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Federico Peretti

Durante nada menos que três anos, Federico Peretti viveu uma jornada que teve início no Ushuaia e terminou no Amapá. Inicialmente, o plano era percorrer todo o território argentino em busca das histórias e realidades dos clubes das divisões de acesso do futebol do país. As mais de trezentas horas filmadas representam um marco na produção cultural argentina: foi a primeira vez que alguém se propôs a realizar um trabalho cinematográfico sobre times que não figuram na divisão de elite do futebol nacional.

Feliz com o material, Peretti resolver abrir as fronteiras e viajou para o Brasil com planos de fazer o mesmo que havia feito na Argentina: mostrar o futebol e os futebolistas que não ganham as capas de jornais, não ostentam jóias e carros importados e não atraem interesses comerciais. Algumas diferenças e semelhanças entre os dois países não poderiam ter sido melhor marcadas sob outra temática diferente do futebol.

Entre sorbos de mate e telefonemas incessantes na produtora de Peretti em Buenos Aires, o cineasta, publicitário, fotógrafo, diretor, editor — e o que mais for necessário, dependendo do momento — contou sua história e sua experiência ao retratar O outro futebol.

Comecemos com o cinema…

Desde que comecei a trabalhar com cinema, aos vinte anos de idade, jamais deixei de atuar na área. Todos os meus trabalhos na vida foram com cinema e publicidade. No meio do caminho fui misturando outras atividades, então não sei se sou cineasta, fotógrafo ou os dois. Mas só comecei a levar a fotografia mais a sério lá pelos 26 anos, depois de ter comprado minha primeira câmera Reflex digital. Mas não dá para dissociar as duas coisas. Minha forma de enquadrar é uma das coisas que acabei tirando da fotografia. Então, sim, sou um cineasta, mas bastante influenciado pelo fotógrafo em mim. Como no El otro fútbol, por exemplo, quando comecei a gravar em 2009, fiz alguns ensaios para ver que nuances daria ao documentário. Tudo que eu gravava era igual a tudo que eu já tinha visto em qualquer programa de TV. De fato, quase abandonei o documentário, justamente porque o que eu via era como as produções da FOX ou ESPN, mas com uma câmera pior. Fiquei sem esperanças, e isso no meio do processo, já fazendo as fotos para o livro do El otro fútbol. Foi então que comecei a pensar um jeito mais fotográfico para os enquadramentos. Quando achei essa abordagem, peguei o jeito da coisa. Desde então, qualquer trabalho que eu faça está permeado por essa coisa do enquadramento fotográfico para vídeos.

Você tem mais referências na fotografia clássica do que no cinema?

Fiz metade de uma faculdade de Comunicação Social e metade de uma de Letras. Estudei coisas que, embora estejam relacionadas à arte em algum ponto, não se aplicam a nada do que eu faço hoje. Claro que gosto do cinema e da fotografia, mas tem gente que me pergunta: “Onde posso estudar fotografia?” Nunca estudei nada disso. Comprei uma câmera, comecei a tirar fotos e é verdade que não fui bem no início. Mas aos poucos você vai aprendendo e absorvendo conhecimento dos outros. Tenho muitos amigos que estudaram fotografia e cinema. Todos eles me perguntam se eu vi “aquele” filme do Lars Von Trier, ou o último videoclipe do Michel Gondry. Acabo conhecendo porque sempre há alguma coisa do meu interesse nas indicações deles. Mas, como nunca tive o afã acadêmico, não vejo como aplicá-lo a meus trabalhos. Creio que meu aprendizado foi mais intuitivo. Mas, se fosse há alguns anos, teria gostado de estudar. Em termos de influência, não consigo pensar em quais seriam, justamente porque nunca tive as obrigações acadêmicas de ter que ver tal filme, tal foto ou tal cineasta. Tecnicamente, não deixa de ser uma deficiência, já que tardei mais tempo em aprender, mas, no final, não sei se é uma coisa que se ensina. Ou se enquadra bem ou se enquadra mal. Há grandes fotógrafos de agências, jornais e televisão que vão para o estádio e tiram fotos excelentes. Sabem que precisam capturar o momento da comemoração, do técnico, da torcida, do jogo. Mas eles não me parecem buscar a sensibilidade de visões mais artísticas das coisas.

Câmera Kiev 19, com a qual Federico Peretti produziu as fotos do livro El Otro Fútbol

O cinema brasileiro chega até você?

O que mais chega são as coisas mais comerciais como Cidade de Deus ou Carandiru. Quando estive no Brasil filmando os capítulos de O outro futebol, o pessoal da produtora Doble Chapa tinha uma pegada mais para documentários musicais. Mas entramos em total sintonia porque eles trabalhavam sob idéias e métodos que nós também adotávamos para buscar nossas histórias. Tive acesso aos documentários que eles fizeram, mas só os tenho porque eu fui para o Rio, fiquei na casa deles e eles me deram. Dificilmente teriam chegado a mim por outros canais. Tem sempre essa coisa de que parece que a América Latina é uma coisa e o Brasil é outra. O Mercosul funciona muito bem comercialmente, mas o intercâmbio cultural ainda é fraco. Durante os últimos anos, quando fui muitas vezes ao Brasil, conheci o trabalho de Raul Seixas e fiquei fanático! Mas pensei: “Poxa, tive que ir ao Brasil e foi preciso que alguém tivesse o disco do cara para eu conhecer. Como é possível que aqui chegue um Elvis Presley, mas não chegue um Raul Seixas?” Mesmo sendo países limítrofes, ainda há esse tipo de barreiras entre Brasil e Argentina.

Como publicitário, você chegou até mesmo a fazer uma filmagem com o Pelé. Como isso aconteceu?

Foi legal, aconteceu um pouco antes do Mundial. Fomos até o Rio gravar um comercial e foram quatro, cinco dias de filmagens que seriam feitas na Cidade de Deus. Fiquei entusiasmado por conhecer o lugar, ainda mais estando com outros brasileiros e não como um turista que faz esses roteiros turísticos das favelas. A filmagem com o Pelé foi por apenas uma tarde. Ele chegou de helicóptero, fez os takes que tinha que fazer e se foi. Nunca fui de tirar fotos pessoais com grandes figuras. Eu me contentei em estar ao lado dele, falando com ele. Mas foi bom ver que ele foi muito gentil com as pessoas que lhe pediam fotos ou autógrafos. Mesmo não gostando muito do caráter do Maradona, por exemplo, sempre vi o Pelé com aquela coisa “Pró-FIFA” e também pensava que ele era um filho da puta. Mas eu o vi tão velhinho, sorridente, com dificuldades para andar… Ele me pareceu bem simpático. Mas, claro, ele estava num contexto em que isso também poderia ser interessante para ele.

Você estava mais empolgado com a idéia de filmar na Cidade de Deus do que estar com Pelé…

Sim, totalmente. Me perguntaram como eu fui capaz de não tirar uma foto com o Pelé. Mas, no futebol mainstream, o River Plate é a única coisa que eu gosto e, mesmo assim, só porque é uma paixão de infância da qual não posso me dissociar. Fora isso, prefiro assistir à final da segunda divisão do Macapá do que a da Champions League. É claro que eu adoraria ver uma decisão da Champions, mas, para tirar fotos, se eu tiver que escolher, fico com o Macapá ou qualquer outro lugar da América onde haja um campo de futebol. Gostei muito mais de tirar fotos das crianças jogando uma pelada na Cidade de Deus do que de estar com Pelé. Quando trabalhava com a revista Don Julio, fomos até o Uruguai para tentar falar com Alcides Gigghia — até então, o último jogador vivo envolvido naquela decisão do Mundial de 1950. Ele tinha que terminar de pagar a casa e queria cobrar dois mil dólares pela entrevista. Não havia a menor condição de pagar o que ele pedia. Fomos à cidade de Las Piedras, onde ele vivia, buscamos sua esposa em uma feira local e ela veria a possibilidade de ele nos atender. Ele tinha acabado de sofrer um acidente com um caminhão e estava prostrado em sua cama, assistindo a uma partida da seleção uruguaia sub-20. Ele nos recebeu e, para mim, foi muito mais interessante falar com ele — o autor do gol do Maracanazo — do que estar com Pelé ou Maradona. Gosto mais das histórias melancólicas.

Com os projetos “El otro fútbol” e “O outro futebol”, você percorreu mais de oito mil quilômetros entre o Ushuaia, no extremo sul da Argentina, e o Amapá, no extremo norte brasileiro. Como foi a experiência e os contrastes encontrados no caminho?

Minha busca estava orientada pelo amor desinteressado pelo futebol. É louco ver que um moleque jogando bola no Amapá vive a paixão da mesma maneira que um pibe na Argentina, mesmo com todas as diferenças culturais entre os dois países. É impossível ver esse amor em Buenos Aires, por exemplo, onde tudo é o negócio, os jogos da Libertadores, Messi, seleção, Barcelona… É reconfortante perceber que ainda existe o amor pelo futebol como esporte, sem interesses em vitórias ou derrotas — apenas pelo prazer de jogar. Nesse aspecto, Argentina e Brasil estão na mesma sintonia. Diferenças, há milhares. Conversei com jogadores, dirigentes e presidentes de clubes amadores nos dois países. O que pude perceber é que, na Argentina, o cara joga no time da sétima divisão, mantendo um outro emprego e está satisfeito com isso — ele não tem a pretensão de ir a Buenos Aires tentar jogar pelo River ou pelo Boca. No Brasil, a maioria dos atletas com quem conversei revelou ter o desejo de jogar pelo Flamengo, Corinthians ou qualquer outro clube importante. Na Argentina, é difícil um jogador receber para atuar por uma equipe semi-profissional — como acontece no Brasil, onde o cara deixa de trabalhar para se dedicar exclusivamente ao futebol. Me surpreendeu que havia jogadores que ficavam sem grana, começavam a trabalhar em outras coisas e voltavam a se dedicar exclusivamente ao futebol, até mesmo com a ajuda de familiares. Cheguei a ver uma situação de greve de jogadores por falta de pagamento. Aqui, é capaz de o clube pedir ao jogador o pagamento de uma cota mensal para garantir o transporte do time, por exemplo. Esse foi o grande contraste que encontrei: no Brasil, se fala muito de grana até mesmo nos níveis quase amadores. Há, inclusive, times que são apoiados pelas prefeituras locais — tem sempre um dinheirinho entrando. Na Argentina, não, exceto em equipes mais importantes de Córdoba, Mendoza e outras províncias maiores.

Qual é sua percepção sobre a fervorosa religiosidade de grande parte dos jogadores brasileiros — amadores e profissionais?

Pude ver isso em todos os clubes por onde passei. Mas dei maior atenção a isso quando vi o Ipiranga, do Amapá, cujo escudo traz o desenho de uma igreja, inclusive. Os jogadores iam todos juntos à missa antes dos jogos e o sacerdote estava diretamente envolvido com o clube. Isso se vê no Brasil o tempo todo. Eu queria filmar os caras rezando enquanto os produtores brasileiros me diziam que isso era absolutamente normal. Se fosse na Argentina, por exemplo, seria algo de grande destaque. No Brasil, de norte a sul, a religiosidade dos jogadores é muito presente. Tenho em minhas redes sociais vários desses jogadores e presidentes, e sempre vejo que agradecem a Deus quando ganham e quando perdem também — eles rezam sempre. Estive em mais de duzentos vestiários na Argentina e devo ter visto os jogadores rezando juntos em apenas duas ou três ocasiões, no máximo. Embora eu não seja religioso, gosto de ver pessoas que depositam tanta fé em algo, seja na religião ou no próprio futebol.

O Messi tem o nome de Jesus tatuado e o Neymar vestiu na cabeça uma faixa com os dizeres “100% Jesus” depois da final da última Champions League. Para o público brasileiro, não foi nenhuma anomalia. Como você vê esse tipo de manifestação religiosa?

Nesse caso específico, me parece que o Neymar fez isso de maneira muito consciente. Ele sabia que estava no centro das atenções. Eu acho mais legal quando o jogador vive sua fé à sua própria maneira. Mas pessoas como o Neymar estão tão expostas que é difícil interpretar de outra forma. Mas a mim, particularmente, não surpreendeu, justamente por toda a experiência que tive no Brasil. Eu me lembro muito do Silas, que lá por 1995 veio jogar no San Lorenzo e trouxe aquela coisa toda dos Atletas de Cristo. Me pareceu inacreditável alguém tão devoto. Havia jogadores do time que diziam que o Silas os havia ensinado o significado de acreditar em Deus. No fundo, acaba parecendo uma espécie de seita. É meio estranho que a religião esteja tão presente a esse ponto. O repórter esportivo na Argentina sempre faz a mesma pergunta depois de um título ou de algum grande triunfo: “E aí, no que você está pensando agora?” O jogador normalmente responde: “Na minha família.” Os brasileiros agradecem a Deus, antes de mais nada. É difícil sair disso, especialmente porque o Brasil é o país com o maior número de católicos no mundo. Tanto faz se a manifestação religiosa vem do Neymar ou do cara que joga no Barra Mansa. A diferença é que o Neymar aparece, o cara do Barra Mansa, não.

Durante essa viagem, você também enfrentou as variações climáticas extremas nos lugares visitados. Você passou por algum perrengue específico por causa das forças da natureza?

Nunca pensei que morreria ou que algo daria errado nesse aspecto. Mas foi complicado trabalhar sob climas mais hostis. Não tínhamos uma equipe com toda a estrutura disponível como têm os canais de TV. Fiz o documentário quase todo com um jornalista amigo meu. Eu fazia as imagens e a sonoplastia enquanto ele cuidava das entrevistas. Já no Brasil, chegamos a ser quatro em algum momento. No Ushuaia, eu ficava sozinho filmando enquanto a câmera se molhava com as chuvas, mas não podia deixar de filmar porque era preciso mostrar que os jogadores estavam ali mesmo apesar do clima. Isso aconteceu umas cinqüenta vezes. No Amazonas, fui picado por todas as classes de mosquitos, o tempo todo. Se eu sentia qualquer tipo de mal-estar, ficava paranóico pensando que era malária, febre amarela ou algo do tipo. Era particularmente difícil nos lugares onde fazia sol o dia todo. Tínhamos que começar as filmagens às 8h da manhã porque das 10h até as 16h não se podia filmar. As imagens saíam todas estouradas e o calor era insuportável. As pessoas me diziam: “Mas para que falar sobre esse clube de merda?” Para mim não são clubes de merda. Na minha visão, têm mais importância do que o Flamengo, por exemplo, porque conseguem fazer as coisas funcionarem mesmo sem o orçamento de um time grande. Hoje dou risada das situações, embora o processo dos dois documentários tenha sido física e financeiramente sacrificante. Mas o resultado me agrada e afirmo que valeu a pena.

Quantos “Brasis” você viu durante a viagem?

Eu via um Brasil em cada estado que visitava. Se você pegar entre Santa Catarina e o Amapá, vai encontrar abismos de diferenças culturais. Cada lugar tem seu próprio estilo de vida e também conheci estados que são mais pobres do que eu poderia imaginar. Mas sempre deparei com aquele standard que se fala na Argentina, de que o brasileiro está sempre contente. Estive em meio aos protestos contra a Copa do Mundo, mas bastava sair das capitais para ver pessoas que pareciam felizes apenas com o açaí e com o calor, mesmo nos lugares mais ermos. Toda a viagem ao Brasil me serviu mais como pessoa do que como cineasta. No início eu ficava aflito porque precisava de conexão com internet, telefone e todo esse tipo de infraestrutura. Não tardou muito e aprendi que se podia ser feliz com pouco. De volta a Buenos Aires, já estou com a coisa da cidade grande impregnada em mim outra vez. Recordando essas histórias, me dá vontade de voltar e filmar lá outra vez.

O que você acha do aumento do número de clubes participantes do campeonato argentino [trinta clubes], impulsionado pelo programa Fútbol para Todos, do governo.

Acho que o aumento de participantes vai marcar muito mais as diferenças entre os clubes. Na verdade, o campeonato com trinta clubes foi concebido para que se armasse um sistema de apostas onde o dinheiro acabaria indo para a AFA (Asociación del Fútbol Argentino) e para os clubes através de uma loteria nacional. Mas não acredito muito nisso. Acho que a corrupção é um grande problema da América Latina e, se um clube ganha mais dinheiro, mais dinheiro será roubado. Claro que há exceções, mas a corrupção é tão grande que ter mais ou menos dinheiro não muda absolutamente nada. A AFA deveria investir em melhorias para muitos estádios de clubes que sequer protestam porque têm medo de deixar de receber as migalhas que recebem atualmente. A verdade é que o Fútbol para Todos é um negócio para poucos. Eu era simpático ao programa quando ele surgiu, colocando o futebol como um direito de todos, com as transmissões gratuitas e ao vivo de todas as partidas. Foi ótimo para determinadas regiões que sequer contavam com serviços de TV a cabo. Se você não pagasse os quinhentos pesos por mês, não poderia ver as partidas. No início me pareceu um exagero que o futebol fosse tido com um direito nacional, mas achei legal não ter que pagar nada à parte para assistir aos jogos pela TV. Pode parecer uma causa nobre, mas o plano do governo era usar a gigantesca audiência do futebol para encaixar suas propagandas políticas. Nas partidas do River, por exemplo, você vê quinze minutos completos de publicidade oficial. Me parece que essa é a verdadeira idéia por trás do Fútbol para Todos. Seria bom poder vender espaços publicitários para prover algum lucro ao país, só que os jogos são subsidiados pelos impostos que pagamos e esse dinheiro público não é recuperado com aportes de outros anunciantes. Mas, como falei, tem a parte boa. Antes, quando os direitos de transmissão pertenciam ao Grupo Clarín, era preciso esperar até o domingo para poder ver os gols da rodada completa de sexta-feira, sábado e do próprio domingo, porque só se podia ver em um canal específico. Esportivamente, a Copa Argentina já trazia equipes menores para jogar contra os grandes. Não era necessário inchar a primeira divisão com trinta clubes. O mais curioso é que já está planejado que o torneio volte a ser disputado por vinte clubes em até dez anos. Me parece ridículo. Times que levaram anos para chegar à primeira divisão agora participam do mesmo campeonato com equipes que foram automaticamente promovidas na canetada.

Como você reagiu ao episódio do spray de pimenta nos jogadores do River Plate durante o intervalo da partida contra o Boca Juniors na Bombonera pela última Libertadores?

Eu estava ao lado de toda a ação, como fotógrafo de campo. Desde o início havia um clima de animosidade. A torcida do Boca promoveu um clima tenso durante toda a semana que antecedeu o jogo e, naquela noite, tinham levado uma bandeira que dizia que ninguém sairia vivo de lá se o Boca perdesse. Criou-se uma psicose coletiva. Cheguei cedo e as pessoas falavam estranhamente, dava para sentir o ar pesado. Uma atmosfera de que, se o Boca perdesse, algo realmente iria acontecer. Acho que começou como uma provocação normal de torcidas, mas parece que saiu do controle. Já é horrível que atirem uma garrafa, por exemplo, em algum jogador, e isso é estranhamente normal, mas jamais pensei que poderia acontecer algo assim. Não vi exatamente o momento em que borrifaram o spray no túnel de acesso do River, mas estava no meio de toda a confusão. Os próprios funcionários do Boca diziam para não tirar nenhuma foto, dizendo: “Você viu que foi a polícia que fez isso, certo?” Mas era tudo muito bem organizado ali dentro da própria torcida. Nunca passei por um temor tão grande numa partida de tamanho apelo mundial. Em um jogo pequeno, talvez não me surpreenderia. Mas era um Superclásico valendo pela Libertadores, com toda a polícia e o aparato que a ocasião pede. Parecia que se 15 pessoas quisessem invadir o campo, outras 50 mil fariam o mesmo. Felizmente, isso não aconteceu. Até mesmo senhoras e crianças atiravam garrafas. Poderia ter sido muito mais grave do que realmente foi.

O que achou da suspensão do Boca como resposta ao episódio?

Infelizmente, já é natural que se atire uma garrafa num jogador ou no árbitro e, se o cara pode seguir no jogo, nada acontece. Se em algum momento se deixa de punir esse tipo de coisa, nada vai mudar. O pior é que machucaram quatro jogadores. Me pareceria ridículo continuar a partida sabendo que o número de jogadores machucados superava o numero de substituições possíveis. A postura do Boca era de que a partida deveria seguir, mas simplesmente não dava! É uma questão de bom senso. O pior é que poderia ter sido um tiro ou uma facada em vez de um gás de pimenta. Os arranjos com a polícia permitiram a entrada de um gás de pimenta e de um drone. Não seria difícil levar uma arma branca ou de fogo para dentro do estádio. Acharia igualmente lamentável se tivesse acontecido com o River. Quando fomos para a segunda divisão, houve torcedores que depredaram as dependências do clube e isso me parece um despropósito tremendo. Mas o torcedor é estúpido. Essa é a diferença que você nota num clube menor, que pode ter uma pintura que não é refeita há vinte anos, mas, como sabe que não há dinheiro para reformas, cuida do patrimônio.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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