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Every “Corner” of the world

Neste último texto como editor da Corner, vou usar primeira pessoa pela primeira vez. Não há o que lamentar na caminhada até aqui. Editorialmente, a Corner seguirá bem representada. As limitações que o orçamento impõe se transformaram, na verdade, num alto padrão jornalístico. Mais checagens, mais leituras. Isso só enriqueceu a revista. Talvez a idéia inicial fosse mais prazerosa de ser executada, com viagens, conversas, personagens contando suas visões, tudo mais leve. E isso até que foi feito. Mas acabamos também desbravando um caminho de pesquisa, com textos carregados de informações que visavam a sempre plasmar um cenário complexo e provocar uma reflexão sobre aquele lugar ou assunto.

Foi o caso da URSS. Inicialmente, estavam previstas várias pautas. E até por isso existe este texto, nesta última página, pra tentar preencher os buracos deixados. O tema Democracia Corinthiana acabou rendendo muitas entrevistas, e não gosto de editar muito o que é falado, sempre entendo que se algo foi dito na entrevista é porque faz algum sentido. Então, nada mais justo que deixar o papo fluir e dar a quem lê a oportunidade de tirar as próprias conclusões.

Em relação à União Soviética, faltou falar mais sobre esse território que ocupava uma fração importante do mundo e sobre aquilo que ele se tornou, usando o futebol como fio condutor. Afinal, vários personagens ligados a clubes permitem contar essa relação. Também seria legal ter viajado um pouco mais pela Rússia ou por qualquer outra ex-república soviética. Só pude ir a Moscou antes da publicação deste número.

O ideal seria uma viagem à Sibéria, para começar por um lugar mais icônico, e mostrar como Sergei Zhvachkin se tornou governador do Oblast de Tomsk e também presidente do clube local, o FC Tom. De lá, um pulo na Chechênia, essa república muçulmana que chegou a declarar independência da Rússia em 1990, que nunca foi reconhecida e acabou se tornando uma região de intenso conflito. Um dos principais líderes chechenos, Akhmad Kadyrov combateu as forças moscovitas na guerra, mas, posteriormente, acabou se alinhando com Vladimir Putin. O conflito se encerrou, e Akhmad Kadyrov foi assassinado em Grozny. Seu filho, Ramzan Kadyrov, tornou-se presidente da Chechênia em 2007. Em 2011, ele participou de um amistoso contra a Seleção Brasileira, formada por campeões do mundo de 1994. Ramzan é presidente honorário do FC Akhmat Grozny, que antes se chamava Terek Grozny, em alusão ao rio que corta a Chechênia, mas mudou seu nome para Akhmat em homenagem ao pai de Ramzan. A Chechênia é alvo de denúncias de perseguição a homossexuais, e Kadyrov filho afirmou que “não existiam gays” por lá. Trata-se da maior pressão internacional por violação dos direitos humanos a que Putin responde.

Ali do lado, no Daguestão — outra república russa com maioria muçulmana —, surgiu de repente um clube que contratou Eto’o e Roberto Carlos, citando apenas os mais famosos. O Anzhi Makhachkala contava com a injeção de capital de Suleiman Kerimov, um bilionário de origem lezguiana — povo autóctone do Cáucaso —, que acumulava um patrimônio de US$ 7,8 bilhões de investimentos no futebol àquela altura. Mas a sua aventura durou pouco. Embora também seja “senador” desde 2008, sua fortuna caiu pela metade em 2015 e, em 2016, chegou a US$ 1,6 bilhão “apenas”. Em dezembro daquele ano, ele decidiu vender o clube para outro personagem controverso: Osman Kadiev. Este merece um capítulo à parte. Quem sabe num número futuro da Corner.

As pautas são intermináveis. Em 2016, a Conifa (Confederação de Futebol de Associações Independentes) realizou a sua Copa do Mundo dos não-países, e a sede foi a Abecásia, uma região também localizada no Cáucaso que reclama independência em relação à Geórgia. A Rússia é um dos poucos países no mundo que reconhece a soberania da Abecásia.

A partir de Henrikh Mkhitaryan, daria pra falar do conflito Nagorno-Karabakh, território entre Armênia e Azerbaijão. E também contar a linda história de quando o Ararat Yerevan conquistou o campeonato soviético em 1973, e pintaram o número 8 de Levon Ishtoyan nas costas da estátua de Lenin na capital da Armênia. Mas tudo isso não coube nestas cem páginas da Corner #7.

Em Monte Carlo, chegamos a Dmitry Rybolovlev, outro magnata russo que se aventurou no futebol, adquirindo o Monaco. Tal como seu compatriota Roman Abramovich fez no Chelsea, Rybolovlev injetou uma quantia significativa no clube da liga francesa e passou por uma turbulência devido a um divórcio. No entanto, sua fortuna foi construída no período de privatização das estatais russas, tal como outros magnatas russos, ucranianos e das demais repúblicas soviéticas.

Outro oligarca da antiga URSS envolvido com futebol é Alisher Usmanov. Nascido no Uzbequistão, ele foi sócio do Arsenal até agosto de 2018, quando o americano Stan Kroenke comprou os 30% de Usmanov por £ 550 milhões. A fama e a trajetória do uzbeque, cujo patrimônio era avaliado em US$ 12,5 bilhões pela Forbes em 2018, não eram diferentes das de outros magnatas. Talvez fossem ainda mais sujas. No Uzbequistão também houve a ascensão meteórica do FC Bunyodkor, fundado em 2005. Três anos mais tarde, o clube anunciou as contratações de Zico como técnico e do veterano Rivaldo como estrela do time. Em 2009, foi a vez de Luiz Felipe Scolari desembarcar em Tashkent para dirigir o time.

Agora como autor, a partir da Corner #8, pretendo viajar a esses lugares remotos, conversar com pessoas, investigar, trazer histórias, relatos e fotografias. Até aqui foi uma linda trilha percorrida por diversos cantos do mundo. Talvez agora fique um pouco mais claro o porquê do nome Corner.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

1 Comment

  1. julianoortiz

    novembro 01, 2021

    Que bacana prestigiar as edições anteriores da Corner até chegar a este edição #7, enquanto atuaste como editor e também autor de alguns textos. Pelo que entendi, a partir da edição #8 atuarás – exclusivamente – como autor dos textos, indo a fundo no cantos mais remotos para trazer bons relatos.

    Vamos!

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