruas para provocar alemães, celebrar a vitória, buzinar. Sem exageros: a festa vista em Amsterdã foi considerada a maior desde a libertação do jugo nazista em 1944. Até por ser outra espécie de libertação. O poema “21-6-88”, de Jules Deelder, exemplifica bem o que a vitória significou para a Holanda: “Oooooo! En wie vergeef/des doelman hand/zich strekte naar de bal/die één minuut/voor tijd/de Duitse doellijn kruiste/zij die vielen/rezen juichend/uit hun graf” (“Oooooo! E quem esquece/a mão do goleiro/que se esticou/para a bola/que um minuto antes do fim/a linha alemã cruzou/aqueles que caíram/das suas tumbas/se levantaram”). 

De fato, a mais inesquecível das vitórias holandesas. E isso foi expressado numa faixa exposta durante as celebrações do título da Euro de 1988. A final tinha sido contra a União Soviética? Pois segundo a faixa, “a final foi na terça-feira”, naquele 21 de junho de 1988.