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URSS 1990

Reunião do Politburo com as presenças de: Mikhail Suslov, Viktor Grishin, Leonid Brezhnev, Yury Andropov, Mikhail Zimyanin, Konstantin Chernenko e Alexei Kosygin.

O Mundial que podia ter adiado a queda do Muro de Berlim

Teria a Guerra Fria terminado de outra forma se o Itália 90 tivesse se convertido em União Soviética 90? Teria o Muro de Berlim aguentado mais alguns anos em pé se a Copa do Mundo tivesse sido disputada em solo soviético? 

No início dos anos 1980, o decadente império soviético se agarrou à ideia de unidade ideológica e nacional em torno dos grandes eventos esportivos. Depois de Moscou organizar os Jogos Olímpicos, a URSS tentou organizar uma Copa do Mundo. As manobras políticas às escuras neutralizaram o sonho soviético e aceleraram a desintegração do Bloco do Leste.

O que pode relacionar a queda do Muro de Berlim e o desmembramento do Bloco do Leste com um Mundial de futebol? Tudo e nada.

Em outubro de 1989, o império soviético começou a tremer desde os alicerces. Em questão de meses, o castelo de cartas ruiu vertiginosamente sobre o chão e, com ele, o sonho de uma Europa sob os desígnios do ideal comunista dirigidos no Kremlin.

Dois anos depois da mítica noite de outono que uniu Berlim, uma cidade desmembrada há décadas, a própria União Soviética desapareceu do mapa, estilhaçando-se entre vários países diferentes. De um momento para o outro, um dos maiores impérios políticos da história desaparecia por completo e o mapa político e econômico europeu nunca mais seria o mesmo. No entanto, essa decadência — evidente ao longo de toda a década de 1980 em assuntos políticos, sociais e econômicos — podia ter sido alterada ou, pelo menos, adiada graças ao futebol. Adiada, sim, porque o seu final se transformava num acontecimento inevitável. Mas teria sucedido daquele modo caso o velho sonho soviético de organizar um Mundial tivesse sido cumprido?

A União Soviética tentou fazer com o futebol o que tinha conseguido com o movimento olímpico. Mas foi precisamente a amarga experiência olímpica que acabou por destroçar o projeto de receber a Copa do Mundo de 1990. O mundial que a Rússia — o Estado-nação herdeiro por excelência do legado soviético — recebeu em 2018 podia ter tido lugar no país quase três décadas antes. Uma possibilidade tão assustadoramente real, tão real que a Guerra Fria participou diretamente das decisões da FIFA para impedir que o caos tomasse conta do mundo do futebol.

A ambição soviética de organizar um Mundial

Em 1980, a União Soviética organizou os Jogos Olímpicos, os primeiros na história a serem disputados no lado oriental da Cortina de Ferro. A competição foi uma farsa esportiva. Ao boicote generalizado dos países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, sucedeu-se também a inevitável suspeita de doping por parte da esmagadora maioria dos países presentes naquela prova, quase todos do bloco soviético. Foi o culminar esportivo da Guerra Fria, mas também o pontapé inicial na luta pelo poder ideológico no âmbito futebolístico. Nesse mesmo ano, começou a se desenhar as bases de uma candidatura histórica no Politburo moscovita. A superpotência queria organizar o Mundial de futebol. A decisão não era nada ingênua.

O futebol era de longe o esporte mais popular da URSS, e a realização de um evento dessa magnitude era não só uma manobra propagandista única como iria permitir ao país renovar muitas das estruturas decadentes — e não só as esportivas — para apresentar ao resto do mundo uma imagem revigorada de um país que se dizia, já naquela época, estar exausto do esforço militarista da Guerra Fria.

O abandono da Colômbia, assim como a candidatura dos Estados Unidos para ocupar a sua vaga para a Copa do Muno de 1986, apenas acelerou a intenção dos soviéticos, que não queriam ser ultrapassados pelo seu rival — um país que, além de tudo, nem sequer tinha o futebol entre os seus grandes esportes de massas. No final, os americanos foram ludibriados pela associação entre o brasileiro João Havelange e a mexicana Televisa, mas garantiram a preferência para que recebessem o torneio em 1994.

Para a URSS, estava claro que ganhar a organização de 1990 era uma questão de política internacional, mais do que uma ambição esportiva, até porque, depois dos Jogos Olímpicos de Moscou, vieram as Olimpíadas de Los Angeles, também quatro anos depois, e era fundamental para a cúpula política soviética se antecipar às ambições políticas dos americanos que, segundo eles, seguramente iam procurar fazer do Mundial de 1994 uma plataforma da sua superioridade econômica e ideológica.

Até esse momento, os russos haviam mostrado pouco interesse no futebol. Nunca candidataram nenhuma das suas grandes cidades como anfitriãs de finais europeias — só a Iugoslávia de Tito recebeu finais continentais e a organização da Euro de 1976 —, mas, com a emergência de uma jovem e promissora geração de talentos soviéticos, sobretudo ucranianos e georgianos, o futebol ganhava cada vez mais protagonismo nas decisões políticas da nação.

A candidatura foi desenhada dentro do aparelho do Partido Comunista e era bastante ambiciosa. Os países qualificados iriam viajar por um imenso território que incluía jogos em Moscou, Kiev, Minsk, São Petersburgo, Odessa, Baku, Tbilisi e outras importantes cidades da União Soviética. A mensagem do torneio era política tanto para fora — uma demonstração de força — como para dentro. No início dos anos 1980, as sucessivas nações que compunham o Estado soviético começavam a se fazer ouvir dando a ideia de que o edifício começava a desmoronar. Organizar um torneio como uma Copa do Mundo, com jogos espalhados pelas várias repúblicas soviéticas, era também uma forma de acalmar dissidências e reforçar a união do império ideológico. Para os vizinhos do Pacto de Varsóvia, também servia como mensagem política de grande importância. Afinal, organizar um Mundial era a melhor prova da aceitação, por parte do poder global, de um Estado ainda pária aos olhos de meio mundo.

A Guerra Fria decide um Mundial a favor do Ocidente

Congresso da FIFA em 1984
(Foto: FIFA.com/Getty Images)

A candidatura soviética foi oficialmente apresentada no final de 1982. Em 1990, a Copa pertencia, por direito, a um país europeu em decorrência da política de rotação imposta pela FIFA entre europeus e “pan-americanos” e que permaneceu vigente até a decisão de Havelange de abrir as fronteiras ao mercado asiático, primeiro, e, mais tarde, a estreia da competição em terras africanas sob o comando de Sepp Blatter. Foram seis os países que apresentaram a sua candidatura. Áustria e Grécia eram os mais humildes dos candidatos e rapidamente foram descartados de qualquer equação. A Iugoslávia tinha a seu favor o seu estatuto de dissidente com o restante Bloco de Leste, mas havia dúvidas sobre a idoneidade das infraestruturas necessárias. Tal como os soviéticos, também em Belgrado se pensava que organizar um grande torneio futebolístico era a melhor forma de pacificar as tensões das repúblicas internas. Também aí já se antecipava o caos.

A luta parecia, no fim de contas, resumida a três candidatos. Para além dos próprios soviéticos, tanto a Inglaterra como a Itália tinham avançado com a sua proposta. Para os ingleses era uma forma de confirmar a sua recente hegemonia no futebol europeu. Era 1983, o hooliganismo já era uma realidade, mas ainda não havia acontecido o desastre de Heysel e os clubes britânicos reinavam na Europa. Era uma candidatura forte. Os italianos, por outro lado, reclamavam que o seu único Mundial organizado remontava a 1934 e que havia não só infraestruturas, mas uma profunda regeneração do jogo no país. Os mais críticos apontavam o fato de a última Euro, em 1980, ter sido realizada precisamente em terras transalpinas, mas esta foi também a arma apresentada pelo seu comitê organizador. Tudo estava previsto e providenciado.

A caminho da votação decisiva, a questão política entrou em jogo. Instigados pelos americanos — que garantiam os votos da região da Concacaf —, os ingleses desistiram a favor dos italianos, reforçando assim o seu bloco de influência. Tudo ia se decidir por detalhes. Os soviéticos continuavam favoritos, mas então chegou o anúncio do boicote soviético aos Jogos Olímpicos de Los Angeles como retaliação ao protesto ocidental quatro anos antes. Uma jogada que custou caro. O escalar de acusações entre um e outro bando rival começou a preocupar profundamente a FIFA, que temia agora ter em mãos um torneio manipulado por questões políticas. Não podiam se permitir organizar uma prova em que, eventualmente, países como Itália, Alemanha Ocidental, França, Espanha, Inglaterra ou nações associadas aos Estados Unidos politicamente, como o Brasil, Argentina ou Chile, boicotassem a prova. João Havelange juntou as cartas do assunto e foi utilizando a sua influência para congregar votos a favor da candidatura italiana. Os soviéticos sabiam que contavam com o apoio africano e asiático, mas, face à união entre a UEFA e a Conmebol, uma união política sobretudo, estavam agora em minoria. O dia da votação, 19 de maio de 1984, confirmou a mudança de sentido de voto de muitos dos presentes. A URSS, que chegou a contar, segundo as suas próprias estimativas, com uma clara vitória, teve apenas cinco dos 17 votos. Onze foram para os italianos, uma maioria absoluta que permitiu ao país celebrar a organização do torneio. E, paralelamente, acelerar a desintegração do império soviético. Poucos meses depois, Mikhail Gorbachev foi eleito secretário-geral do Partido Comunista soviético, abrindo caminho à Perestroika, que culminaria como a desintegração do império ideológico.

O desmembrar soviético e a oportunidade perdida

A derrota da URSS foi um sério golpe diplomático. O país tinha colocado grandes expectativas em receber a mais celebrada competição do planeta, e a derrota contra os italianos deixava claro que a sua influência política já não era a de outros tempos. O efeito de congregação que os soviéticos esperavam conseguir funcionou no sentido inverso com a notícia da derrota da candidatura e alimentou ainda mais a dissidência interna das suas próprias repúblicas, bem como o progressivo afastamento dos seus Estados-satélites. No âmbito internacional, foi outro duro golpe depois da polêmica em torno dos Jogos Olímpicos de Moscou.

Ironicamente, se o torneio tivesse se realizado na URSS, o país teria contado com uma geração única, legítimos candidatos a ganhar o troféu. A seleção nacional soviética foi uma das melhores no México 86, apesar da inesperada e precoce eliminação frente aos belgas, e acabou vice-campeã europeia dois anos depois. Na Itália em 1990, a URSS não passou da primeira fase, terminando em último lugar num grupo com argentinos, romenos e camaroneses. Por essa altura, o império ideológico e territorial já estava se desfazendo. Seria a sua última aparição num torneio internacional. Organizar o Mundial de 1990 teria significado um sopro de ar fresco no decadente Bloco do Leste? É extremamente provável que um evento dessas proporções tivesse dinamizado os dirigentes e os cidadãos e criado uma sensação de unidade, ainda que tênue, que podia ter sustentado a tempestade de 1989 de outra forma. Ironicamente, foi precisamente essa derrota nas urnas da FIFA que abriu caminho para que o vento de mudança, que arrasou a Europa no final da década, encontrasse uma União Soviética já em estado terminal, sem aspirações e nem ambições por um mundo diferente.

A jogada política das grandes potências do bloco ocidental, alimentadas pela visão da FIFA, dirigida por João Havelange, impediram o velho sonho soviético de receber uma Copa do Mundo. Vinte e oito anos depois, a Rússia acertaria contas com a sua própria história, mas o que podia ter passado nesse verão de 1990 ficará para a história como um dos grandes enigmas sem resposta.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.