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Evaristo

O peso da história e o respeito conquistado

Um dos nomes que ficaram gravados para a posteridade no pedestal da estátua de Kubala, no Camp Nou. Poderia ser uma mera coincidência, um jogador que estava naquele time daquele clube naquela cidade naquela época. Poderia. Mas não.

Aquele time do Barça tinha algo especial. Embora não tenha conquistado sequer uma Champions, quando o Real Madrid já havia levantado cinco entre 1956 e 1960, foi em 1961 que os Blaugranas chegaram perto de conquistá-la pela primeira vez. Mas do outro lado, naquela final, estava um Benfica que, um ano mais tarde e já com Eusébio, derrotaria o Real Madrid — cinco vezes campeão — e os lisboetas alçariam a taça pela segunda vez.

Quis o destino que o Barça só conquistaria uma Champions três décadas depois, em 1992. Foram duas finais perdidas: a de 1961 contra o Benfica, e a outra, em 1986, contra o Steaua Bucareste em Sevilha. Mas no âmbito europeu, o Barcelona pôde, com Evaristo, conquistar a Taça das Cidades com Feiras em 1960, contra o Tottenham. Uma espécie de Europa League da época.

Evaristo é dos poucos que pode falar de alguns jogadores com mais clareza. Dividiu espaço com as maiores estrelas de uma geração inigualável de húngaros. Czibor, Kocsis e Puskás, integrantes do time vice-campeão mundial em 1954. Sem contar o próprio Kubala, que teria jogado neste time se não fosse refugiado e com isso renunciado à seleção de seu país natal.

Antes do início da entrevista, em sua sala de estar, que ele chama de museu — com razão —, diz que ninguém vai ali. Só quando ele mesmo vai dar alguma entrevista. Sua estante com troféus, placas e medalhas, algumas fotos. Numa delas, o time do Barcelona de 1958, logo após a sua chegada.

“Kubala, Martínez, eu e Suárez. Ainda não tinha chegado aqui, os húngaros. Depois que chegaram o Kocsis e o Czibor. Aí, eles entraram nesse time. Esse aqui era o Ramallets [goleiro]. Esse morreu — aponta pro próprio Ramallets]. Esse morreu, esse morreu, esse morreu, esse morreu, esse morreu, esse morreu, esse morreu, esse morreu. Sobramos três aqui”, com o porta-retrato na mão.

Ele pergunta se a equipe era de Petrópolis, por acaso era, e diz que teve casa em Itaipava, um distrito da cidade. Então, justamente aí, a partir de relatos de familiares do entrevistador vem a primeira pergunta.

Você se lembra de uma ida a Petrópolis com a seleção do Catar?

Me lembro. A gente ficou hospedado num hotel que era fora da cidade.

Sim, ficava na BR-040.

Isso. E a gente fazia um rodízio. Um time ficava lá, o outro em Teresópolis. Era o primeiro time, o segundo time e a garotada.

Teve um amistoso com o Petropolitano, era o time que meu pai jogava, que meu avô foi treinador e onde eu joguei quando novo.

Sim, jogamos. Pô, saiu uma briga danada nesse dia! O time nosso jogava bem pra cacete. Os caras lá começaram a dar porrada, e o árabe não tem medo não. Ele acredita em Alá e é foda. Pra contê-los é difícil. Eu, na Europa, já tive cada problema com eles. Negócio de briga, porra…

Muitas gerações só ouviram falar de Evaristo. Não há vídeos nem no Youtube, se encontra mais material dos anos 1970 em diante. Mas quem foi o Evaristo jogador segundo ele próprio?

Olha, eu acho que fui um bom jogador. Se você olhar a minha trajetória, eu fui jogador de Seleção Brasileira, de grande equipes na Europa e aqui no Flamengo. Então, eu acho que estou naquele hall dos bons jogadores do futebol brasileiro. Não digo que tenha sido o melhor, não estou dizendo isso, mas estou entre os bons jogadores.

Bons? Romário disso que teria ganhado várias Bolas de Ouro se tivesse permanecido na Europa, você não diria algo do tipo?

Os tempos passam e mudam. Na minha época de jogador não tinha isso. Essas premiações começaram com a France Football, mas era muito modesta, não era o que é hoje. A divulgação do futebol, a partir da televisão mudou. A minha geração não teve a TV. Era o rádio e jornal. É diferente. Amanhã, eu assisto um jogo da Copa dos Campeões aqui no Brasil. Na nossa época, na Europa, tinha uma Copa lá, me esqueço o nome agora, que o Barcelona ganhou duas vezes [Taça das Cidades com Feiras]. Nós ganhamos, mas foi lá no início. Eu vi alguns gols meus, mas era filmado. Aqui no Brasil, por exemplo, a gente jogava e tinha um programa de gols que passava no cinema, que se chamava Canal 100, era o [Carlos] Niemeyer que fazia. Só os gols. Não tinha o jogo.

E como você vai parar no Barcelona? Era uma época de um futebol nada globalizado.

Houve um campeonato sul-americano em Lima, que veio a ser a Copa América. Antigamente, as seleções tinham um campeonato [quase] todo ano. Esse foi em Lima. Vieram pessoas pra olhar jogadores, não só brasileiros, mas argentinos, uruguaios… Acabou que o pessoal do Barcelona me escolheu, me viu jogar. Foi quando eu bati aquele recorde de gols na Seleção. Fiz cinco gols num jogo [contra a Colômbia], fui o artilheiro do time. E eu fui o primeiro brasileiro a ir pra Espanha. No meu primeiro ano, era só eu. Sozinho. Os brasileiros chegaram na Espanha depois de serem campeões mundiais em 58 [caso do Didi].

Você sabia o que era o Barcelona? Ou a questão financeira foi preponderante?

Claro que a parte financeira foi fundamental. Aqui no Brasil, a gente não ganhava muito e o que eles ofereceram, pra época, era muito melhor. Aí, eu fui-me embora e fiquei lá uma porção de anos.

E você renunciava à Seleção com essa ida?

É, mas houve uma acordo, naquela época era a CBD, eles não queriam que eu fosse, pois estávamos classificados pra Copa do Mundo [de 1958]. Eu joguei os jogos da classificação. E houve um acordo que eles me cederiam pros treinos, que eram muito longos e muito antes. Não chamavam 22, chamavam 30, 40 jogadores. Mas não deu pra vir, pois o Campeonato Espanhol não tinha acabado, porque a Espanha não estava classificada. Eles não anteciparam o final do campeonato. Quando acabou o campeonato, a Seleção já estava na Europa e não tive a oportunidade de participar.

E você acabou abrindo espaço pro Pelé…

É! Ele entrou praticamente no meu lugar, porque eu era o camisa 10. Veio o Vavá, Pelé, Mazzola… eles vieram naquele ano. Comigo jogava o Álvaro, que era o centro-avante do Santos, o Pepe jogava também.

O Dida também, né?

Não, o Dida não.

Mas ele foi pra Copa de 58.

Ele foi depois, mas na minha época ele não jogava. Jogava o Garrincha, o Joel do Flamengo. Que eu me lembre assim. Outro atacante era um do São Paulo, chamado Gino, centroavante. Naquele ano começou a haver uma reformulação, entende? Foi quando chegou Pelé, Vavá, Mazzola…

Na sua chegada ao Barcelona, você trabalha com Helenio Herrera?

Não. Na primeira temporada lá era um espanhol [Domènec Balmanya]. Não sei se foi na segunda ou terceira temporada minha lá.

Ele ficou com fama de retranqueiro, de ser o pai do Catenaccio, mas parece que no Barcelona ele não usava esse método defensivo.

A diferença dele pros treinadores espanhóis é que ele cuidava muito de tudo. Não havia preparador físico. Na nossa época não tinha. Tinha auxiliar técnico, o cara que ajudava e tal. Ele começou a cuidar muito do condicionamento físico, então ele melhorou muito o condicionamento físico da equipe e graças a isso nós fomos galgando posições na Europa, ganhando torneios até chegar lá em cima.

Ele tinha um perfil de liderança muito forte?

Ele era um profissional. Era o primeiro a chegar e o último a sair. Se preocupava com tudo. Ele realmente foi um treinador que criou uma escola pra outros treinadores, não imitarem, mas que procuravam fazer as coisas que ele fez.

Ele te influenciou como treinador?

Não, porque mudou muito o futebol. É lógico que quem jogou e teve alguns treinadores, com coisas que você gostava e não gostava, é evidente que a gente aproveita alguma coisa, não resta dúvida. Você vai fazendo um apanhado de coisas que são interessantes. Isso todo mundo faz, entende? Ninguém nasce sabendo. Quando você vai ser treinador, por mais experiente que você seja como jogador, o jogador faz aquilo que ele acha que é o melhor, mas o treinador tem que buscar o melhor pra todos e não só pra um.

A grande estrela daquele Barcelona era o Kubala, embora tivesse você, o Kocsis e o Czibor. Na foto, você mostrou que todos tinham morrido. Poucos podem falar desses caras. Fala um pouco do Kubala.

Extraordinário. Ele foi um dos grandes ídolos da história do Barcelona. Era um jogador fortíssimo, muito bom, chutava bem, driblava bem. Grande jogador. Um grande ídolo do clube.

Inclusive tem uma estátua lá.

É, tem uma estatuazinha pequena lá, com o nome dos jogadores embaixo… Inclusive tem meu nome lá. Era uma época que não havia televisão, nada. Ele foi um ídolo muito grande.

E a tua relação com ele? Ele era um líder?

Era ótima. Ele se dava bem com todo mundo. Se bem que eu já cheguei ao Barcelona com ele em final de carreira. Ele jogou comigo talvez um ano e pouco. Ele se aposentou, deixou o futebol e foi ser treinador e não teve muito êxito como técnico..

Ele te contou porquê fugiu da Hungria?

Ele saiu da Hungria e foi pra Tchecoslováquia. Ele fugiu desses dois países que eram da cortina de ferro e foi pra Espanha.

Bom, e os outros caras: Koscis e Czibor?

Eles vieram depois. É muito interessante porque, aqui no Brasil, o Flamengo fez alguns jogos contra o Honvéd. Jogos que ficaram famosos, porque eles eram um time que ia pra frente. E o Flamengo também. Foram jogos de seis gols, 6 a 4, era uma coisa assim. Eu joguei contra eles aqui. Contra o Kocsis, Czibor e Puskás. Depois nós nos encontramos lá no Barcelona. O time do Honvéd acabou aqui no Brasil. A metade dos jogadores voltou pra Hungria e a outra metade foi para [o resto da] Europa. Aí a Fifa aplicou uma suspensão a eles e logo depois os habilitou a jogarem na Europa. Eles tiveram que esperar um tempo pra jogar.

E você se relacionava bem com eles?

Sim, era muito bom, ótimo. Eles eram muito bons companheiros…

Aprenderam bem espanhol?

Mais ou menos. Falavam bem mais ou menos. Mas muito boas pessoas. Tranqüilos, não eram pessoas, assim, reservadas. Não, não.

E o Luis Suárez?

Era um galego. Veio da Galícia pro Barcelona. No começo, ficou um pouquinho fora do time. Mas depois que ele conseguiu entrar no time, com o Helenio Herrera que apoiou muito ele, aí ele deslanchou. Realmente jogou muito. E acabou indo pra Inter de Milão.

Treinada pelo Helenio!

Você sabe por que o Suárez foi pra lá? Eu tinha que ter ido. O Helenio queria me levar. Mas o Barcelona não quis me ceder porque eles não podiam me vender. Na Espanha, naquela época, o jogador estrangeiro ficava sempre livre ao término do contrato. E os espanhóis não, eles ficavam presos ao clube. Como eu não pude ir, não me liberaram, porque não iam ganhar nada, aí eles compraram o Suárez. E fizeram uma compra maravilhosa, porque ele jogou muito bem lá!

Foi campeão europeu, inclusive.

Era um grande jogador!

Na semifinal da antiga Copa dos Campeões, contra o Real Madrid, foram duas derrotas por 3 a 1. Porém, no Campeonato Espanhol vocês venceram…

No primeiro jogo que eu fiz contra o Madrid eu fiz três gols. Foi 4 a 0… Na história de Barcelona e Madrid, um dos gols mais importantes foi o que eu fiz, de cabeça, foi um peixinho assim [faz o gesto com o braço], está no museu do Barça! Um ano mais tarde, eliminamos o Real Madrid, que ia ser hexacampeão. Eles eram pentacampeões da Copa Europa.

E você vai pro Real Madrid em 1962…

O Barcelona queria que eu me nacionalizasse pra jogar a Copa pela Espanha no Chile e abrir espaço pra um outro jogador estrangeiro, entende? Eu disse a eles que se eles arranjassem uma ascendência espanhola minha, eu aceitava. Mas perder a minha nacionalidade brasileira, não. Não era pra ter dupla nacionalidade. Eu era filho de português e não de espanhol. E nesse meio tempo, o Madrid me procurou, meu contrato tinha terminado. E disse pra eu ir como estrangeiro, que ninguém ia mexer na minha nacionalidade. E eu fui pro Madrid. Só que lá, eu não tive a mesma sorte, por conta de lesões. Olha aqui esse joelho [mostra uma cicatriz enorme frontal sobre a rótula]. Comecei com problemas de lesões, fomos fazer um amistoso na Itália e tive uma lesão violenta, sabe? E a medicina esportiva naquela época era outra. Pra você ter uma idéia, no meu primeiro ano lá, eu fiquei me recuperando. Eu voltava e doía. Foi problemático. E o que aconteceu, com a lesão, eu deixei de ser um ponta-de-lança e passei a jogar mais atrás, que não precisava dar aqueles piques.

Você virou armador, então?

É, um meia-armador. No Barcelona, eu sou o maior goleador brasileiro [178 gols]. No Madrid, eu já não fiz tantos gols e jogava muito mais atrás. Mudei a posição.

E lá você dividiu o vestiário com outro húngaro: o Puskás. Fala um pouco dele.

Ele foi um dos maiores chutadores que eu vi na minha vida. Canhoto. Ele direcionava e colocava a bola onde ele queria. Impressionante. Se você fizesse uma barreira e um jogador ficasse de perna aberta, ele jogava a bola ali por dentro das pernas do cara. Ele tinha uma precisão enorme. Já não era mais um jogador muito rápido, mas que tinha um senso de colocação muito raro. A bola procurava ele na área, era impressionante.

No Barça, o grande craque era o Kubala, e no Madrid tinha o Di Stéfano. Como era o perfil dele? Como ele exercia a liderança no time?

O Di Stéfano tinha aquele espírito argentino. Era um cara inquieto. Ele não jogava de centro-avante, ele jogava em todas as posições. Ele corria o tempo todo. Ele não era como a gente, que ficava esperando a jogada, ele queria participar de tudo. E era um jogador brilhante. Extraordinário.

Há relatos que ele chegou a agredir pessoas, por achar que não estavam fazendo o que ele achava que tinha que ser feito. Ele tinha esse lado?

Ele tinha um temperamento muito forte. Era agressivo. Mas principalmente com os espanhóis. Conosco, tinha um francês, o Muller, o Puskás ou o Gento, por exemplo, ele não se metia. Mas com a garotada que estava chegando, ele apurrinhava, exigia dos garotos e tal. Era o temperamento dele, argentino.

Em 1962, você não quis se naturalizar, para não perder a nacionalidade brasileira, mas o Puskás e o Di Stéfano vão pro Chile. Poderia ter acontecido de vocês três jogarem pela Espanha. Que time teria sido essa Espanha, não?

Foi roubado! No jogo Brasil e Espanha, o juiz não deu um pênalti que o Nilton Santos deu um passo pra fora da área. A Espanha tinha um bom time, competitivo, forte.

Di Stéfano se desentendeu com o técnico Miguel Muñoz e com o presidente Santiago Bernabéu e deixou o clube…

O que aconteceu aí, foi que fomos jogar uma final de Copa Europa com a Internazionale, que tinha o Mazzola, o italiano. No domingo, teve um jogo do campeonato espanhol. E eu tive uma lesão. Uma pequena distensão. E o médico do Madrid me levou, embora eu não pudesse nem treinar. E no dia seguinte teve o jogo de noite. Nós perdemos a Copa Europa. Aí, quando nós voltamos, teve uma caça às bruxas, e eles acharam que o grande responsável tinha sido o Di Stéfano, e botaram ele pra fora. Ele foi pra Barcelona, foi jogar no Espanyol, mas não deu certo. Ele voltou, pois ele morava em Madrid. Depois que aquela diretoria que brigou com ele saiu, trouxeram ele de volta como técnico. Mas eles não teve êxito como técnico. A gente que jogou futebol relativamente bem, às vezes acha que o jogador tem que fazer exatamente como você fazia. E não é assim. Você tem que aceitar as virtudes e os defeitos dos jogadores. Ele era muito duro com os jogadores. Ele queria a perfeição.

Você viveu uma época de muita repressão do governo espanhol na Catalunha. O catalão não podia ser falado…

Mas nós, jogadores, não sentíamos isso não. Havia uma ditadura muito forte na Espanha, mas era uma ditadura pros revolucionários e não pro povão. A Catalunha perdeu, essa é verdade. O ambiente era o seguinte: qual era a vingança do Barcelona? Era no futebol, ganhar do Real Madrid. Essa era a grande vingança. Uma das coisas que me ajudou muito no Barça foi o primeiro jogo que jogamos contra o Madrid, ganhamos de 4 a 0 e eu fiz três gols! Isso daí ajuda, pô.

Romário e Messi fizeram isso depois, ninguém mais… Isso já outorga um passaporte catalão. Por falar nisso, em 2017 houve um referendum polêmico. Você é a favor que haja uma votação?

Eu não sou a favor da independência. Na realidade, a Catalunha cresceu muito, tem governo próprio, como aqui no Brasil os estados têm. Agora, o grande problema que eles têm e aqui não tem, é que lá houve guerra. O grupo de Franco, o outro lado massacrou a Catalunha. Isso é uma coisa que dói no catalão, perderam filhos, irmãos, parentes… Fica uma dívida a se pagar que não acaba nunca.

Você não disputou nem a Copa de 1958, nem de 1962. Mesmo prescindindo de jogadores do teu calibre, o Brasil foi campeão nessas duas oportunidades.

Os jogadores brasileiros não iam pra Europa. Futebol era aqui no Brasil. Os melhores e os grandes jogadores ficavam aqui. Não havia esse êxodo.

Pois é, mas mesmo sem Pelé, em 62, o Brasil foi campeão. Já em 2014, quando o Brasil perde o Neymar, o time desmonta. Você acha que isso contribuiu pra personalidade mais mimada do Neymar? Por ele ser o único, ser sempre o centro das atenções? Ronaldo, quando surgiu, dividia as atenções com Romário, depois Rivaldo e até Ronaldinho Gaúcho mais pro final da carreira.

Ele não divide. Ele é absoluto. Em outras épocas não existia isso. Até mesmo o Pelé dividia, porque tinha o Zito, entrou um Jairzinho. No futebol brasileiro, estamos vivendo a era Neymar. Parece que se o Neymar se machucar é melhor nem competir. Pelé saiu e o Brasil foi campeão em 62. O que faltou quando o Neymar saiu, foi um time competitivo, que não era…

Neymar é superprotegido ou ele realmente tem que ser protegido?

Ele é um jogador visado. Qualquer treinador que vá jogar contra ele, vai descer uma marcação forte, pois ele é um jogador que pode desequilibrar um jogo. Mas é aquilo, existe aquilo de ser uma estrela que brilha. A imprensa, de modo geral, valoriza muito tudo o que ele faz. Dão muita importância. Mas isso faz parte do futebol que precisa de ídolos.

O Tite saiu em defesa dele, falando do caráter dele. É o papel do técnico fazer isso, né?

É lógico! Ele vai ter que contar com ele. Não vai criar um distanciamento…

Existe uma história, do Flamengo em 1998, que o Romário suspenso não viajou, você deixou seu preparador físico encarregado de dar os treinos no final de semana. Romário treinou no sábado, mas no domingo ficou dormindo no carro. Seu preparador disse que não sabia como te dizer aquilo. Mas quando te contou, você ficou satisfeito, pois achava que ele nem iria treinar. Como é esse duelo com as grandes estrelas? É preciso impôr limites…

[Risos] Normal. Quando você lida com grandes jogadores, as pessoas acham que todos são iguais e não é assim. Em todos os sentidos da vida. O que você não pode é dar um tratamento muito diferenciado com relação aos outros. Se você olhar bem, o futebol profissional precisa que você tenha resultados. Você não vai implicar com um jogador porque tem determinadas coisas que ele não faz… Alguns preparadores vinham reclamar que um jogador só fez uma parte dos treinamentos, e eu dizia “calma, é suficiente pra ele”. O que ele não pode é deixar de fazer. Tem que ser um pouco maleável. Não adianta querer dizer que “comigo não tem disso”. O jogador também conhece o treinador. Sabe com qual pode sacanear ou não.

Fala-se muito em tática, em intensidade, em compactação de linhas. Mas pra você a tática é mais importante que o relacionamento humano ou ao contrário?

Não, não. A tática é importante. Determina o que o jogador tem que fazer no campo. Mas tem que ser proporcional à qualidade do jogador. Não adianta o cara dizer que vai jogar 4-3-3, colocar fulano no meio, se o fulano não souber jogar no meio. Vai ficar perdido ali. É preciso entender a característica do jogador pra ele se adaptar àquela função. Não adianta. As funções mudaram muito. Um atacante não voltava pra receber a bola. Mudou muita coisa. Mas uma coisa você não muda: a qualidade do jogador. Você não muda isso. Você não faz o jogador, ele nasce. Você aprimora, é diferente. Se eu tivesse a capacidade de fazer jogador, eu iria fazer meu filho jogador e não o teu. Existem alguns grandes jogadores que os filhos também jogaram. Mas eu já tive jogadores que eram filhos de ex-jogadores, mas não jogavam porra nenhuma [risos]. Estavam lá no clube politicamente. E também tem jogadores que nas categorias de base são verdadeiros fenômenos, mas quando chega em cima não vai. E, às vezes, jogadores que não foram tão bem embaixo, quando sobem ficam muito melhores. O treinador tem que ter a sensibilidade de observação pra ver qual pode evoluir ou não. Você está com calor?

Sim!

[Pausa pra ligar o ar-condicionado. A janela com a vista pro mar em Ipanema estava aberta. Era quase verão no Rio de Janeiro. Nisso o papo rola, e sabe-se lá como, ele diz que, embora fosse destro, chutava melhor com a esquerda]

Teve treinador que me perguntou se eu era canhoto, eu dizia que era destro e sempre joguei mais pelo lado esquerdo. Me habituei, e é uma questão de infância, vai desenvolvendo.

Meu avô era um grande fã seu, falava muito de como você jogava.

Como treinador eu fui razoável, mas como jogador eu era foda. Jogava bem. Não era bom cabeceador, mas fazia gols de cabeça porque me antecipava. E eu chutava bem com as duas, não fazia diferença. Driblava bem também.

Você teve dois títulos nacionais como técnico. Um com o Bahia, do Brasileiro em 1988, e o outro com o Grêmio, da Copa do Brasil em 1997. Qual o pecado do futebol nordestino?

Eu comecei a conhecer o futebol nordestino quando fui trabalhar no Santa Cruz. Depois fui pra Bahia. Lá, eu encontrei jogadores de alto nível. Faltava uma organização, e o jogador começa a aprimorar, não relaxa. Nós conseguimos isso lá. Parece mentira, mas ganhar um campeonato com o Bahia não é mole, não!

E antes, o Sport ganha aquele campeonato em 1987…

Ali foi culpa do Flamengo. Tanto que deram o título pro Sport, com razão. Eu me lembro que o Márcio Braga fez a confusão. Ele fez merda. Tirou a possibilidade do Flamengo ter mais um título. Na hora, o Márcio Braga disse que não tinha que jogar contra o outro módulo.

Mas nenhum outro clube jogaria, tanto que o Inter também não jogou aquele quadrangular.

Eles não quiseram, mas não foi combinado isso. O Flamengo resolveu não jogar e dizer que eram os campeões, aí a CBF deu o título ao Sport. O Flamengo não foi jogar.

Mas agora, falando do Sul, os times gaúchos conseguem ser campeões nacionais e continentais. O tamanho das torcidas se equipara às torcidas nordestinas… Qual é o segredo?

Dinheiro! Futebol é economia. Quem tem dinheiro compra as melhores coisas, e tem que saber investir esse dinheiro. Você não pode investir politicamente, comprar aquele jogador só pra agradar. Uma das coisas que atrapalha muito no Brasil é o dirigente amador que não tem vivência no futebol, não conhece como são as coisas. Aí, chega um diretor que é filho de não sei quem, que só ia ver jogo e nunca participou de nada e quer dizer como tem que fazer. Cada coisa no seu lugar.

Foto: Fernando Martinho

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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